High school sweetheart

1 Capítulo 1 - Otimismo Beátrico


Era para ser um dia comum. Eu acordaria, iria para a aula, voltaria e assistiria algum dorama enquanto jantava um macarrão instantâneo. Em vez disso, meu dia não tinha terminado com me intoxicar com um alimento ultraprocessado e assistir um romance para suprir a falta dele na minha vida.

Eu me dirigia para a aula de bicicleta com meu capacete do Keroppi quando recebi uma mensagem no celular apoiado ao guidão com fitas coloridas.

Fran:

preciso te contar uma coisa

farah acabou de pedir a skye para a festa de formatura

chega logo para te contar com todos os detalhes!!!

Eu suspirei de surpresa sozinha, e quase fui atropelada por um sedã no meio tempo, no meio de um cruzamento na saída do meu bairro.

Eu tinha um pequeno problema de atenção.

Pedi desculpas com um aceno para o motorista, que apenas ignorou e seguiu seu caminho. Não me abalei, não tendo amassado minha bicicleta já estava valendo, ou meu pai acabaria dando um fim em mim ele mesmo.

Desviei o caminho principal e fui indo pelos atalhos que eu conhecia. Não estava atrasada, mas Fran tinha aguçado minha curiosidade, e eu sentia que se eu não chegasse em cinco minutos poderia acabar tendo um treco.

Quando cheguei, com o coração acelerado pelas pedaladas rápidas e por quase ter sido atropelada de novo – mas desse vez por um ônibus escolar – já fui imediatamente guardando minha bicicleta e capacete no bicicletário ao lado da escadaria e da rampa que davam para a entrada principal do colégio.

Depois de confirmar que meu bilhete anti-roubo estava intacto na cesta a frente do guidão, corri para dentro, minha mochila batendo sem querer em pelo menos umas três pessoas no caminho. Em minha defesa, não era minha culpa que as pessoas se amontoavam e não se tocavam que afetava no trânsito de alunos.

Desviei do pessoal no corredor e entrei na porta que dizia “Clube de Jornalismo”. Fran esperava sentada em cima de uma das mesas redondas, o coturno rosa-choque descansando em uma das cadeiras. Parecia concentrada em seu celular de capinha brilhante até notar o barulho da porta se abrindo.

—Garota, você não vai acreditar. Senta aqui — ela indicou, as unhas de gel de um azul-céu com detalhes em branco e prateado.

Fiz o que ela mandou, enquanto aproveitava e pegava meu caderno de anotações e rotina da mochila.

—Então, eu tinha acabado de chegar e estava falando com a Skye pelo telefone, pra acertar a questão das músicas que ela vai tocar na formatura e tudo mais, que inclusive o setlist dela tá muito bom. Enfim, de repente elu me cortou dizendo que precisava desligar, e achei aquilo estranho. Graças a Deus, encontrei ela no refeitório e apesar de já estar começando a encher, a Farah estava logo na frente dela, e infelizmente meus conhecimentos em leitura labial não foram suficientes para descobrir o que estava falando, mas deu para deduzir assim que ela ajoelhou, segurando a mão da Skye! — ela deu um gritinho empolgado, e eu, extasiada, também gritei.

— O prêmio de reis da formatura vai estar bem disputado esse ano — comentei.

— Não é? Eu adoraria ganhar de novo, mas sabe que essa não é minha prioridade dessa vez?

Lembrei do primeiro ano do ensino médio, quando ela ganhou a rainha do baile. Com certeza tinha sido um dos melhores dias da vida dela. Já comigo, lembro de ter tomado tanto ponche que passei o dia seguinte inteiro vomitando uma versão grotesca dele.

No ano seguinte, Miyake quem tinha ganhado, junto da Esther. Devo admitir, elas estavam uma graça, e olha que nem tinham começado o namoro ainda.

— Espera. Não é sua prioridade ganhar esse ano? — Levantei exasperada e a segurei nos braços firmemente. — Quem é você, e o que fez com a Fran?

Ela riu.

