His Name Is King

1 01- Antes, no Mississipi


Notas iniciais
Velho oeste, Oeste selvagem ou faroeste (em inglês: old west, wild west ou far west), são os termos com que se denomina popularmente o período e episódios históricos que tiveram lugar no século XIX (principalmente entre os anos de 1860 a 1890) durante a expansão da fronteira dos Estados Unidos para a costa do Oceano Pacífico. Embora a colonização do território tenha começado no século XVI com a chegada dos europeus, o objetivo de alcançar a costa oeste deveu-se principalmente à iniciativa governamental do presidente Thomas Jefferson, depois da Compra da Luisiana em 1803. A expansão da fronteira foi considerada como uma oportunidade de riqueza e progresso.
Esta incessante e prolongada migração de pessoas para o oeste deslocou culturas ancestrais e oprimiu minorias étnicas de ameríndios. Em contraste, o período suscitou importantes avanços na indústria, comunicações e agricultura, à custa em vários casos de uma intensa exploração dos recursos humanos e naturais.
Estes eventos históricos, origem de um mito nacional nos Estados Unidos, têm sido recriados por diversas manifestações de arte. No cinema, o género designa-se western e narra historias de cowboys, pioneiros, ameríndios, garimpeiros, empresários, etc. Histórias de pessoas de variadas condições que empreenderam a aventura do oeste com a esperança de alcançar o êxito pessoal mas que acabaram muitas vezes confrontados com a justiça ou com a fatalidade do destino. Os estudos atuais consideram que por trás desta mistificação esconde-se uma realidade complexa e que há a tendência de reconsiderar o papel de todos os atores que participaram naquela conjuntura social, econômica e cultural que foi a fronteira dos EUA no século XIX.

Mississipi Antes:

Uma fazenda banhada pelo sol escaldante da tarde. Um homem lavra a terra, afofando-a. Por um instante ele para e limpa o suor de seu rosto. Na porta da casa a esposa do Homem o olha trabalhar, um menino loiro está na porta com a mulher, que é sua mãe.

Escutando o som de cascos de cavalo o homem fica atento à porteira do terreno. Um grupo de homens chega até a porteira da pequena fazenda. O Homem vai atendê-los. A mulher entra na casa com o menino, seu olhar é de medo. Na porteira:

–Jimmy, prazer em revê-lo. Diz o chefe dos homens

–Franz. Cumprimenta Jimmy

–O nosso chefe mandou avisar que o dia do pagamento chegou. Avisa Franz

–Terei todo o dinheiro em breve. Responde Jimmy

–O chefe lhe deu o último prazo no mês passado. O que fez nesse mês, Jimmy? Pergunta Franz com certa ironia

–Mas, senhor, eu não tenho o dinheiro, mas posso conseguir, me dê tempo. Pede Jimmy

–Teve um mês para conseguir o dinheiro, Jimmy, suas desculpas não enganam ninguém. O tempo acabou. Diz Franz

A mulher está olhando pela janela, ela coloca o menino loiro num armário próximo a porta da cozinha.

–Não faça nenhum ruído. Diz ela

–Mas, mamãe...

–Nem um ruído sequer. Consolida ela

–Tá bom, mãe. Diz o menino sem opção

A mulher pega uma espingarda e a carrega. De volta à porteira:

–Por favor, Senhor. Implora Jimmy

–Já está devendo há um ano. Reafirma Franz

Sem responder, Franz tira sua pistola e atira friamente na cabeça de Jimmy, que cai sem vida no chão. Vendo tudo pela janela, a impulsiva mulher empunha a espingarda.

–Filho Fuja! Ordena ela

O menino sai do móvel.

–Mas, mãe.

–Faça o que estou mandando! Ordena ela

O menino corre pela porta da cozinha, a mulher olha a fuga de seu filho com um triste olhar. Com a espingarda ela sai para vingar seu marido.

–Cretinos! Grita ela

Antes que ela mire, Franz atira no braço da mulher, que derruba a arma com o choque.

