High Hopes
3 Capitulo 3 - Gold Intentions
Notas iniciais

Regina sempre acordava as 06:00hs. Sua mente estava vazia enquanto ela se espreguiçava, se levantava e flexionava os braços, para depois caminhar até o banheiro. Era maneira que ela fazia todas as manhãs, como se sua vida estivesse em um eterno repeat, ou, pelo menos, essa era a maneira como ela sentia. A única coisa que indicava que sua vida estava realmente passando era o fato de Henry parecer mais velho a cada dia. Mas ela não se importava. Na verdade, gostava da rotina serena qual sua vida se envolvera algum tempo depois da morte de Daniel, quando focar em seu trabalho e seu filho fez a dor da perda se tornar suportável.
Por isso, ela não era o tipo de pessoa que ficava mal humorada com segundas-feiras.
Segundas-feiras significavam o recomeço de sua rotina monótoma, onde as pilhas de processos do escritório substituiria qualquer pensamento doloroso sobre seu passado.
Mas essa segunda-feira não era como as quais ela estava acostumada. Aliás, os últimos três dias de sua vida não tinham sido nada enquadráveis em sua rotina.
Desde que descobrira que Robin Of Locksley estava solto por algum lugar daquele país, uma vibração em seu estômago não a deixava esquecer.
Regina fez seu ritual matinal, levemente embriagada pelos pensamentos que imundavam sua mente. Seu banho durou poucos minutos e logo ela estava no closet, escolhendo sua roupa do dia. Nas araras, as roupas eram separadas por cores e utilidade, mania que Regina tinha adquirido de sua mãe, Cora, controladora e organizada até demais, – as vezes, ela desconfiava que Cora tinha um sério caso de toc acompanhado de um pacote com mais meio quilo de problemas psicológicos. Ela nunca teve a chance de descobrir, já que sua mãe tinha morrido antes que ela a convencesse de fazer uma visita a um psiquiatra, mas, certamente, tinha adotado algumas das manias dela.
Ela escolheu um vestido azul royal e saltos scarpin e os vestiu, enquanto olhava o grande e redondo relógio prata pendurado em cima da penteadeira.
6:20
Precisava acordar Henry às 6:30.
Ela gostava de pontualidade, -talvez fosse outra mania adquirida a partir de Cora-, mas ela se recordava da última vez que se atrasara para uma ocasião. Uma qual era realmente não deveria ter se atrasado. A lembrança fez o peito de Regina doer e ela fez uma careta, tentando afastar as imagens de sua mente antes que elas a dominassem totalmente. Mas não era fácil.
E isso era culpa de Robin Of Locksley. Sua recente liberdade fazia Regina querer vomitar, como se uma cena grotesca estivesse se repetindo em sua mente a cada piscada que ela dava. Por muito tempo ela conseguiu não pensar naquele episódio nebuloso de sua vida, mas a três dias atrás tudo voltou para sua mente como um furacão. Rapidamente e avassaladoramente.
Aliás, todas as vezes que Robin surgira em sua vida, fora desta maneira. Rápido como um flash e destruidor como uma bomba. Ele era tóxico e a envenenava com a simples menção de seu nome.
Regina terminou sua maquiagem com um pequeno suspiro de frustração. Ela não podia continuar pensando daquela maneira ou seu dia estaria arruinado, ela sabia. Já tinha ficado daquela maneira algumas vezes ao longo dos anos e a dor em seu corpo costumava se tornar tão forte que ela nem conseguia sair para trabalhar. Ela soltou os cabelos curtos e os deixou livres ao redor dos ombros delgados, antes de se dirigir para o quarto de Henry, levando seu celular entre os seios.
–Hora de ir para a escola, querido — Regina disse e deu dois tapinhas na bunda do filho quando ele se virou para ignorá-la. — Quero você na cozinha em trinta minutos.
O apartamento de Regina era como uma versão pocket da casa qual ela tinha crescido em Boston, misturada com toques rústicos porém elegantes que Daniel conseguia dar em qualquer coisa. Regina gostava da maneira como as cores e formas se encaixavam tão bem, ficando muito mais bonitas do que se estivessem sozinhas. Uma perfeita mistura da doçura com o selvagem. Talvez essa fosse a maneira qual ele descreveria os dois. Daniel era uma alma livre e corajosa, enquanto Regina era controlada e recatada. O que tinham de oposto era o que os atraía um para o outro. E ela adorava isso. Adorava sentir que completava alguém.
