Hiroin No Shinyuu (Heroine's Best Friend)
2 Capítulo 2 - Amigos que brigam.
Notas iniciais
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ATENÇÃO: TODAS AS ILUSTRAÇÕES DOS PERSONAGENS ESTÃO NESTE ARQUIVO. PARA AQUELES QUE QUEREM VER, E NÃO APENAS IMAGINAR, SUGIRO QUE CLIQUEM NO LINK ACIMA E VEJAM OS RASCUNHOS DOS PERSONAGENS.
“Kakeru-kun...”, após a chegada do rapaz, uma das jovens – Sunohara-san – foi a primeira a abrir a boca.
Não demorou muito para iniciarem-se as acusações.
“Kakeru-chan, não sei com que tipo de garotas tem feito amizade nesse novo colégio, mas, à minha vista, são pessoas extremamente desagradáveis!”, a outra jovem se pronunciou, furiosa, e apontou para Emiko. “Essa garota chamou uma das amiguinhas dela pra nos atacar! Ela jogou suco na gente! Vai demorar um ano para tirar isso do meu cabelo!”
“E nem havíamos feito nada... Isso foi extremamente cruel... Você não merecem amigos assim, Kakeru-kun! Eu tenho pena de você!”, Koizumi se pronunciou, auxiliando na mentira.
Kakeru olhou sério para elas, depois franziu a testa para Emiko, que tremia e parecia tentar decidir aonde se esconder. Já Mami parecia não se sentir nem um pouco arrependida do que fez. Se ele perguntasse se era tudo verdade, ao menos a sua parte ela garantiria que era.
Por fim, o garoto tomou uma decisão e, voltando-se para as antigas colegas, inclinou-se em posição ojigi e olhou fixamente para o chão.
“Por favor, nos desculpe. Isso não vai mais acontecer”
Uma delas recuou, de testa franzida, envergonhada por Kakeru ter de fazer aquele tipo de coisa constrangedora na frente de tantas pessoas.
“N-Não precisa se desculpar, Kakeru-kun... Não é culpa sua...!”
Nesse momento, Emiko correu até o lado dele e se pôs na mesma posição.
“Me desculpe também, Sunohara-san, Koizumi-san!”, disse, em tom alto.
As duas mudaram totalmente suas expressões, tornando-se rapidamente esnobes, como antes, ao ficarem sozinhas com Emiko.
“Tudo bem, Kudou-san. Por hoje, vamos apenas nos retirar. Mas espero que não faça mais essas coisas, porque vocês são as únicas a pagar o papelão”, levou seu olhar a Kakeru, alterando novamente sua expressão. “Não é necessária tamanha formalidade, Kakeru-chan. Espero que você fique bem, vamos sair juntos qualquer dia desses, certo?”
“Até mais, Kakeru-kun. Foi ótimo te reencontrar!”
As duas passaram olhando torto para Mami, que não tirou os olhos do mesmo ponto fixo.
Após a retirada das duas, tudo voltou ao normal, e as pessoas voltaram aos seus afazeres. Kakeru também tornou à sua posição ereta, junto à Emiko.
“Emiko...”, Mami tentou se aproximar, mas a amiga só pôde manter sua expressão de frustração no rosto, e apressou-se, saindo da lanchonete. Kakeru ficou entre perguntar à Mami o que houve ou ou sair, mas Emiko parecia um assunto mais delicado no momento, por isso correu atrás dela.
Aki se aproximou da amiga que acompanhava, e segurou seu braço levemente.
“Mami-chan, os funcionários estão pedindo para nos retirarmos, também. Vamos...”
Mas o sentimento de raiva misturado com o de tristeza não pôde abandonar a garota até o dia seguinte.
✶
Mami brincava com a sua borracha, sentada em seu lugar na sala. Estava na hora do almoço, mas não fazia a menor questão de comer. Estava sem apetite.
Os acontecimentos do dia anterior a deixaram realmente mexida, mas ela chegara à conclusão que não estava errada. Apenas protegera a amiga e, apesar de ter fingido que era forte, ela sabia que Emiko pedia ajuda para alguém mentalmente no momento em que a importunavam.