-Homens, trabalharam muito bem, agora vão se divertir. Diz Franz

Escutando isso, os capangas descem de seus cavalos e correm até a mulher caída, são homens asquerosos, sujos e com barbas mal feitas. Alguns deles possuem poucos dentes na boca. Chegando lá, começam a rasgar as roupas da mulher.

–Não, Não! Grita ela com uma imensa fúria

–Agora você vai sentir um macho de verdade! Diz um deles

A mulher furiosa abocanha a orelha de um dos capangas. Com a fúria do momento ela arranca um pedaço da orelha do asqueroso homem.

–SUA PUTA! Grita o capanga ao pegar no ferimento e ver o estrago causado

O capanga ferido tapeia a cara da mulher, e os outros começam a rasgar as roupas dela com mais fúria. Franz em seu cavalo vê tudo e pode escutar os gritos de desespero da mulher e o grito resultante do prazer ilícito de seus homens. Os capangas voltam minutos depois.

–Se divertiram? Perguntam Franz

–A puta é resistente, aguentou todos nós. Diz um dos homens

–É, mas o Blue Barry perdeu um pedaço da orelha. Diz um deles, fazendo com que todos rissem

Metros dali, a mulher tenta levantar, ferida e com as pernas bambas e fracas. Ela cai nas três tentativas. Ela vê seu marido morto e começa a chorar. Ela pega a espingarda.

–Desculpe filho. Diz ela

A mulher coloca a espingarda abaixo do queixo, fecha os olhos e atira. O corpo da mulher cai, a areia, antes amarelada, agora está vermelha.

Enquanto isso, o garoto loiro corre na mata seca, corre até se cansar. Ele continua correndo, mesmo exausto. Até que acaba tropeçando e cai de uma pequena elevação. Coincidentemente o garoto cai no meio de um acampamento de ladrões de diligências. Escutando o barulho da queda e vendo a poeira causada pelo impacto, um dos homens saca a pistola, mas vê que é apenas um garoto.

–Billy Jack, abaixe essa arma, é só um garoto. Diz O Chefe

–Eu estou sempre pronto. Diz Billy

–O que esse moleque está fazendo aqui? Pergunta O Chefe

–Sei lá, Chefe, é melhor mandarmos ele embora. Diz o outro ladrão

–Você é louco, Bronco? Mandar um garoto para o deserto? Somos ladrões, não assassinos. Diz O Chefe

O garoto machucado levanta, com seu terninho e calça social sujos de areia, é um garoto bem vestido.

–Qual seu nome? Pergunta O Chefe

–John King Marley. Diz o garoto

–Eu sou O Chefe, esse é Bronco e esse aqui é o Billy Jack. Diz O Chefe

O grupo parece desajeitado, não parecem ser maus, mesmo sendo ladrões. O Chefe é um homem barbudo e parece ser um homem calmo, Bronco é um caipira magro e calvo e Billy Jack é um ex- escravos alforriados e sempre prontos para atirar, mais pela paranoia de ser um negro alforriado no Mississipi do que por ser um ladrão.

O Chefe pergunta ao garoto:

–O que faz aqui? Onde estão sua mãe e seu pai? Pergunta O Chefe

–Um homem matou meu pai, mas acho que a mamãe tá viva. Diz o garoto com o olhar triste, mas com um tom de voz conformado

-Podemos ver, me diga onde fica a casa. Diz O Chefe

–Vocês são ladrões, não vou dizer onde fica minha casa. Diz o pequeno King

–Moleque esperto. Observa Bronco

–Olha, filho, nós somos ladrões de diligências e não de fazendas. Sem falar que somos tão ruins que nem sequer estamos nos cartazes de procurados. Diz O Chefe

O Garoto não responde.

–Olha, podemos ver se sua mãe está viva e te deixar com ela. Diz O Chefe

O pequeno John King se deixa levar pela sinceridade do Chefe.

–É perto, basta ir adiante além dessa elevação. Diz o garoto mostrando sua inteligência

–Bronco e Billy, vão até lá. Ordena O Chefe

Bronco e Billy montam seus cavalos e vão até lá.

