Histórias Cruzadas
17 Capítulo XVII
Notas iniciais
Charlotte percebera, após a leitura da carta, que Harry não tinha escolha, pois seu avô praticamente havia colocado sua vida nas mãos do rapaz. Fazia apenas alguns meses que o conhecera, mas tinha notado o quão generoso era o jovem. E neste caso, com toda a certeza, Harry não iria se opor em ajudar, mesmo que não a conhecesse.
Releu as duas cartas novamente e notou que seu avô tinha um grande apresso pelo rapaz, pois inclusive escreveu que o considerava como a um filho. Agora não lhe restavam mais dúvidas de que poderia depositar sua confiança nele, afinal, o que Harry ganharia com tudo isso se estivesse mentindo?
Guardou as cartas onde estavam e virou a folha que estava em branco encontrando escrito bem no meio da página:
Minha querida,
Como passa o tempo, já és uma mulher!
Comprei-te este livro, pensando neste momento... Este livro vai ser vosso companheiro de agora por diante! Existem certos momentos que precisaremos desabafar, mas nem sempre teremos alguém de confiança para confessarmos os nossos segredos e sentimentos.
Mamãe
Mas o que é isso? Pensou, quem é mamãe? Se sentia confusa! Mas, mesmo assim, virou a página e continuou a ler:
Memórias
1480/Março
Hoje completei 15 anos de idade, ganhei de presente este livro/diário, não sei ao certo o que és! Por isso chamá-lo-ei de Memórias. Este livro és um presente de minha querida e amada mãe. Ela foi levada por salteadores há onze anos. És muito triste! Não recordo-me muito bem, mas vi quando levaram-na. Estava no colo de meu irmão, ele corria comigo nos braços, nada poderíamos fazer... Na verdade ele não podia ver o que estava acontecendo atrás dele, mas eu sim. Nós entramos na floresta, ali estávamos a salvo! Pois ninguém teria coragem de entrar nela para procurar-nos, esta floresta é conhecida como Floresta Negra, muitos tem medo dela, pois existem boatos que é amaldiçoada e quem entra jamais saí.
— Que estranho! – disse em voz alta.
— O quê? – perguntou Harry, que havia acabado de chegar.
Charlotte sobressaltou-se, se assustando com a aparição repentina do rapaz.
— Ah! Desculpe, – disse. – não foi minha intenção te assustar. – o rapaz conversa normalmente como se nada tivesse acontecido, ele precisava agir dessa maneira, afinal tanto ele como Charlotte estavam no mesmo barco. E ainda por cima sem ao menos ter pedido para entrar, simplesmente foram forçados a embarcar por conta do destino, que resolveu uni-los nesta jornada.
Harry estava em pé do outro lado da fogueira, tinha nas mãos uma espécie de lança, na qual haviam três peixes espetados.
— Não foi nada! – o tranquilizou. – O que é isso? – perguntou curiosa.
— Isso, – ergueu a lança. – É uma lança improvisada. – sorriu. – Fiz com um canivete.
— Onde aprendeu a fazer?
— No clube de escoteiros. – entregou a lança para a garota. – Segura enquanto arrumo algumas coisas.
Harry cravou quatro gravetos, um em cada ponta da fogueira, os mais grossos que tinham as pontas em formato de forquilha virados para cima. E depois fez uma espécie de grelha com pequenos gravetos para que pudesse pôr os peixes em cima de modo que ficassem acima do fogo.
— Nossa! – exclamou. – Você sabe se virar enh!? – brincou.
O rapaz apenas riu, sentou-se ao seu lado e perguntou:
— Está lendo em que parte? – não conseguia esconder a curiosidade.
— Estou na segunda folha. – respondeu. – Mas não consigo entender nada.
— Hum... – colocou um graveto no fogo. – Este livro é uma espécie de diário, que um parente distante seu ganhou da mãe.
— Sério? – olhou-o curiosa. – Minha tata–tata–tata–tata–tata–tataravó?
— É quase isso. – riu da garota.
— Mas como pode isso? – indagou ainda mais confusa.
— Isso, você vai entender, – começou. – quando voltar a ler. – colocou mais alguns gravetos no fogo.
Assim que terminou de falar, levou um cutucão da garota, que o olhava divertida.
— Ei – disse sorridente, mas não teve resposta, Charlotte apenas mostrou-lhe a língua em um gesto infantil.
— Olha! – disse travesso, para então roubar-lhe um beijo e em um movimento rápido se levantar ficando há alguns metros de distância da garota.
— Harry! – ralhou, mas o rapaz apenas riu alto.
— Eu já volto. – saiu ainda rindo, Charlotte não pode deixar de sorrir enquanto balançava a cabeça negativamente, aquele rapaz literalmente estava mexendo com seus sentimentos, não conseguia ficar brava com ele e muito menos deixar de falar com o mesmo. Harry realmente é um garoto cativante, deve ter sido por isso que seu avô tinha muito apresso por ele. Piscou os olhos deixando os pensamentos de lado, para, logo passar algumas folhas retornando a leitura.
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