Himitsu
9 O filho de Atena
Notas iniciais
9 — O filho de Atena
Emanuel despertou e viu Frida usando roupas de treino e por cima uma manta de seda. Ela estava ao seu lado, acariciando seus cabelos.
–Mamãe...?
O pequeno não estava reconhecendo o quarto, muito mais bonito e luxuoso que o seu na casa de Gêmeos. Ele virou a cabeça, desviando o olhar para Frida e vendo Afonso sentado aos pés da cama, segurando uma tigela de prata com algo que o pequeno reconheceu pelo cheiro como uma boa sopa reforçada.
–Afonso...? — Emanuel chamava o rapaz pelo nome mundano.
Estava estranhando o carinho excessivo da amazona de Gêmeos. Frida pegou a tigela das mãos de Afonso.
–Você está fraco, ficou lutando direto. Então é hora de se alimentar. — e começou a servir a sopa, sob o olhar atento do jovem deus.
Afonso queria ter dado a sopa, mas achou melhor que Frida desse, pois teriam que ter calma para contar a verdade ao menino. Mas estava feliz, muito feliz em ter Emanuel como filho, ver ele assim, poder estar perto. Fez questão de fazer aquela sopa com o que aprendeu cozinhar no passado, quando era um simples estudante francês. E ele comia com gosto.
Sabia que jamais seriam uma família comum, mas ele, Frida e Emanuel ainda eram sim uma família.
Frida entregou a tigela a uma serva quando Emanuel acabou de comer. Ele olhou para Frida e perguntou:
–Ifrit disse que meus pais estão vivos... Mas como? Eles não morreram e você me achou, mamãe?
Ele viu a reencarnação de Atena e a amazona se olharem. Afonso tomou a palavra:
–Seus pais tiveram que se esconder para poder te proteger. Tiveram que mentir para você por que deuses malvados queriam te matar. Na verdade, sua mãe teve que fazer isso, pois era perigoso até seu pai saber disso.
O pequenino ficou encarando, uma expressão de assombro infantil.
–E onde está meu papai e minha mamãe de verdade?
Eles não responderam. Frida desviou o olhar e Afonso abaixou a cabeça.
–Eles morreram de verdade? Eles não estão aqui?
–Emanuel... — Afonso se levantou e foi para o outro lado da cama e o abraçou, fazendo ele olhar para seu braço. O risquinho azul das suas veinhas, Afonso percorreu aqueles traços com suavidade. — Você sabe o que é ikhor, não sabe?
–Sim... O sangue dos deuses... Parece com o nosso, mas é muito poderoso... Mamãe disse isso nos treinos.
–Certo... Você também tem ele nas suas veias. Seu pai é um deus e sua mãe uma mortal... Você é um semideus que Ártemis não aceitou por que foi uma quebra de promessa.
Afonso e Emanuel se encararam.
–Existem três deusas que juraram jamais se unirem a outra pessoa, jamais... casar, por assim dizer... Mas uma delas quebrou essa promessa. — continuou Afonso. — Ártemis, Atena e Héstia.
–Atena é você, ela voltou na forma de um homem. — disse Emanuel. Tão inocente, tão puro, como toda criança.
–Isso, "Afonso"... E se eu soubesse do que vou te contar há tempos... Jamais deixaria você achar que não tem pai e nem mãe. Mas sua mãe escondeu seu segredo.
A criança fez uma expressão de incrédulo. Finalmente sua pequena cabecinha fizera alguma ligação. Afonso em resposta sorriu de forma triste, fazendo carinho no rosto de seu amado filho.
–Você é meu filho, Emanuel... Você é um semideus, filho de Atena.
O pequeno ainda estava pasmo. Apenas olhou para Frida e viu que ela parecia meio triste, meio envergonhada.
–A mamãe... é a mamãe...?
–Sim... — respondeu Afonso, no lugar da amazona. — Sua mamãe precisou esconder isso de você e de mim...
–Então você é meu papai?
–Isso mesmo...
Emanuel começou a chorar. Estava um pouco confuso, mas tendo o sangue de Atena em suas veias, era de se esperar uma inteligência especial. Sabia que não precisava sentir raiva. E estava feliz. Afonso o envolveu num abraço, mas Emanuel puxou a manta que Frida usava, despertando sua atenção. Ela também o abraçou e ficou os três juntos.
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–Tive tanto, mas tanto trabalho para colocar Afonso em seu devido lugar e o que você me apronta, "Saga"? — suspirou Kiki, reclamando no trono.