A cozinha fora um dos lugares que decoraram juntos e Regina nunca se atreveu a mudar uma peça de lugar. Tudo parecia velho demais para um apartamento tão moderno, mas ela não importava. Era o tipo de lembrança dolorosa que não causava dores em seu estômago, mas sim sorrisos em seu rosto.
Regina colocou o avental branco na frente do corpo para proteger seu vestido Roland Mouret enquanto preparava panquecas de banana.
Seus saltos ecoavam pela cozinha enquanto ela andava para lá e para cá, movendo-se entre o fogão e a bancada.
Ela se sentia como uma cozinheira bem-sucedida e famosa, apresentando seu programa de culinária enquanto usava brincos de diamante e saltos de cristal. Mas não tinha nada para ser feito sobre isso, se quisesse que Henry chegasse a tempo na escola, teria que cozinhar com suas roupas de “sócia de uma agência multinacional”.
Quando terminou com as panquecas, fez o chocolate quente com canela de Henry e café preto extraforte para ela. O menino era obcecado com chocolate quente e quando era mais novo, conseguia o tomar em qualquer refeição. Regina teve que ser dura para que ele parasse com o hábito pouco saudável, mas não era nada que os olhos de gatinho de Henry não conseguissem driblar. Ela era uma mãe feita de açúcar, tinha que admitir. O seu filho conseguia muitas batalhas. Felizmente, com o tempo, ele conseguiu ver por si mesmo que chocolate quente com lasanha era uma mistura exótica demais para existir.
Ela terminou de servir a mesa assim que Henry apareceu na cozinha e se sentou em uma das cadeiras da pequena mesa branca, deixando sua mochila jogada no chão aos seus pés.
–Bom dia, mãe. — Ele disse, sorridente. Regina sempre se impressionava com o quanto ele era doce, mesmo em seus dias menos preferidos da semana. Ela sorriu de volta.
–Bom dia.
Ela prezava esses pequenos momentos familiares que tinha com Henry. Coisas simples como tomar café da manhã na mesa da cozinha tinham um significado enorme para ela, mas aquela manhã estava distraída. Pegou sua xícara de café e bebericou, enquanto enfiava uma das mãos sorrateiramente para dentro do vestido e pegava o iPhone preso entre o sutiã e sua pele.
–Você precisa de bolsos. — Henry comentou, dando de ombros. Ela concordou com a cabeça, continuando com seu olhar centrado na pequena tela luminosa, checando sua agenda digital. Ela tinha duas reuniões pela manhã – uma com Gold e outra com seu estagiário em casos policiais, Graham, além de um monte de papelada para conferir e assinar. Um dia como qualquer outro, exceto pelo fato de que pediria algo a Gold que faria os olhos dele brilharem.
O homem era um maníaco, ela sabia. Mas sempre agradecia por isso, por que duvidava que a agência chegaria tão longe se ela não o tivesse como sócio. Com ele as coisas sempre se tornavam mais fáceis e possíveis. Gold conseguia chegar em qualquer lugar, com apenas um estalar de dedos. Como magia. Ele a assustava e encantava, ao mesmo tempo.
E ela o conhecia o suficiente para saber o quanto ele vai adorar ouvir as notícias sobre Robin Of Lockesley.
–--
Robin estava tão acostumado a acordar cedo que apenas a menção de ficar tempo demais na cama já fazia seu corpo doer. Ele estava animado porque finalmente era segunda-feira. Dia em que as rotinas voltavam ao modo normal e entediante de horários comerciais, coisa que ele não conhecia a muito tempo.
A verdade é que Robin se sentia renovado. Depois de ver Regina Mills caminhando no parque, tudo ao seu redor parecia ter se tornado real. Como se ele estivesse em um transe infinito antes disso.
Ela realmente estava lá.
Viva.
Pensando que ele era um terrível assassino.
Tudo isso apenas o deu mais vontade de seguir em frente e ele desceu as escadas do Granny's animadamente para tomar café da manhã.
–Você está nojento. — A velha disse assim que o viu, escorregando os óculos redondos para a ponta do nariz. Seus olhos eram azuis claros e frios como gelo.
Ela serviu o café preto extraforte que ele tinha pedido e continuou o encarando, segurando o bule em uma das mãos.
