Hidden

7 Capítulo 6 - Castle


A cortina da grande janela se encontrava aberta, possibilitando que os raios solares entrassem transversalmente na sala, agora já habitada.

À mesa, sentados civilizadamente, a família real comia silenciosamente. A rainha observava, atenta, a filha. O rei prestava atenção no vazio, como se sua cabeça estivesse em outro lugar. A princesa permanecia sentada, sem comer ou fazer mais nada, e inquieta.

Emma precisava falar alguma coisa. Precisava sair daquele lugar.

“Bem, agora vou me retirar. Com licença”, e levantou-se, educadamente, planejando seguir rapidamente até a porta para finalmente sair de lá.

“Onde pensa que vai?”, seus pensamentos são interrompidos pela voz da mãe, que a olhava com um ar superior.

“À floresta”, Emma respondeu, hesitante. Conseguia sentir que algo ruim estava prestes a acontecer, só não sabia o que era.

“Você não vai à lugar nenhum, senhorita”, as palavras saíram da boca da rainha e atingiram Emma como se estivesse sendo esmurrada. Sua mãe não podia fazer aquilo. Não podia impedi-la de fazer as coisas que gostava. Simplesmente não podia.

“Como?”, estava incrédula. Não conseguia acreditar que aquilo estava acontecendo.

“Você me ouviu”, ela disse, com o olhar fixado no de Emma, olhando-a fria como sempre, com ar de superior, “Você. Não. Vai. Sair. Hoje”, falou as palavras separadamente, dando ênfase em cada uma delas.

“Por que não? Eu não fiz nada de errado!”, tentou argumentar, mas não deu certo. No fundo, sua mãe, ao ouvir aquilo, tinha uma vontade imensa de falar sobre o que Graham havia visto ela fazendo. Mesmo assim, se conteve.

“Bem, você tem saído muito, ultimamente. E você precisa parar de se importar tanto com coisas fúteis como essas suas idas à floresta e passar a se importar com assuntos que digam respeito a seu reino, que, queira você ou não, um dia será seu”, a resposta de sua mãe foi longa e falada rapidamente. O som de sua voz cortou o ar como uma espada afiada, deixando Emma sem saber o que dizer por alguns segundos.

“Você não pode me obrigar a nada”, disse, um tanto hesitante.

“Na verdade, eu posso. Não sei se você se lembra, mas ainda sou sua mãe”, ela respondeu, e Emma revirou os olhos.

Ia argumentar novamente, mas foi interrompida pelo pai.

“Emma, não discuta com sua mãe”, disse sem nem mesmo olhar para ela. Tinha o olhar vago e o tom de voz extremamente frio.

Emma não disse nada. Estava inconformada com a situação. Queria ir embora, queria sair de lá, mas aquilo não era possível no momento. Subiu rapidamente as escadas, tropeçando em alguns degraus. Mesmo assim, não se importou. Não aguentava mais ter de ficar naquele lugar inóspito, com pessoas que claramente não a entendiam.

Queria chorar. Queria simplesmente entrar no quarto e desaparecer. Não aguentava mais aquela situação se repetindo o tempo todo. Simplesmente não aguentava mais.

Entrou no quarto e fechou a porta rapidamente. Sentiu seu rosto começar a ficar molhado, e só algum tempo depois se deu conta de que havia começado a chorar. Apoiou as costas na porta e foi deslizando lentamente até o chão.

Chorava de uma maneira incessável, as lágrimas embaçando sua visão e molhando suas roupas.

Levantou a cabeça por um motivo que não se lembrava mais, e avistou, de longe, a gardenia que havia ganhado de Regina. Jazia na cabeceira da cama, contrastando com as cores do quarto e dando um toque ornamental a ele.

Emma, então, focou seus pensamentos na flor, na tentativa de se sentir um pouco melhor, o que surpreendentemente funcionou.

Agora, precisava achar alguma distração, caso contrário iria enlouquecer.