–Espero que seus pais estejam bem, garoto. Diz O Chefe

King se senta numa pedra.

–Moleque você se veste feito rico. Observa O Chefe

–Minha mãe dizia que um homem deve se vestir de acordo. Responde King

–Continue assim e vai ser um conquistador quando estiver mais velho. Diz O Chefe

–Pois é. Diz King

–Garoto, vou te chamar apenas de King, seu bom gosto me comoveu. Diz O Chefe tentando acalmar o garoto

–Você é meio esquisito. Observa o garoto

–Perdão, sou de Nova York, me disseram que no Oeste eu encontraria ouro, só encontrei poeira. Relata O Chefe

O garoto não responde, O Chefe olha para o outro lado.

–Quantos anos você tem? Pergunta O Chefe

–12. Responde o garoto

–Nasceu aqui?

–Eu perdi meu pai, dá pra fazer silêncio? Pede King

–Tá bem. Diz O Chefe

Bronco e Billy chegam.

–Chefe. Chama Bronco

Bronco e Billy descem dos cavalos e O Chefe vai até eles.

–Onde está a mãe do garoto? Pergunta O Chefe

–A encontramos sem roupas e com a cabeça estourada. Um Homem que acredito ser o pai dele estava com um buraco de bala na cabeça. Relata Bronco

–Meu Deus. Lamenta O Chefe

–O que vai fazer com o garoto? Pergunta Billy

–Não sei. Diz O Chefe

–O que aconteceu? Pergunta o garoto

–Bem...

–Seus pais morreram! Exclama Billy antes que O Chefe termine a frase

Notas finais
A fronteira é um conceito que, na história dos Estados Unidos, faz alusão ao avanço para o oeste e à procura de oportunidades dentro de um território desconhecido. Nas palavras de um autor moderno:
A fronteira é aquele lugar onde a civilização pode avançar à custa do selvagem. É uma delgada linha geográfica onde o velho e o novo, o conhecido e o desconhecido se encontram e se colocam limites.

Em princípios do século XIX, o Oeste era considerado um território selvagem e inóspito, com escassas possibilidades de ser habitado. Para esta opinião não influía o facto de que os povos ameríndios estavam há vários milénios a viver lá. O avanço do Leste civilizado sobre o Oeste selvagem foi o encontro e choque entre dois mundos mutuamente exclusivos. A apropriação de territórios e o deslocamento dos nativos justificou-se com a doutrina do "destino manifesto", uma ideologia que afirmava que todos estes acontecimentos eram parte de um plano divino previsto para a América do Norte e para o mundo. Em 1825, um político de Missouri chamado Thomas Hart Benton defendeu a colonização alegando que o seu propósito era levar a todos os povos «grandes e maravilhosos benefícios através da ciência, dos princípios liberais de governo e da verdadeira religião. Em 1893, uma vez passado o período de expansão, Frederick Jackson Turner apresentou a sua tese «Significado da fronteira na história dos Estados Unidos», mais conhecida como Tese da Fronteira (Frontier Thesis) ou Tese de Turner (Turner Thesis). Nela destacou a mestiçagem de raças, o logro da solidariedade entre as distintas regiões, a acção do governo ao impulsionar as comunicações e a criação de uma personalidade nacional. O mais importante, no entanto, foi:
a promoção da democracia aqui e na Europa () o individualismo desde o começo tem promovido a democracia () significa o triunfo da fronteira.

Com o tempo, a fronteira converteu-se num mito nos Estados Unidos. Tudo o que aconteceu no oeste bom ou mau serviu para forjar a personalidade do país através de valores como a procura de oportunidades, a aplicação de soluções práticas, a atitude enérgica perante as dificuldades, a capacidade de inovação e o esforço orientado para o progresso. Em definitivo:
Temos Mochilas, Camisetas e Bermudas do Bufallo Bill!
um escape e um lugar de esperança para aqueles dispostos e capazes de tomar o futuro nas suas próprias mãos.