–Bem. — Robin limpou a gargante, surpreso com a sinceridade a mulher. O que mais ele poderia esperar de uma senhora que guardava uma arma atrás do balcão? — Acho que sim.
–Devia trocar de roupas, as vezes. — Ela sugeriu, dando de ombros. — Mais alguma coisa?
–Ah, não, obrigada.
Robin se afundou em seu banco, subitamente desanimado. Queria explicar a Granny que a única coisa que ele ainda tinha eram aquelas roupas surradas e com cheiro de mofo acumulado por dez anos. Mas não podia, é claro.
Talvez devesse comprar roupas novas. Ele ponderou, não sabia se podia abusar desse tipo de luxo com o dinheiro que tinha. Era uma boa quantidade guardada em sua poupança, mas não duraria para sempre e ele sabia que com a ficha criminal que tinha atualmente, nunca conseguiria um emprego.
Robin coçou a barba grossa e loira que crescia em seu rosto, se lembrando de quando gastava vários minutos de suas manhãs para tirar os pelos meticulosamente. Com seu trabalho de corretor, ele sabia o quanto aparência era importante. Ele quase conseguia sentir o cheiro fresco de sua antiga espuma de barbear.
Roupas novas seriam necessárias, ele concluiu e tomou um longo gole de seu café fumegante.
–Granny? — Robin chamou, finalmente se lembrando de algo importante. — Os telefones não funcionam?
–Funcionam, se você pagar por eles.
–Oh, — ele balançou a cabeça suavemente, sorrindo para sua própria tolice. — Claro que sim.
–Aumentariam dez dólares em sua diária. Vai querer?
Tentador. Robin mordeu o lábio inferior, pensando. A ansiosidade que sentia fazia seu estômago vibrar. Com o telefone instalado em seu quarto, ele poderia ligar para os números que descobrira na lista telefônica no dia anterior. Talvez ele não devesse, mas balançou a cabeça, dizendo sim.
–Por favor.
–Roby – Granny gritou, sem se importar se assustaria os clientes presentes na lanchonete. Ela era sempre tão sútil e Robin gostava tanto daquilo. — Ligue o telefone para Robin.
–Ok, vovó. — A garota surgiu pela porta da cozinha, tirando o avental do pescoço. Parecia satisfeita por não ter mais que ficar entre panquecas e gordura quente. — Você vem?
Robin seguiu Ruby, que dava passos fortes e rápidos, exibindo sua boa forma jovial e deixando Robin para trás, com a visão de seus minúsculos shorts vermelhos. Ela era o tipo de garota que faria Robin babar na época do ensino médio. Decidida e atrevida, como Marian costumava ser. Ele dava graças da Deus por não ser mais um adolescente com hormônios escapando pelas calças, por que ela gostava de o olhar como se pudesse o comer vivo.
Ruby parou em frente a porta do quarto número 6 e encarou Robin por um minuto, abrindo seu sorriso vermelho.
–Você tem a chave. — Ela disse, apontando para a fechadura.
Robin se apressou para destrancar a porta e abriu passagem para a garota. Ela fez passos decididos para dentro do quarto, indicando que já conhecia bem o caminho. Robin esperou perto da porta, sentindo vergonha por sua pequena desordem.
Talvez fosse uma boa ideia não deixar uma toalha molhada em cima da cama misturada com os lençóis.
–Na verdade, você mesmo teria ligado se fosse esperto. — Ela disse, de repente, enquanto se abaixava ao lado da escrivaninha e esticava o braço para alcançar algo atrás da mesma. Ela puxou uma tomada de telefone solta e mostrou para ele. — Vê? — Robin apenas riu.
–O sistema de segurança daqui é ótimo.
–É, mesmo. — Ruby plugou a tomada no lugar correto e se levantou, respirando fundo. — Tudo pronto. Vovó deve ter te dito que aumenta sua diária.
–Ela disse, sim. Obrigada, Ruby.
–Sabe, Robin... Eu tenho essa sensação de o conhecer de algum lugar.
Robin congelou onde estava, enquanto Ruby se aproximava sem nenhum pudor.
Ela sabia.
Ela sabia e Robin mal conseguia respirar. Ele esperou, sentindo seu corpo flutuar pelo inferno, da mesma forma que acontecera no dia de seu julgamento. Ele apenas esperou.
