Hipnotizados
16 Invadindo o Mundo dos Mortos
Para sua tristeza, Peter nunca demonstrou interesse por aulas de Latim, o que lhe seria muito útil no momento. Não sabia exatamente em que viajar para um lugar em outra dimensão, repleto de espíritos vagantes, o ajudaria, mas não podia ficar parado.
Estudava atentamente as palavras da estranha página do livro de bruxaria que sua mãe havia deixado com o garoto. Queria não tê-lo perdido tragicamente no medonho penhasco. Mesmo não entendendo o que as frases significavam, fechou seus olhos e tentou concentrar-se o máximo possível. Apenas enxergava Lara e sentia a terrível dor que era perdê-la. Pensar nisso motivou o rapaz a finalmente abrir os olhos e depositar toda sua energia e fé nos estranhos conjuntos de letras.
“Se eu realmente sou um bruxo...” Pensou ele. “... Essa seria uma boa hora para provar”.
Tudo ao seu redor pareceu sumir enquanto lia os intrigantes versos daquela língua antiga e esquecida pelo tempo. A cada palavra lida, ele sentia uma estranha energia envolvê-lo, como se algo grandioso estivesse próximo a acontecer, o que o motivou a proferir as citações com ainda mais coragem e entusiasmo.
Quando a última palavra foi finalmente dita em claro e bom tom, o jovem bruxo sentiu como se sua alma fosse arrancada de seu corpo, viajando na velocidade da luz para algum lugar desconhecido do qual nunca teve o (des)prazer de visitar. Seu corpo, como se não possuísse mais dono, caiu no chão e seus olhos reviraram-se para cima, deixando visível apenas o lado branco.
A alma do garoto já estava em outro lugar.
Peter não conseguia descrever onde estava. A visão do local era embaçada e escura, mas pôde perceber que ao seu redor havia uma imensa multidão fantasmagórica, onde era muito difícil enxergar o rosto das pessoas, que pareciam caminhar sempre com a cabeça baixa. Seus pés moviam-se em câmera lenta, contudo, os corpos andavam rapidamente, como se estivessem, na verdade, flutuando.
O bruxo estava no local para onde os mortos eram encaminhados logo após deixarem a Terra. Lá, iriam esperar o tempo necessário até o julgamento final. Entretanto, enquanto ele não chegava, as almas não poderiam ficar sozinhas, detalhe que Peter logo acabou percebendo.
Caminhando entre as pobres pessoas que um dia já possuíram expressões em seus rostos, o garoto enxergou um vulto diferente; Alguém que, assim como ele, destacava-se dos demais. Tratava-se de uma figura alta, pálida e, Peter não conseguia distinguir que tipo de roupas usava, mas sabia que eram completamente negras. Carregava uma enorme foice prateada, que, mesmo em uma imagem tão distorcida, parecia carregar consigo um extraordinário poder, capaz de ceifar a vida de qualquer um com o menor dos esforços.
Quando a Morte notou a presença de um estranho em seus domínios, caminhou –flutuou- em sua direção imediatamente. Ele não pertencia àquele lugar e era função da ceifadora de vidas expulsá-lo imediatamente. Peter sabia disso.
Fugiu o mais rápido que pôde, desesperado, mas era uma tarefa complicada locomover-se em meio a tantos estranhos que dificultavam sua passagem. Se a morte o alcançasse, talvez nunca mais pudesse sair daquele macabro lugar. Tentava observá-los cuidadosamente, com a intenção de encontrar Lara e resgatar a garota imediatamente daquela perdição. Ela precisava voltar para casa.
Fugiu por um bom tempo pelo lugar que não parecia ter fim, contudo, não a encontrou. Ficava ainda mais frustrado por não conseguir enxergar direito o rosto daqueles que o cercavam, embora conseguisse reconhecer Lara caso a encontrasse. Porém, algo fez o garoto parar e sua atenção focou-se totalmente em um único ponto.
Dentre as incontáveis almas que encontrara até aquele momento, era a primeira vez que conseguira enxergar perfeitamente um rosto. Podia observar cada pequeno detalhe da meiga face de uma garota. Ela tinha seus negros olhos com traços coreanos, e marcados por olheiras, também voltados para o chão, assim como todos os outros vultos. Ela pareceu não notar sua presença, mas Peter sabia que tratava-se de alguém diferente. Sem ao menos conhecer a menina, que aparentava ter aproximadamente 15 anos de idade, Peter conseguia sentir que, mesmo sendo muito jovem, a pobre alma carregava consigo muito peso emocional e dor. Talvez esse fosse o motivo pelo qual destacou-se tanto ao ponto do bruxo conseguir enxerga-la decentemente, observando-a de longe. Foi então, que o nome que ouvira antes em sua mente voltou a iluminar-se: Anna Saeger.
O rapaz poderia ficar refletindo e penando sobre a pobre alma de Anna por horas, se não acabasse de tornar-se o mais novo fugitivo da Morte, que se aproximava rapidamente, fazendo-o despertar de seu transe. Precisava tomar uma decisão urgentemente.
O frio aumentava cada vez que o vulto negro aproximava-se mais de si e não hesitou em correr para onde a menina caminhava lentamente. A adrenalina tomou conta da alma de Peter, ainda mais com o gélido sopro da morte extremamente próximo. Enquanto fugia, por pouco, as frígidas garras da morte não agarraram seu espírito, e Peter conseguiu ser mais rápido: Agarrou um dos braços de Anna, que finalmente despertou e fixou seus olhos nos do garoto. Invertendo a maneira como chegara até lá, Peter deu um impulso para trás, sem soltar a garota de sua mão e, sentiu como se estivesse caindo em um buraco infinito. Contudo, não a soltou de maneira alguma, sem se importar com o tamanho da queda.
A Morte, terrivelmente furiosa com o bruxo, tentou segurar Anna, para impedir que a alma fosse levada de seu destino natural, entretanto, ele já havia caído em meio ao nada e, não importava o quão longe ela tentava esticar seu esquelético braço, não conseguia alcança-los. Peter a encarava. A morte possuía várias formas: Em certos momentos, não era nada mais do que um esqueleto com algumas vestes negras, contudo, outrora assumia rostos familiares, como os de grandes nomes da história que ficaram famosos como responsáveis por terríveis crimes ou mortes em massa. Mas não era só isso, Ela também assumia rostos de conhecidos próximos, como o de sua mãe, pai e até avô. Uma figura mostrou-se ainda mais familiar: Peter conseguia enxergar seu próprio rosto, como se fosse ele próprio tentando salvar a alma de Anna de um bruxo intrometido. No fundo, o jovem sabia que enxergava apenas seu destino e que, uma hora, iria tornar-se igual a todos os outros que encontrara: Apenas um fantasma esperando por seu destino final. Estava simplesmente encarando uma triste realidade que o futuro lhe reservara, assim como para todos os outros seres humanos.
Quando os olhos de Peter finalmente desviraram-se e sua alma voltou a habitar o corpo caído, o bruxo sentiu como se estivesse sem ar e precisou de alguns minutos para fazer sua respiração voltar ao normal.
Encarou o antigo papel de feitiçaria, que impressionantemente havia funcionado, embora a experiência não tenha sido uma das mais divertidas. Dobrou a página e a guardou no bolso da calça, como havia feito da primeira vez.
Seus olhos voltaram para o corpo de Lara, que repousava tranquilamente na cama. Tentava assimilar tudo o que ocorreu, repleto de dúvidas em sua mente: Será que a alma de Anna conseguiu voltar junto a ele? Se a resposta fosse “sim”, então precisaria de um receptáculo, utilizando provavelmente o corpo mais próximo que encontrasse.
Com esse pensamento, o jovem aproximou-se lentamente de Lara, com certo receio do que encontraria, contudo, ansioso para descobrir se sua intuição estava certa. Abaixou-se próximo á garota e retirou os longos cabelos que lhe cobriam os ombros. Posicionou suas mãos trêmulas no delicado pescoço da jovem, pronto para analisar se havia algum sinal.
Pouco tempo depois, Peter tinha toda a certeza do mundo. Já havia conferido diversas vezes e estava pronto para arcar com o resultado: Lara estava viva.
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