— Bea, Bea — cantarolou, enquanto eu a soltava. — Você não percebeu que eu tenho vindo faz alguns dias com uma flor no cabelo todo dia?

Eu imediatamente olhei para seu cabelo loiro solto, e notei um lírio solitário descansando em sua orelha.

— O que tem? — perguntei, ainda confusa.

— Eu tenho passado na floricultura da esquina, e consegui o contato da Day. A gente tem conversado desde então, e sempre quando ela me vê nos corredores ela me entrega uma flor que ela traz pra mim. Não é a coisa mais adorável do mundo? — ela notou meu olhar pasmo, e continuou — Minha prioridade agora é levar ela pro baile.

Passei os cinco segundos seguintes em silêncio, sentindo que se deixasse minha boca aberta mais um instante uma mosca entraria.

— O QUÊ? — disparei, desesperade. — Você vai me deixar sozinha? E nossos planos de se empaturrar de doces até sentir o mundo girando?

— Ah Bea, nós podemos fazer isso em qualquer outro dia. Até porque você não vai ficar sozinho.

— Você não tá entendendo, como que... — eu tinha começado a falar antes do que ela tivesse falado tivesse sido processado na minha cabeça. — Espera. Como assim não vou ficar sozinha? Eu só tenho você! E as kirsloe, mas eu evito ficar muito tempo com elas porque não quero servir de terceira roda.

— Por isso mesmo. Beatriz, olha ao seu redor. Todo mundo praticamente já tem um par a essa hora do campeonato. Tá na hora de você escolher alguém. — Eu abri a boca para falar, mas ela ergueu um dedo. — E nem adianta dizer que você quer ser escolhida. Com todo o apreço que tenho por você amiga, mas faltam só dois meses. Se não aconteceu até agora não vai acontecer mais. Você tem que tomar uma ação.

Eu fechei a cara, chateada. Eu queria viver um sonho adolescente, desses que alguém surgiria e pediria para ser meu par no baile, aí nos formaríamos, iríamos para a mesma faculdade e nas festas universitárias, nos casaríamos e teríamos três cachorros.

Eu não queria ter que correr atrás. Eu queria sentir como é ser desejada e amada romanticamente antes de tudo.

Uma mão com unhas stiletto me despertou do meu devaneio.

— Desculpa o choque de realidade. Mas eu só quero seu bem, não quero ter que ver você sozinha no nosso último ano. Você merece uma companhia que não seja só a minha. Quem sabe você não ganha a competição de reis do baile?

Eu ri só de imaginar.

— Ah tá, eu, Beatriz, a obcecada pelo Keroppi vou ser coroada rainha do baile? Só se o mundo acabar logo depois — joguei a chave de casa na mesa com o chaveirinho do sapinho para validar ainda mais meu argumento, e me sentei ao lado de Fran.

— Pare de ser tão negativa. Cadê o otimismo beátrico? Ele sempre me salvou nessas horas — brincou, dando um soquinho leve no meu braço.

— Aposto que sou imune a ele.

Ela me lançou um olhar tristonho, que logo foi substituído por uma expressão desafiadora.

— Ainda bem que já arquitetei tudo — ela pegou o celular que tinha largado assim que começamos a conversar, e procurou algo em seus arquivos. Quando encontrou, me mostrou um documento que eu jamais tinha visto.

É como se fosse uma matéria comum das que a gente sempre postava no jornal do colégio, com um detalhe importante: era eu quem estava estampada na primeira folha. Nela, dizia que eu procurava alguém para o baile, e que se não conseguisse a tempo, eu seria conhecida como “A Encalhada” e ainda levaria um prêmio por isso, do qual nem sabia que existia.

— Que merda é essa? — eu tentei roubar o celular dela, sem sucesso. Eu não desafiaria Fran enquanto ela estivesse com aquelas unhas.

— É sua última esperança, e uma brincadeira. Já falei com o Ryan, ele disse que vai dar um jeito de fazer uma coroa para você também.

— Fran, as vezes tenho a impressão que você é minha maior hater.

— Mas também sou sua maior fã, olha aí. Equilíbrio — ela sorriu, como se não tivesse prestes a me humilhar daqui algumas semanas.