–Eu sei que parece estranho. Mas as vezes, é como se eu estivesse em um déjà vu.– Ela sorriu, suas bochechas corando levemente. — Como se eu já tivesse visto seu rosto um milhão de vezes antes...
Robin voltou a respirar, lentamente. Ela não sabia.
Talvez tivesse mesmo o visto antes, na capa de um jornal ou um programa de TV. Mas ela não se lembrava. Por isso sua mente a deu a falsa impressão de déjà vu e Robin agradeceu a Deus por isso.
Quantos anos ela deveria ter? Talvez vinte, um pouco mais. Era nova demais para se prender a um suposto assassino qualquer que estivesse passando na TV a dez anos atrás.
–Isso não é possível. Eu não sou de Nova York, essa é a minha primeira vez aqui. — Ele respondeu rapidamente, acentuando seu sotaque inglês para reforçar sua mentira.
–Claro — Ela concordou, balançando a cabeça levemente. — É apenas uma besteira minha.
Robin não respondeu. Apenas esperou que ela deixasse o quarto e bateu a porta atrás dela. Não podia a responder por que não queria criar nenhuma brecha entre os dois. Não queria que ela sentisse que eram amigos ou nem mesmo colegas, porque isso tornava as coisas mais difíceis para ele. Afinal, ele não conseguiria mentir para sempre. Mas se não conversasse com ela, poderia ao menos omitir.
Ele demorou alguns minutos até tomar coragem para se mover e testar o telefone. O barulho que indicava seu funcionamento estava lá e era um som incrivelmente prazeroso para Robin. O tipo de coisa simples que ele nunca pensou que poderia ser tão incrível depois de tanto tempo preso.
Ele olhou para a lista telefônica que tinha largado no chão e sentiu algo despencar dentro de seu corpo ao pensar na possibilidade de ligar para os números que tinha encontrado.
Ele iria ligar.
Mas não agora, não tão cedo.
Primeiro, ele teria que voltar a parecer um ser humano decente.
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Regina teve que se sentar para conter sua tontura. Ela levou uma das mãos a testa, afastando seus fios pesado de seu rosto e respirou profundamente.
Se ela pudesse, acertaria Gold com a bengala ridícula que ele insistia em carregar por ai, — mas ela sabia bem que a fratura que ele tivera no pé já tinha se curado a muito tempo.
Ela o olhou novamente, esperando que sua frustração o fizesse mudar de ideia, mesmo sabendo que aquilo não levaria a lugar nenhum.
Ela estava terrivelmente enganada. Não poderia contar com a ajuda de Gold e naquele momento duvidou que algum dia poderia contar com a ajuda de Gold para qualquer coisa. Ele parecia, cada vez mais, feliz ao vê-la miserável. Seu pequeno sorriso cínico aumentava ainda mais as teorias de Regina.
–Porque? — Ela perguntou, temerosa. — Porque não?
–Não vejo motivos para tal ato, querida. Robin cumpriu sua pena e agora está livre. É assim que a lei funciona.
–Não! Ele deveria ficar por mais tempo. — Ela cruzou os braços, começando a contrariar a si mesma.
–Regina, eu sei o quanto isso é difícil para você, mas não há nada que possa ser feito. Robin Of Locksley é um homem livre e a não ser que a presença dele seja uma ameaça para você de alguma forma, é assim que ele continuará. Livre.
–Isso não é justo. — Ela piscou, controlando as lágrimas.
Gold tinha sido a pessoa mais poderosa e influente na vida de Regina, depois de seus pais. As vezes, ela se sentia como uma garotinha confusa o seguindo por um caminho tortuoso. Ela o temia e admirava da maneira que uma filha deveria fazer em relação ao seu pai, a diferença era que, ele nunca iria a mimar como seu próprio pai, Henry, costumava fazer.
Gold a seguraria pela mão e indicaria um caminho, mas também estaria lá para colocar uma perna na frente e a fazer tropeçar caso achasse que ela estava indo rápido demais. As vezes, ele também fazia piada de sua dor.
Regina o odiava.
Mas também o respeitava de uma forma esmagadora. Se Gold estava dizendo que não era uma atitude esperta, é por que realmente não era. E ela era obrigada a ouvi-lo.