Ela sempre chorava quando a incomodavam no primário, e sua melhor amiga era a primeira a protegê-la ou revidar com quem quer que estivesse a intimidando.
Era sempre assim, então por que agira de forma tão inesperada daquela vez...?
“Maaaamiiiiiiii, faça as pazes com a Emi-chaaan...”, Aki agachou-se à beira da mesa de sua amiga e se debruçou, aparentemente exausta. “Estou cansada de ficar revesando entre as duas mesas... vocês não ficam bem separadas, é como yin e yang.”
“Não. Eu não fiz nada de errado e, se eu for fazer as pazes com ela, vou ter de pedir desculpas. Nem sei como ela te perdoou, você também estava lá”
Aki se levantou e sentou-se na cadeira da frente, prevendo uma longa conversa.
“É porque eu apenas me desculpei com ela. Eu não tinha mentiras pra me cobrir de qualquer forma”
“Você é uma cara de pau!”
“E você também! Como conseguiu bater naquelas garotas e não pedir desculpas mesmo diante à humilhação do Kakeru e da Emi-chan? Seu demônio”, encheu as bochechas.
“Humilhação é se curvar pra quem não merece. Eu protegi uma amiga, qual é o problema nisso?”
“Bem, pra mim, nenhum, mas a Emi-chan não gostou e, acho que em consideração a ela, você devia pelo menos ter agido como uma tsundere e falado: “... Não é como se eu quisesse me desculpar, mas vejo que não há escolha, então... foi mal””, forçou a voz para recitar a frase, mas tão logo voltou ao seu tom normal. “Tiiiiiipo assim!”
“Tsunderes falam isso quando realmente sentem muito, mas tem vergonha de falar, não é?”
“Mami-chan, você é uma otaku!”
“Não me ofenda, por favor”
De repente uma breve melodia tocou, e Aki logo reconheceu sua fonte, mesmo sem a ver.
“Você recebeu uma mensagem, Mami”
“Eu sei”, Mami permaneceu parada, aparentemente preocupada demais com outros assuntos para dar bola para a mensagem que acabara de receber.
“Você não vai ler?”
“Eu nunca leio minhas mensagens. Geralmente só vejo o título”
“Que maldade! E eu sempre te mando mensagens!”
“Suas mensagens são todas iguais, então nem ao menos me dou o trabalho de abri-las”
“Espera! Estamos mudando o assunto! Então você não vai falar com a Emi-chan?”
“Nesse momento você possui poderes psíquicos e pode ler a minha mente”
“É mesmo... Por isso posso sentir que a resposta é... “sim”!”
“Seus poderes estão falhos. Ela falará comigo, ou permaneceremos brigadas pra sempre”
Aki suspirou por um momento, mas sua decepção não durou muito assim que se lembrou de algo.
“Ah! Eu esqueci de falar! Parece que o Kakeru quer falar com você. Mas eu acho que ele está com um pouco de medo, porque você é brava”
“Eu não sou brava. Eu estou brava. Ele que supere seu medo, então. E creio que não tenhamos nada a discutir”
Sorrateiramente Aki se aproximou do ouvido da amiga, e manteve sua voz baixa.
“Parece que ele ficou mais próximo da Emi-chan depois de ontem. Temo que não tenha acreditado naquelas garotas, e, segundo a Emi-chan, ele até a levou pra casa...”, então se desaproximou do ouvido da amiga, e voltou à sua posição anterior. “Mas ela não quis me contar detalhes...”
“Que bom, pra ela”, Mami começou a guardar seus materiais no estojo, dando de ombros para as informações transmitidas.
“Eu estava pensando que... talvez... se vocês fizessem as pazes, ela te contasse o que não me contou e aí... você me repassasse, porque eu estou suuuuuper curiosa!”
“Então fique curiosa, sua fofoqueira”, Mami levantou-se, olhando por baixo para a amiga. “Se quer que voltemos a ser amigas, não force! Espere as coisas se reajustarem primeiro, eu já dei minha palavra de que não irei me desculpar!”
