Histórias Cruzadas

27 Um péssimo hábito


O sinal tocou e todos nos levantamos apressados na expectativa de alguns minutos de liberdade, eu comecei a colocar meus pertences dentro da minha velha bolsa de lona marrom estilo carteiro.

— Oi – falei para Olivier ao meu lado, tentando parecer casual, mas não quero que ele se afaste e eu o perca de vista. – Você quer ficar conosco no intervalo?

Ele dá de ombros, com um ar indiferente, como não se importasse com nada.

— Tudo bem – ele pega sua mochila e saímos da sala para nos juntarmos a Jean-Pierre e Mariane, que esperavam no corredor.

— Oi – Mariane cumprimentou Olivier, toda animada.

Olivier lhe devolveu um leve aceno de cabeça.

Jean-Pierre também acenou com a cabeça, de um jeito meio desconfiado, notei que ele não gostou do nosso novo colega de turma.

Mariane começou a falar da escola e dos seus hábitos para o recém-chegado, que não parecia muito interessado, até chegarmos ao refeitório, pegamos nossos almoços e ocupamos uma das mesas, nesse dia, fomos o centro das atenções.

— O que você está fazendo aqui, Olivier? Não há boas escolas de línguas no seu país? – Jean-Pierre foi direto e seco.

Fiquei abismada com aquela pergunta grosseira, não reconhecendo o meu gentil amigo. Dou um olhar duro para ele que, no entanto, não se abalou, continuou a encarar firmemente seu interlocutor, que sustentou o olhar com igual segurança.

— Sim, há boas escolas no meu país, só que meus pais me queriam bem longe de lá – Olivier respondeu sem rodeios, fico imaginando qual seria o motivo disso.

A temperatura a nossa volta caiu quase a zero, felizmente, Mariane começou a falar sobre as atividades extracurriculares que Olivier teria que optar.

A semana passou e, mesmo sem entender o motivo, Olivier continuou a andar conosco, apesar de Jean Pierre não disfarçar seu descontentamento por isso, mas, o outro garoto não se incomodava.

Nessa época, preferia ficar mais tempo fora de casa ou me trancava no meu quarto desenhando horas e horas sem fim, ouvindo música em volume alto, para fugir das brigas e discussões constantes dos meus pais. Principalmente, as noites quando meu pai regressava para casa, cada vez mais tarde, ou então passava dias sem dar notícias, até que, uma noite, ele nunca mais voltou. Muitas vezes, eu me sentia muito sozinha e sufocada com aquela situação, não sabia com quem me abrir para conversar sobre o que estava acontecendo lá em casa e na minha vida, pois tinha certeza que Jean-Pierre ou Mariane nunca me compreenderiam, já ambos tinham famílias aparentemente sólidas e bem estruturadas.

Por estranho que pareça, foi com Olivier com quem eu me abri pela primeira vez, pois, mesmo me conhecendo há pouco tempo, ele percebeu que havia alguma coisa errada comigo, por causa do meu jeito um tanto distraído.

— O que está havendo com você, Sarah? – Olivier me perguntou na primeira oportunidade que ficamos sozinhos, na saída da sala de aula de arte, matéria que meus outros amigos não frequentavam, eu não entendia porque ele escolheu como curso extracurricular.

— Por quê?

— Você anda meio estranha, calada demais.

— Nada! – respondi, dando de ombros, com falsa displicência, ele me encarou com aqueles olhos azuis intensos e ergueu um dos cantos da boca com um sorriso cínico, demonstrando que não acreditou na minha mentira. – Eu estou falando sério! Não há nada de errado comigo!

— Se você está dizendo... – Seu tom era irônico.

Vi aí uma oportunidade para desabafar, dei um longo suspiro.

— Sabe... meus pais estão se separando, o clima lá em casa está um verdadeiro inferno.

— Talvez, seja melhor assim – ele declarou com uma voz soturna e eu o encarei, abismada.

— Como melhor assim?! Meus pais vão se separar! – disse, exasperada.

— Melhor do que viver em uma mentira, fingindo que está tudo bem, quando não está.

Pisquei duas vezes, sem entender o que quer dizer, esperei que continuasse, mas ele se calou. Sacudi a cabeça em negativa.

— Você é doido!

Ele sorriu.

— Vamos dar o fora daqui — ele sussurrou para mim.

— Ir embora?! Não podemos e as aulas da tarde? – Estou chocada com aquela proposta.

— Ninguém vai perceber, vamos para algum lugar.

Vacilei em dúvida por alguns segundos, mas, pensei em ficar trancada dentro de uma sala, assistindo uma aula chata, enquanto minha cabeça estava a mil.

— Como poderemos sair?

— Pelo portão dos fundos, ele fica destrancado a maior parte do dia e não tem ninguém por lá – ele explicou com um sorriso vitorioso.

— Como você sabe disso? – Fiquei surpresa, pois apesar de estudar naquela escola toda a minha vida, nunca soube disso.

— Sou um bom observador, vou lá quando quero fumar. Vem!

Andamos juntos pelos corredores com o ar mais inocente possível, saindo do prédio ganhamos a área de trás do colégio, onde ficavam as lixeiras, Olivier estava certo, não havia ninguém ali. Ele, simplesmente, abriu o portão e saímos apressado para a rua. Andamos ligeiros, junto ao muro, para não sermos notados, até chegarmos a rua principal e um sentimento de liberdade me invadiu, suspirei aliviada e sorriu.

— E agora, para onde vamos?

— Por aqui, mademoiselle – Ele segurou a minha mão e corremos pela rua, rindo, não evitando alguns esbarrões nos passantes, que nos olham abismados e aborrecidos.

Ele me levou a um parque, um pouco maior que uma praça, mesmo morando naquele lugar a vida inteira, nunca havia estado lá, por puro desinteresse.

— Aqui ficaremos em paz.

Olivier escolheu um banco e se empoleirou, sentando no encosto com os pés sobre o assento, não entendi o porquê, mas fiz a mesma coisa, sentei-me ao lado dele, abrindo a mochila, tirou lá de dentro um maço de cigarros e me ofereceu um. Eu não fumo, mesmo assim, aceitei, ele pegou outro e com isqueiro acendeu o meu e o dele, tragando fundo. Tentei disfarçar que não sei fumar direito, puxei a fumaça e me engasguei, tusso, ele me olhou pelos cantos dos olhos.

— Fumar é um péssimo hábito – disse, com um tom falsamente sério, em resposta, tento outra vez e dá certo.

— Por que você disse que é melhor que meus pais se separem do que viver na mentira? – perguntei de repente, ele me encarou de um jeito sério, notei uma sombra turvar sem olhar.

— Porque é assim que eu vivo, em uma mentira. Meus pais encena todos os dias um casamento, vivem separados dentro de casa e eu não passo de um ator coadjuvante nessa farsa. Por isso, eu estou aqui, cansei daquilo tudo.

— Não pode ser pior do que os gritos e as brigas no meio da noite. Os dois se acusando e se odiando e eu no meio disso tudo, sem saída.

— Mas, pelo menos, eles falam o que sentem e não mentem que está tudo bem.

— Eu não sei o que é pior – disse, colocando o cigarro na boca e dando mais uma tragada.