–O mundo não é justo, querida. Deveria saber disso, principalmente exercendo seu cargo — Ele riu. — Você sabe muito bem que nem nosso meio é justo. Não somos Deus.
–Eu quero que esse homem apodreça dentro de uma jaula, longe de mim e do meu filho. — Ela balançou a cabeça, se negando a concordar com ele.
–Sei que você é uma criança mimada, Regina. — Ele umedeceu os lábios, se esticando em sua cadeira — Mas nem tudo que você quer vai acontecer. O que estou dizendo é a verdade... Enquanto Robin não demonstrar ser um perigo para você ou Henry, ele vai continuar andando livre por essas ruas. — Ele se inclinou para frente, a olhando profundamente. Regina conhecia aquele olhar, embora tentasse o ignorar na maior parte do tempo.
Ele estava a dando uma dica.
Acendendo uma pequena faísca, que ela poderia escolher alimentar ou não.
Se por acaso Robin fizesse algo a ela, ele voltaria para a cadeia. Ela tinha entendido o recado.
Esse era o método de Gold.
Um método sujo, porém muito eficaz. Ela já tinha o visto praticar muitas vezes e embora fosse totalmente contra seus princípios, ela nunca fora capaz de o fazer parar. Sabia que se tentasse, ele reverteria a situação sem muita dificuldade e quem terminaria com a licença caçada seria ela.
O mundo realmente não era justo e nem mesmo os que supostamente deviam exercer a justiça eram.
Era como se seu diploma de direito tivesse vindo de uma maldição.
–Eu vou tentar outra forma. — Ela disse por fim, terrivelmente arrependida de ter ido para a sala de seu sócio revelar seus medos. — Obrigada pela grande ajuda, Gold.
Regina deixou o cômodo batendo fortemente seus saltos finos no chão, impaciente com os sorrisos fáceis que Gold conseguia dar. Ele era como um demoninho de natal, pronto para roubar os presentes debaixo da árvore, enquanto dava risadinhas teatrais. Ele gostava de ver desespero.
Assim que Regina deixou sua sala, Gold discou o número de um velho conhecido que trabalhava na penitenciária estadual. Ele tinha mesmo gostado descobrir que Robin Of Locksley tinha sido finalmente liberto, embora suas intenções em relação ao homem fossem diferentes das de Regina.
O caso de Robin era o tipo de desafio que Gold adorava enfrentar e ganhar.
–--
Graham era a última aquisição de Regina. Um brilhante estagiário que estava a três meses a seguindo pelos corredores do prédio como se ela fosse uma instrutora de guias turísticos, pronto para correr em qualquer direção que ela mandasse.
Ela não era o tipo de chefe leve e simpática. Na verdade, reconhecia que tinha uma fama ruim dentro da agência, — não pior que a de Gold -, mas Graham não parecia se importar. Ele estava ali fazendo seu trabalho com honra e Regina gostava disso. Ela até iria o efetivar se um terrível, e também delicioso, contratempo não tivesse acontecido na semana passada.
Ela e Graham tinham transado em cima de sua mesa lotada de processos.
Eles já estavam a semanas trocando olhares e provocações antes do ato finalmente acontecer, mas Regina não esperava por isso, de qualquer forma. Tudo não parecia mais que uma brincadeira de adolescentes, uma música tocada em um ritmo qual Regina já não dançava a muito tempo. Mas ela tinha sido estúpida o suficiente para se deixar levar, para ficar com ele enquanto pensava em seu falecido marido, e isso chegava a dar náuseas.
Não que ela nunca tivesse pensado em seguir em frente. Em encontrar outra pessoa que a fizesse feliz e mudar o capítulo de sua vida. Mas ela queria alguém para amar e não alguém para se aliviar. E Graham se encaixava na segunda alternativa. Além do fato de se ser mais novo que ela e estar focado em coisas completamente diferentes. Ela tinha um filho para criar e Graham tinha exames da faculdade para fazer.
Ele a olhava como um lobo faminto, coisa que certamente era, e Regina se arrependeu amargamente de ter escolhido um vestido que acentuava tão bem as curvas de seu corpo.
–Iremos discutir outra coisa hoje, Graham. Deixe os processos de lado – Regina pediu, com sua voz firme e seu olhar frio, para desfazer qualquer esperança impura que estivesse se passando pela cabeça do rapaz. — Já ouviu o nome “Robin Of Locksley” alguma vez?