Decidida em suas palavras, Mami se retirou, a fim de comprar um refresco para acalmar-se.
✶
Mami trocava seus sapatos para ir embora*, um pouco decepcionada por Emiko não vir falar com ela, mesmo após as ditas repetidas insistências de Aki. Ela provavelmente não ligava em não poder falar mais com a amiga.
Não... Emiko não fazia aquele tipo. Estava, mesmo, apenas com medo de levar esporro ou com vergonha. Bem, não havia nada a fazer. Mami não estava mesmo intencionada a pedir o perdão da amiga.
A escola estava quase vazia, e uns poucos (além da própria Mami) saíam do colégio, em sua maioria acompanhados. Aki e Emiko faziam parte do clube de literatura, por isso nem Aki poderia ir embora com Mami, então esta última, na maioria das vezes, ia embora sozinha.
Enquanto passava pelo portão, notou algumas garotas comentando sobre um rapaz de outro colégio encostado no muro que cercava o colégio.
“Ele não é lindo?!”, uma delas cutucou a amiga, que parecia igualmente excitada.
“É a primeira vez que um aluno do Colégio A vem até esse colégio! Isso é mesmo uma honra!”
O Colégio A era um dos mais bem conceituados da região, e muitas pessoas o conheciam. Lá, a maioria dos alunos eram pessoas muito inteligentes, mas em sua maioria esnobes.
Por incrível que parecesse, Mami conhecia alguém de lá. E não pôde evitar de fazer contato visual com o rapaz, que franziu a testa antes de seguir até ela.
A jovem tentou manter a calma, e voltou a andar, mas a forma que tentou disfarçar não convenceu o rapaz.
“Mami!”
“Não me siga!”, acelerou o passo.
“Você não recebeu a mensagem que mandei hoje?! Eu disse que estava com saudades, e que viria te visitar!”
Era, provavelmente, a mensagem que recebeu enquanto conversava com Aki sobre Emiko. “Agh, se eu houvesse lido antes... poderia ao menos ter decidido ir pra casa mais cedo” — era o que pensava. Mas já era tarde.
“Mami, por favor, me perdoe. Você sabe que eu não estava mal-intencionado! Pelo amor de Deus, eu te amo!”
Mami se virou, abdicando de sua decisão de fugir, e olhou-o incrédula.
“Você me ama? Em que momento você me amou? Vá seguir a sua vida! Você tem dinheiro, amigos, e pode conseguir uma namorada, se quiser. Me deixe em paz, se você realmente me ama”
“... Mas como vou mostrar que eu te amo fazendo isso?”
A mente inocente e ingênua de Minoru era uma das coisas que irritavam Mami enquanto namorava ele. Era como uma criança de 12 anos, muito embora tivesse 16.
Visto que a garota não responderia, ele continuou.
“Mami, por que está fazendo isso?”, ele franziu a testa, aparentemente muito chateado. “Você que disse que gostava de mim, e quis sair comigo mesmo eu sendo um... novato nessas coisas. E agora você me abandona? ... Eu não entendo”
“Eu só não quero mais sair com você, não gosto mais de você. É assim que é o amor, Saitou-san”, pronunciou o sobrenome dele friamente.
“Mas eu ainda gosto de você... Eu quero continuar com você, Mami! Eu não te visitei antes porque as aulas estavam muito puxadas, mas finalmente consegui uma chance pra vir te ver... Então, por favor, considere meu pedido e vamos conversar! Você entendeu tudo errado! Aquela pessoa...”
Ela o cortou imediatamente.
“Eu não quero saber! Por favor, pare de me perseguir, ou eu comunicarei a polícia! Seu stalker!”
Mami saiu correndo, sem dar chances para ele responder. Mas não era no que ele pensava fazer, pois ficou confuso com as últimas palavras da garota.
“... Stalker? O que ela quis dizer com isso...?”
✶
“O quêêê? O Minoru-chan apareceu por aqui?!”
