High School Blindspot

9 High School Blindspot - Prom parte I


Notas iniciais
Prom é a festa de formatura do último ano do ensino médio nos EUA. Na história não foi obedecida a cronologia correta desse acontecimento, pois lá a festa é no início do ano e não no final como coloquei na fic, pois pra essa data usei o ano letivo do meu país. Gostaria de agradecer à Carla pela colaboração com a parte I desse capítulo que foi inteiramente dela! Espero que gostem

Ellen...

Ellen Brigs não recebeu bem a empolgação dos filhos com o baile da escola. Tinha dedicado os melhores anos de suas vidas aqueles irmãos e tinha planos para eles. A forma como aprenderam a canalizar a raiva em força física e determinação na sobrevivência que desenvolveram no orfanato ilegal onde passaram a infância fariam deles os melhores soldados para a causa que ela defendia. Atividades sociais banais como esse baile só serviria para tirá-los do foco das coisas realmente importantes.

Ela nem se preocupava muito com Roman. Sabia que facilmente o convenceria a deixar essas frivolidades de lado no futuro. Mas Remi... Remi era diferente do irmão. Muito mais difícil de dobrar. E tinha esse rapaz com quem estava se envolvendo. Definitivamente inapropriado e perigoso. Esse tal de Kurt era uma ameaça ao futuro de Remi, plantando fantasias na cabeça dela como o amor ser mais importante que seus deveres diante do seu país. Ellen sabia como esse tipo de adolescente via a vida: qualquer emprego estável seria pretexto para começar uma família. Um dia ela também foi inocente assim. Mas não deixaria isso afastar Remi do futuro brilhante que sonhou para a filha. Nada de baile. E a mudança a afastaria de vez de Kurt.

Um plano de estudos extra. Essa foi a estratégia utilizada por ela para justificar a ida de Roman ao baile enquanto Remi ficaria em casa. As consequências disso, Ellen também previra: diversas discussões, inúmeros questionamentos, resistência por parte da filha. Ela lidou com isso como sempre fazia: lembrando Remi que, se ela não os tivesse adotado e assumido total responsabilidade sobre eles, os irmãos teriam sido executados quando o orfanato foi descoberto por serem considerados letais demais para a vida em sociedade.

Remi...

Remi fez tudo que estava ao seu alcance para convencer Ellen que esse plano extra de estudos era desnecessário e que poderia perfeitamente ir ao baile sem que isso afetasse seu desempenho. Mas foi em vão. A mãe estava irredutível. Ela chegou a pensar numa afronta direta, mas quando o resgate do orfanato foi trazido à pauta, silenciou. Ellen sempre teria sua total gratidão por tê-los retirado daquele inferno e salvado suas vidas. Pensou em enviar um bilhete à Kurt através de Patterson avisando sobre sua ausência, mas não chegou a fazê-lo. Ainda existia uma minúscula chama de esperança no seu interior que a impedia de sepultar o sonho de um último encontro com ele antes da mudança e o baile era sua grande chance.

No dia do evento, dedicou-se aos estudos ainda com mais afinco. Manteve-se fria com Ellen porque sabia que a mãe desconfiaria se ela agisse de outra forma. Quando conseguiu terminar a extensa lista de afazeres já era bem tarde. O baile já devia ter começado há quase uma hora. Teria que ser mais que discreta, imperceptível. Preparou a cama com travesseiros debaixo dos cobertores para sua mãe pensar que estava dormindo. Sairia pela janela e voltaria sem ser notada.

Ela não tinha um vestido ou qualquer roupa como aquelas que as meninas usavam nessas ocasiões. Um relampado de desconforto passou por ela ao se dar conta disso. Mas não se deu por vencida. Roupas não determinariam seu destino jamais. Vestiu um jeans escuro, a blusinha preta e uma jaqueta de couro. O lápis nos olhos e a gargantilha de couro fecharam o visual antes de se esgueirar pela janela.

Quando entrou no salão do baile, todos olharam para ela. Remi sabia que não era sua beleza angelical que chamava a atenção, mas a roupa inadequada. Ela respirou fundo e cobriu tudo com os olhos em busca de Kurt. Ele estava numa mesa com Allie, visivelmente irrequieto. Aquela forma singular de coçar a nuca o denunciava. Os buchichos logo o fizeram olhar na direção dela. E o sorriso no rosto dele lhe deu a certeza que fez a coisa certa ao enganar a mãe e vir mesmo que vestida de forma repugnante aos olhos do resto dos colegas de escola.

Ele quase correu ao encontro dela.

— Oi... eu já estava pensando que você não viria. – disse com aquele sorriso torto que sempre quebrava o coração de Remi

— Eu disse que viria. – ela respondeu também com um sorriso raro.

— Você quer beber alguma coisa? – perguntou.

— Quero...

Ele a conduziu pelo braço até a mesa de bebidas e serviu os dois. Continuavam sendo o centro das atenção e isso começou a incomodar muito Remi. Se fossem o assunto do dia seguinte na escola, Ellen poderia descobrir e teria problemas com a mãe. Kurt percebeu seu desconforto:

— Você quer conversar num lugar mais discreto?

Ela assentiu com a cabeça e saíram do salão.

Lá fora, a noite estava escura. Kurt a puxou para seus braços e Remi se permitiu curtir aquele momento com ele fechando os olhos. Quando se sentiu reenergizada o bastante para sair daquele abraço, disse:

— Eu sei que essa roupa não é adequada...

— Não me importo com a roupa que usa. Estou feliz que tenha vindo.