–Ah, sim. Ele matou o seu marido. — Graham a respondeu de prontidão, como costumava fazer. Regina fechou os olhos por um instante, esperando a pontada em seu peito passar.
–Exatamente. Eu recebi a notícia que ele deixou a prisão na sexta feira passada.
–Oh, sim. Passou em alguns noticiários... — Ele disse, estudando as reações de sua chefe. Ela era como um enigma indecifrável para ele. — Onde quer chegar?
–Eu quero que vá até a Penitenciária Estadual e busque os arquivos dele para mim. Não se preocupe com credenciais, apenas diga o meu nome.
–Entendo – Graham respondeu, em meio a um suspiro.
A mulher era doida.
Um dia, estava gemendo e tremendo embaixo dele, em meio a papéis amassados e grampos. Em outro, estava o olhando como se ele não fosse mais que um inseto.
É claro que ele não poderia esperar muito de sua grande e temida chefe Regina Mills, mas estava se sentindo como um mero brinquedo sexual em suas mãos. Ele nem teve coragem de a perguntar como eles ficariam depois daquele dia com todos os olhares mortais que ela tinha lhe enviado e então os dois estavam fingindo que nada aconteceu.
A situação toda era completamente ridícula e isso o deixava frustrado. Ele poderia ser um simples universitário mas isso não significava que não tinha sentimentos.
–O que ainda está fazendo aqui? — Ela perguntou, depois de um minuto inteiro em que estiveram se encarando. — Se quiser ir e voltar até o fim de seu expediente é melhor sair logo.
Graham se levantou, suspirando pesadamente outra vez e caminhou até que estivesse próximo o suficiente de Regina para sentir sua respiração batendo em seu rosto. Ela sustentou seu olhar, embora achasse a distância perigosa e abusiva.
–Você está bem? — Perguntou, finalmente.
–Perfeitamente bem, Graham. — Ela respondeu, forçando um sorriso de lábios vermelhos escarlates. — Obrigada pela consideração. Agora, você pode ir.
Ele deixou a sala com passos pesados e Regina conseguia entender sua raiva, mas não poderia fazer nada quanto a isso. Principalmente agora, quando tinha assuntos tão mais importantes para tratar do que sexo casual.
Regina olhou para o relógio de mesa de Graham e decidiu ir para sua própria sala buscar sua bolsa para sair. Já era quase meio dia e ela tinha um almoço com uma cliente.
–--
No fim da tarde, Robin tinha conseguido mais uns pares de roupas e produtos para higiene pessoal. Não eram grande coisa, mas tinham passado pelo selo de aprovação de Granny e isso era o suficiente. Ele tinha conseguido se manter calmo o suficiente para comer e tomar banho, — se livrando de sua barba loira e indesejável -, antes de finalmente se sentar perto do telefone e pegar aquela lista novamente.
Ele quase se sentia como um apostador prestes a conferir os números premiados, se não fosse por toda a história de assassinato e bagagem que carregava com isso. Mas considerando que eram números telefônicos de anos atrás, se conseguisse algo de um deles seria mesmo uma sorte.
Ele abriu a página que tinha marcado, onde tinha duas Regina's, e decidiu qual tentaria primeiro.
Ele pegou o telefone, sem querer perder mais tempo e discou qualquer um dos dois, sentindo o nervosismo o corroer por dentro. Ele nem sabia o que diria. Apenas queria garantir que um daqueles dois números era mesmo o dela.
Talvez pudesse se passar por um cliente.
Ligando no número residencial dela? Dificilmente.
Mas era a alternativa mais viável.
O primeiro número chamou diversas vezes antes que ele desistisse da ligação e voltasse o aparelho de volta para o gancho, frustrado. Talvez apenas não tivesse ninguém em casa e ele ainda tinha outro número para tentar, de todo jeito.
Ele puxou o aparelho para a orelha novamente e discou o segundo número lentamente, tendo certeza que estava fazendo tudo da maneira certa.
Este nem mesmo chamou, caindo direto na caixa postal, onde uma voz eletrônica irritante disse para Robin tentar outra ligação mais tarde ou deixar um recado. Ele bateu o telefone de volta em sua base imediatamente, se sentindo decepcionado.
Ele a encontrara caminhando tranquilamente pelo Central Park, mas não conseguia encontrá-la por meio de uma estúpida ligação. Chegada a ser quase engraçado mas ele queria pegar a lista e tentar novamente.
