High school sweetheart

2 Capítulo 2 - Thandiwe Louw


Passei as horas até o intervalo com a cabeça em outro lugar. Eu precisava encontrar alguém, e logo.

Eu já tinha decidido: usaria os vinte minutos do intervalo para encontrar alguém que pudesse servir. Eu ainda teria que dar uma desculpa esfarrapada para a Fran, para que ela me liberasse de lanchar juntas. Agora com Day talvez fosse mais fácil.

Mas o pior seria abordar essa pessoa. Como eu falaria? Ela riria de mim com toda a certeza. Por mais que fosse bem melhor do que receber a coroa de encalhada, ainda sim seria humilhante.

Eu ainda daria o troco para a Holzer, no fim das contas.

Assim que o sinal bateu, imediatamente mandei uma mensagem para Fran, e agradeci que nesse dia não estávamos juntas na mesma sala, ou ela veria a cara de nervosismo que eu tinha plena certeza que estava esboçando.

Bea

lembrei que eu ia falar com a coordernadora sobre a arrecadação do jornal

pode deixar que já resolvo isso hoje

Ela me respondeu que tudo bem, depois de insistir que iria comigo e eu dizer que não teria porquê. Ela sempre resolvia as coisas do clube, era importante dividir as tarefas para ser justo. Tínhamos criado o clube juntas, afinal.

Entretanto, hoje não era sobre o clube.

Agarrei o meu caderno e perambulei pelo colégio, desviando por todos os caminhos que Fran normalmente fazia. Ela não poderia me ver ou meu disfarce estaria acabado, e eu não estava muito afim de inventar outra desculpa.

Andei pelas quadras de futebol, vôlei e basquete. A maioria ali usava apenas um pronome, e as exceções já tinham pares ou eram fofoqueiros demais, e eu poderia acabar me prejudicando se me metesse com elus.

Vigiei as salas dos outros clubes, mas nada me pareceu chamar minha atenção. Metade dos nomes que eu lembrava participavam de algum clube, e vendo de perto, nenhum parecia que aceitaria meu convite.

Risquei com força, já começando a ficar frustrada.

Passei pela biblioteca e a enfermaria, porém as duas eram bem vazias no intervalo. Minha ida para lá era mais para confirmar que o pretendente perfeito não apareceria bem na minha frente.

Minha única e última esperança que não o refeitório estava no ginásio fechado, onde ficava o pessoal da natação e do nado sincronizado. Ninguém ali tinha passado pela minha cabeça antes, mas não era como se fosse mudar alguma coisa.

Assim que entrei na quadra fechada senti o ar úmido e quente do lugar. Prendi meu cabelo com um elástico que sempre levava no pulso, deixando só minhas mechas coloridas fora do coque.

A meia dúzia de pessoas não pareceu me notar. Aproveitei a oportunidade para fuçar as redes sociais os alunos que tinham natação ou coisas parecidas no perfil. Me sentei em um banco seco distante enquanto analisava.

Com sorte, encontrei o perfil do clube de natação e comecei a vasculhar os perfis que o seguiam, e fotos de todos os integrantes também.

Uma sensação ruim percorreu meu corpo de repente. O que eu estava fazendo? Jamais imaginei que em algum momento da minha vida eu me tornaria uma stalker.

A porta na qual eu tinha entrado a poucos minutos atrás abriu com um baque, e uma garota com hijab entrou com pressa, segurando a maçaneta como se na mesma velocidade que entrou tivesse que sair.

—Andi! — chamou, mas seja lá quem fosse ou estava submerso na água ou não estava ali. — Ei você.

Me toquei alguns segundos depois que ela estava me chamando.

Eu apontei para mim mesma, e ela assentiu.

—Pode avisar a Andi que ela esqueceu o livro de química delu na biblioteca? Já é a terceira vez essa semana que ele esquece.

Assenti no automático, e logo depois me arrependi. Eu nem sabia quem diabos era essa pessoa.

