Hipnotizados

2 Chamas em vinho


Notas iniciais
Boa leitura!

Helena arrumou alguns lápis e cadernos dentro de uma simples bolsa de pano e foi para a escola.

Nunca havia assistido a uma única aula em sua vida. Sua mãe lhe ensinara algumas contas de matemática, além de ler e escrever, de modo que a garota pudesse ler livros sobre história, ciências e outras matérias comuns para os alunos. Mas agora a situação estava diferente: Funcionários responsáveis pela cidade decidiram fazer uma visita à vila (lugar que já não lhes agradava muito, por ser separado do município) e alertaram às mulheres com filhos em idade escolar, que todos deveriam ir à escola e caso desejassem, também poderiam cursar uma faculdade de sua preferência.

Sem mais opções, as crianças foram matriculadas em diferentes colégios, visto que nem todos possuíam vagas. Helena conseguiu entrar em um local simples, porém, segundo os responsáveis de atuais e ex-alunos, atendia ao esperado no quesito educação e desempenho dos estudantes.

Em seu primeiro dia de aula, a garota estava muito ansiosa, não sabia como era a rotina de estudar todos os dias ao lado de tantas pessoas diferentes. Caminhou bastante até chegar ao prédio em que assistiria às aulas mais tarde e observou atentamente os detalhes daquele novo lugar.

Assustou-se ao ouvir um barulho muito alto, mas logo percebeu que aquele era o sinal para que todos entrassem em suas devidas salas de aula, então, seguiu seu caminho. Antes que a professora chegasse, a garota pode notar que seus novos colegas eram um pouco mais novos, mas pela prova que fizera, essa foi a série mais avançada em que conseguiu entrar, o que já estava ótimo, tendo em vista de que ela não possuía nenhuma experiência escolar.

Um grupo de garotos se aproximou, então, Helena pensou que eles talvez fossem cumprimentá-la ou até mesmo dar as boas-vindas, mas não foi exatamente o que aconteceu.

–Olhem só o que temos aqui. –Disse um deles, que parecia ser o líder do grupo. –De onde você veio, menina? Com essas roupas parece uma daquelas pessoas esquisitas que vivem viajando por aí ou então ficam no mato. Aposto que você também não toma banho, acertei? –Os outros garotos riram, assim como ele. –Ah, me desculpe. Você deve falar só com os animais, então não está entendendo o que eu falo.

Helena não sabia se deveria falar algo, ou ao menos o que poderia falar. Estava totalmente constrangida em meio aos risos em sua volta, então tudo o que conseguiu fazer foi ficar em silêncio e abaixar sua cabeça, evitando os olhares para si. Pensou que aquilo pudesse fazê-la se sentir um pouco melhor, mas, infelizmente, seu poder não envolvia invisibilidade.

Foi então, que uma voz diferente surgiu no círculo que os alunos haviam formado:

–Você deveria virar comediante. Mas por que não a deixa em paz? Todos já se divertiram muito por hoje.

–É mesmo? E por que você não fica quieto? Isso não é da sua conta. –Respondeu o líder do grupo.

–E o que te faz pensar que é da sua?

Nesse momento, um silêncio tomou a sala. Todos prestavam atenção no que acontecia no meio do círculo que haviam feito.

–Ouça, eu não vou perder meu tempo com um branquelo insignificante como você, entendeu? –O menino passava os dedos por seu cabelo castanho claro e cacheado enquanto ficava levemente avermelhado pela irritação. –E esse seu cabelo é tão liso que você deve ter passado ele junto com suas roupas. Eu te achava um cara legal, mas você não passa de um convencido por ser o mais novo daqui.

Alguns risos puderam ser ouvidos, mas o garoto de cabelos lisos e escuros tinha uma expressão de questionamento em seu rosto. Nunca havia encontrado motivos para acreditar que isso era uma ofensa. Sequer prestara atenção nisso algum momento. Entretanto, em uma provável discussão, estava claro para ele que seu “rival” estaria à procura de quaisquer argumentos que o deixassem por cima da situação. Antes de continuar, ele riu leve e brevemente.

–Posso compreender como se sente. Talvez o meu cabelo seja realmente muito liso, ou até mesmo posso pegar um câncer de pele só por andar no pátio em um dia de sol. –Ele pode ouvir risadas do público antes de continuar. –Mas veja bem, não sou eu quem está vermelho neste exato momento. É natural que as pessoas comecem a apontar diferenças entre si quando seus “argumentos” se esgotam, antes que explodam com sua raiva. Mas levando em conta o tom pior que o de um tomate em você, não sou eu quem precisa esconder o rosto agora.

Vários alunos gritaram e riram em reação à resposta, fazendo assim com que a professora, que estava no meio do caminho, se apressasse para entrar na sala de aula. Muitos tinham vontade de desafiar o “valentão” da sala, mas quase nenhum era corajoso o suficiente para isso, como Fred acabara de fazer.

–Silêncio! –Gritava a responsável pelos alunos. –Todos sentados, a aula já vai começar.