Logo viu a figura de Kanon entrar.
–E você também, Kanon... Ajudando seu irmão nessa loucura, junto com Afrodite.
–Eu me arrependo disso. Mas ao menos pude parar a última mentira do meu irmão... ou melhor, irmã... — resmungou o espírito.
–A última mentira de Saga está causando uma guerra no Santuário. Àrtemis está feito uma louca atacando a gente. Vocês tem noção do que fizeram?
Kanon ia responder quando viram a figura de Frida entrar. Os dois ficaram encarando a amazona em silêncio, até o espírito quebrar o silêncio.
–Como está meu sobrinho?
–Tecnicamente ele não é seu sobrinho, Kanon. — respondeu rispidamente a mulher. — Afinal, nasci filha única nesta era.
–Dane-se, é meu sobrinho.
Frida o encarou, com os olhos queimando em fúria.
–Eu te atacaria... se isso fosse possível.
–Se isso fosse possível, emplacaríamos uma luta de mil dias. E não mudaria o fato daquele moleque ser meu sobrinho.
Kiki estava observando a discussão e teve que pigarrear para lembrarem que ele estava lá.
–Que você continuam se amando como irmãos isso não duvido, mas temos um passado todo bagunçado por vocês DE NOVO e um futuro a resolver. — disse o Grande Mestre. — Tsubasa já informou que a barreira não vai aguentar mais do que algumas horas. Já avisei todos os outros para ficarem atentos, faltava a "familia real".
Frida riu baixo. Uma risada de deboche bem no estilo que fazia em sua vida passada.
–Então, vamos fazer um estrago, Grande Mestre. Chutar a bunda de Ártemis e expulsar ela.
Afonso apareceu no recinto, já trajando sua armadura, acompanhado do pequeno Emanuel, todo trajado para uma possível luta. Frida convocou sua armadura.
–Chega de castigos, prisões e baboseiras... Se os próprios deuses não se emendam, não tem como exigirem que os humanos se emendem. Eu estou farto disso. — disse Afonso. — Frida, ficaremos os três juntos.
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A barreira, tal qual fora informado a todos os cavaleiros, se rompeu. Diversos soldados de deuses que se ofenderam com o nascimento de Emanuel e satélites de Ártemis invadiram o Santuário, sob comando da deusa da lua e da caça. Cavaleiros, soldados rasos e aspirantes se digladiavam. A luta era violenta e os cavaleiros de ouro observavam a massa dos guerreiros mais baixos atrasando outros de mesmo nível. Os mais poderosos logo viriam.
Suisshou, o primeiro dourado e pupilo do Grande Mestre seria o primeiro a recebê-los. Tinha ao seu lado Tsubasa, que conseguiu recuperar suas forças e ajudaria a diminuir o números de inimigos que subiria, trajando sua armadura divina. E eles não demoraram a chegar.
Suisshou lamentou que outros cavaleiros não tenham sido escolhidos para armaduras que foram banhadas em sangue de Atena no passado. Seriam excelentes aliados nas doze casas.
A luta começou e como previsto, um grupo conseguiu passar e assim sucessivamente, se filtrando pelas casas. O último grupo que conseguiu passar por Kalisto desabou no jardim de rosas.
Afonso estava aos pés de onde sua estátua ficava, enquanto olhava as batalhas. Se sentia mal de não ser ele mesmo lutando, afinal, dessa vez a luta não era pela humanidade, mas sim, pelo seu filho. Sentia o sentimento de seus guerreiros, que gostavam de Emanuel e ajudaria protegê-lo. Mas ainda era um problema dele.
Ironia ou não, Afonso sentiu o ar ser cortado e viu Ártemis sair daquele lugar, segurando seu cetro e trajando uma armadura completa.
–Parece que me esperava... — disse a deusa. — Não aceito que tenha vindo num corpo masculino! Isso é uma ofensa a nós, tríade de deusas donzelas.
–Você consegue ser óbvia as vezes, minha irmã. — o jovem deus era bastante sereno ao falar, mas firme. — E apesar do juramento, jamais odiei outros, seja homens ou mulheres.
–Me entregue sua criança. Ela precisa ser morta para apagar seu pecado.
Afonso elevou o cosmo, de modo agressivo.
–Ele é um humano, e como tal eu jurei proteger os humanos. Mas antes de tudo, é meu filho. — ele apontou Niké para a outra deusa. — Se tentar algo contra, com dor no coração, eu irei te matar, minha irmã.
–Deixe que eu a mate. Não suje suas mãos, Atena...