Sua distração não tardou a chegar, e seus pensamentos foram (rudemente) interrompidos pelo barulho de alguém batendo na porta.

“Emma?”, a voz de sua mãe havia ficado mais calma, mas ainda tinha traços de irritação da discussão que haviam tido minutos antes, “Abra a porta, por favor. Vou só conversar com você”, mesmo não acreditando nas palavras de sua mãe, abriu a porta, relutante.

Cabisbaixa, segurou a porta para que a mãe entrasse no quarto. As duas sentaram-se, agora civilizadamente, na cama de Emma.

“Eu não deveria ter gritado com você antes. Sinto muito”, Snow disse e ela assentiu. Não queria falar nada, caso contrário iria, provavelmente, iniciar outra discussão, “Mas eu estava falando sério. Você precisa começar a se envolver com os assuntos do reino, ou nunca estará apta a governar”, Emma sentiu vontade de revirar os olhos novamente, mas se conteve, “Por isso, hoje vou introduzi-la a tudo que precisa saber sobre o reino. E é claro, como governá-lo”, dessa vez não conseguiu aguentar e revirou os olhos rapidamente, sem que a mãe estivesse vendo.

Emma queria argumentar, mas sabia que se fizesse isso iria arrumar confusão com a mãe novamente, coisa que ela não queria no momento. Então, permaneceu quieta, reprimindo seus pensamentos e tentando não os dizer em voz alta.

“Bem, o que você está esperando? Vamos, vamos! Temos muito a fazer”, o entusiasmo dela chegava a ser contagiante, coisa que não estava agradando muito Emma.

Sua mãe segurou sua mão e a fez levantar da cama e, em seguida, sair do quarto. Ela foi arrastada pelos corredores do palácio, virando esquerdas e direitas, até se dar conta de que estava legitimamente perdida. Dentro do palácio. O lugar onde ela morava. Por mais estranho que isso soasse, ela não estava nem um pouco surpresa. Afinal, já havia acontecido aquilo antes.

Elas entraram em uma sala grande, com uma mesa circular de madeira no canto esquerdo. Vários livros e pergaminhos jaziam espalhados desorganizadamente pela mesa, dando a impressão de que alguém tinha mexido neles ultimamente.

Emma realmente não queria estar lá. Olhou pela janela e imediatamente ficou menos disposta (não que antes sua disposição fosse tanta). O sol brilhava forte, fora do castelo, é claro. Dentro dele (dentro do lugar onde Emma estava, mais especificamente), somente alguns raios solares passavam pela janela, que naquele momento estava coberta por uma cortina.

Emma olhava pela janela, vendo o sol iluminar todas as partes do castelo, modelando as formas diversas espalhadas pelos jardins e dando vida ao lugar, o que a fez se sentir mal. Não queria estar lá, presa dentro do palácio, muito menos com sua mãe. Queria sair. Queria sentar-se nos jardins, sentir o ar fresco da manhã bater contra o seu rosto, queria sentir os raios de sol a aquecerem. Queria sair de lá.

Sua mãe, ao perceber a filha presa em devaneios, a repreendeu.

“Emma! Preste atenção, isso é importante”, disse e continuou a explicar os detalhes complicados da administração do reino. A mente de Emma automaticamente se fechou, impedindo que qualquer informação sobre aquele assunto fosse absorvida, “Emma! Eu estou falando sério, preste atenção”, ela foi repreendida novamente, o que a fez revirar os olhos. E suspirou. Aquele seria um longo dia.

No andar de baixo, Charming estava inquieto. Não concordava, de qualquer maneira, com o que Snow estava fazendo, mas nunca iria dizer aquilo a ela. Afinal, ela não podia simplesmente privar a filha de fazer uma coisa que gostava.

Ultimamente ele não tinha aprovado muito as escolhas de sua mulher, mas como não podia dizer nada (pois, se não, seria repreendido), guardava seus pensamentos para si mesmo.