Helena sentou-se na última cadeira de uma das fileiras (o único lugar vazio) e observou o garoto que a defendera mais cedo, que estava em outro canto. O barulho repentinamente alto soava novamente: Hora do intervalo.

Fred tomava um suco sentado sozinho em um banco quando a garota aproximou-se.

–Obrigada por hoje. –Disse ela, envergonhada. –Você não precisava ter feito aquilo.

–Aquele menino é um babaca. –Ele tomou mais um gole de seu suco antes de continuar. –Alunos novos são suas principais vítimas, mas todos nós precisamos aprender a lidar com ele.

Ninguém falou mais nada, até que o menino afastou-se para uma ponta do banco, deixando o resto livre para que Helena pudesse se sentar.

–Meu nome é Freddie, mas pode me chamar de Fred.

–Sou Helena.

Os dois se cumprimentaram e ficaram por ali até o fim do intervalo, sem muitas palavras.

Durante a última aula do dia, Helena encontrou um tempo livre para desenhar no final de seu caderno. Havia lido um pequeno livro, que encontrara pelas ruas, este que narrava as aventuras de uma pequena bruxa e estava repleto de ilustrações. Definitivamente, os poderes que a personagem possuía eram muito diferentes se comparados aos que a garota tinha e convivia, ainda assim, ela gostava muito da história e das ilustrações.

De repente, a professora anunciou que certos profissionais da prefeitura responsável pela cidade estavam na escola e passariam pelas salas conferindo se estava tudo em ordem. Logo após a notícia, homens de terno preto e grava cor de vinho entraram na sala, mas quase todos os alunos estavam distraídos e não se importavam muito com eles. A bruxa os observou, até que um deles se aproximou de sua carteira e um arrepio percorreu dos pés até a ponta de seus longos cabelos cacheados, ao notar um símbolo discreto na gravata do sujeito: Uma chama que lhe era familiar. Evitando o contato com o homem, voltou o olhar para seu caderno, as batidas de seu coração aceleraram mais que o normal. Lembrou então, o motivo pelo qual não poderia em hipótese alguma exibir seus poderes para qualquer pessoa que não fosse de sua família, e também a razão por sua mãe ter adiado o máximo que pode sua ida à escola.

A pequena chama bordada no tecido da gravata, assim como sua cor, eram símbolos de uma assembleia de pessoas que a garota havia ouvido falar durante toda a sua vida. E não se tratavam de histórias muito agradáveis de serem ouvidas.

Um grupo já é perigoso, mas ele se torna incontáveis vezes mais quando se torna algo mundial e onipresente. Seus membros poderiam estar em qualquer lugar: Desde pessoas comuns e aparentemente inofensivas em suas casas e empregos, até famosos e políticos no topo de seu poder econômico e influente.

Helena só conseguia pensar em quatro letras. Podia ter dificuldade em decifrar algumas palavras ou símbolos antigos, mas estas, quando juntas, se tornavam o pesadelo que a garota e todos os seus ascendentes vinham fugindo desde sempre: AMCB — Ou, para os íntimos, Associação Mundial Contra as Bruxas.

Ganhando uma monstruosa força na Idade Média, essa associação aniquilou centenas de bruxas (ou qualquer suspeita de bruxaria) e continuou com poder ao passar dos anos, apenas de maneira mais discreta e totalmente clandestina, condenada pela igreja (por quem já havia recebido apoio) e pelos direitos humanos, de modo que todos os membros e principalmente líderes precisem ser muito cuidadosos. Vários parentes da pequena bruxa foram mortos cruelmente por partes desse clã, no entanto, desafiá-los seria algo muito radical para uma minoria igual sua família, o que provavelmente levaria todas à uma morte trágica e dolorosa.

O coração da menina ameaçava “sair pela boca” quando o homem de gravata ficou ao seu lado. Ele colocou uma das mãos sobre a mesa e friamente arrancou a folha do caderno em que havia um desenho recente.

–Isso não é uma boa influência para você. –Dizia ele enquanto amassava o papel e após observar muito a garota, foi embora.

Após um suspiro de alívio depois que todos partiram da escola, ao toque do último sinal, a menina foi correndo para casa, observando se não havia sobrado mais algum membro da associação pelo caminho.

Chegando lá, sua mãe lhe disse que precisariam se mudar novamente, pois a AMCB estava investigando demais aquela região, levantando muitas suspeitas e não levaria muito tempo para tomarem alguma atitude indesejada.

Arrumando sua bolsa novamente, a garota se lembrou de Fred. Queria ter passado mais tempo com o menino e riu lembrando-se da discussão que havia causado. A cidade era realmente um lugar louco e interessante.

Não muito longe dali, Fred exibiu um pequeno sorriso ao lembrar-se dos principais acontecimentos do dia. Apenas não conseguia deixar de preocupar-se com a expressão de desconforto de Helena, durante a visita dos homens engravatados. Ele tinha estranhos pressentimentos sobre aquele grupo.

Notas finais
#Deixe um review e faça uma autora feliz Até o próximo capítulo o/