“Agh, não pronuncie o nome dele!”
Mami e Aki passavam pelo corredor, a fim de entregar algumas anotações para um professor. Após a primeira contar o que houve no dia anterior para a amiga, esta ficou extremamente pasma. Até então o ex-namorado de Mami nunca havia aparecido no colégio.
“Que droga, justo no dia do clube! Eu queria taaaanto conhecer o Saitou-san pessoalmente!”
“Sabe... não foi uma das cenas mais emocionantes do mundo”, Mami suspirou.
“Mesmo assim! A julgar pelo que você contava sobre ele quando ainda namoravam, ele pareciam não combinar nadinha com você!”
“Mesmo ele sendo inexperiente, ainda se tratava de um homem. E homens são iguais em muitos pontos, falando de forma generalizada”
“Você só está chateada porque o Saitou-san praticamente esfregou na sua cara que estava com outra garota, na verdade a mente masculina não é assim tão dramática como você fala”
Quando falavam sobre o motivo do casal ter brigado, Mami sentia uma pontada no coração, por isso evitava falar sobre o ex-namorado, sabia que esse assunto sempre viria à tona, principalmente com pessoas como Aki, que adoram saber de fofocas e falar mal dos outros.
Na verdade, ela não era a pessoa mais indicada para conversar a respeito de tais assuntos, mas Mami e Emiko ainda estavam brigadas, e a outra amiga teria de ser sua segunda opção.
“Prontinho, chegamos. Vou entregar as anotações pro Itou-sensei, e pedir alguns conselhos sobre as aulas com ele, mas eu volto logo. Não saia daqui, viu, Mami?!”
“Não é como se eu tivesse outro lugar a ir, mesmo”, mesmo após pronunciar tais palavras, foi em vão, pois não havia mais ninguém para responder a jovem de olhos azuis.
Olhou para um lado e para outro, e notou que uma grande quantidade de pessoas passavam por aquele corredor. Era engraçado como conseguia prestar atenção em coisas tão estúpidas quando não estava com ninguém. Apesar de ser tão “durona” e madura, no fundo, Mami não passava de uma criança distraída. Não era verdade o que Aki falara. Ela combinava com Minoru, e muito. Longe dele, assumia uma posição de mãe, mas na sua frente, ela não passava de uma pirralha chorona.
“K-... Kojima-san?”, uma voz baixa chamou por ela, a centímetros de distância do seu lado, e ela se virou quase instantaneamente, como se estivesse fazendo algo errado no momento, e alguém a encontrasse logo depois, e então tentasse disfarçar seus movimentos. Mas não era o caso.
“A-Ah... É você, Nomura-san...”, não que ela esperasse que fosse alguém senão ele, com aquela voz masculina. Afinal, não tinha amigos homens no colégio.
“Desculpe, estava esperando alguém?”
“Na verdade, estava perdida nos meus pensamentos, e você meio que me acordou. O que houve?”
“Ah, faz um tempinho que eu queria falar com você...”
“É a respeito da Kudou-san” — ela esperava que ele dissesse. Mas foi algo totalmente fora do tópico imaginado.
“Na verdade, alguns senpais que estudaram aqui ano passado, e agora estão no Colégio K, decidiram convidar o 3º ano daqui para irmos nos divertir no karaokê. Mas tinha que ser um número pequeno de pessoas, porque se fosse muita gente, ficaria muito difícil de caberem todos na sala. Então eles me pediram para recrutar algumas pessoas “legais”, que talvez estivessem interessadas em ir. Eu nunca conversei realmente com você, Kojima-san, mas eu achei que seria divertido se fosse conosco, até para conhecer nossos senpais... pra falar a verdade, eu não conheço a maioria deles também, mas pensei que, talvez, pudesse ser divertido...”
Realmente era um discurso comprido, e não havia relação alguma com Emiko. De qualquer forma, aquilo a surpreendeu. Era a primeira vez que alguém, senão Emiko ou Aki, a chamava para se divertir.
