Hipnotizados
3 O fim e o começo
Notas iniciais
Com o passar do tempo, cidades, prédios, pessoas e conceitos mudam. Alguns nascem, outros morrem e há também aqueles que adoecem. Se incontáveis coisas mudam de um dia para o outro, imagine após longos anos. Muitos acontecimentos ocorreram na vida de Helena e também na de Fred, entretanto, nada o suficiente para apagar a lembrança do dia em que se conheceram e da partida tão repentina sem ao menos uma despedida.
O intenso sentimento de nostalgia invadiu Helena quando voltou para a cidade onde conhecera o garoto, após muitos anos. Precisara mudar-se de casa e consequentemente de escola diversas vezes, até que seu grupo resolvera voltar para a terra de sua primeira escola. Contudo, agora já não era necessário assistir às aulas. A garota já havia se formado e agora, já com suas vinte a uma primaveras conquistadas, estava determinada a estudar os próprios livros em casa, além de praticar sua magia, qual ela havia aprendido a dominar incrivelmente bem desde que a despertara.
A vila onde morava continuava intacta, ninguém aparecia por lá há um bom tempo, pois tudo estava fechado, empoeirado e vazio. Observou a cidade da janela de sua antiga casa, onde iria viver novamente. Os prédios continuavam os mesmos, contudo, poderia jurar que novas casas foram construídas em certa região. Mal poderia esperar para caminhar pelas acinzentadas ruas novamente.
☼ ☼ ☼
Vários livros, papéis com anotações e folhas de fichário estavam espalhadas pelo quarto de Freddie. Os estudos para o quarto semestre na faculdade próxima de sua cidade estavam ocupando o tempo do rapaz que almejava formar-se em breve no curso de astronomia e quem sabe até, continuar estudando depois.
Deixando de lado o futuro mais distante, precisava focar-se nos livros á sua frente para as últimas provas do semestre e logo depois, entraria de férias.
☼ ☼ ☼
Quando se deu conta, o período já havia acabado. Freddie estava livre de aulas, seminários e avaliações até o próximo semestre. Como não precisava estudar imediatamente, dispensou a carona de um colega e decidiu ir para casa caminhando, coisa que não costumava fazer.
Revirando o bolso de sua calça, Fred encontrou algumas moedas e concluiu que seria uma boa ideia gastá-las com algo para comer. Parou, então, em frente a uma pequena lanchonete e leu o que o cardápio lhe oferecia.
–Boa tarde. –Cumprimentou-o a simpática funcionária por detrás do balcão. –Como posso ajudá-lo?
–Humm... –Pensou ele. -Acho que vou querer um sorvete de chocolate, por favor.
Após receber o pedido, ele entregou suas moedas à funcionária, que logo lhe estendeu a mão com o troco. Contudo, ao entregar-lhe as moedas, uma delas caiu, rolando em direção à rua.
–Oh, me desculpe! –Disse imediatamente a moça.
–Sem problemas.
O rapaz correu, fazendo o mesmo caminho que a moeda fugitiva para não perde-la de vista e quando a mesma aquietou-se, ele abaixou-se para pegá-la. Ao endireitar-se, pode ver que estava em frente à uma banca de livros, onde uma jovem mulher folheava um livro de capa esverdeada. Ao invés de ir embora, Fred continuou a observá-la. Algo lhe soava familiar.
–Vai levar o livro hoje, senhorita? –Ele imaginou ter ouvido o dono da banca perguntar, mas não estava prestando a devida atenção.
–Não dessa vez. Quem sabe da próxima, não é mesmo? –Respondeu a moça colocando o livro de volta em seu lugar na prateleira. Seus cabelos castanhos eram também cacheados e suas roupas pareciam bem diferentes das quais os moradores daquela região costumavam usar: Um tanto Hippie.
–... Helena? –O rapaz precisava confirmar o que pensava. Se não fosse a garota que conhecera na escola, poderia facilmente ser sua irmã gêmea ou um clone feito por cientistas revolucionários após alguns anos.
Os olhos brilhantes e surpresos da bruxa fixaram-se nos obscuros e cercados por olheiras leves do garoto. As características do rapaz à sua frente só lembravam-na de uma pessoa.
–... Freddie?
–Ao vivo e em cores. –Sorriu. –Ah... E com um sorvete. Você quer?
Antes que pudesse ouvir qualquer resposta, Fred foi atacado por um forte e duradouro abraço, espantando-se um pouco no começo, mas logo o retribuiu.