— Olha, eu não sou nenhum tipo de rebelde sem causa que tenta chamar a atenção aparecendo aqui vestida assim...

— Eu não pensei isso, juro. – ele tratou de se posicionar.

— Mas os outros pensaram. Ellen não concordou que eu viesse. Saí escondida. Se eu tivesse um vestido, teria colocado, mas eu não tinha. E... Uau, as meninas estão lindas, principalmente a Allie.

— Você ainda é a mais linda da festa mesmo sem um vestido. – ele disse já a puxando de volta para seus braços e agora juntando seus lábios num beijo. Seu coração se apertou com tudo o que ela disse, não devia estar sendo fácil.

Os dois se entregaram ao momento, curtindo cada beijo e todas as formas de carinho que trocaram. Conversaram coisas banais. Riram um pouco. Olharam a lua. Tudo parecia perfeito. Mas ele percebeu que, às vezes, o olhar dela se enchia de tristeza. Sabia que tinha algo a ver com a mãe e resolveu demonstrar o quanto estava disposto a lutar por ela:

— Remi, amanhã eu vou à sua casa. Vou falar com sua mãe e mostrar a ela que, apesar de estar indo pra escola militar no próximo ano, quero continuar com você. Ela vai ver que tenho boas intenções...

— Não! Você não pode fazer isso. Ellen nunca entenderia.

— Mas estou preocupado com você. Sua mãe te sufoca demais com essa rotina de estudos. Isso não é normal.

— Ellen só quer o nosso bem. Eu e Roman devemos lealdade à ela por ter nos tirado do orfanato.

— Remi, eu entendo que você seja grata à ela por isso, mas precisa concordar que isso tudo é muito estranho. O elo que une uma família deve ser o amor e não lealdade. Ellen parece querer total devoção de vocês, e isso não é certo. Ela sequer os deixa chamá-la de mãe.

— Sei que tudo parece estranho, mas é só o jeito dela. Você não faz ideia do que passamos no orfanato e do que poderia ter acontecido conosco.

— Ok, ela os tirou de lá, mas isso não é motivo para te impedir de viver o presente. E o presente somos nós dois. Ela precisa entender isso.

— Kurt, estar com você é a melhor coisa que já vivi, mas isso está acima de nós. O trabalho de Ellen é importante e ela está me preparando para ajudá-la. Devo isso à ela. O que eu mais queria era não dever nada à ela para poder enfrenta-la com relação a tudo isso, mas eu não posso. E tem o Roman, ele precisa de mim lá também.

— Eu vou repetir mais uma vez: Ellen não tem o direito de roubar de você o resto de sua vida. Você não está sozinha nisso, Remi. Eu estou com você. Vamos lutar e conseguir ficar juntos. Amanhã eu vou conversar com sua mãe e fazê-la entender isso.

— Não, Kurt, por favor não.

— Por que não?

— Existe muita coisa sobre o passado e o futuro que eu não posso te contar. E você falar com Ellen não mudaria nada. Nós vamos nos mudar, Kurt, e eu nem sei pra onde. O trabalho dela é assim. Essa é nossa última noite juntos, por isso arrisquei tanto para estar aqui com você.

— Nosso último encontro? E você só está me contando isso agora? – Kurt se levantou impaciente.

— Eu queria te contar, mas ela me afastou da escola...

— Então vamos fugir. Hoje! Não vou deixar ela nos separar. Eu desisto da escola militar e arrumo um emprego.

— Não! Você tem noção do que está dizendo. A escola militar é seu sonho. Eu nunca me perdoaria por isso. E tem o Roman, não posso abandoná-lo. Eu sinto muito, Kurt.

— Você é mais importante pra mim do que qualquer sonho. – ele disse triste. – Mas, pelo visto, não significo a mesma coisa pra você, não é mesmo.

Remi queria gritar que ele era a pessoa que ela mais amava no mundo todo e beijá-lo para que sentisse o quanto seu amor era imenso, mas ela sabia que não havia esperança para eles. Ellen não aceitaria aquele relacionamento e não estava disposta a vê-lo sacrificando seus sonhos por uma vida sem futuro com ela. Sua mãe sempre disse que as sequelas psicológicas deixadas pelo orfanato tornaria arriscado constituírem uma família porque mais cedo ou mais tarde isso machucaria todos a sua volta. Por tudo isso, as palavras que saíram dos seus lábios disseram o contrário do que ela trazia no seu coração:

— Tudo entre nós termina aqui, Kurt. Foi um erro eu ter vindo. Eu não espero que você entenda, mas... – e com medo de se trair, calou o resto da frase – Boa noite.

E saiu deixando ele sozinho.

Kurt voltou para dentro do baile sentindo-se decepcionado e enganado. Allie veio ao seu encontro e lhe ofereceu sua companhia como conforto. Ele aceitou.

Remi andou por dois quarteirões quase que em transe tentando conter a vontade de chorar. E, de repente, seus pés não lhe obedeciam mais. Nada nela obedecia seu lado racional. Num ímpeto, se virou o voltou correndo para o baile. Encontraria Kurt e diria que estava disposta a arriscar tudo por ele.

Mas ela mal entrou no salão e viu a cena mais triste de sua vida. Ao som de uma música lenta, todos dançavam na pista com os corpos colados. Kurt e Allie, entretando, estavam parados, trocando o beijos que parecia que nunca teria fim.

Atordoada, Remi deu às costas ao salão e a qualquer esperança que tivesse de ter uma vida normal. Aquilo não era para ela. Ellen estava certa.

Notas finais
Obrigada pela leitura!