Ela abriu um sorriso amigável e fechou a porta. Eu estava por mim agora.

Mas espera… A tal Andi usava mais de um pronome… E suponho que estava ali, porque a garota devia ser conhecida dele e sabia onde achá-lo.

Eu poderia tentar, não poderia?

Eu procurei pelo nome no Instagram, usando o clube de natação como filtro de pesquisa. Não demorou para o perfil aparecer, e instantaneamente cliquei nele.

Ela parecia famosa no clube, uma boa parte do seu perfil era dedicado a natação e até ao surf, com fotos da equipe, treinadores e dela nadando. Algumas eram com amigos, viagens e familiares, e eram raras as fotos que era só elu e a câmera.

Notei que Fran seguia ela, o que quer dizer que provavelmente em algum momento as duas conversaram. Fran sempre perguntava alguma forma de contato para as pessoas que conhecia.

Seria arriscado, porque a Fran poderia conhecê-lo mais do aue eu imaginava. Eu estava dividida, e meu cérebro ansioso não me ajudava a tomar uma decisão.

Olhei para cima quando notei uma movimentação do outro lado do ginásio. Alguém saía da piscina e pegava sua bolsa, indo em direção ao vestiário. Nesse momento, me lembrei de ter visto aquela bolsa a algimuns stories atrás, e corri na direção do vestiário assim que ela entrou, sem nem pensar direito.

Um vislumbre de sensatez passou pela minha cabeça, e eu parei com a mão em direção a maçaneta. Abri apenas uma fresta, o suficiente para ver ela retirar a touca e arrumar os dreads. Ela começou a procurar por algo na bolsa quando uma voz do lado de fora me despertou.

—Desculpa, mas eu te conheço? — uma garota de cabelo curto e loiro perguntou, ela vestia um maiô azul marinho e segurava a touca com uma das mãos, o cabelo molhado e pingando indicando que tinha acabado de sair da água.

Eu a reconheci, por mais difícil que fosse naquela situação: era Amber, uma fofoqueira que Fran odiava. Amber sempre espalhava as fofocas para ferrar com as pessoas ou para se beneficiar de alguma forma.

E comigo naquele momento não seria diferente.

—Ah, eu sou uma conhecida da Andi — comecei, deixando as palavras fluírem. Por mais estranho que parecesse, pensar melhor naquela situação só pioraria para o meu lado. — Ela esqueceu o livro de química na biblioteca e… e já é a terceira vez que ela esquece e…

—Estranho — ela me interrompeu. — Ele nunca me falou que conhecia você. É que aqui no clube somos muito unidos, sabe? Sabemos quem conhece quem aqui.

Eu quis retrucar, mas nada disse.

—Desculpe — e me arrependi na hora. Eu estava me desculpando do que exatamente? — Mas era urgente, e…

—Um livro de química é urgente? — ela interrompeu mais uma vez. — Pelo que saiba, ele não tem mais aula hoje, e nem está precisando de nota pra ter de aulas extras.

Uma resposta nada amigável ficou na ponta da minha língua, mas me segurei.

Eu suspirei.

—Ok, você me pegou. Andi é minha namorada, e eu vim resolver uma outra coisa com ela que, com todo o respeito, não é da sua conta, então se me dá licença…

Antes que pudesse continuar meu surto de tudo ou nada, Andi saiu do vestiário, já vestido e com a bolsa que segurava antes também. Ela dividiu o olhar entre mim e Amber, totalmente confuso.

Ela era bem mais alta do que eu imaginava.

—Andi! Amor, você não vai acreditar no que aconteceu hoje. Eu acabei esquecendo de te avisar, e encontrei a Amber. Mil desculpas, eu sei que era pra manter segredo mas ela pode guardar segredo, né? — eu segurei sua mão, sem me importar que eu estava tremendo.

Eu estava contando com a sorte. Ou ela faria seu papel ou eu passaria por uma cena tão humilhante quanto a que eu vinha evitando a todo custo.

