Histórias Cruzadas
50 Depois de tanto tempo
Aquele era o mesmo homem que havia socado a cara de Jean-Pierre no cemitério. E o que ele estava fazendo ali, falando um monte de bobagem, falando o nome da minha mãe com tanta intimidade, trazendo de volta a minha dor a minha tristeza? Que direito ele tinha de fazer isso? Ele não era nada meu, eu sequer o conhecia. Mas, ele era tão prepotente, querendo se meter na minha vida, me dando conselhos como se soubesse tudo de mim, eu poderia socar a cara dele, ali mesmo, rolaríamos no chão, talvez, isso diminuísse aquela raiva que me queimava por dentro. Logo ali adiante, vi a mesma mulher que estava com ele, no cemitério, e que nos olhava com uma cara engraçada, parecia assustada, lembrei da minha mãe, então, perdi a vontade de brigar, de bater naquele homem, só atirei, com toda a minha força, a garrafa no chão que se espatifou em mil pedaços, sob o protesto dos meus amigos, mas, não queria saber, só queria ir embora dali e ficar sozinho.
Caminhei noite a dentro, sem destino, mas não tinha mais escolha, precisava voltar para casa, foi quando eu o vi, parecia perdido e desorientado, meu vizinho, o senhor Louis Fraser usava uma boina na cabeça e um antigo casaco grosso e comprido, mas, por baixo podia ver a calça dos pijamas e o os chinelos de pano. Queria passar direto, ele não era problema meu.
— Garoto! Garoto! – ele me chamou, que fingi que não escutei, mas ele segurou o meu braço. – Estou perdido, sabe onde fica a estação?
— Fica para lá – Apontei a direção -, mas não tem trem a essa hora.
— Não?
— Não, volte para casa e tente amanhã.
— Você não entende, não tenho mais tempo!
— Tempo para quê? – Ele ainda segurava o meu braço e estava me irritando.
— Para achar a passagem, o buraco de minhoca, eu preciso encontrar o meu filho. – Ele tinha um olhar desvairado, devia estar caduco ou coisa parecida, não podia deixá-lo ali, largado no meio da rua.
— Venha, senhor Fraser, não há nada que possa fazer hoje, não tem mais nenhum trem – Seu olhar ficou ainda mais perdido e eu o puxei até a sua casa.
Toquei a campainha, Celine veio atender, assustada.
— Meu Deus! Louis, o que estava fazendo na rua a essa hora?
— Ele estava procurando a estação – expliquei e Celine olhou para o marido, desolada.
— Entrem, vou preparar um chá para nós.
Era uma boa desculpa para não voltar para casa. Nesse momento, meu telefone tocou, olhei para a tela, era Jean-Pierre, pensei em recusar, mas atendi.
— David, onde você está? – Ele estava aflito.
— Na casa dos vizinhos.
— O quê?
— Achei o senhor Fraser perdido na rua e o trouxe para casa, estou aqui, agora, na casa deles.
— Tudo bem, mas não demore – Ele parecia aliviado ao ouvir minha voz.
— Pode deixar.
Celine voltou com uma bandeja com xícaras de chá, entregou uma para mim, outra para o velho e a terceira colocou diante dela, começamos a beber em um silêncio incômodo.
— Eu disse que a mãe dele sabia sobre a existência dos buracos de minhocas – De repente, o velho começou a falar.
— Era só uma história para crianças – Celine ponderou, relembrando uma das histórias infantis da minha mãe, cujo herói viajava no tempo e espaço, utilizado essas passagens espaciais.
— Mas, eles são reais – Ele tira do bolso um monte de papéis e começa a sacudir no ar, bem na frente da minha cara.
— Eu sei que são, Louis – Celine falou com paciência, segurando e abaixando a mão dele.
— É André está lá, em outra dimensão, preciso descobrir uma porta para trazê-lo de volta para casa. Sabe, eu pesquise, um monte de gente some o tempo todo, elas foram tragadas para outro universo, estão em uma dimensão paralela a nossa, não estão perdidas para sempre, como pensam, só não sabem como voltar, para isso, precisamos achar um portal e resgatá-las.
Celine ficou calada, encarando o marido com tristeza, por alguns instantes.
— Acho melhor você ir se deitar, Louis – ela pediu, sem falar mais nada, o rosto do velho murchou, colocou a xícara sobre a mesa e se levantou, caminhando lentamente em direção à escada.
