Histórias Cruzadas
43 O último fio de esperança
As mudanças começaram sutilmente, quase imperceptíveis, apenas um leve cansaço que atribui as tarefas diárias de cuidar de uma linda e esperta menininha de dois anos, de cachos dourados e olhos verdes como os do pai, já não era tão jovem como antes para lidar com aquela energia inesgotável, e ainda tinha o meu trabalho como escritora e ilustradora, que ocupava boa parte do meu tempo livre. Foi aí que a Francine encontrou nas nossas vidas, jovem, magra e pequena, sempre bem-disposta e sorridente, cuidava de Cecilia que a adorava, assim, permitindo-me mais alguma folga, apesar de me sentir um tanto culpada por deixar a minha filha em outras mãos. David entrara na adolescência, ficou alto e ainda um tanto desengonçado com seu novo corpo, percebi no seu olhar uma certa inquietação, que já havia vistos antes em outros olhos, anos atrás. Nunca mais se referiu ao pai biológico ou me perguntou sobre ele. Há muito, não acreditava mais na história que eu inventei do herói das galáxias, mas podia enxergar bem no fundo dos seus olhos, suas dúvidas e anseios, a pergunta nunca feita. Para mim, ficava a incerteza de qual seria o melhor momento para revelar a verdade, e se ela precisaria, ser exposta com toda sua crueza. O que adiantaria o garoto odiar o pai, cultivar dentro de si esse tipo de sentimento, que poderia corroê-lo?
Nessa época, Jean-Pierre trabalhava muito, pois, apesar da região ter poucos habitantes, havia muitos idosos, que gostavam da suas visitas rotineiras ao médico, que era sempre delicado e educado com seus pacientes, assim seu pequeno consultório vivia cheio.
E a vida seguia calma e tranquila, éramos simplesmente felizes, sem grandes sobressaltos. Várias noites, eu ficava acordada admirando o semblante tranquilo do meu marido adormecido, recordando do passado, da época distante em que jamais imaginaria que nossas histórias se convergiriam a esse ponto. Nós dois tão amigos na adolescência, dividindo a mesma cama e uma filha.
O inverno daquele ano foi especialmente frio e úmido, nessa época, comecei com uma tosse seca e constante, que achei que fosse consequência de uma gripe mal curada. Jean-Pierre ficou preocupado, porém, eu desdenhava, falando que ele estava exagerando, que bastaria o tempo esquentar para melhorar. No entanto, o inverno passou e a primavera chegou e a minha tosse ficou pior, Jean-Pierre brigava comigo quando acendia um cigarro e me passou um monte de exames que eu não fiz, alegando uma ou outra desculpa, acreditando que em breve ficaria bem. Só no momento que comecei a sentir dores nas costas que ficaram cada vez mais fortes com o passar do tempo, que resolvi procurar um médico e, para não preocupar todos lá em casa, fui me consultar em outra cidade. Inventei uma reunião com a minha editora para me afastar por algumas horas, sem levantar desconfianças.
No consultório daquele médico desconhecido e de ar sério, descrevi os meus sintomas, depois ele me examinou e me mandou fazer alguns exames. Sai dali um tanto atordoada pelo seu silêncio e seu ar de preocupação, pressentia que ele desconfiava de algo sério, por isso achei melhor falar toda a verdade para Jean-Pierre.
Foi em uma noite, depois do jantar, nossos filhos já haviam se deitado, que nos sentamos na sala ao lado a lado e enquanto assistíamos o noticiário, exatamente, no momento de uma reportagem sobre a feira de agronomia local, que eu contei para ele a respeito da minha visita a um médico e dos exames pedidos. Percebi no seu olhar toda a preocupação e desconfiança do que poderia estar acontecendo comigo, mas não queria pensar nisso naquela noite, mas foi impossível, pois passei por ela insone, sem notar que ao meu lado, meu marido também não conseguiu dormir.
Seguiu-se uma maratona de exames, a cada passo, percebia que o semblante de Jean-Pierre se tornava mais e mais sombrio, tinha a certeza que ele me escondia algo. Eu não aguentei mais a expectativa, então, esperei que chegasse em casa e, quando tive certeza que ninguém mais nos ouviria, pressionei-o, precisava saber a verdade.
— O que está acontecendo?
— Nada demais, precisamos esperar o resultado do exame de imagem, para saber ao certo – ele desconversou, no entanto, sua atitude passava algo diferente das suas palavras.
— Você está mentindo. Eu preciso saber, afinal, é a minha vida – Eu olhei bem nos olhos dele.
Ouviu-se o silêncio, enquanto ele me encarava, em seguida, soltou um sonoro suspiro e sua postura desabou, como se não suportasse mais o imenso peso que carregava sozinho.
— Você tem uma massa no pulmão, Sarah.
— É câncer? – indaguei, aflita.
— Não se tem certeza ainda, provavelmente, terá que fazer uma biópsia para sabermos.
Com essas palavras, o chão se abriu aos meus pés, perdi o prumo, minha vida estava em risco, pensei em meus filhos, ainda tão jovens, no meu marido e em mim mesma, tudo poderia chegar a um fim.
— Quando poderei fazer essa biópsia? – Eu precisava de uma confirmação.
— Posso falar com uns amigos e agilizar todos os preparativos.
— Certo, faça isso. Mas, por favor, não fale para mais ninguém, principalmente, para David, não quero que ele saiba de nada, enquanto não tivermos a certeza.
Jean-Pierre agiu rápido, porque, também tinha pressa, nossa vida estava em suspensão, a espera de uma resposta, assim, inventando uma comemoração qualquer como desculpa para passarmos dois dias fora de casa, deixando os nossos filhos com Francine, internei-me em hospital, a fim de realizar a biópsia. No tempo, que anestesiada, não sabia de nada que ocorria ao meu redor, Jean-Pierre presenciava todo o desenrolar do procedimento, apreensivo, até o fatídico diagnóstico do patologista presente na sala de cirurgia. Eu estava com câncer.
Ao despertar em um quarto do hospital, algum tempo depois, pude pressentir a verdade no semblante do meu marido.
— Então, como foi? – perguntei, ainda meio tonta, com a voz rouca, devido a minha garganta seca pela anestesia.
— Foi tudo bem. – Ele me deu um sorriso que não refletiu nos seus olhos.
— Você está mentindo.
— Precisamos esperar o parecer final da patologia.
— Não minta para mim, Jean-Pierre.
Ele me encarou por alguns momentos, sabendo que eu não desistiria de saber a verdade, que seria pior mentir para mim, concordou com a cabeça.
— O resultado deu positivo.
Aí se foi o último fio de esperança, que me agarrei com todas as minhas forças para não cair no poço profundo do medo.
— Terei que fazer uma cirurgia para tirar isso?
— Não dá para ser retirado, por causa do local que está. Uma cirurgia seria muito perigosa e pode ser ineficiente, assim como a radioterapia.
— Há outra maneira? Alguma solução? – Não podia crer que não haveria nenhuma solução que eu estava condenada à morte.
— Quimioterapia, para tentar diminui o tumor, na esperança de extraí-lo depois.
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