—É. — disse, simplesmente. Era pouco, mas o suficiente para eu voltar a respirar, coisa que eu nem tinha percebido em que momento eu tinha parado.

Se Amber estava surpresa, não demonstrou.

—Claro. Posso sim — afirmou. Seu semblante era tranquilo, mas algo me dizia para não confiar totalmente nisso.

Sem mais nem menos, puxei Andi para a saída, só deixando de me preocupar com Amber quando saímos do campo de visão do ginásio.

Não percebi que ainda segurava a mão dela até que ela mesma se soltou.

—Quem diabos é você? E o que acabou de acontecer? — elu questionou com um tom tão intimidador que se eu estivesse num dia ruim começaria a chorar ali mesmo.

E então minha ficha caiu.

—Desculpa, desculpa. Ai meu Deus, me desculpa de verdade, eu não sei o que deu em mim e…

—O que você quer de mim?

Ótimo, agora eram três perguntas. Suspirei, e comecei:

—Eu sou a Bea, eu participo do clube de jornalismo com.a Fran. Em resumo, ela disse que se eu não arranjasse um par até a data do baile ela publicaria um jornal me difamando, e assim, tudo bem, ela é minha amiga, mas eu queria mostrar pra ela que ela estava errada. Então disse que eu já tinha alguém, mas não tinha. Aí comecei a procurar pelo colégio e encontrei você, e ainda sua amiga de hijab falou que você esqueceu o livro de química na biblioteca. Enfim eu acabei ficando nervosa quando vi a Amber porque acredito que nós dois sabemos como ela é, então…

—Ei, ei, chega. Já entendi, ou quase — ela suspirou com um ar de cansade. — Você acabou de dizer para minha amiga e uma das maiores fofoqueiras desse colégio que está namorando comigo só para sua amiga não te pregar uma peça?

Eu assenti, e de repente me toquei do quão ignorante eu fui.

—Como sabe meu nome? — perguntou.

—A sua amiga de hijab te chamou quando foi no ginásio e eu estava lá e ouvi.

Elu ainda me olhava de forma estranha, como se tentasse decifrar o que eu tinha na minha cabeça.

Honestamente, nem eu sabia.

—Desculpe mais uma vez. Você pode dizer que terminou ou sei lá, e a gente não precisa olhar uma na cara da outra nunca mais. O que acha? — levantei a ideia. Eu estava desesperada.

—Amber não esqueceria tão cedo.

Estávamos em um impasse, e tudo era culpa minha.

Comecei a anotar meu número em uma folha em branco do meu caderno, e quando eu estava pronta para rasgar a parte que anotei, ele propôs:

—Podemos fazer isso.

Eu a olhei, uma centelha de esperança surgindo em meu âmago.

—Fingimos um namoro falso só ate o baile, assim Amber não desconfiaria e você enganaria sua amiga. Não me parece difícil.

—Para mim também não. Escuta, esse é meu número — estendi o papel para ele, que recolheu e analisou os números de relance — Você pode me chamar quando quiser ou puder, você quem sabe.

Andi assentiu.

Ficamos um tempo em silêncio, procurando as palavras certas para continuar. Até que o sinal soou.

—Certo. Eu vou indo. Obrigada, muito obrigada, de verdade. E desculpa de novo! — me despedi, já longe o suficiente para enxergar o refeitório e Fran se dirigindo a sua próxima aula. Ela não tinha visto nada, ainda bem.

—Ei! — escutei a voz de Andi ao longe. Me virei de volta. — Meu nome completo é Thandiwe. Thandiwe Louw.

Talvez minha primeira interação com um desconhecido não tivesse sido tão ruim no final das contas.

—Prazer, eu sou a Beatriz Alves! — respondi, e ela sinalizou um joinha.

Eu sorri. Nem tudo estava perdido. No melhor das hipóteses, eu tinha acabado de começar uma longa amizade.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.