— Boa noite, rapaz – ele falou com a voz débil, antes de subir as escadas, bem devagar, Celine o acompanhou com os olhos até ele desaparecer e se virou para mim.
— Meu marido era um homem extraordinário, um físico brilhante, professor universitário, pesquisador, mas, depois que nosso filho André desapareceu, sem deixar nenhum sinal, ele ficou assim, aficionado em buscar uma explicação para o inexplicável. – Celine começou a contar e eu não estava nem um pouco interessado na história dela, do marido, muito menos, do filho desaparecido, só não queria voltar para casa, mas ela continuou a falar: — Nosso filho André havia acabado de entrar para a universidade quando desapareceu, misteriosamente, há alguns anos atrás. Ele saiu para uma viagem, antes do começo das aulas, e nunca mais voltou, nem deu notícias, simplesmente, sumiu. A polícia procurou por ele, por muito tempo, falaram que teria fugido, se envolvido com drogas, um monte de bobagens, porque não conheciam meu filho. Por fim, só nos restou um tênue fio de esperança, que vai ficando mais frágil com o passar dos anos. A fé é meu único alicerce, virou-se para o altar cheio de santos e fez o sinal da cruz.
Fiquei olhando para ela, sem falar nada, não sabia se sentia pena ou um pouco de inveja, pois ela ainda tinha alguma esperança, enquanto, eu não tinha nenhuma. Para mim, era bem concreto que minha mãe estava debaixo da terra e, em pouco tempo, os vermes e insetos acabariam com os restos dela, aquilo me embrulhou o estômago, senti vontade de vomitar e um ódio tão grande, que quis espatifar a xícara na minha mão contra a parede, no entanto, me segurei.
— Preciso ir agora – levantei, queria ir embora dali. Já bastava o que eu estava sofrendo, não precisava de saber o sofrimento dela, também.
— Desculpe, não deveria ter contado isso para você, ainda mais em um dia como de hoje. É uma carga muito grande para alguém tão jovem — Celine disse com calma.
— Preciso ir. Até mais. – Virei as costas e sai.
Bastava alguns passos para chegar ao outro lado da rua, na casa em que morava, onde fomos uma família, onde eu fui feliz.
Abri a porta sem cuidado, entrei na sala escura, mas, antes de subir para o meu quarto, notei Jean-Pierre sentado em uma poltrona, em silêncio, com os olhos fechados. Ele também estava sofrendo muito, porque amou minha mãe por toda a sua vida. Ele abriu os olhos ao perceber minha presença, não disse nada, esperou que eu falasse alguma coisa, aí, eu falei:
— Eu vi o homem que deu um soco em você no cemitério, ainda há pouco, na praça. Por que ele veio até aqui? – Eu olhei bem nos olhos dele e ele me encarou de volta, acho que estava pensando em na melhor resposta.
— Ele era a amigo da sua mãe.
Só isso? Não era a resposta que eu queria.
— Ele falou isso para mim.
— Ele falou com você? O que foi que disse?
— Falou, ele veio cheio de autoridade, me dando uma bronca, porque estava zoando com uns amigos na praça.
— Você estava bebendo, David? – Jean-Pierre perguntou com a voz firme, não respondi. – Você não devia beber depois de tudo que aconteceu.
Eu não queria mudar de assunto, ele ia começar aquele papo sobre bebida e o meu futuro, me encher a paciência.
— O que ele estava fazendo aqui, Jean-Pierre?
— Eu já disse a você. Ele era amigo da sua mãe.
— Por isso, ele socou a sua cara?
— Tivemos nossas desavenças no passado.
Eu não acreditei que era só isso, aquela história estava muito mal contada, devia ter alguma coisa que ele não queria me falar, como sempre, vinha aquela ideia. E se aquele cara fosse o meu pai? Mas, e daí? Ele nunca me quis, nos abandonou, quando ainda estava na barriga da minha mãe, teria vindo até aqui só por causa da culpa que sentia. Dane-se! Ele não tinha o direito de aparecer aqui e agora, depois de tanto tempo, depois que minha mãe morreu.
— Vou dormir – Eu me virei e fui para o meu quarto.
— Boa noite, filho – Ouvi Jean-Pierre falar para as minhas costas.
Fale com o autor