Eu suspirei, pensando no que fazer. Uma parte de mim dizia que não seria a coisa mais difícil do mundo, a outra só queria ficar em posição fetal e chorar. A primeira opção seria correr atrás de qualquer pessoa que aceitasse ir comigo para o baile, correndo o risco de ter que ir com uma pessoa que eu possa odiar. A outra seria esperar pelo pior e ser humilhada na frente de todos.

Ambas as opções eram toscas. Eu gostava mais dos cinco minutos anteriores que eu não sabia dessa informação. Meu cérebro agora estava a mil, tentando pensar em alguma forma de me safar. Meu coração estava disparado, e eu sentia a pulsação dele na minha garganta.

E além do mais, por que a Fran não tinha me contado que ela tem falado com a Daisy nos últimos dias? Ah, é. Eu podia ter percebido isso e perguntado antes.

Onde eu estava com a cabeça nos últimos dias?

— Terra chamando Beatriz, na escuta? — ela imitava um telefone antigo ao meu lado.

Eu a olhei por um segundo, e uma ideia surgiu como milagre na minha cabeça. Eu poderia fingir que estava gostando de alguém, assim eu e ela estaríamos quites nessa questão de não sabermos que cada uma de nós já tínhamos um par em mente pro baile, e eu poderia quem sabe me safar desse prêmio de encalhada. Assim, quando chegasse o dia, eu chegaria lá sozinha e a Fran já teria dado um fim nessa coroa idiota.

— Na verdade, eu já tenho alguém em mente — minha boca se mexeu mais rápido do que meu cérebro que ainda traçava o plano.

O semblante dela foi de apoio para empolgação em milissegundos.

— O QUÊ? QUEM É? POR QUE NÃO ME CONTOU ANTES? — ela disparava perguntas na mesma velocidade que respirava.

— Ah... — meu cérebro estava desesperado, correndo em círculos. Eu imaginava um pequeno Keroppi confuso dando voltas angustiado enquanto tentava organizar meus pensamentos. — Você não conhece muito bem, então nem me dei ao trabalho de contar.

— Bea, não tem uma alma desse colégio que eu não conheça pelo menos metade da vida. Tirando o Lynch, eu nunca consegui tirar nada daquele garoto. Não me diga que é ele, se não vou surtar.

— O que? Não. Ele odeia festas. Mesmo que não odiasse, duvido que iria comigo. É outra pessoa.

— Quais os pronomes?

— Quê? — eu já estava ficando atordoada com tantos quês que eu falava.

— Os pronomes da pessoa, quais são? Pelo menos uma dica, vai!

— Ah... Todos. Qualquer pronome — eu disse, sentindo que meu coração ia sair pela boca.

Ela semicerrou os olhos para mim, me analisando.

— Bom, isso já filtra bastante gente. Mas por que não me contou delu antes? Sabe que independente de quem for eu não vou julgar.

— Ah é só que... Ele pediu para não contar. Queria que fosse uma surpresa pro baile, já que sabe das minhas vezes fracassadas dos outros anos.

— Aaah, então ajudou mais ainda: é uma pessoa que estava aqui desde o primeiro ano... Interessante.

Ficamos um tempo em silêncio, cada uma com seus próprios pensamentos.

— Tudo bem. Não estou brava por você não ter me contado. Estamos meio que quites agora né?

— Aham — confirmei, me esforçando pra não gaguejar.

— Bom, ao trabalho! E se você quiser, posso chamar a Day pra gente lanchar juntas, nós três.

Assenti, abrindo meu caderno em uma folha aleatória e pegando a caneta rosa que eu guardava em sua espiral. Enquanto ela tirava seu notebook da eco-bag, escrevi:

“possíveis candidatos:”

E dali, comecei a escrever o nome de todas as pessoas que eu sabia que usavam todos os pronomes, e que poderiam se encaixar no perfil que eu tracei na cabeça. O problema era: eu não conhecia todas as pessoas do colégio como Fran.

Isso seria mais difícil do que pensei.