Por sua vez, Snow, no andar de cima, também estava inquieta. Percebia que Emma não estava prestando atenção, e sabia que, mesmo que a repreendesse de novo, não iria adiantar. Ela estava com a mente em outro lugar, e Snow conseguia ver isso claramente. Não fazia a mínima ideia de o que se passava por sua mente, e isso havia desenterrado muitas de suas inseguranças, principalmente as que havia se esforçado para esquecer.

Quando Emma começou a visitar a floresta, Snow não se importou tanto. Afinal, ela era apenas uma criança na época e nunca ia muito fundo. Que mal poderia acontecer? Com o passar dos anos, Emma se tornou mais curiosa. Queria explorar mais lugares, ir a lugares desconhecidos na floresta, se aventurar. A cada dia, entrava mais fundo na floresta. E a cada dia, Snow ficava mais preocupada. Não pelo simples fato de a floresta, em algumas situações, ser perigosa, mas por motivos que ela havia, incansavelmente, tentado esquecer.

É claro que ela tinha medo das coisas que poderiam acontecer com Emma na floresta, em geral. Mas seu maior medo era que Emma encontrasse Regina.

O que ela havia feito com Regina era um dos maiores arrependimentos de sua vida. Não gostava de se lembrar daquilo. Sabia que havia sido uma decisão equívoca, e que provavelmente iria se arrepender daquilo pelo resto de sua vida.

Seus medos e inseguranças tomavam conta dela, mas não podia deixá-los aparecer. Então simplesmente respirou fundo e continuou a explicar as coisas à Emma, mesmo sabendo que ela não estava prestando atenção.

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Regina observava, atenciosamente, a cena.

Podia, claramente, ver o desinteresse de Emma. E não podia culpa-la. Afinal, aquele não era um dos assuntos mais interessantes do mundo.

Sabia que o que estava fazendo, observar o que Emma fazia, era errado. Mas quando ela não apareceu (coisa que fazia todo dia) cedo em seu castelo, a Rainha ficou preocupada e decidiu ver se havia acontecido algo com ela. Até porque, que mal aquilo poderia causar?

Olhou novamente para o espelho, desta vez prestando atenção à Snow, que continuava a explicar as coisas para Emma.

Em outras épocas, ela teria sido tomada pelo ódio, simplesmente por ver a imagem de Snow. Mas isso, agora, era passado. É claro que ainda sentia raiva dela, até porque ela havia a prendido naquele lugar. Mas mesmo assim, aquilo havia sido há vinte e um anos atrás. E naquela época, ela tinha de admitir, Regina era uma pessoa horrível. Então, não podia culpar Snow. Bem, talvez só um pouco. Afinal, aqueles vinte e um anos que havia passado, sozinha, em sua prisão domiciliar não haviam sido fáceis.

Ainda olhando para Snow, pôde perceber algo que nunca esperaria dela. Ela estava inquieta, e exalava insegurança.

Regina não fazia a mínima ideia de sobre o que ela se sentia insegura. Talvez estivesse com medo de que Emma a encontrasse (coisa que já havia acontecido). E esse pensamento a fez rir.

Talvez o fato de ela rir de uma situação como aquela fizesse dela extremamente sádica. Mas ela não se importava.

Olhou novamente para o espelho e viu Emma com o olhar preso no horizonte, olhando pela janela, um tanto pensativa. A última coisa que ela devia estar fazendo naquele momento era prestar atenção à sua mãe.

A visão de Emma, de alguma forma, acalmava Regina. Fazia-a se sentir segura, bem.

Ela balançou a cabeça, na tentativa de tirar esses pensamentos de sua mente. O que estava acontecendo com ela?

Regina saiu, finalmente, da frente do espelho, seguindo até a varanda, onde se debruçou sobre o parapeito. Sentiu a brisa fraca bater contra sua pele, tirando alguns dos fios de seu cabelo do lugar e, aos poucos, a acalmando.

A situação na qual se encontrava a deixava extremamente desconfortável. Nunca havia sentido aquelas coisas, e não estava gostando muito. