Hipnotizados

28 (Des) união


Noah e Peter conversaram por horas. Querendo ou não, ambos haviam acabado de criar uma nova amizade. Tinham muito em comum e Noah, como bruxo mais experiente, estava disposto a ensinar tudo o que sabia em relação à feitiçaria para o garoto.

—Estou faminto. –Peter já não tinha muitas forças para manter uma conversa descente. Estava acabado.

—Nem me fale. –Noah, se acostumara com aquele trágico estilo de vida. –Mas daqui a pouco irão nos trazer comida. Bem, isso é se aquilo pode ser chamado de comida.

—Eles entram aqui?

—Sim, raramente. Alguns se oferecem apenas para apreciar as condições precárias deste lugar.

Peter raciocinou por alguns minutos. Se tudo ocorresse como o esperado, ele poderia dar um jeito de fugir. No entanto, precisava reunir toda a energia que ainda havia lhe restado.

Mais tarde, ouviram sons de fechaduras abrindo-se, além do rangido de portas. Logo, uma luz brilhou e por ela, um homem que vestia uma roupa elegante contendo o desenho de uma chama entrou carregando uma bandeja.

Primeiro, ele observou os dois bruxos acorrentados. Depois, agachou-se e deixou duas tigelas de comida no chão sujo. Enquanto deixava o alimento, Peter concentrou-se o máximo possível no homem. Sentiu dores de cabeça e tontura, porém, sabia que não poderia desistir em um momento tão oportuno quanto esse. Imaginou o membro da associação levantando-se vagarosamente, como se fosse seu avatar em um vídeo game. Imaginou que tivesse posse sob seu corpo, como uma espécie de marionete viva.

Tudo continuou igual até que ele finalmente começou a obedecer, inconscientemente, às ordens que o rapaz lhe dava. O bruxo o fez andar para frente e para trás, acelerando a velocidade cada vez mais para testar, ganhando posse quase total do corpo do indivíduo. Se treinasse por mais algum tempo, com Noah o auxiliando, logo iria alcançar a capacidade de controla-lo por completo.

Estava se divertindo com as expressões de dúvida e medo no rosto do homem. Contudo, não podia ficar brincando por muito tempo. Fez com que ele retirasse forçadamente as algemas dos dois bruxos, que possuíam horríveis marcas vermelhas causadas pelas mesmas. Sentiu um fio de sangue escorrendo de seu nariz quando utilizou grande força para fazer com que o senhor a sua frente socasse seu próprio rosto, desmaiando depois de certo tempo.

Noah assistia impressionado, enquanto remexia suas mãos, acordando-as depois do longo período que passaram presas. Fez um movimento como se estivesse prestes a estalar os dedos e uma chama de fogo surgiu. Como sentira saudades daquilo. Depois, observou o corpo inconsciente jogado no chão e voltou-se para Peter:

—Como você...?

—Eu controlo pessoas. Esse é o meu poder. –Nunca havia ficado tão feliz ao dizer algo. Pela primeira vez na vida, sentiu-se realizado ao invés de inútil. Sua mãe havia sido uma manipuladora de objetos e ele, um manipulador de humanos.

Noah sorriu, pegando a comida e oferecendo um pouco para o rapaz. Sem perder tempo, os dois correram, ainda alimentando-se, em direção aos corredores, preparados para atropelar tudo o que estivesse atrapalhando o caminho.

☼ ☼ ☼

Após vários gritos, perseguições, pessoas se auto espancando e alguns inícios de incêndio, Peter e Noah já conseguiam enxergar a saída. Estavam na maior sala do prédio, a de recepção.

—Espere. –Peter parou de correr. –Precisamos encontrar Lana.

Noah não queria desperdiçar tempo arriscando-se desta maneira, principalmente porque não fazia ideia de onde a garota estava. Porém, conseguia compreender a necessidade do mais novo e concordou em ir busca-la.

Quando se preparavam para voltar, algo os pegou de surpresa. As pessoas presentes no local haviam feito uma estratégia, esperando com que os dois chegassem à recepção para, deste modo, cerca-los. Estavam bem armados e barravam todas as saídas. Um deles chamou por reforços ao ligar para a polícia.

Os bruxos, cercados, analisavam a situação. O batimento cardíaco de ambos estava tão acelerado que quase poderia ser ouvido de longe.

—Peter, — O mais velho tentava mexer o mínimo possível seus lábios. Um movimento errado poderia iniciar facilmente um tiroteio. –Precisamos sair daqui. Agora.

—Não posso deixar Lana.

—Estamos encurralados. Reforços estão chegando, não iremos conseguir partir.

Peter ficou calado. A situação estava tensa e Noah não conseguia esperar mais. Já havia esperado por muito tempo.

—Escutem. –Um representante armado da associação tentava propor uma solução pacífica. –Vocês podem voltar de onde vieram calmamente, não iremos atirar. Vamos acompanha-los e ninguém se machuca, entendido?

Noah gostaria de fazer várias coisas em sua vida, mas voltar para aquela prisão? Definitivamente não era uma delas.

Ignorando todos os tipos de acordo possíveis, Noah formou uma enorme barreira de fogo, em forma de meia lua. Puxou Peter para a saída, onde precisou incendiar o rosto de mais algumas pessoas que não sabiam o que fazer e tremiam de medo. Por muito pouco, não acabaram levando alguns tiros.

Sentiu-se na obrigação de aumentar a intensidade do incêndio, mas foi impedido por Peter.

—Espere, ela ainda está lá dentro!

Lembrando-se do detalhe, Noah se conteve. Peter continuou:

—Eu vou ir busca-la.

O rapaz quase entrou na sala repleta de fogo, quando o outro bruxo puxou-lhe de volta.

—Não temos tempo para isso, precisamos ir embora!

—Você não pode fazer isso!

—Preste atenção, — Estava ofegante e desesperado para partir. -Quando a situação se acalmar, nós voltaremos aqui e buscaremos Lana. Eu prometo. Mas agora precisamos sair desse lugar

Dependendo de Peter, ele voltaria; Mas Noah o obrigou a utilizar a razão e ele acabou cedendo. Correram o mais rápido possível enquanto os membros da instituição se juntavam para apagar as chamas. Seu logotipo, pela primeira vez, fez jus ao local.

Peter manteve em mente a promessa de que voltaria para resgatar Lana.

☼ ☼ ☼

Os bruxos chegam exaustos na casa de Anúbis, onde o grupo estava reunido e os recebeu com surpresa.

—Peter! O que aconteceu com você?! –Matt foi o primeiro a recebê-los e, sem hesitar, apontou uma arma para Noah. –E quem é esse cara?

Peter não conseguia falar. Correra tanto para chegar até este lugar, que já não conseguia respirar e precisou de certo tempo para que seu corpo se estabilizasse.

—Está tudo bem, Matt. Esse é o Noah, ficamos presos em uma espécie bizarra de porão da AMCB. Ele também é um bruxo e, assim como eu, está correndo perigo. Mas essa é uma longa história.

—Bruxo, hein? –Indagou Charlie. –Eu continuo sem entender que espécie de codinome é esse, mas o bagulho deve ser serio mesmo. Aliás, — Sorriu. –Bom te ver de novo, cara.

—Igualmente. –O rapaz sorriu de volta. –Sabia que a cadeia não era o suficiente para te manter preso.

—Sem sombra de dúvida! –Margot, prestativa, ofereceu copos de água para os bruxos, que aceitaram imediatamente e depois se dirigiu a Noah. –Seja bem-vindo. Se o Peter confia em você, então acho que nós também podemos.

—Eu agradeço a cortesia. –Noah já estava vermelho pela corrida, contudo, agora também estava embaraçado. Há muito tempo não havia sido tratado bem, principalmente por uma mulher que considerou tão bonita.

—Não foi difícil escapar. Os mesmo “truques” de sempre. –Esclareceu Anúbis. –Mas tenho que admitir, a ajuda de Margot e Matt foi indispensável.

—E suicida! –Hector lembrou-se dos detalhes. –Matt quase nos matou disparando a arma daquele jeito. Por pouco conseguimos sair e, sorte que encontramos o Charlie no caminho.

Matt deu de ombros. Estava satisfeito com o estrago e não via problema algum no que fizera.

—Sorte mesmo. –Concordou o chacal. –E não seria nada legal encontrar Amelie enquanto eu estivesse tentando fugir de suas sessões.

—Não é?! –Alegrou-se Margot. –Eu finalmente dei um jeito naquela ingrata.

—Ei, não precisa falar assim. –Sorriu levemente. Conhecia os sentimentos de ódio que Margot sentia por Amelie.

—Qual é o problema? Ela finalmente teve o que mereceu. Agora não tem mais ninguém para interromper.

