Estou me arrumando para festa, até chamei James para ir. Mas, impus regras: (a) Não ficar falando com os mais inteligentes da sala (mesmo que ele seja o mais inteligente do mundo), (b) Não se fazer de bobo, (c) Não me seguir.

Visto uma camisa polo com listras, uma bermuda jeans e um cinto de couro que ganhei no natal passado mas nunca usei na vida. Enfim, termino de me arrumar e puxo James. Ninguém — ainda bem — sabe que todas as Terças e Quintas havia uma "festa" no 2° pátio .

O 2° pátio era formado por arbustos que produziam um perfume muito agradável. Havia uma tamareira no centro. E o principal de tudo eram três fontes de água em cada canto. Uma no lado direito, uma no esquerdo e uma no fundo do pátio. Havia luz porque alguém havia feito fogo. Provavelmente, a Luana, ela tem poder de fazer o que quiser com o fogo, como eu com a água.

Avisto Kyle, mas não Charlotte. Deixo John com uma menina do 2° ano e corro para falar com Kyle.

Oque não me disseram foi que na festa iria ter bebida alcoólica. Não gosto de beber. Mas, percebi que era somente vinho, e deixei para lá.

Kyle namora com Nora, apelidamos ela de Animalzinho, porque podia se transformar em qualquer animal que quisesse. Ela não se enjoo com o apelido. Não praticamos bullying com ela.

– Olá, John — disse Kyle — Bem vindo a TerQuin!

– Desculpa, o que é TerQuin? — quando perguntei isso, quem ouviu deu uma risada.

– Demos esse nome a festa, para enganar as pessoas fofoqueiras, e também os professores. Sabe porque escolhemos esse pátio? — balanço a cabeça — Fizemos uma história na cabeça das pessoas — ele ri.

– Então, ter é de Terça, e Quin é de Quinta?

– Exatamente.

– Belo nome para uma festa.

– Ah, Charlotte concordou em vir. Mas, ainda não chegou. Você sabe como mulheres são... Vaidos... — eu o interrompo.

– Charlotte não é vaidosa. Ela é rebelde. Quer ser contrária a tudo. Se você dizer a ela que 1+1 é 2, ela vai discordar e vai virar um louca. Porque ela acha que a sociedade é medíocre. Claro que ela não vai fazer isso por causa de 1+1, foi só um exemplo.

– Hum... — ele diz — Mas não sei porque ela... Ah, Ali está ela. — ele olha por cima de minha cabeça.

Olho para trás e a vejo. Seu cabelo ruivo está brilhando, está usando um vestido vermelho, mas não vermelho assim como pensa. Vermelho cor de sangue. Usa o batom vermelho, resumindo, tudo vermelho.

Kyle me disse antes que a festa era para ser com roupas leves, não era uma premiação do Oscar. Outro ato de rebelião de Charlotte. Algumas menina ficaram olhando para Charlotte com desdém.

Ela chegou até a mim e pediu para segurar sua bolsinha vermelha para arrumar seu tamanco vermelho. Outra rebelião de Charlotte. Provavelmente Kyle deve ter dito para ela não demorar, e ela demorou de propósito. Queria muito ser assim rebelde como ela.

Entrego sua bolsa e sorrio, ela retribui. Uma música começa, não sei quem é o DJ nem qual o nome da música. Acho que Charlotte não vai dançar, ela fica sentada tomando vinho e comendo docinhos.

Então, decido ser rebelde com Charlotte, não dançar. Vou me sentar com ela onde ela está. Suas unhas também estão pintadas de vermelho.

– Boa noite, senhorita Vermelha — digo e ela sorri.

– Boa noite, John.

Fazemos um brinde a nada.

Depois ela começa a jogar doces e salgados em mim, embora haja uma mesa repleta disso, ela irá acabar com tudo.

Enfim, começa uma musica lenta, ela se levanta. Outro ato de rebelião de Charlotte: Me chamar para danças, quando eu deveria o fazer.

Ela me estende a mão e eu dou a minha, ela me puxa com o força para onde os outros estão dançando, tenho que colocar em prática os passos que minha mãe me ensinava nas Formaturas.

Charlotte sussurra algo no meu ouvido:

– Me leve no meu quarto hoje, tenho medo de andar a noite.

Eu respondo:

– Está bem.

Ficamos dançando até a música acabar, então sinto meus olhos ficarem pesados e digo a Charlotte, ela diz que também estar e eu a levo para seu quarto.

Quando estamos na porta de seu quarto, numa fração de segundos, suas mãos entrelaçam o meu pescoço e ela me beija. Não resistindo ao seu ato, beijo-a também.

Aqueles segundos pareceram ser uma eternidade. Pensei que houve algo quando ela virou a cabeça para a esquerda. Era o professor de Controle vindo do escuro, provavelmente não nos viu. Mas se eu ficar aqui ele vai me ver.

– Entra — Charlotte diz.

– O Que? — pergunto.

– Entra logo, zé mané.

Ela me empurra para dentro, sua colega de quarto ainda está na festa.

Ela me manda entrar no armário eu obedeço-a. Ouço as batidas nas porta, e ela abre. Ouço a voz do professor de Controle falando:

– Por que está tão bem vestida, senhorita Marrison?

– Eu estava provando o vestido, não posso?

– Mas é claro! Onde está sua colega de quarto? A senhorita Stronge?

– Ela foi falar com Lunny. — ouvi o som de sua garganta engoli em seco. — Agora, o senhor me dá licença? Eu estou com sono.

– Como queres.

Ouço a porta bater e ela abre o armário para eu sair. Ainda da para ouvir os passos do professor pelo corredor.

Dou um Tchau a Charlotte e vou para meu quarto. James ainda não chegou. Estou com o gosto do batom de Charlotte na minha boca. Sabor morango.

Me jogo em meu beliche e espero o sono vir. Está sendo difícil o sono vir hoje. Decidi não escovar os dentes antes de dormir. Queria dormir com o gosto da boca dela em minha boca.

Será que ela gosta de mim?

Então, percebi que esqueci Lunny desde o começo da festa. Não posso fugir da realidade, estou correndo perigo. Se ela não pode me matar agora algum dia ela irá me matar. Não há chances.

Até que o sono vem, estou nadando em margaridas no meu sonho. As margaridas tem o cheiro de Charlotte.

No segundo sonho, caio de um prédio e sobrevivo, mas para meu azar, Lunny está lá embaixo.

E no terceiro, Lunny me mata.

Penso que esse pode ser o ultimo dia que tive sonhos bons. O Único que tive foi o de nadar em margaridas com cheiro de Charlotte.