–Já faz um bom tempo! –Helena estava animada.
–Sim! Mal tive tempo para conversar na época em que te conheci.
–Ah, sobre aquilo... Precisei me mudar. –Seu tom ficou sério, mas logo voltou a descontrair-se. – Sabe como é: Problemas de família.
–Entendo. Dizem que acontece nas melhores famílias.
–É realmente uma família fora dos padrões. -“Você nem imagina o quão fora ela está”, pensou a bruxa.
–Mas e a sua vida, como está? –Perguntou interessado.
–Nada tão interessante. Continuo estudando em casa, como sempre fiz. Agora estou mais focada em métodos para cura com espécies de plantas. Não sei se você reparou, mas o livro que eu estava olhando era sobre isso.
–Oh, isso sim parece interessante. Seria muito legal preparar meus próprios remédios. –O sorvete estava pela metade. –Por falar em livros, a biblioteca central tem ótimas matérias sobre vários assuntos, não seria estranho se eu já houvesse me esbarrado em um desses por lá enquanto estudava para a faculdade que estou cursando. Poderíamos fazer uma visita, caso você não tenha um compromisso mais importante agora.
–Uma biblioteca? -Helena olhou para o céu. O sol estava intenso e radiante–Bem, parece que ainda é cedo. Vamos lá!
Helena e Fred passaram o resto da tarde juntos. A garota ficou fascinada com a quantidade de livros que um único lugar poderia abrigar e encontrou vários com o tema que desejava. Freddie até lhe mostrou alguns sobre astronomia e explicou como era sua faculdade e os planos que fazia para o futuro.
Quando a noite começou a surgir, se despediram e cada um seguiu seu caminho: Fred caminhou até sua casa e Helena foi para a floresta, onde ajudou sua mãe e uma de suas tias a cozinhar o jantar.
☼ ☼ ☼
Algumas semanas e até meses se passaram e Fred e Helena continuaram saindo juntos. Mesmo após tantas conversas e assuntos, os dois queriam ficar juntos cada vez mais. Não importava se fosse um assunto repetido ou até mesmo insignificante, o simples fato de estarem um com o outro já lhes fazia um bem inexplicável.
–Você gosta dele, não é? –Perguntou Clarisse para a irmã, certa vez. Faziam artesanato para vender, um antigo costume da família.
–Do que você está falando? –Respondeu a mais nova, sentindo seu rosto ficar vermelho.
–Daquele cara da faculdade. Cabelos escuros, mochila, sobre-tudo preto... Mas é claro que você sabe de quem eu estou falando, certo? Vi vocês andando juntos por aí e com certeza tem algo a mais entre os pombinhos.
–Concentre-se no seu trabalho, Clarisse.
Enquanto sua irmã ria, Helena olhou para uma máscara que haviam ganhado em um festival de uma cidade que visitaram durante o tempo que passara fora. Quando a mais velha virou-se tranquilamente, o susto de encontrar a máscara perto de seu rosto foi tão grande que não conseguiu evitar um grito ao quase cair da cadeira em que estava, só conseguindo ouvir os risos da garota que manipulara o objeto.
–Isso é injusto! –Disse ela, recuperando-se do susto. –Como é que eu vou exercer o meu papel de irmã mais velha se você ficar me assustando enquanto eu te aborreço?
–Mas que barulho é esse? –Uma das tias apareceu onde estavam, impedindo que Helena respondesse e antes de voltar a dormir continuou. –Por que vocês não vão lá para fora junto com as outras garotas da idade de vocês? Já está tarde para ficarem brincando aqui dentro.
–Viu? Agora fomos expulsas. –Clarisse se levantava.
–Você quem começou!
–Shhh. Eu sou a mais velha, então você leva a culpa, Hellie.
–Que injusto! –Protestou ela, imitando a maneira de sua irmã falar.
Clarisse empurrou imediatamente a máscara quando Helena a ergueu novamente e as duas saíram de casa rindo, juntando-se ao pequeno grupo de meninas que decidiram ir dormir só mais tarde.
☼ ☼ ☼
Nessa mesma noite, os pais de Freddie o chamaram para sair e como ele estava com um tempo de sobra, resolveu aproveitar com a família.
–O que vocês acham de um restaurante japonês? –Perguntou a mãe.
–Acho uma ótima ideia. –Concordou Freddie.
–Parece divertido. –Disse o pai, por fim. –Só não sei se vou conseguir comer com aqueles pauzinhos que eles usam.
–Hashis, pai. –Corrigiu. –Mas tudo bem, qualquer coisa nós voltamos para casa e pedimos uma pizza, igual na vez em que a mamãe não conseguia engolir a comida mexicana.
–O meu fino paladar não está apto a tanta mudanças, entendeu Sr. Freddie? –Ela usava um tom de voz irônico. –Além do mais, ainda acho que aquele cozinheiro exagerou de propósito.
–Bem, por via das dúvidas, eu já deixei anotado o número da pizzaria. –O homem mais velho subia as escadas em direção ao seu quarto. –Não demorem muito para se arrumar.
–Isso foi um tipo de indireta? –A mulher cruzou seus braços, esperando por uma resposta.
–O que? Não... –Disse ele ironicamente. –Isso nem passou pela minha cabeça, Sra. Esther.
Ela fez uma careta e um tempo depois todos estavam saindo de casa, o restaurante não ficava muito longe dali.
–Parece lotado... –Observou Fred, ao chegarem a seu destino. –Vou conferir se ainda tem vagas.
Enquanto ele não voltava, o casal decidiu passear pela praça ao lado. Caso o filho voltasse, poderiam vê-lo de lá.
Enquanto isso, as bruxas planejavam como seria a noite.
–Olhem o que eu encontrei. –Mostrou uma delas.
–Que espécie de planta é essa?
–Não há muitos registros sobre ela... Mas o efeito é incrível! Vocês deveriam experimentá-la também.
–Não, obrigada. –Helena afastou-se do grupo. –Eu estou bem assim.
Sua irmã ia fazer o mesmo, mas foi impedida por uma voz.
–Clarisse... Eu sei que você anda muito frustrada por causa da sua magia.
–Como assim?
–Sua irmã é a mais talentosa daqui e... Bem, todas sabem que você ainda não encontrou seus poderes.
Clarisse ficou cabisbaixa.
–Mas veja! –Continuou. –Eu acho que tudo o que precisamos é de uma noite mais livre e divertida.
–Eu acho que ela está certa, Clarisse. –Disse outra bruxa. –Ficar aqui parada não vai ajudar em nada. Precisamos de algo que nos liberte mais! Além disso, a Michelle aprendeu a utilizar seus poderes em uma noite como essa.
–Isso é verdade. –Concordou Michelle. Recentemente, a bruxa havia passado por uma experiência semelhante à de quando Helena descobriu seus poderes, contudo, ela tivera uma sensação de afogamento e logo após, descobriu que poderia controlar a temperatura de qualquer substância líquida, conseguindo evaporá-la e também congelá-la. –Tudo o que tem a fazer é vir conosco. Uma companhia a mais é sempre Bem-vinda!
Clarisse hesitou, todavia desejava tanto encontrar sua magia que acabou concordando com a ideia.
–E agora? –Perguntou Clarisse segurando um pequeno ramo da planta.
–Nós queimamos. –Respondeu Michelle. –E inalamos a fumaça.
–Tipo uma... Droga?
–Não é como aquelas drogas que eles usam na cidade. Nunca as experimentei, mas essa parece bem melhor. Além disso, faz mais efeito a cada vez que você usa.
–Bem, se você diz...
–Não precisa se preocupar. O efeito não é tão mau assim e não vai durar muito também.
Enquanto Michelle falava, uma garota do grupo não parecia muito bem, então acabou chamando atenção das outras.
–Clara, você está bem?
–Peixe...
–Peixe?
–Frio, calor. Peixe... Início de novas chamas.
Ao contrário de Helena, Michelle e da avó, a magia de Clara não deixava que ela controlasse algo, era algo que estava dentro de si. Podia ter premonições dos principais acontecimentos das próximas horas, mas nada concreto. Simples palavras-chave apareciam em sua mente e ela só conseguiria compreendê-las depois do ocorrido.
–O que isso quer dizer? –Perguntou Michelle.
–Eu não sei... As palavras vêm até mim, mas eu não consigo adivinhar o que querem dizer. Alguma coisa relacionada a elas vai acontecer hoje.
–Bem, — Michelle acendia uma pequena fogueira para que os ramos pudessem ser queimados. –Lá vamos nós.
☼ ☼ ☼
Freddie aguardava em uma fila dentro do restaurante japonês. Pela janela, pôde ver seus pais caminhando em direção ao parque.
