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2 Nothing Wrong
Notas iniciais
Bem, era tarde demais para avisar a eles sobre mim.
Tudo começou a tremer no quarto. Jemma arregalou os olhos e deu alguns passos para trás, provavelmente sentindo medo de mim. Os olhares me fuzilavam como metralhadoras e eu não podia suportar ficar por mais nem um minuto ali. Precisava de ar. De um lugar distante de pessoas que pudessem ser machucadas por mim. Pode parecer algum sentimento de auto piedade, mas tudo que eu queria era mantê-los seguros. No fundo, eu sabia que Jemma voltaria atrás. Ela me olharia depois de tudo e diria que estava tudo bem eu ser daquela forma e que iríamos encontrar um jeito de superar aquilo, mas a segurança de todos vinha antes de meus sentimentos feridos.
Afastei-me da base, sentindo as lágrimas arderem quentes em meu rosto. May e Coulson não estavam com medo de mim e sim de me deixar sozinha com aquilo solto dentro de mim. Os primeiros passos para fora da base foram errantes e sombrios. Aproximava-se das onze da noite quando encontrei essa reserva florestal imensa e isolada. O choro abafado apenas gerava um tremor tímido, que apenas balançava a copa de algumas arvores e mantinha os animais longes de mim. A dor começava a ficar mais forte conforme eu lembrava dos últimos acontecimentos. Ward. H.I.D.R.A. Meu pai. O Obelisco. Tudo contribuía para nublar meus pensamentos quando uma enorme esfera azul escura (ou era roxa?) surgiu de sabe-se-lá-onde com um homem dentro dela. Ele não tinha olhos, mas parecia enxergar melhor do que eu mesma, já que ele disse que me guiaria pelo caminho.
Essa é a hora que você pensa em como a vida é bizarra. Quando eu hackeei a S.H.I.E.L.D., meu único intuito era procurar os meus pais e talvez – vejam bem, talvez – expor uma organização corrupta e sem rosto à sociedade. No entanto, eu acabei me aliando a eles. Descobri que a May era a Cavalaria no meu primeiro dia; invadi a casa de Ian Quinn; Miles me meteu em encrenca e eu quase fui expulsa da equipe; vi a Simmons tentar se matar ao pular do avião e Grant perder o controle com o bastão Berserker. Ajudei Hanna Hutchings, consegui localizar Coulson e May passou a gostar de mim; Entramos disfarçados em um trem e Quinn quase me matou... Resumindo... Os meses se passaram e eu me tornei uma agente nível um para tentar descobrir quem raios era o “Clarividente”. Que por sinal, acabou sendo o agente que ajudou a recuperar a droga alien que me salvou da morte. E também uma das cabeças da H.I.D.R.A. Que meio que me levou até o meu pai, já que toda essa coisa de “Obelisco” começou com os desenhos que Garrett fazia no vidro do Bus. Coulson surtou como ele, mas acabou que eu que era a verdadeira alien da história. Daí, um dia desses encontrei meu pai e ele me disse que eu era especial como a minha mãe. O que eu fui descobrir algumas horas depois dele ter me dito meu verdadeiro nome. Daisy. E agora... Bem, agora eu sou arrastada para outra dimensão por uma bola azul-roxeada com um homem cego dentro dela e que jura que pode me ajudar a achar alguma coisa. Okay, vamos lá.
Nós dois fomos arrastados por uma espécie de campo de força (Fitz mataria para descobrir como ele faz isso) e acabamos dentro de uma sala vermelha em estilo oriental, que parecia ter sido construída na época de Moisés, mesmo que estivesse até em bom estado. Tão logo eu pus os pés naquele lugar, eu pude sentir o chão tremendo com violência à minha volta e levou algum tempo para que tudo se acalmasse novamente. O homem ficou parado na minha frente e não disse nenhuma palavra sequer, até que aquele silêncio estava me deixando desconfortável.
– Essa é a hora que você me explica o que está havendo? – perguntei simplesmente.
– Você parece muito com ela.
– Você não está fazendo sentido algum. – continuei sem entender nada, apenas o encarando de braços cruzados.
– Prática e honesta. – ele continuou. – Firmeza nas palavras... Medo no olhar. Você está perdida, não está?
– Sim. – assenti, um tanto impressionada com a percepção dele. – Em vários sentidos da palavra, na verdade.
– Eu percebi.
– Como?
– Eu estava exatamente como você há muito tempo. Mas alguém me trouxe até aqui e me ensinou a viver com isso.
– O que aconteceu com os seus olhos? – perguntei inocentemente.
– O mesmo que aconteceu com o interior do seu corpo. – ele respondeu calmamente, aproximando-se de mim. – Nós dois somos mais parecidos do que parece, Daisy.
– C-como... Como sabe o meu nome?
– Como eu sei? – ele parecia ter ouvido uma pergunta óbvia. – Você é a filha de Jiaying. – meu corpo (literalmente) estremeceu ao ouvir o nome de minha mãe. – Ela foi a responsável por transformar meu desespero em dádiva.
Uau. Eu parecia ter levado um soco na cara.
– Você... Conheceu a minha mãe?
– Sim. Ela era a criatura mais doce e mais paciente que eu tive o prazer de conhecer. E você está indo no mesmo caminho que ela.
– Não, senhor. – respondi, abaixando a cabeça mesmo que ele não pudesse me encarar. – O dom de minha mãe era inofensivo. Já o meu... Traz mais problemas do que soluções.
– Eu também era assim no começo.
Ele sorriu e levou-me até um pequeno compartimento à parte, que continha algumas almofadas e tapetes no chão e uma televisão bem antiga. Pegou uma fita em VHS (e nossa, fazia séculos que eu não ouvia mais falar disso!) e colocou num aparelho empoeirado. Depois de alguns segundos de estática, a imagem se estabilizou – num padrão de estabilidade dos anos 80. – e mostrou uma mulher de semblante amável, com sorrisos e mãos adoráveis. Ela tinha os cabelos escuros e estavam trançados. Era ela.
– Esta é Jiaying. – ele indicou com o dedo, mesmo sem ver nada na tela, eu presumo. – Ela orientou muitos de nós por muitas décadas. Ela praticamente cuidava de nós quando chegávamos aqui perdidos, depois de passar pela névoa terrígena.
– Névoa Terrígena...?
– Foi o que ativou seu componente inumano.
– “Inumano”?
– É. É assim que somos chamados por aqui, Daisy. É isso o que somos.
– Não é um termo muito pesado para descrever a coisa toda? – Perguntei, sem saber se o estava ofendendo ou não.
– Eu não acho. – ele respondeu, quase sorrindo.
– Então... Como foi com você..?
– Gordon! – ele bateu a mão na testa, ao perceber que não havia se apresentado. – Meu nome é Gordon, a propósito.
– Muito bem, Gordon – pronunciei o nome com certa falta de familiaridade. – Como você lidou com essa coisa... Você sabe... Inumana?
– Pode dar play e assistir. – ele instruiu. – Você vai ver a bagunça que eu fazia quando cheguei aqui.
No vídeo, Gordon devia ter uns dezoito para dezenove anos, estava completamente assustado e parecia não conseguir andar com toda a coisa azul fluindo pelo seu corpo, o levando por todos os lugares da sala sem que ele tivesse o mínimo controle sobre aquilo.
– Uau. – observei, tentando comparar os dois Gordons ali presentes. – Você estava uma bagunça mesmo, aqui.
– Isso não é nem o começo. – ele pontuou. – Eu estava completamente desorientado. Não entendia por que não conseguia enxergar; meu corpo era absorvido e arremessado todas as vezes que eu tentava fugir daquilo. Mudar é aterrorizante.
– É, acho que te entendo, — ela tentou usar um pouco de bom-humor. – Mas não sei o que fazer no momento.
– Quer ouvir a voz da experiência?
– Com certeza. – assenti, já esperando algo do tipo.
– Não fique vagando sozinha por aí.
– Mas eu posso machucar os meus amigos, e eu não...
– É mais fácil você machucá-los quando está magoada. E longe dos que te amam, isso vai acontecer com muita frequência, acredite em mim. Eu tentei fugir algumas vezes, mas Jiaying sempre me achava... Ela sabia que o melhor lugar para mim era próximo daqueles que queriam meu bem. Faça isso, Daisy.
Gordon estava certo. Nunca conseguiria me controlar guardando toda aquela dor e mágoa que começava a crescer dentro de mim. A única maneira de mantê-los seguros, na verdade, era me manter segura junto deles.
– Sua mãe... Ela te amou por todos os dias que pôde, Daisy. – ele aproximou sua mão do meu ombro e tocou-me. – Ela queria ter vivido o suficiente para te ensinar tudo isso. Para que você não ficasse com medo e se escondesse do mundo. – meus olhos já produziam mais lágrimas ao ouvir aquelas palavras. – Ela amaria te ver agora.
– Mas você sentiu o que eu fiz com a sala no momento em que eu entrei aqui... – tentei argumentar, mesmo sabendo que não teria chances de lutar contra quem eu era.
