História sem Tom
2 Capítulo 2: o fim de uma fase
Notas iniciais
— Nosso último dia de aula, hoje à noite teremos a formatura. Espero que todos estejam prontos para isso, tentem não parecer muito nervosos na hora, sempre tem um que tropeça quando sobe ao palco — disse Hanako usando um tom de brincadeira, o que não era de seu feitio, deixando todos os alunos surpresos —. Foi apenas uma brincadeira para descontrair, já que é nosso último dia juntos — respondeu ela novamente fazendo uma expressão séria, com a qual os alunos estavam mais acostumados.
— Sim, senhora — responderam todos os alunos em uníssono, o que abriu um sorriso de aprovação no rosto de Hanako. "Ela gosta mesmo de se sentir no comando, entendo agora por que escolheu ser professora", pensou Akira.
Após bater o sino dando o fim ao dia de aula, todos se levantaram de suas cadeiras e foram em direção aos amigos que fizeram naquele ano, com lágrimas nos rostos, tanto de felicidade quanto por saber que não teriam mais tanto tempo juntos. Ouvia-se por todo lado promessas de se verem sempre que possível, vindo de praticamente todos os grupos.
— Você não se importa de não podermos mais passar tanto tempo juntos? — perguntou Chie olhando fixamente para Akira, fazendo com que ele voltasse à realidade. Ao notar que ele não tinha escutado o que ela dissera, Chie franziu a testa, como sempre fazia quando sentia que não estavam lhe dando atenção.
— Desculpe, eu não ouvi direito o que você disse, poderia repetir? — disse Akira abrindo um sorriso simpático para ela, o que a fez corar no mesmo instante.
— Olha lá, um pimentão — disse Hiroki em tom de brincadeira, tentando esconder o ciúme que sentia, pelo fato de Chie nitidamente sentir algo por Akira, o que fez com que ela nunca tivesse tido olhos para o outro garoto.
— O que você disse, seu careca? — respondeu Chie, ficando mais vermelha ainda, enquanto partia para cima dele. Akira pensou “por que careca? Entre nós três ele é o que tem o cabelo maior”, mas essas palavras ficaram presas em sua boca, pois não queria corrigi-la e acabar sobrando para ele também.
— Vou sentir falta desse tempo que temos juntos, sabia? — disse Akira, enquanto sorria olhando aquela cena, o que fez Chie parar de correr atrás de Hiroki e sorrir também. Por mais que sentisse ciúme de Akira, Hiroki o considerava um grande amigo, e saber que não teriam mais tanto tempo juntos o fez cair aos prantos.
— Não chore Hiroki, você não é um homem? — disse Chie enquanto se sentia vingada pela brincadeira do pimentão, e os três riram juntos novamente. Akira pensou, “gostaria de ir estudar junto com eles na universidade, pena que não será possível isso”.
Os três foram embora juntos para casa, mas antes decidiram passar no karaokê para comemorar seu último dia juntos como colegiais, só não poderiam ficar muito tempo, pois tinham que se preparar para a formatura que aconteceria à noite. Não que fosse uma grande celebração, nada disso; eles moravam numa pequena cidade rural, onde todo mundo se conhecia, não havia universidades e nem muitos lugares aonde estudantes podiam ir para se divertir. Na verdade, Akira já considerava estranho que tivesse um karaokê naquela cidade, mas nunca tocou no assunto por ninguém ter parado para pensar nisso.
Na noite da formatura tudo deu certo e, como Hanako havia dito, realmente teve uma pessoa que tropeçou enquanto subia no palco: ela mesma.
***
Um mês depois, Akira arrumava suas malas e se preparava para fazer sua mudança para uma cidade nova onde ele cursaria a universidade. Fazia as malas com a ajuda de sua irmã, que mais atrapalhou do que realmente ajudou, algo que ele já esperava que acontecesse. Depois, Akira colocou todas as malas no carro do seu pai, que lhe daria uma carona até a estação de trem.
— Se cuide e não esqueça de se alimentar direito, meu filho — disse sua mãe enquanto limpava seus olhos com um lenço na entrada de casa. Akira olhou para ela e disse:
— Não se preocupe, a senhora sabe que diferentemente da Onee-san eu não vou precisar que a senhora vá até lá para arrumar as coisas para mim — disse Akira virando-se abruptamente em direção a Hanako, que o olhava sorrindo timidamente.
— Em minha defesa, quero dizer que eu fui pega de surpresa quando as roupas não apareciam limpas na minha gaveta. Eu achava que as coisas se arrumavam sozinhas — disse Hanako com um tom descontraído, como se realmente se orgulhasse disso.
— Sua irmã sempre foi um caso perdido, não sei como ela vai arranjar um marido, já que não tem talento nenhum para nada além de beber e fazer bagunça pela casa — disse a mãe de Akira enquanto colocava a mão no rosto tentando esconder a decepção que sentia.
— Mãe, não fale assim de mim, não é necessário ser uma boa dona de casa para se casar hoje em dia — disse Hanako sorrindo —, fora que não tenho certeza se realmente quero me casar nesse momento.
— Está tudo pronto aqui, vamos logo, senão você vai perder o trem, filho — disse o pai com seu rosto sério, mas que de certo modo passava uma calma e gentileza.
— Estou indo — disse Akira enquanto abraçava sua mãe e sua irmã pela última vez, por um bom tempo.
Akira entrou no carro e foi em silêncio até a estação de trem, algo normal, pois seu pai era um homem de poucas palavras, o que todos já haviam entendido e aceitado totalmente. Chegando à estação, Akira por pouco não perdeu o trem. A bordo dele, ele olhava pela janela a paisagem que ia correndo à medida que o trem seguia seu rumo. Akira dava adeus àquela paisagem que ele havia visto desde que nasceu.
Fim do segundo capítulo.
Fale com o autor