Histórias Cruzadas
32 Uma difícil decisão
— O que houve, Sarah? Aconteceu alguma coisa? Você está machucada? – Jean-Pierre pergunta, aflito, neguei com a cabeça. – O que aconteceu, afinal?
Não conseguia falar, há um nó na minha garganta, ele esperou, aconchegando-me nos seus braços, contra o seu peito.
— Eu terminei com Olivier – disse com a voz embargada pelo choro, com a cabeça apoiada no seu peito, ouvindo seu coração bater acelerado.
— Não pode ser tão grave assim, deve ser só uma briga – Ele tentou me consolar.
— Sim, é muito grave – rebati, com um fio de voz.
— Ele fez algo com você? Ele a machucou?
— Não – sacudi a cabeça para enfatizar. — Não, fisicamente.
— Ele ofendeu você?
Notei a raiva contida na sua voz.
— Não, quer dizer, sim.
Ele me afastou para olhar bem dentro dos meus olhos, notei sua expressão confusa.
— O que houve, Sarah? – Sua voz é firme.
— É que... Jean-Pierre, eu estou grávida – revelei em um gemido, o seu rosto, naquele momento, era uma máscara de surpresa e agonia.
— Você tem certeza? – Jean-Pierre não queria acreditar, nem eu, mas confirmei com a cabeça. – E contou a Olivier?
— Sim... Ele começou a gritar comigo, me acusando, que a culpa era toda minha e que estou sozinha nessa – Um soluço forte sacudiu todo o meu corpo.
— Aquele cretino, vou partir a cara dele! – Ele não conseguia conter a raiva.
— Não, por favor, Jean Pierre.
— Mas...
— Eu nunca mais quero vê-lo na minha vida, não, depois que ele falou para mim.
— E agora, o que vai fazer, Sarah?
— Eu não sei. Preciso contar para minha mãe, mas estou com muito medo da reação dela.
— Eu posso ir com você, falo que o bebê é meu.
— Oh, Jean-Pierre! Não precisa! – Fiquei emocionada, com aquela prova de carinho, passei a mão com delicadeza no rosto dele. – Nunca deixaria você fazer isso por mim. Eu vou dar um jeito.
— Quer que eu a leve para casa?
Aceitei a oferta de bom grato, sem forças para prosseguir sozinha, caminhamos juntos eu me apoiando nele, ele me envolvendo em seus braços, faz-me sentir um pouco melhor com o calor do seu corpo. Paramos na frente da minha casa, minha mãe ainda estava no trabalho. Terei tempo para pensar como falar.
— Quer que eu espere sua mãe com você? – Jean-Pierre perguntou.
— Não, obrigada. Eu preciso falar com ela sozinha, assim terei tempo para pensar.
— Você tem certeza?
— Sim – menti.
As horas de espera pela minha mãe foram angustiantes, não sabia como contar para ela. Minha alma destroçada ainda tinha uma tênue esperança de que Olivier ligasse ou aparecesse na minha casa, no entanto, não queria me iludir, eu vi nos seus olhos o desprezo que me feriu mortalmente, no meu coração, algo se quebrou em mil pedaços, nunca mais queria amar alguém e me entregar como eu o amei daquela maneira, como, amei Olivier.
Acendi um cigarro, depois do outro para me acalmar, porém não faz o efeito desejado, andando pela sala de um lado para o outro.
Ao ouvir a chave girar na fechadura, dei um pulo e fiquei em alerta, querendo acabar logo com isso, não aguentava mais aquela aflição.
— Oi, Sarah! Em casa a essa hora? Vou fazer o nosso jantar — Minha mãe entrou pela casa, com sacolas de compras na mão, sem nada perceber e não prestando atenção em mim. Eu a segui até a cozinha e parei na porta. – O que foi?! Aconteceu alguma coisa? – Assustou ao me ver, talvez, por minha expressão aflita e meu rosto inchado de chorar.
— Mãe, precisamos conversar – disse, ela me encarou, aflita, segurando o ar no peito.
— Você está grávida? – Adivinhou, confirmei com a cabeça, ela ficou pálida, suas pernas fraquejaram e desabou, sentando-se em uma cadeira. — Você tem certeza? – Ela tinha uma leve esperança, sacudi a cabeça de novo, afirmativamente. — Quem é o pai? Aquele garoto inglês? – Novamente, eu admiti. – Ele já sabe?
— Contei para ele... eu nunca mais quero vê-lo – Não conseguia mais segurar o choro, ela me abraçou, me acalentando.
— Agora, precisamos ser racionais, vou marcar uma consulta para darmos um jeito nisso o mais rápido possível. E esquecer que toda essa história aconteceu.
Ela falou em aborto, o que é permitido por aqui, não conseguia pensar direito, estava atordoada e não me sentia grávida ainda. Naquela noite, nenhuma das duas comeu ou dormiu.
No dia seguinte, não fui a escola, passei o dia inteiro, deitada na minha cama, não tinha cabeça para enfrentar o mundo e, muito menos, dar de cara com Olivier. À tarde, Jean-Pierre apareceu na minha casa, com a desculpa de me trazer as matérias do dia.
— Como você está? – ele perguntou, sentando-se no chão ao lado da minha cama, dou de ombros. – Eu falei para todos que você estava doente, uma virose, e ficará alguns dias sem aparecer.
— Obrigada – Queria lhe fazer a pergunta, mas não tinha coragem.
— Olivier também não foi a escola hoje – ele respondeu à pergunta não feita, não falei nada.
Naquela mesma noite, minha mãe me comunicou que marcou uma consulta, obrigatória nos casos como o meu, para conhecer o procedimento e se era isso mesmo que queria, depois, de alguns dias deveria dar a resposta final.
Os dias antes da consulta passam com em um pesadelo, que espero acordar a qualquer momento, e eu permaneço em estado de transe, no fundo do meu coração ainda desejo que Olivier apareça e fique ao meu lado, mas ele não dá as caras, preciso ser realista e pensar em mim.
Naquela manhã, depois de ficar por um longo tempo em uma sala de espera lotada, estava assustada, quando entrei no consultório ao lado da minha mãe. Uma enfermeira me examinou, falou um monte de coisas que não entendia, entre elas que devo estar com dez semanas de gestação, fiquei tonta, o mundo rodava a minha volta, fui amparada e deitada em uma maca.
— Isso é comum no seu estado – a enfermeira afirmou. – Na sua idade, a interrupção da gravidez é a melhor solução, você terá a vida inteira pela frente.
Voltei para casa, com minha mãe, em silêncio, estava muito triste, não queria conversar, fui direto para o meu quarto, sentei diante da minha escrivaninha e pensei em desenhar, para liberar um pouco do peso que me atormenta. No meio dos meus papéis, encontrei um desenho que fiz de Olivier, ali, ele estava sorrindo, segurei-o, por algum tempo, diante dos meus olhos, relembrando os momentos felizes que passamos juntos, contudo, só me vem à cabeça seus gritos e acusações, amassei o papel com raiva e o atirei no chão, cai na minha cama aos prantos. Chorei até adormecer.
Na manhã seguinte, acordei com a luz do sol batendo no meu rosto, meus olhos estão tão inchados que mal consigo abri-los, minha boca estava amarga, sentia-me enjoada com vontade de vomitar. Pulei da cama e corri para o banheiro, inclinei para o vaso sanitário, meu estômago se contraiu em espasmos violentos, mas há nada para sair dali. Depois, de algum tempo, lavei meu rosto e voltei para o meu quarto, no caminho chutei a bola de papel em que eu transformei o desenho de Olivier. Abaixei, peguei e desfiz a bola de papel, tentei desamassá-lo o melhor que pude, por fim, encarei o rosto distorcido que tanto amei, por um longo tempo.
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