– Senti. – ele sorriu, quase como se estivesse orgulhoso daquilo. – E foi simplesmente lindo.
Poderia não parecer, mas eu estava sorrindo. Os olhos lacrimejavam, mas eu estava leve. Olhei para o monitor mais uma vez e assisti minha mãe chamando Gordon de novo, e de novo, e de novo. Ela tinha um dom para cuidar das pessoas. E isso... Isso eu conseguia reconhecer desde sempre dentro de mim.
– Obrigada, Gordon. – agradeci emocionada, dando-lhe um abraço aliviado. – Você realmente salvou muitas vidas hoje.
– Estou apenas seguindo os passos de Jiaying. – ele sorriu. – E você, nunca... Nunca mesmo esqueça quem é.
– Não vou, Gordon. Esteja certo disso.
– Agora – ele colocou uma das mãos na minha cintura, me prendendo ao seu corpo. – Preciso te devolver antes que seus amigos esqueçam de você.
E da mesma forma brusca com que fui tirada daquela relva, eu fui devolvida, apenas vislumbrando alguns traços em tons azuis e roxos, sem sinal de Gordon. Ele havia voltado para sabe-se-lá-onde e eu estava de volta à base. Alguns quilômetros e eu estaria em casa.
(...)
Skye aproximou-se da entrada. Sabia que naquele momento, o sistema de segurança já havia detectado sua presença. Inexplicavelmente, o relógio no seu pulso marcava oito horas da manhã. Como poderia aquela conversa com Gordon ter durado mais de uma hora? Skye balançou a cabeça para expulsar os pensamentos confusos. Nada mais tremia ao seu redor.
Até que a porta se abriu.
Coulson e Simmons estavam do outro lado da porta. A cientista estava com o rosto sereno e machas escuras ao redor dos olhos. Phil com certeza não tinha dormido direito também.
– Gente – Skye pronunciou fracamente, sentindo sua respiração acelerar-se. – Eu sinto muito...
Simmons nem ao menos a deixou terminar a frase e correu os três metros que a separavam de Skye. Lançou-se ao pescoço dela e um choro amargo lhe escapou da garganta. Coulson apenas sorriu para Skye e voltou para dentro da base, enquanto as duas garotas ainda estavam abraçadas do lado de fora.
– Skye... Eu não quis te machucar...
– Jemma, está tudo bem – Skye tentava confortá-la. – Você é humana – ela disse com carinho, depois se perguntando qual era realmente o significado dessa palavra. – Eu também fiquei com medo de mim... Está tudo bem.
– Eu não fiquei com medo de você. – ela apertava os braços ao redor do pescoço de Skye como se nunca mais fosse soltá-la. – Eu só... Tive medo por você. Medo do que isso pudesse fazer com você...
– Não precisa ter medo, Jemma. – Skye afastou-a, segurando Simmons pelos braços e encarando-a. – Eu acabei de descobrir o que eu sou, Jemma. Eu... – os olhos de Skye se enchiam de lágrimas. – Eu conheci minha mãe.
– Como assim? – Simmons enxugou as lágrimas e fez uma expressão confusa. – Ela não estava...
– Morta, eu sei. Mas eu vi o que ela fazia quando estava viva... E ela viveu para guiar pobres almas perdidas como eu. Ela era boa e gentil. Amável... Ela era linda. – uma lágrima calada escorria pelo rosto da garota inumana e Simmons pôde sentir um leve abalo nas proximidades. – Ela era... Inumana.
– Então – Simmons tocou os ombros da amiga com as duas mãos. – Você herdou quase tudo dela. – A cientista sorria aliviada por ter a amiga de volta. – Ai, que bom que você está aqui novamente. – Jemma a abraçou de novo. – Não faça mais isso com a gente, tudo bem?
– Eu prometo que não vou mais embora, Simmons.
– Eu conheço bem suas promessas, Skye.
– Ah, qual é! – Skye deu um murro leve no braço de Jemma. – Dá um desconto para a sua amiga inumana, sim?
– Skye... Você não tem jeito!
As duas sorriram e entraram na base, fazendo brincadeiras sobre a “Inumanidade” de Skye. Em breve, ela se sentiria como Gordon: Enxergando na escuridão do mistério e do medo. Skye romperia essas barreiras lentamente, mas romperia de uma vez por todas. No fim, nem tudo estava errado dentro dela, e para falar a verdade, era até bom ser diferente. Com o apoio da equipe e de seus amigos, Daisy Johnson não precisaria mais se esconder. Era exatamente o contrário.
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