Histórias Cruzadas
34 Meu futuro teria que esperar
Diferente dos outros anos, em que eu aproveitei o máximo as férias de verão, nunca ficando dentro de casa, divertindo-me com os meus amigos nos parques e piscinas, esse ano foi bem diferente, pois mal saía de casa, com a desculpa da gravidez, mas, principalmente pela imensa tristeza que me consumia, podia até evitar em tocar no nome de Olivier, porém dentro de mim, uma enorme saudade me preenchia e crescia tal qual o nosso filho, podia bancar a forte, contudo, não me acostumava com a ideia de ele ter me deixado sem olhar para trás, nem se importar com o que iria acontecer comigo.
Minha mãe me arrastava para as consultas médicas, que demonstravam que estava tudo bem comigo e que o bebê se desenvolvia normalmente. E uma vez, ela me levou até uma assistente social para conversarmos sobre a possibilidade de dar meu filho para a adoção. A mulher me explicou que havia muitos casais bem consolidados, ansiosos para ter um filho, mas que não conseguiam, por isso resolviam adotar, mas precisavam superar em uma longa fila de espera, que o bebê seria bem tratado, amado e cresceria em um bom lar. Não podia negar que fiquei tentada com essa possibilidade, podia dar o bebê e seguir com a minha vida em frente sem o peso de tanta responsabilidade, no entanto, não sabia se conseguiria fazer isso e ser feliz, pensando sobre o destino do meu filho pelo resto da minha existência.
Durante esses meus reclusos meses de férias, algumas vezes, Mariane aparecia lá em casa para conversar, falava do que estava acontecendo no mundo lá fora e me contar que iria com a família passar alguns dias na Itália, tinha que confessar que fiquei morrendo de inveja. Porém, quem sempre aparecia lá em casa era Jean-Pierre, querendo saber como eu estava e me trazendo pequenos presentes, como um bloco de desenho ou lápis e revistas novas. De vez em quando, eu o pegava olhando de maneira estranha para a minha barriga, a cada dia maior e mais redonda, deixando-me com medo que ele transferisse o rancor que sentia por Olivier para o meu bebê.
— Jean-Pierre, o que está fazendo aqui, desperdiçando o seu tempo e esse lindo dia comigo? – Eu brincava. – Vá aproveitar o sol e o calor lá fora.
— Eu estou aproveitando o meu verão aqui com você – respondia, irredutível.
Tinha que confessar que gostava da sua companhia, não me sentia tão sozinha, como acontecia todas as noites que passava em claro, imaginando o que Olivier estaria fazendo e, se em algum momento, pensava em mim, já que para ele a vida não mudou, foi fácil só virar as costas e se esquecer do que passou. Então, atravessava as noites, passando para o papel toda a minha mágoa e tristeza, em desenhos sombrios e tristes.
— Eu acho que não vou voltar para a escola esse ano – Uma tarde, na minha sala, eu declarei minhas intenções para meu amigo, que me encarou assustado.
— Por quê?!
— Porque o bebê vai nascer no meio do ano letivo e não poderei estudar, já que minha mãe terá que trabalhar e não vai ter ninguém para cuidar do bebê.
— Mas você não pode fazer isso, abandonar a escola desse jeito? E seu futuro? – Jean-Pierre não entendia a gravidade da minha situação, não via que não tinha outra saída, que meu futuro teria que esperar por algum tempo, até que o bebê vá para escola.
— Só adiarei por algum tempo. Depois, farei um curso noturno – disse, dando de ombros, com fingida indiferença, ele não falou mais nada.
— Preciso ir – finalizou, em um estranho tom sombrio, e foi embora.
À noite, recebi um telefonema do meu pai, que me deixou espantada e confusa, quando ele comunicou que me dará dinheiro para que eu pague uma babá nas horas que estarei na escola.
— Por quê? Como você soube disso?
— Seu amigo, ele me procurou e me contou que você quer deixar a escola, por isso, resolvi ajudar você e ao bebê.
Jean-Pierre! Ele não devia ter feito isso, pedir ajuda logo para o meu pai, mas não estou em condições de recusar, por isso, aceito, pois quero continuar estudando, desejo muito ir para a Escola de Belas Artes. Mesmo assim, briguei com ele, afirmando que não deveria se meter assim na minha vida, ele me escutou calado e eu me arrependi do que disse quando percebi a tristeza nos seus olhos.
— Desculpe, sei que você só queria o melhor para mim, Jean-Pierre. Mas, eu não queria ajuda do meu pai.- Dou o braço a torcer.
— Foi a sua escolha, Sarah. Agora, você terá que aceitar a ajuda que vier. – Sei que ele está certo, que não poderia ser mais tão orgulhosa.
O verão terminou e as aulas começaram, já estávamos em setembro, felizmente, já não está tão quente, minha barriga estava enorme, não dava mais para esconder e eu nem tentei. Usava as roupas largas que minha mãe comprou para mim, andava mais devagar, meus pés estavam inchados e ia toda a hora ao banheiro. Percebi os olhares sobre mim, alguns curiosos, outros reprovadores, porém ninguém ficou indiferente diante de uma adolescente grávida.
A coordenadora me chamou para uma conversa, queria saber como estava, ela presumiu quem era o pai e o porquê do desaparecimento dele. Foi muito gentil, mas direta, disse que eu querer ficar com o bebê seria muita responsabilidade para alguém da minha idade, tentou me convencer em dá-lo em adoção e, outra vez, disse não.
Nos Estados Unidos, aconteceu o atentado contra as torres gêmeas, milhares de pessoas morreram, abalando o mundo, todos ficaram chocados, deprimidos e com medo, não havia mais limites para o mal, mas a minha vida continuava a mesma, em breve teria um bebê do garoto que amei e que me abandonou e nunca mais quis saber de mim.
Novamente chegou novembro, recordei que fazia exatamente um ano que conheci Olivier. Quando tempo durou? Exatamente seis meses, para minha vida se transformar completamente, como eu mudei e como teria sido mais fácil se não o tivesse conhecido, se madame Blanc pedisse para que ele dividisse o livro com outra pessoa. Talvez, eu ainda fosse uma garota feliz e sonhadora, a espera de um futuro brilhante e, quem sabe, um grande amor. Eu me peguei imaginando onde ele estaria naquele momento, se ainda pensava em mim ou desconfiava que teria o bebê, o nosso filho, supus que não.
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