—É, valeu mesmo por ter distraído ela aquele dia. Realmente me ajudou a escapar.

Aquele e o resto dos dias. Ainda bem que nunca mais vamos precisar olhar para aquela cara emburrada de novo.

—Margot... Acho que você está exagerando um pouco.

—Exagerando? Nem um pouquinho. Estou muito feliz, isso sim.

Todos puderam sentir que um clima de tensão espalhou-se pelo local. Anúbis tentava não acreditar no que seus instintos diziam, enquanto Margot, em sua ingenuidade, continuava ignorando a tremenda besteira que fizera.

—Margot... –Tentou falar calmamente, afinal, tudo poderia se tratar de um mal entendido. –O que exatamente você fez com Amelie?

—Achei que já estava mais do que óbvio. –Sorriu, contente com o feito. –Eu a matei.

Por um minuto, o mundo de Max pareceu despencar. Realmente, ele havia perdido a verdadeira Amelie há muitos anos, mas era como se ela ainda estivesse lá, em algum lugar, apenas esperando para ser reencontrada. E Margot acabara de exterminar sua única esperança.

—Você enlouqueceu?! –O grito foi tão alto e feroz que surpreendeu todos que assistiam a cena. –Quem disse que você tinha o direito de fazer isso?!

—... Mas... Maxxie... –Margot tinha lágrimas nos olhos. Mesmo se conseguisse falar, não sabia o que dizer. As palavras estavam entaladas em sua garganta, junto de alguns soluços. Anúbis nunca agira daquela maneira com ela, o que a fez sentir-se a pior pessoa do mundo.

—Fica quieta! Você sempre acha que sabe o melhor pra todo mundo, mas não sabe! Não sabe nem o que é melhor pra você!

—Aquela mulher estava te manipulando! –Finalmente, a morena reuniu forças para revidar, com lágrimas em seu rosto. –Ela queria te alienar e você, mesmo sabendo que era impossível que ela voltasse ao normal, continuou correndo atrás como um cachorrinho.

—Não fale desse jeito! –Era impossível medir quem gritava mais.

—Você sempre foi um cego que nunca soube ver o que realmente estava acontecendo ao seu redor. Amelie não era mais a garota que você conheceu no passado e nada no mundo poderia mudar isso. Ela só estava causando mal a você. Mas eu não. –Diminuiu um pouco o tom de sua voz, enquanto se emocionava ainda mais. –Eu sempre te amei pelo que você é. Faria de tudo para que você se importasse comigo desse jeito.

—Eu nunca ficaria com uma maluca feito você! Não me importo com o fato de você sempre ter odiado Amelie e até posso entender esse seu ciúmes doentio, mas o que você fez... Margot, você é a pior pessoa que eu já conheci na minha vida.

O coração da mulher se partiu em mil pedaços. Ela já não tinha forças para defender-se.

—Charlie...

Hector tentou acalmar Anúbis, encostando levemente em seu braço, mas o chacal soltou-se violentamente e saiu da casa como um furacão. Poderia estar chorando, mas, geralmente, ele expressava seus sentimentos com fúria ao invés de lágrimas.

Margot foi correndo em direção ao quarto, onde bateu a porta com toda a sua força e se trancou. Mesmo com as paredes, era possível ouvir seu choro.

O clima ficou pesado entre os quatro restantes.

—Eu vou falar com Max. –Peter quebrou o silêncio. –Mas não agora. Ele precisa de ar fresco.

—Bem... –Matt não sabia como reagir àquilo tudo. –É melhor eu ir. Apareço outra hora para conversarmos. Se precisar de ajuda, me chame.

Peter fez um sinal de positivo com a cabeça e Matt tocou seu ombro, em apoio. Hector também se despediu e foi para casa, arrasado.

☼ ☼ ☼

Mais tarde, Peter foi procurar Anúbis.

O chacal estava sentado no chão, pensativo, observando a luz do sol entre as árvores. Percebeu quando Peter estava chegando, pois ele quase caiu ao tropeçar em algumas pedras soltas.

—Ei, cara. –Disfarçou.

Não obteve resposta e também não exigiu por uma. Sabia que precisava respeitar o espaço de Anúbis, principalmente em uma situação como essa. Entretanto, queria ajuda-lo e demonstrar que estava ali.

—Não se esqueça de tomar cuidado. As pessoas podem vê-lo aqui. –No fundo, ainda estava preocupado com Lana, mas não podia deixar de entender a situação do amigo.

