Histórias Cruzadas
23 A decisão
Os dias de verão se seguiram quentes e preguiçosos, com atividades diárias ao ar livre e, à noite, no salão, passávamos o tempo entre conversas e jogos de salão, a fim de nos divertimos, mas meu coração nunca encontrava paz. Aos poucos, a temperatura começou a ceder e os dias e, principalmente, as noites estavam mais frescas, predizendo a chegada iminente do outono, enquanto minha angústia pela decisão que precisava tomar me consumia. Todos momentos em que cruzava o olhar com o de Charles, via nos seus olhos a aflição da espera de uma resposta e a certeza que eu o amava muito. Contudo, tinha que confessar a minha covardia, não tinha coragem de enfrentar todos à nossa volta por esse amor tão repentino e inesperado. Durante várias noites, a conversa girava sobre os preparativos do meu casamento, os convites, a festa. Escutava tudo, alheia, sem me importar, respondendo às perguntas que me faziam por monossílabos, mas ninguém percebia, já que meu casamento era organizado, sem a minha intromissão, e junto a nós, Charles ouvia tudo, calado e com um ar sombrio.
— Então, já chegou a uma decisão? – ele sussurrava, pressionando-me, nos raros momentos, quando nos víamos sozinhos ou que conseguia chegar junto a mim. Eu o fitava condoída, sem saber o que dizer, pois se meu coração gritava por seu nome, minha prudência o fazia calar. Estava a ponto de enlouquecer de tão dividida entre a razão e o coração.
Nos bosques ao redor da casa, as primeiras folhas já amarelavam, o vento ficava mais intenso e frio, as leves roupas de verão já não eram suficientes para nos aquecer, necessitávamos nos agasalhar mais. Nosso retorno para a cidade aproximava-se, pois, o verão chegava ao fim e eu precisava dar uma resposta a Charles.
Na antevéspera do nosso regresso as nossas casas na cidade, mandei uma mensagem através de uma criada para Charles, pedindo para encontrar-me naquele nosso secreto recanto do jardim, ainda não estava segura da minha decisão, só sabia que o amava muito, que precisava de mais alguns minutos a sós junto a ele. Pediria um tempo para desmanchar o meu casamento com Harold, antes que assumíssemos algum compromisso publicamente.
À noite, no jardim, eu esperava por Charles, ao mesmo tempo, ansiosa e feliz, escondida pelas sombras da noite. Percebo que alguém se aproximar e virei-me, abrindo um sorriso, para recebê-lo, que se desfaz com a desilusão, pois, na minha frente, encontrava-se meu noivo Harold.
— Harold, você me assustou! – exclamei, com um fio de voz, arregalando os olhos e colocando as mãos no peito para acalmar meu coração aos pulos, tentando imaginar uma desculpa, rapidamente, caso Charles surgisse.
— Ele não virá – ele afirmou com a voz firme e o olhar duro sobre mim.
— O que você está falando, Harold? – indaguei, com dissimulada inocência.
— Seu amante Charles, ele não recebeu a sua mensagem, a pobre criada deixou escapar e eu a interceptei antes que chegasse as mãos dele – revelou, sem hesitar. Estava apavorada, mas, ao mesmo tempo, podia ser a oportunidade de acabar com tudo aquilo.
— Então, é o fim do nosso noivado? – Senti um certo alívio.
— Não, minha querida Mary. Nosso casamento ainda está de pé. Ele vai acontecer na data marcas e você se tornará minha esposa na próxima primavera – ele me deu um sorriso cínico, que me fez arrepiar.
— E se eu não quiser? – Desafiei-o, erguendo o queixo.
— Então, usarei os meus contatos e meu querido primo Charles se tornará um desertor, não podendo nunca mais voltar ao seu país, sob a ameaça de ser preso – Harold explicou, sem alterar o tom de voz plácida e segura.
Sei que ele falou a verdade, como podia ser influente nesses assuntos. No entanto, não notei nenhum vestígio de ciúmes ou raiva na sua expressão, parecia estranhamente calmo e determinado. Refleti por algum tempo, imaginando com Charles sofreria por ficar longe do seu amado vale e seus vinhedos e por nunca poder regressar a sua terra, não conseguiria admitir que ele se tornasse um criminoso por defender o que acreditava, eu o amava demais para deixar que isso acontecesse.