Afinal, qual era seu plano? A verdade é que ele não tinha e aquele número telefônico era ao que ele tinha se agarrado.
Ele apenas sabia que ansiava por Regina Mills o enxergando como um ser humano, para ser capaz de ver que ele não tinha cometido aquele terrível crime. Não queria conversar com ela em um tribunal cheio de advogados, trocando farpas e acusações como tinha acontecido da última vez. Ele precisava que não fosse como da última vez.
Robin deitou-se na cama, de olhos fechados.
A dor em seu peito era tão forte que podia matá-lo.
Até quando ele teria que viver carregando aquele fardo, completamento sozinho, em um mundo onde todos pensavam que ele era um assassino?
Era uma tortura.
Todos os dias eram uma tortura e as vezes, o mais fácil a fazer parecia ser desistir. Deixar com que aquilo o consumisse até que ele virasse pó, por que isso seria fácil.
Viver com aquele peso é que era difícil.
Ele se lembrou do rosto vermelho de Regina, enquanto ela respirava tão pesadamente que parecia estar se afogando em suas próprias lágrimas, em um dos vários julgamentos qual ele teve que passar.
Dos vários jornalistas cegando seus olhos com flashes brancos quando ele deixava o tribunal.
Das várias pessoas o olhando como se estivessem prontas para matá-lo, em nome da América.
E Deus, ele ainda tinha que ser um maldito estrangeiro, para piorar sua situação.
Quem quer que tivesse forjado aquele crime, devia ser um tipo de profissional e Robin se surpreendia pelo fato de ainda estar vivo.
Ele e o verdadeiro assassino eram as únicas pessoas que sabiam a verdade.
Repentinamente, Robin sentiu um frio dominar seu peito. Será que o assassino ao menos já considerara a possibilidade de que ele poderia tentar provar sua inocência? Será que ele já considerara o fato de que Robin podia fazer ele?
Aquilo era um problema ainda maior do que fazer Regina acreditar nele, por que se ele morresse, não poderia mandar sinais sobrenaturais de dentro de sua cova.
Era uma ameaça invisível com a qual ele teria que lidar.
Talvez Robin precisasse mesmo de uma advogada brilhante como Regina Mills era descrita.
Um toque insistente o tirou de seus pensamentos. Ele abriu os olhos e olhou calmamente para o telefone escandaloso, cauteloso na hora de o tirar do gancho e levar para perto da orelha.
–Sim?
–Telefone para você. — A voz entediada da Granny soou pelo aparelho,
–Mas... Quem?
–Alguém que você esteve ligando recentemente. — Ela o explicou. — Ela está querendo saber de quem é o número em sua bina. Acho que esqueci de te avisar que todas as ligações são transferidas para cá para que eu possa ter controle sobre os ramais e desde que você é o único hóspede da pensão, a ligação só pode ser sua. Ela está esperando...
Granny não esperou que ele respondesse para transferir a ligação para o telefone de Robin e logo ele estava ouvindo suspiros impacientes do outro lado da linha.
Ele pigarreou.
–Olá?
–--
Regina estava com o telefone em sua orelha, batendo as longas unhas impacientemente contra a mesa da sala de jantar. Ela considerava seu telefone residencial inútil. Nunca recebia ligações por aquele número, a não ser que fossem telemarketings insistentes tentando arrancar todo o dinheiro que ela tinha oferecendo intermináveis serviços e produtos. Mas nem mesmo eles estavam a ligando recentemente, o que a fez se perguntar quem seria.
No início, ela pensou que poderia ser alguém da Penitenciária, ligando para explicar por que maldito motivo os arquivos de Robin Of Locksley tinham sido retirados do local pouco tempo antes de Graham ir os buscá-los para ela. Mas logo que o telefonema caiu em uma pensão, ela soube que estava errada e isso a tinha deixado ainda mais curiosa, — mas não menos irritada por estar enganada. Ela esperou longos minutos antes de finalmente receber uma resposta.
–Olá? — Uma voz cautelosa e cheia de sotaque soou do outro lado da linha. Regina deu outro longo suspiro, acompanhado de um finalmente.
–Quem está falando? — Ela perguntou, sem perder tempo com formalidades. Talvez fosse apenas um engano.