Absolutamente nada. Nem uma troca de olhares.

—Sabe, — Continuou o jovem. –Eu sei que você pensa que eu sou um maluco, mas, bem... Agora eu posso provar que não sou.

O bruxo se concentrou por alguns instantes e, magicamente, os braços de Anúbis ergueram-se sozinho. O garoto estava realmente pegando o jeito, já que dessa vez não precisou de tanta força para “ativar” seus poderes.

Anúbis finalmente exibiu uma expressão (incredibilidade) quando um de seus dedos enfiou-se involuntariamente em seu nariz.

—Como você fez isso?! –Perguntou enquanto tentava, sem sucesso, retirar o dedo.

—Meu poder é a manipulação de humanos. Eu consigo manipular pessoas do jeito que eu quiser, como se fossem marionetes.

—Só pode ser brincadeira... –Refletiu por alguns instantes. –Engraçado... Eu não me lembro de ter tomado nada antes de chegar aqui.

—Você está totalmente sóbrio. –Sorriu, fazendo Max dar leves tapinhas eu seu rosto.

—Ai, não faz isso!

—Não pude evitar. –Riu o garoto.

O bruxo sentou-se ao lado do mais velho, que não sabia se dava mais atenção ao fato de Peter ser um feiticeiro de verdade ou ao fato de Margot ter matado Amelie a sangue frio. Se bem que, depois de a morena ter feito algo como isso, ele podia acreditar em qualquer outra coisa.

—Sabe... –Continuou Peter. –Se você quiser, eu posso procurar a alma de Amelie no Mundo dos Mortos. Posso tentar trazê-la de volta.

Oferta tentadora, entretanto, ele não respondeu. Ficaram em silêncio durante longos minutos até que Anúbis finalmente pôs-se a falar.

—... Não.

—Disse algo? –Peter nem mesmo se lembrava do que havia perguntado.

—Eu não quero que você busque a alma de Amelie. Odeio o fato de Margot ter sido tão radical, mas em uma parte ela tem razão: Amelie nunca mais será a mesma.

Peter compreendeu a situação. Manteve silêncio.

—Mas eu... –O chacal queria continuar e Peter voltou sua atenção para ele. -... Eu não serei capaz de perdoar Margot. Eu... Eu não sei o que fazer.

—Tire um tempo. –Disse Peter, chamando a atenção de Max para ele. –Fique longe e descanse sua cabeça, reflita. Vai te fazer bem. Se mesmo assim não melhorar, procure focar em alguma coisa. Algum antigo sonho ou objetivo. Talvez até consertar algum problema incômodo. Tenho certeza que isso vai ajudar.

—Precisamos pegar aqueles malucos do manicômio.

Peter riu.

—Aquilo é problema meu. Você já me ajudou demais. Além disso, eu sei que com meus poderes novinhos em folha, consigo me virar sozinho daqui pra frente. Venha. –Ele levantou-se e puxou Max, que era mais pesado do que ele imaginava.

—Você tem certeza?

—Absoluta. Além disso, Noah será uma grande ajuda.

Anúbis sorriu, embora não parecesse realmente feliz. Ele aproximou-se de Peter e o abraçou como se fossem amigos de longa data. O garoto pensou que ouviria um “obrigado” ou então “se cuida”, mas isso não fazia o estilo do chacal.

—Te vejo por aí.

☼ ☼ ☼

Margot estava em prantos. Embora tenha se divertido muito matando Amelie, deixara suas emoções tomarem conta de si. Somente agora compreendera o quão irracional sua atitude foi, porém, já era tarde demais. Só queria que Max desse atenção para ela e correspondesse seus sentimentos. Infelizmente, todas as suas chances de conseguir algo com ele haviam sido completamente eliminadas.

Alguém bateu na porta e Margot enxugou as lágrimas. Todos sabiam que ela estava péssima, contudo, a morena não gostava de demonstrar fraqueza.

Noah entrou no quarto com um copo d’água e alguns petiscos que encontrou no armário. Quando Margot olhou para ele, com seus olhos vermelhos e inchados, embora toda a sua maquiagem estivesse escorrendo, ele ainda achou que ela estava bonita.

—Tome. –Lhe entregou as coisas que trouxera. — Você precisa comer algo.

Margot aceitou tentando sorrir para disfarçar, mas isso deixou apenas mais evidente sua vontade de chorar. Colocou um biscoito na boca, porém, sem forças para mordê-lo. Decidiu apenas beber um pouco de água.