Mas mesmo assim seu interesse e empolgação não foram tão grandes a ponto de ela sorrir e concordar na hora.
“Não sei se irei... Depende do dia, hora, minha disposição... Podemos trocar e-mails, e aí você me manda as informações, pode ser?”
“Ah, sim! Pode ser!”
Os dois mexeram no celular e rapidamente trocaram seus endereços de e-mail. Emiko se sentiu estranha por possuir o e-mail do rapaz que Emiko estava interessada, mas foi um sentimento passageiro, pois, menos de um minuto após ele se retirar, Aki saiu da sala dos professores.
“Prontinho, Mami! Mami? Alô?”
A amiga parecia dispersa em seus pensamentos, então Aki puxou suas bochechas, tirando a garota do transe.
“Isso dói! Não pode me chamar como qualquer outra pessoa chamaria?”, Mami parecia irritada, e massageava suas bochechas após Aki soltá-las.
“Mas você tava sonhando acordada!”
“É claro! Nomura Kakeru acabou de vir aqui e me convidou para sair com ele e seus amigos!”
Aki pareceu pasma.
“Espera... Espera... Deixa eu processar as informações direito”, ela respirou fundo, fechou os olhos e colocou as mãos na cabeça. Então soltou um grande grito que chamou a atenção de muitos e olhou aparentemente super assustada para Mami. “AQUELE NOMURA KAKERU?!”
“Sim! Aquele Nomura Kakeru!”
“Que gritaria é essa aí fora?!”, uma das vozes de professores da sala foi ouvida pelas duas. Elas se entreolharam prevendo problemas e, sem pensar duas vezes, saíram correndo, fugindo de uma bronca que provavelmente levariam se ficassem por ali.
✶
“Meu Deus! Meu Deus, meu Deus, meu Deus!”, Aki andava de um lado para outro no pátio vazio, após ouvir a história inteira. Ainda tinha tempo até o sino soar, e a maioria das pessoas estavam no refeitório ou nas salas de aula, então a conversa entre elas poderia acontecer em paz. “Meu Deus! Você vai roubar mesmo o namorado da Emi-chan, Mami?!”
“O quê?!”, Mami, que permanecia com os braços cruzados até o momento não pôde ficar calada. “Claro que não! Não tenho interesse algum nele! E além disso, eles não são namorados!”
“Bem, pensando bem, foi ele que te convidou...”
“Ele provavelmente vai convidar vocês, também... Se me convidou, é bem provável”
“Emi-chan não pode saber que ele te convidou, ou vai ficar mega chateada!”
“Como estou dizendo, eu acho que vocês também serão convidadas...”, Mami abaixou seu tom de voz conforme falava, pois sabia que abrir sua boca não adiantaria de nada. Então bufou e colocou as mãos na cintura, olhando séria para Aki. “Olha, se é o que quer saber, eu não tenho intenção de ir, ok? Estou cheia de “senpais” aqui e ali”
“Ah, mas se eu for convidada, eu vou! Será uma grande chance para a Emi-chan!”
“Na verdade, você só quer ver os caras mais velhos, não é?”, Mami olhou exausta para a amiga.
“Não, não, não! É pela minha brilhante amizade com a Emi-chan! Tornarei ela uma grande e apaixonada protagonista de mangá shoujo, e a seguirei para todos os cantos, como a Emika é para Yuuya*! Como a Chizuru é para a Sawako*! Como Satomi é para Kotoko*! Uma paixão em chamas! Não... é a força da amizade! Aquela que nos incentiva a sempre estar com sua amiga quando ela precisar, para o que der e vier! Na alegria e na tristeza! Na saúde e na doença! Esse é o código de honra que sigo pelo bem daqueles que amo! É por isso... É por isso que estarei lá pra dar uma força pra Emi-chan... e fazê-la finalmente tornar seu fantástico e doloroso amor em realidade! E eu insisto, Mami... insisto que me siga e veja essa luz ao meu lado... para no final sorrir de forma irradiante e estar satisfeita só de ajudar a realizar o sonho de alguém! Certo, Mami?!”, Aki gesticulava e ficava cada vez mais agitada a cada palavra que falava, e parecia levada pelo momento... mas o ardor aparentemente não pôde ser sentido por Mami, que havia saído de lá já havia bastante tempo. “... Eh...?”