Frida surgiu ali, o cosmo queimando agressivamente, se colocando a frente de seu amado.
–A humana que te levou a decadência... Ah, me recordo de você no último tribunal... Saga de Gêmeos decidiu conhecer como é ser mulher?
–E vocês deuses, quando vão parar de ser hipócritas? Expulsaram Atena no meu julgamento por que não queriam que soubessem que iam me absolver. — Frida riu. — Vá a merda, Ártemis. Você e todos os outros deuses queriam que eu tivesse exterminado Atena!
–Como ousa, humano?! Vou te transformar em cinzas!
–Você também, minha irmã? Você também queria minha morte? — a reencarnação de Atena estava em chamas de fúrias. — JUSTO VOCÊ? COMO OUSA VIR AQUI, AMEAÇAR-ME, AMEAÇAR MINHA FAMÍLIA E MEUS GUERREIROS?
–Você abandonou sua divindade há tempos! Você não tem direito de me questionar! — Ártemis lançou uma rajada de cosmo, que Afonso retribuiu.
O ataque estava suspenso no ar, em equilíbrio. Até Frida se meter e ajudar a Afonso a ampliar o golpe. A massa de energia atingiu Ártemis. A deusa da caça voou longe até parar.
Frida queimava o cosmo com uma grande ferocidade. Ela mirou em Ártemis.
–EXPLOSÃO GALÁTICA!
Ártemis conteve o golpe. Teve dificuldades, mas logo reverteu para Frida, mas Afonso entrou na frente e colocou seu escudo para defendê-los. Ártemis transformou seu cetro num arco e se preparou para atirar uma flecha de energia.
Mas ao ser lançada, a flecha foi interceptada. Emanuel estava ali e queria se juntar a luta com seus pais.
–Veio aceitar seu sacrifício, fedelho meio-sangue? — disse Ártemis, um sorriso maldoso e arrogante ao olhar o pequeno sobrinho.
–Eu vim matar você, minha tia...
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A primeira casa estava limpa quando todos pararam de lutar. Sentiam o cosmo no templo de Atena e aquilo arrepiara. Tsubasa estava com uma expressão passiva, ao contrário de Suisshou de Áries, que demonstrava preocupação.
"Essa luta é sua Emanuel..."
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–Mas que vermezinho petulante!
Emanuel apenas observava sua tia com uma seriedade nada infantil.
–Emanuel... Estamos todos lutando para te proteger... Não precisa se por em perigo...
–Papai está feliz por eu estar aqui... Eu também estou feliz por estar com você, papai...
O pequenino se pos em posição de luta, o que fez a deusa que invadira o Santuário rir frenéticamente. Posicionou o arco de novo em ataque e disparou a flecha. Emanuel desviou rapidamente, estando na frente da deusa Ártemis no mesmo instante.
–Como...?
O cosmo do semideus estava poderosíssimo. Nem Frida estava conseguindo reconhecer seu filho. Emanuel acertou vários socos na deusa da caça, o que fez ela recuar e ele também.
–Você é um crime! Um verme criminoso maldito! Como pôde? — gritava Ártemis.
–Ele é um ser vivo, é meu filho, um semideus... — disse Afonso, novamente elevando o cosmo e se colocando ao lado do pequenino. Frida se pôs ao lado de Afonso, também queimando o cosmo.
O filho e a esposa transferiam seu cosmo para o báculo que Afonso colocou a frente de seu corpo, mesclando-se ao da reencarnação de Atena. O báculo de Niké se iluminava a cada cosmo que era enviado.
–Ártemis, você continuará em meu coração. Sua promessa e de Héstia valerá para vocês, mas nunca me colocarei contra quando desejarem viver o amor que os humanos tem, quando quiser entender os humanos... O que farei vai machucar meu coração, minha irmã.
Afonso apontou a arma para a irmã. Ela preparava outra flecha.
–MORRA, ATENA, MORRA FEDELHO NOJENTO!
–Adeus, minha irmã...
O jovem deus fechou os olhos e lançou o báculo contra a flecha de Ártemis. A seta se partiu ao meio e antes que a deusa da caça desviasse, Niké atravessou seu corpo, fazendo o sangue jorrar.
–Impos...sível...
Ártemis caiu morta. Seu corpo divino foi se desfazendo em pó de estrelas e sumindo com o vento. Niké voltou para Afonso, que caiu de joelhos, lamentando pela sorte de sua irmã querida. Emanuel abraçou o pai, com força. Seu pequeno filho era seu consolo naquele momento.
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