Noah não disse mais nada. Não podia compreender o sofrimento da moça, mas sabia o quão difícil essa situação estava sendo para ela. Sentiu pena de Margot. Seus pais o ensinaram que era inadmissível deixar alguém chorando dessa maneira. Ficaria ao seu lado o quanto precisasse.

Margot conseguiu segurar suas lágrimas, mas a dor continuava a mesma. No fundo, ficou imensamente agradecida por Noah estar ao seu lado, confortando-a sem ao menos conhecê-la.

Ficaram quietos por um tempo, até que o bruxo decidiu o usar o tecido da própria camisa para limpar o rosto de Margot. A mulher ficou confusa, porém, encantada com a bondade de Noah, que deixara sua roupa com uma enorme e escura mancha de maquiagem. Aquilo definitivamente não sairia tão fácil.

—Obrigada, Noah. –Agradeceu. Estava, de fato, lisonjeada e não conseguia impedir que mais algumas lágrimas escapassem. –Você é um cavalheiro.

—É. –Concordou, sorrindo. –Eu não sou desta década.

Pela primeira vez desde a briga com Anúbis, Margot finalmente conseguiu sorrir de verdade.

O bruxo disse que Peter havia acabado de sair à procura de Max e que, em breve, os dois estariam de volta. Também se ofereceu para acompanha-la até em casa.

Margot terminou de beber sua água e aceitou a oferta. Ao contrário de Anúbis, Noah era prestativo e gentil o que fez ela se sentir bem ao seu lado.

☼ ☼ ☼

Já era noite quando Hector esvaziava suas garrafas de vinho. Não havia nem mesmo trocado de roupa: Usava seu terno, gravata e sapato formal. Eram tantas as coisas que passavam por sua cabeça: O fracasso na carreira, briga entre Anúbis e Margot, Matt atirando em um advogado para ajuda-lo... Não que ele se preocupasse com o advogado, claro, mas não podia deixar de pensar no quão arriscado aquilo tinha sido.

Não podia acreditar no que havia acontecido entre seus amigos. Era a primeira vez que vira Anúbis agir daquele jeito, o que o deixou assustado. Alimentava, de alguma maneira, uma imagem que construíra de Charlie e que agora havia sido corrompida ao presenciar aquela cena. Tomou mais alguns goles de vinho.

Sentia-se sozinho. Não tinha ninguém para desabafar ou apoiá-lo. Alguém que, até mesmo poderia fazê-lo se sentir uma pessoa melhor. Por muito tempo, idealizou Charlie como essa pessoa; a partir do momento que viu como ele era uma pessoa incrível que o fez sair da rua. Até mesmo recuperou sua posição como advogado para ajuda-lo, o que talvez não tenha sido muito eficaz. Apesar de todo o estresse, não podia negar que adorava os shows de Anúbis no tribunal. Queria poder contar com Charlie não só para cenas como essa. Infelizmente, o chacal não era o tipo de amigo que te deixa chorar no ombro.

Tomou mais alguns goles de vinho, que começava a fazer efeito em seu corpo. Estava prestes a aceitar o fato de que já poderia chorar sozinho, quando se lembrou de alguém.

☼ ☼ ☼

Matt limpava uma de suas pistolas em seu apartamento, quando ouviu uma voz conhecida. Deixou a arma na mesa e foi até a janela. Quando olhou para baixo, não acreditou no que estava acontecendo.

—Matt! –Gritava Hector. Estava completamente bêbado e ainda segurava uma garrafa de vinho quase vazia. –Matt, me deixa entrar!

—O que você está fazendo aqui?! Meu Deus... Você está caindo de bêbado.

—Matt! –Soluçou. Já não sabia o que estava falando. –Abre a porta!

Matt estava impressionado. Apesar de ficar bêbado com frequência, Hector nunca se deixara passar por uma situação como essa. Não podia deixa-lo passar por mais humilhação.

Desceu até o térreo e saiu para ajudar o amigo, pegando a garrafa de sua mão e tomando o resto. Jogou-a na rua logo em seguida.

—Cara, nunca vi você desse jeito. –Admirou-se ele, ajudando Hector a andar. –O que aconteceu?

—Matt... –As letras se embaralhavam quando tentava falar. –Seu cabelo foi sempre tão vermelho assim?

Matt riu.

—Ok, nada de perguntas.

☼ ☼ ☼

Quando finalmente chegaram ao quarto de Matt, depois de um pouco de trabalho, Hector se jogou na cama.