✶
Já haviam passado três dias, e era sábado. Mami estava deitada no sofá de casa. Eram mais ou menos 20h, e não havia nada para fazer. Aki não atendia o telefone, e Mami ainda não havia feito as pazes com Emiko. Isso tornou o resto do seu dia após a aula extremamente entediante. Não tinha com quem conversar senão sua irmã mais velha, que corria para lá e para cá.
“Imouto, você viu minhas botas marrons?”
Mami jogava alguma coisa no PSP, e parecia bem entretida, a ponto de não prestar tanta atenção no que a irmã falava.
“Nãããão”
“Ora, aonde foram parar?”, sua irmã corria pela sala, toda arrumada, e conseguiu um tempo para dar um pouco de atenção à sua irmã. “Hoje é sábado! Não vai fazer nada agora à tarde?”
“Não, diferente de você, nee-chan, não tenho um namorado ou amigos pra ficar me divertindo por aí”
“Você está virando uma antissocial! Ninguém combinou de sair com você hoje? Ah! Achei!” tirou os sapatos de dentro do armário próximo da porta de entrada e começou a vesti-los.
“Não... Aki não atende ao celular”
“Ué! E a Mimi?”, chamou-a pelo apelido carinhoso que dara a garota. Já a conhecia havia muito tempo, e Emiko era uma visitante frequente.
“Hm... Nós brigamos”
“Então apressem-se e façam as pazes! Você precisa ter ao menos amigos, imouto! Não pode ficar moscando nessa sala! Bem, estou indo... Até mais, se ver algum de nossos pais, avise que saí com o Haru-kun! Bye-bye!”
Não demorou muito para a garota sair, deixando Mami sozinha, talvez pelo resto da noite.
“Você diz essas coisas porque, pra você, é fácil de arrumar amigos pra sair, você é uma aluna do ensino médio, e é bem atraente” — era o que estava bem claro no rosto da jovem abandonada.
Colocou o PSP em cima do criado-mudo ao lado do sofá e fechou os olhos, a fim de cochilar. Não havia muito o que fazer, e o verão já estava chegando, e Mami já sentia o calor que estaria para chegar dentro de dias.
Seu descanso foi momentâneo, pois seu celular começou a vibrar. Com muito esforço ergueu o braço para pegá-lo, e olhou para sua tela. Um aviso de evento piscava na tela, e demorou até que ela entendesse tudo o que estava escrito.
“... “Evento no Karaokê”... Ah. Então era hoje? Ah, faz sentido, hoje é sábado” — pensou. Já devia ter começado, e ela realmente não tinha vontade de ir.
Guardou o celular e se levantou. Fez uma vitamina, bebeu, ligou a televisão e tentou assistir à alguma coisa, mas era muito ruim estar sozinha. Nada passava por sua cabeça, ela queria interagir com alguém, e se sentia mal por pensar que todos que conhecia provavelmente estariam se divertindo, enquanto ela definhava em casa.
Tomou sua decisão, subiu, vestiu uma camiseta, bermuda e um tênis. Não pretendia se arrumar muito, ela provavelmente ficaria lá por alguns minutos e quando ficasse cansada, voltaria. Era só um pouquinho de curiosidade para saber como a festa estaria. Nada além disso.
✶
Já estava na frente do prédio de karaokê, e não se sentia arrependida. Ao que tudo indicava, Aki e Emiko não haviam sido convidadas, senão Aki seria a primeira a ligar imediatamente para Mami com suas fofocas e discursos estupidamente grandes.
Passava pelos corredores, pensando em qual das salas estariam todos. Muitas pareciam extremamente barulhentas, mas uma excepcionalmente. Ela sabia qual era, na hora. Não havia problema algum de entrar... afinal, ela havia sido convidada, não é? Esses eram os pensamentos que mais assombravam sua mente, mas conseguiu abrir a porta de uma vez.