–Você é Regina Mills? A advogada?
–Você deveria saber para quem liga... Mas sim, eu sou. De quem é o interesse?
Robin engoliu a seco do outro lado da linha. Era mesmo ela e de repente o jantar não parecia cair tão bem em seu estômago. Ele forçou sua voz para fora, enquanto, na verdade, apenas queria colocar o telefone de volta ao gancho e deixar Regina Mills falando sozinha.
Ela queria seu nome. Ele nunca poderia dizer o verdadeiro e agradeceu aos céus por Granny não ter dito a ela. Teria que inventar um, mas todos os nomes que conhecia pareciam ter dissipado de sua mente mais rápido que fumaça. Robin...Robin...Talvez apenas o sobrenome... Sr...
–Sr.Hood – Ele disse rapidamente e mordeu a língua assim que as palavras chicotearam para fora.
Hood. Robin Hood. O fora da lei. Ele riu levemente.
Parecia terrivelmente adequado para a situação e ele esperou que ela não perguntasse seu primeiro nome.
–Posso ajudá-lo em algo, Sr. Hood? — A impaciência de Regina era algo crescente. Ela se virou de costas para a mesa, para se sentar na beirada, e ergueu uma de suas sobrancelhas enquanto esperava por uma resposta.
–Eu espero que sim. Queria discutir um caso com você. — Ele disse, nervoso. — Algo que aconteceu comigo a muito tempo atrás...
–Trabalho? — Regina riu, amarga, e olhou para um relógio no canto da sala. Eram dezenove horas, o que significava que seu horário de trabalho já tinha terminado a muito tempo. — Se quiser meus serviços terá de me ligar outra hora. No meu escritório ou telefone pessoal.
–Oh, eu entendo... Sinto muito por incomodá-la, Sra. Mills.
–Vou te passar os números e assim que me ligar podemos marcar um horário adequado para nos vermos e...
–Não. Eu gostaria de conversar com você apenas por telefone.
–Como quiser, então. — Ela suspirou. O cliente tem sempre razão, mesmo que ela odiasse ter que conversar com alguém sem olhar diretamente em seus olhos. Ela deu a Robin três números, quais ele tinha conseguido memorizar apenas um, já que não tinha nada para conseguir anotá-los.
–Obrigada. — Ele disse, por fim, sentindo seu coração palpitar.
–Sr. Hood... Do que se trata o seu caso? — Ela perguntou, com a voz menos irritadiça dessa vez, Robin percebeu. A curiosidade tinha vencido seu humor.
–Fui condenado injustamente... Paguei por um crime que não cometi. — Robin respondeu, se perguntando se aquilo era inteligente e decidiu que era. Regina não ligaria os pontos para chegar até ele, porque não acreditava que ele tinha sido inocente no caso de seu marido. Para ela, Sr. Hood seria apenas mais um cliente como qualquer outro.
–Eu sinto muito. — Ela respondeu, mordendo o lábio inferior.
Regina já tinha passado por alguns casos desse tipo e todas as vezes fora algo muito delicado. A verdade é que advogados não devem se importar se seus clientes estão dizendo a verdade ou não. Eles são pagos apenas para defendê-los a qualquer custo, usar de seus conhecimentos para rebater qualquer acusação dentro de um tribunal e no final, o juiz decidiria quem foi mais convincente.
O mundo não era justo, Gold tinha dito, e ela sabia que era a verdade.
–Se estiver mesmo disposto a ir contra a decisão do juri, uma hora teremos de conversar pessoalmente.
–Eu sei.
–Tudo bem... — Ela suspirou. — Boa noite, Sr. Hood. Me ligue quando precisar.
–Desde que seja em um horário comercial... — Robin disse, sem conseguir conter sua língua.
–Exatamente. — Ela concordou e apertou o pequeno botão vermelho para encerrar a ligação.
Longe de seu apartamento, no subúrbio da cidade, Robin encarava o aparelho em suas mãos com um misto de animação e medo. A voz de Regina era grave e decidida, era forte, tom diferente do qual ele se lembrava de ter ouvido a muito tempo atrás.
Ela estava diferente. E ele também.
Ambos quebrados e usando máscaras enquanto estavam em frente a multidão, tentando fingir que o passado não os assombrava mais.
Era um grande show teatral e no momento, Robin estava apenas em sua primeira cena.
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