Matt foi para o espelho e arrumou seu cabelo meio-castanho-meio-ruivo. O pseudo advogado havia bagunçando-o quando quase caiu pela quarta vez. Depois, pegou um pouco de uísque e sentou-se ao lado do outro.

—Foi a briga, não é? –Perguntou Matt, mas não obteve resposta. –Eu sei o quanto você era apegado ao Anúbis.

—Você não entende.

O ruivo terminou sua bebida e levantou-se para pegar mais. Quando se virou, Hector estava tentando manter-se de pé, mas não conseguia. Ele tomou a dose em um gole e correu para ajuda-lo, mas o homem recusou a ajuda e quase caiu de novo.

—Deixa de ser teimoso!

—Me deixe ficar sozinho, Matt. A minha vida sempre foi solitária mesmo.

—É, eu sei. –Ele concordava sem ouvir, estava focado apenas em tentar manter o equilíbrio de Hector.

—Não, você não sabe! –Afastou o outro para longe. –Ninguém sabe. Eu sempre fui sozinho, apenas correndo atrás e imaginando como seria uma vida perfeita ao lado de alguém que me entende e que eu sei que sempre vai estar lá, mas o problema é que esse alguém nunca está. Eu cometi erros? Sim, muitos. E o pior deles foi ter acreditado que algum dia eu iria ficar com alguém sem sentimentos bons.

O bêbado de terno não parava de falar. Matt sabia muito bem que Hector tinha uma queda por Anúbis, afinal, ele era bom em reconhecer esses tipos de sentimento com o público masculino. Sabia também que precisava fazê-lo calar a boca de uma vez e se acalmar, mas, ao mesmo tempo, se sentia na obrigação de demonstrar que Hector não estava sozinho. A primeira ideia que lhe veio à cabeça era um tanto arriscada e, de certo, causaria problemas para ele. Contudo, era assim que o ruivo gostava que as coisas fossem. Caso desse errado, ele colocaria a culpa da bebida.

Hector parou imediatamente de falar quando Matt o puxou pela gravata, beijando-o.

—O que você está fazendo? Não podemos...

—Hector, estou cansado desse seu jeito medroso. Será que da pra você ser quem realmente quer apenas por um tempo?

Se estivesse sóbrio, o advogado iria refletir por um bom tempo. Matt sempre fazia o que quisesse, sem se importar com nada ou ninguém. Já ele era totalmente o oposto: Era movido pelo medo e vergonha de fazer algo errado e sentia-se sempre um perdedor. Por esse motivo abandonou a carreira e foi para a rua, pois não aguentou a pressão de ser obrigado a se encaixar em todos os padrões. Tinha medo de falhar.

—Só por um tempo, ok? –Continuou Matt, tentando convencê-lo.

Como estava bêbado, Hector não conseguiu pensar muito, então, apenas deixou Matt tomar conta da situação; E só iria descobrir se isso era bom ou ruim quando amanhecesse.

☼ ☼ ☼

Ao voltar para a casa de Anúbis, Peter encontrou Noah sentado no sofá, esperando por ele. O mais velho havia feito a barba e agora parecia muito mais jovem.

—Levei Margot para a casa dela.

—Obrigado. –Agradeceu o garoto, sentando-se ao seu lado. –Anúbis provavelmente vai chegar daqui a pouco para pegar suas coisas e partir.

—Ele vai embora?

—Esfriar a cabeça. Falei que deveria se concentrar em coisas que ele gostaria de fazer.

Ficaram em silêncio por alguns minutos e Peter observou Noah brincando com chamas que brotaram de seus dedos. Isso o lembrou dos assuntos dos quais ele mesmo precisava cuidar.

—Noah... Eu sei que o clima está bem tenso por aqui e que acabamos de sair daquele lugar horrível, mas eu preciso voltar. Lana ainda está presa e Jorah ainda tem o comando da AMCB.

—Eu entendo perfeitamente. –Apagou o fogo com praticidade.

—Você não se importaria se partirmos hoje? Digo, tudo bem se você não quiser ir. Mas eu preciso e a verdade é que não sei se consigo fazer isso sozinho.

Noah levantou-se e foi para a porta, deixando Peter. O rapaz imaginou que o mais velho, de fato, não queria ir. Compreensível, lembrando que ele havia ficado preso naquele lugar por anos. Mas então, ele voltou.

—Você vem ou não? Estamos perdendo tempo.