A imagem que via lá dentro não era muito diferente do que imaginava: muitas pessoas, alguém muito desafinado cantando, os senpais com as gravatas apenas penduradas no pescoço sem qualquer nó, muitos até com a camisa aberta. Alguns conversavam num canto, e havia um outro aglomerado de garotos, que pareciam contemplar alguma coisa. Claro que sua presença não seria notada numa situação como aquela.
Kakeru foi o primeiro a notar Mami quando ela entrou. Ele parecia um dos poucos comportados lá, e bebia um copo de suco. Levantou para saudá-la.
“Você veio”, sorriu. “Não conseguiu resistir?”
“Minha irmã saiu e fiquei sozinha em casa, então pensei em vir num momento de tédio”
“Bem, ao menos você não ficará deslocada aqui!”
“Huh? Por que?”, Mami sorriu de leve, sem entender.
“Ué, Kikuchi-san não falou com você?”
“Eh...?”, a confusão de Mami foi logo interrompida por uma das pessoas que correu na sua direção, a abraçando. Pela força de espírito, rapidamente descobriu de quem se tratava.
“Mami! Eu sabia que você viria!”
“... Aki...? Isso quer dizer que...”, olhou por cima do ombro de sua amiga e finalmente conseguiu decifrar o que os rapazes tanto contemplavam no outro canto: sua melhor amiga, Emiko, parecia parte de uma exposição, e estava claramente desconfortável com a quantidade de homens à sua volta, falando com ela simultaneamente.
Aquela, definitivamente, não seria uma boa noite.
Notas finais
Yin e Yang: dois conceitos do taoísmo, que expõem a dualidade de tudo o que existe no universo. Descreve as duas forças fundamentais opostas e complementares, que se encontram em todas as coisas.
Tsundere: termo japonês para uma personalidade que é inicialmente agressiva, que alterna com uma outra mais amável.
Otaku: termo usado no Japão e outros países para designar fã de animes e mangás (no caso). Entretanto, no Japão, o termo é utilizado para designar um fã de qualquer coisa, não necessariamente animes e mangás. Mami considera uma ofensa, pois otakus são uma vergonha nipônica e ignorados pelas sociedade, muitas vezes aqueles que ainda frequentam à escola sofrem bullying (ijime).
* Como nas casas japonesas, os alunos tem que tirar os sapatos para entrar na escola, e então usam algo como uma sapatilha, muitas vezes branca ou bege. Na hora da saída eles trocam novamente os sapatos.
Stalker: Resumidamente, stalking é a vigilância exacerbada que uma pessoa dispensa a outra, muitas vezes forçando contatos indesejados. Nem sempre há um motivo claro além da obsessão, no entanto, um stalker (ou seja, o obcecado) muitas vezes pode ter o intuito de amedrontar sua vítima. Portanto, perseguidor é uma boa tradução em português para o termo.
Honoríficos:
-sensei: sufixo utilizado depois do nome de um professor de forma respeitosa, ou pessoa formada com conhecimentos superiores sobre algum assunto.
-senpai: sufixo para tratar colegas mais velhos ou figuras mentoras. Aplica-se a estudantes mais velhos de escolas, a atletas mais experientes, etc.
Mangá shoujo: termo usado para referir mangás (quadrinhos japoneses) para garotas, apesar de poder também interessar a qualquer gênero ou faixa etária.
* Emika e Yuuya são personagens do mangá Love Berrish!. Aki faz referência às personagens melhores amigas de mangás shoujo.
* Chizuru e Sawako são personagens do mangá Kimi ni Todoke. Aki faz referência às personagens melhores amigas de mangás shoujo.
* Satomi e Kotoko são personagens do mangá Itazura na Kiss. Aki faz referência às personagens melhores amigas de mangás shoujo.
Termos para familiares:
Imouto: irmã mais nova.
Nee-chan: irmã mais velha, dito de forma mais informal e íntima.
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