— Eu concordo, Harold. Nosso casamento ainda está pé, eu me tornarei sua esposa na primavera – respondi, resignada, senti meu coração apertado no peito, mas não tinha escolha, precisava salvar o homem que amava. – Por que você deseja se casar com uma mulher que não o ama?
— Não se trata de amor, minha cara Mary, mas de posição social. Preciso de uma esposa digna da carreira que pretendo construir no futuro – ele revelou de modo frio, fiquei chocada com suas palavras. – Já que estamos acertados, espero que com termine o mais rápido possível essa aventura amorosa com o meu primo. Pense que estou lhe fazendo um favor, minha querida, pois você não será o primeiro coração que Charles encheu de esperança e depois deixou estraçalhado para trás. – Inclinou a cabeça suavemente em saudação. – Boa noite, Mary – virou-se e abandonou-me ali, sozinha, mergulhada em um oceano de tristeza e escuridão, obrigada a dizer adeus ao meu grande amor. Precisava fazer isso, imediatamente, antes que me arrependesse.
Naquela mesma noite, esperei toda a casa adormecer, levantei-me, sai pelo corredor silencioso e escuro, parei diante da porta do quarto de Charles, hesitei por alguns segundos antes de bater. Não obtive resposta de imediato, insisti e, dessa vez, ouvi barulhos atrás da porta, que subitamente se abriu. Charles surgiu na minha frente, com a expressão de agradável surpresa ao me ver, usando calça de pijamas listrado e uma camiseta sem mangas, os cabelos despenteados, pensei que aquela era visão que gostaria de ter todos os dias de manhã, quando acordasse, pelo resto da minha vida, mas que seria impossível.
— Mary! – Exclamou, com um misto de espanto e prazer, saindo da frente para deixar-me entrar e fechando a porta nas minhas costas. Fiquei parada no meio do quarto, apertando com força o decote do meu roupão, como se quisesse me proteger — Então, chegou uma decisão? – perguntou, com um sorriso confiante, certo da minha resposta, abaixei os olhos, não podia olhar direto para ele.
— Sim, eu vou me casar com Harold – revelei com a voz mais firme que consigo, depois ergui os olhos e encarei seu rosto perplexo, ele abriu a boca, contudo, não emiti nenhum som. – Eu tenho que honrar o meu compromisso, não posso me aventurar desse jeito.
— Se é essa sua decisão. – Sua voz e fria e distante, sei que eu o magoei. – Mas, pelo menos, explique-me o porquê?
— Porque mal o conheço, e junto a Harold terei um futuro próspero e sólido – menti, mantendo minha voz empostada, a cabeça erguida e o ar altivo. Sinto Charles desabar diante de mim, eu o decepcionei, a dor no meu peito é quase física.
— Então, é adeus, Mary? – Charles quase que sussurra.
— Sim, é adeus, Charles – respondi no mesmo tom, andei até a porta e sai rapidamente, para que ele não visse as lágrimas descerem pela minha face. Entrei correndo no meu quarto e atirei-me na minha cama e chorei até o dia amanhecer
Não sai do quarto durante toda a manhã, com a desculpa que estava doente, com uma terrível enxaqueca e não queria ver ou falar ninguém. No meio da manhã, minha mãe veio me visitar, trazendo chá e torradas e insistindo que eu comesse algo, não tinha fome, mesmo assim forcei-me a engolir um pedaço de biscoito e um gole do chá.
— Você está péssima, Mary! É melhor ficar no quarto para que não a vejam assim – ela me aconselhou, em tom de reprimenda.
— Obrigada, mãe – Estava muito infeliz, não queria discutir.
Ela se senta na cadeira ao lado da cama na cadeira ao lado da minha cama, observando-me enquanto eu tentava comer uma torrada.
— O senhor Wells partiu hoje – disse em tom casual, engasguei, quase sufoco, tomei rapidamente um gole de chá.
— Quando? – Tentei disfarçar minha aflição ao saber que Charles foi embora, talvez, eu nunca mais o veja novamente.
— Hoje de manhã bem cedo, antes mesmo do dia raiar, disseram que tinham negócios urgentes a resolver. Mas, eu achei muito estranho. Aquele jovem é mesmo muito inadequado para o nosso meio – ela completou desdenhosa, não consigo comer mais nada, empurrei a bandeja para o lado.
— Mãe, minha dor de cabeça voltou. Por favor, pode me deixar um pouco sozinha agora.
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