–Este lugar é lindo durante a noite. –Falava a mulher enquanto andava com o braço entrelaçado no de seu marido, encantada com as flores iluminadas pelas pequenas luzes. –Poderíamos fazer um piquenique durante o pôr-do-sol com o Fred qualquer dia.
–Realmente, querida. Nós podemos falar com ele daqui a pouco e...
Os dois param no instante em que ouvem sons se aproximando.
–Talvez seja coisa desses adolescentes bêbados que ficam andando por aí durante a noite.
–É, talvez seja... Fred já deve ter conseguido pelo menos conversar com alguém, vamos lá.
Antes que pudessem ir embora, um vento gélido os cercou, fazendo-os tremer e todas as lâmpadas do local se apagaram. A iluminação do restaurante e de outros estabelecimentos próximos não os alcançava, deixando-os na completa escuridão.
Risos eram ouvidos ao redor e logo um grupo, mas não eram pessoas comuns. O casal poderia jurar que seus pés estavam flutuando e a velocidade em que corriam era extraordinária. Fora do normal.
A fim de proteger sua esposa da criatura que se aproximava enquanto as outras riam sem motivo algum, o homem aproximou-se de um arbusto e se armou com um galho.
–Espere aqui. –Disse ele, antes de avançar em direção a uma das bruxas, mesmo enxergando muito pouco pela escuridão.
Algumas palavras em uma língua desconhecida foram sussurradas e ele sentiu uma rajada de ar em sua direção. Logo em seguida, sentiu seu corpo cada vez mais pesado, precisando sentar-se embaixo de uma árvore, encostando-se. Sua respiração ficou ofegante e seus pulmões pareciam muito pesados para respirar.
“O que é isso?! Só pode ser...” pensou ele, em meio ao desespero, até concluir: “... Bruxas”.
–O que você fez?! –Antes só os seus cabelos, mas agora todo o corpo da mulher estava misturado à noite, assim como o das irreconhecíveis bruxas.
Ao ouvir um riso próximo a si, decidiu acabar com aquilo de uma vez, acertando um forte tapa no rosto de uma delas enquanto a mesma estava distraída, divertindo-se com a situação do homem encostado à arvore.
O sangue escorrendo pelo canto de sua boca e a dor provocada pelo tapa, foram motivos o suficientes para irritá-la. Dessa vez, feitiços não seriam utilizados, mas sim, seu próprio poder.
O frio tomou conta do corpo de Esther de uma maneira perturbadora da qual ela não conseguia entender, fazendo-a cair no chão. Queria gritar, mas o som não saía de sua boca, assim como seu marido, que tentava entender o que estava acontecendo em meio às trevas.
Como num passe de mágica, a cena mudou. Seu corpo, agora esquentava, queimando-a e destruindo-a por dentro. A bruxa controlava a temperatura da água dentro do corpo da mãe de Fred, até que finalmente, a pobre vítima desistiu de lutar. Não poderia resistir mais.
O feitiço do pai de Fred estava perdendo efeito quando as garotas foram embora. Seu corpo ainda estava pesado, mas mesmo assim, o homem foi em busca de sua esposa que estava caída no escuro gramado do parque. Ele gritou que se vingaria de todas as bruxas no momento em que Clarisse e outras meninas surgiram no parque, estavam separadas do grupo de Michelle. Não sabiam quem poderia estar ali, então, fugiram imediatamente ao ouvir aquilo.
Freddie estranhou o local estar tão escuro enquanto procurava seus pais, mas estranhou mais ainda três vultos estranhos fugirem de lá. Pensou estar imaginando coisas, talvez fosse pela agitação do restaurante japonês. Ele e sua família precisariam ir para outro lugar, ou talvez fosse melhor pedir uma pizza e ficar em casa dessa vez. Seu coração parou quando viu seu pai saindo do parque carregando sua mãe com muita dificuldade e colocando-a no chão poucos passos depois.
–Eu juro... –Disse seu pai, em meio a tantas lágrimas. –... Eu juro que vou me vingar delas... De cada uma delas!
Clarisse, que observava de longe, foi puxada por uma de suas colegas.
–Vamos! –Gritou ela, levando a outra de volta para casa.
A única reação que Fred teve foi chorar como nunca havia feito em toda a sua vida e foi então que lembrou-se dos vultos. O garoto jurou silenciosamente que se vingaria do que quer que aquilo fosse, assim como seu pai havia prometido.
A cozinha do restaurante japonês, próximo á eles, exalava um cheiro de peixe, que seria utilizado nos principais pratos da noite.
Fale com o autor