Histórias Cruzadas

33 Um segredo mal guardado


Não quero fazer um aborto, seja por medo, por fé, por amor. Mas ter um filho é uma decisão muito séria, principalmente, quando se tem 16 anos. Eu sei muito bem, minha mãe não precisa me lembrar disso, quase à beira do desespero, quando comunico minha decisão a ela.

— E sua vida? E o seu futuro?

— Meu filho é meu futuro.

— Pelo menos, poderia dar o bebê em adoção para um bom casal de bem, assim ele teria uma família de verdade, um pai, uma mãe – ela pondera, tentando manter a calma.

— Mas, o bebê já tem uma mãe. Eu.

— Não decida nada agora, Sarah. Pense melhor no seu futuro, nos seus sonhos, no que você terá que abrir mão por ter um filho em uma idade tão precoce. Ainda mais sozinha.

— Eu pensei que tinha você.

— E tem, minha filha, mas a maior carga será sua.

Só faltavam dois meses para terminar o ano escolar, depois viriam as férias de verão, e ninguém percebeu a minha gravidez, ainda, mas, com certeza, no começo do próximo ano letivo, em setembro, minha barriga ficaria bem aparente. O bebê nasceria no começo do ano seguinte.

— Como assim, você vai ter o bebê?! – Jean-Pierre não disfarçou o seu espanto e desaprovação, quando lhe contei minha resolução. Ninguém, além dele e da minha mãe, sabia a respeito da minha gravidez, nem mesmo Mariane, pois não confiava na sua discrição. Pretendia manter em segredo até quando pudesse para evitar perguntas, explicações e recriminações. Não queria a piedade ou a reprovação por ter sido abandonada ou por querer ter o meu filho.

Nunca mais tocamos mais no nome de Olivier, como uma tentativa inútil de esquecê-lo, mesmo sabendo que uma parte dele está dentro de mim.

— Sim, eu vou ter o bebê – Dou de ombros.

— Por quê?!

— Porque eu quero.

— Por causa dele.

— Não, por minha causa.

— Você terá que abrir mão da Escola de Belas Artes – Essa é a parte que mais me doí, era o sonho de toda a minha vida, desde que peguei pela primeira vez o lápis e fiz um desenho.

— Só por algum tempo.

Ele abaixou a cabeça e refletiu, por alguns instantes.

— Eu ajudo você.

— Não, nada disso.- Balancei a cabeça em negação. — Você será um médico, como sempre quis.

Acendi um cigarro, Jean Pierre o puxou da minha boca, apagou e jogou no lixo.

— Se quer ter esse bebê tem que parar de fumar — o futuro médico diz diante da minha expressão de irritação. Ele estava certo, se tomei uma decisão tenho que fazer direito.

Na semana que se seguiu, fui a consulta médica para começar o pré-natal, a atendente me olhou de um certo jeito reprovador. Minha mãe me acompanhou, recebo a notícia que está tudo bem comigo. No entanto, quero saber o que houve de errado, pois estava usando a pílula anticoncepcional certinho, o médico me explicou que foi a infecção urinária e que uso do antibiótico que alterou o efeito do medicamento. Reclamei dos enjoos matinais, que atormentam a minha vida, ele falou que deverão cessar em breve. Fiz um exame de ultrassonografia para constatar que o bebê estava bem também, ouvi o seu coração pela primeira vez, sabia que deveria ficar emocionada, mas não senti nada, só a dúvida se estava fazendo a coisa certa. Estava com onze semanas.

Desde que saiu de casa, nunca mais vi meu pai, só falei com ele uma única vez, quando ele me ligou para me desejar feliz Natal. Devo confessar que sentia a falta da sua presença na minha vida. Não que fosse um excelente pai, mas era o meu pai, mesmo com suas ausências e omissões. Então, um dia, ele me telefonou, estranho, imaginei se ele sabia alguma coisa, mas como poderia?

— Sua mãe me contou. Ela ligou para o meu trabalho e pediu para falar comigo.

— Ela não devia.

— Você é minha filha. Deveria saber de tudo que se passa com você.

— Por quê?

— Eu sou seu pai e um pai deve cuidar da filha. Tinha que ir atrás desse garoto inglês e da família dele e exigir que assuma os seus erros. Posso conseguir o endereço dele com um amigo meu que é policial.

— Por favor, pai, eu não quero isso. Nunca mais eu quero vê-lo.

— Mas, e a criança?

— Eu cuido disso. Minha mãe vai me ajudar.

— Realmente, sou um péssimo pai, não sirvo para nada mesmo – Lamuriou-se, eu percebi seu choro contido. Deveria falar que sim, ele era um péssimo pai, abandonando a sua única filha assim, a mercês de garotos egoístas e inconsequentes, mas não disse nada.

— Eu tenho que desligar, pai. Até mais.

Com o passar das semanas, minhas roupas ficavam mais apertadas, minhas calças e saias não fechavam e minhas blusas ficavam esticadas porque meus seios cresceram, a ponto de precisar comprar algumas roupas novas. Todos fingiam não perceber, quem sabe, achavam que estava apenas engordando devido a tristeza pela partida de Olivier. Será que ninguém ainda não notou nada? Ou fofocam nas minhas costas? Só tive a certeza disso, quando Mariane me encurralou no banheiro feminino e me perguntou sem rodeio.

— Você está grávida, Sarah? — Eu pensei em negar, porém me calei e isso já bastava. – Meu Deus! Por que não falou nada antes?

— Eu não sei – Dou de ombros. – Acho que não queria ninguém olhando para mim ou me apontando, dizendo como sou otária ou algo parecido.

— Mas, eu sou sua amiga. Pelo menos, acho que sou.

— Você é, Mariane. Mas, não tive coragem.

— E Olivier sabe? – ela perguntou e eu balancei a cabeça, confirmando. – Foi por isso que ele foi embora. – Novamente, disse sim com a cabeça. — Safado! — Eu não entendo porque você quis ter esse bebê.

— Porque sim – Dou de ombros.

Eu não sabia o que responder a ela, porque eu mesma não sabia a resposta, talvez, esse filho fosse a única coisa que me restou de Olivier. Agora, sei que o meu segredo não durará por muito tempo, mas o que importa? Logo todos saberão.

As aulas terminaram antes que minha barriga despontasse, mas eu estava consciente que em breve não daria mais para disfarçar.