Assim, a única coisa que poderíamos fazer era esperar as mais longas e angustiantes semanas das nossas vidas. Rezei com fervor todos os dias, fiz promessas, andávamos sobressaltados até que, finalmente, minha menstruação veio na data certa e respiramos aliviados.

Decidimos que não queríamos mais passar por isso de novo, Olivier tinha algum dinheiro e conseguiu as pílulas anticoncepcionais, achávamos que estaríamos mais protegidos assim, não teríamos que nos preocupar com possíveis acidentes, mas não esperava o que aconteceria a seguir.

Era quase primavera, começou a esquentar, já era mais agradável ficar ao ar livre, apesar de ainda estar meio frio, mas podíamos aproveitar o calor tímido do sol. Eu e Olivier estávamos sempre juntos e mais audaciosos nas nossas relações. Logo, ele viajaria para passar as férias de primavera em casa, por isso queríamos compensar o tempo que ficaríamos separados.

Mas, em uma manhã, acordei com uma dor no meu ventre intensa, vomitando e muita febre. Assustada, minha mãe me levou, imediatamente, a um pronto-socorro, fiz vários exames, até que uma enfermeira veio conversar conosco:

— É uma infecção urinária, comum em jovens que... – Imaginei o que ela iria falar, vai contar para a minha mãe que eu já transo, mas devo ter feito uma cara de pavor porque ela parou a frase no meio e me entregou uma receita de antibiótico.

E três dias depois que eu comecei a tomar o remédio sinto-me melhor, e, em uma semana, voltei as minhas atividades vespertinas com Olivier, ainda mais ávidos, por causa da nossa separação iminente, desejamos aproveitar cada segundo como se fosse o último.

Serão só algumas semanas, mas já estou morrendo de saudades dele. E quando meu namorado partiu de volta para a sua casa além-mar, Jean-Pierre se aproximou de mim. Não podia negar que mesmo tão envolvida com Olivier, sentia falta do meu amigo, pois estar com ele me deixa calma e segura. Ele e Mariane continuavam juntos, em um namoro casto, achava que mais pela companhia um do outro do que qualquer sentimento mais forte.

— Senti saudades – confessei, quando estamos sentados em um banco do parque aproveitando o tépido calor do sol.

— Eu também.

— Por que nós nos afastamos?

— Por causa de Olivier. Ele não gosta de mim.

— E nem você dele – Ela me dá um sorrisinho de confirmação. -- Bobagem! Olivier é um cara legal. Onde está Mariane, agora?

— Em casa.

— O namoro de vocês é estranho – afirmei, Jean Pierre olha para mim, surpreso.

— Por que você acha isso?

— Não sei. – Dou de ombros. — Só que vocês não parecem um casal.

— Não como você e Olivier.

— Você não tem vontade de beijar ou transar com Mariane?

Jean fica em silêncio e se reclina para o sol, não esperei por uma resposta, pois sei que não virá.

No mês de abril, minha menstruação não veio, meus peitos ficaram maiores e doloridos, acho que é efeito da pílula, não me preocupei de imediato, sentia-me segura, apenas esperei.

Duas semanas depois, Olivier voltou, mas minha menstruação não, comecei a ficar preocupada, mas não contei nada para ele, que reparou que meus seios estão maiores e que engordei, mas ele gostou.

Maio chegou, e eu não menstruei, estou confusa e alarmada, não sei o que fazer, não tenho coragem para contar para a minha mãe e muito mesmo para Olivier sobre as minhas suspeitas. Fui a uma farmácia e comprei um teste caseiro de gravidez. Em casa, sozinha, trancada no banheiro, esperei os mais longos minutos de toda a minha vida e quando a faixa azul apareceu quase cai para trás, não sabia o que fazer, fiquei desesperada e atordoada. Larguei tudo e sai correndo para falar com Olivier, afinal, estávamos nessa, juntos, e precisaria do seu apoio, já que minha mãe teria que saber fosse qual fosse a nossa decisão, pois eu era menor de idade.

Encontrei Olivier no seu quarto, ouvindo música, ainda me lembro bem, do som do Aerosmith, a todo volume, pois sonhei com aquela música por muitos anos. Parei, reunindo cada restinho da minha coragem para falar, com garganta arranhando, mãos trêmulas, ele ergueu os olhos para mim e se assustou com minha expressão.

— O que houve, Sarah? – Ele se levantou e andou na minha direção, segurou os meus braços. – Você está bem?

Minha boca estava seca, mas me forcei a falar.

— Eu fiz o teste... – Ele ergueu as sobrancelhas em uma expressão de pavor. – Estou grávida. – Ele me soltou e deu um passo para trás, afastando-se de mim, o que me deixou chocada, pois, eu esperava um abraço de consolo naquele momento.

— Como? – indagou, com um fio de voz.

— Eu não sei.

— Você não estava tomando as pílulas?

— Sim, eu estava tomando certinho, eu não entendo.

Olhei para ele, esperando alguma reação, percebi as gotas de suor se formando na sua testa pálida, seu rosto estava transtornado, uma máscara de ira.

— A culpa é sua! – Ele berrou como um desvairado, seu rosto está vermelho, seus olhos cheios de raiva. – Você foi descuidada, deixou isso acontecer! Eu confiei em você!

— Não, eu não sei o que aconteceu, eu fiz tudo certinho – falei, chorosa, não reconhecendo aquele cara que julgava ser o amor da minha vida.

— Você foi irresponsável! Eu não quero saber de nada! Está nessa sozinha!

Aquelas palavras duras foram como uma facada no meu coração, sinto uma dor intensa, quase física, mas me enchi de ódio daquele garoto egoísta, um sorriso cínico surgiu no meu rosto, fechei minhas mãos com força ao lado do meu corpo, gravando as unhas na pele, para me conter.

— Não se preocupe, Olivier. Eu cuido disso sozinha – Tentei parecer segura e firme, virei as costas e fui embora, o mais rápido que pude, sem olhar para trás, não queria olhá-lo novamente, contudo, ainda tinha uma pequena esperança que ele fosse atrás de mim e me pedisse perdão pelo que disse, ficando ao meu lado para enfrentarmos juntos.

Sai na rua, completamente arrasada, sem saber o que fazer uma dor intensa queimada o meu peito e as minhas lágrimas se misturavam com a chuva fina e fria que caía me molhando e embaçando minha visão, mas eu não me importava. Na verdade, não me importava com nada naquele momento, só queria desaparecer, morrer e acabar com todo aquele sofrimento. Atravessei a rua sem prestar atenção, um carro desviou de mim, bruscamente, e buzinou agudo, me assustei e dei um passo para trás, outro carro passou por mim e buzinou alto e estridente, estava zonza, não sabia para onde ir, quando percebi mãos fortes me segurando e me tirando dali para a segurança da calçada. Fiquei cheia de esperança, imaginando que poderia ser Olivier que tivesse me seguido, porém quando ergui a cabeça para olhar o seu rosto, vejo o de Jean-Pierre, com seus olhos verdes cheios de interrogações. Desiludida, aconcheguei-me no seu peito e chorei alto, soluçando, ele me envolveu e me abraçou com intensidade e carinho.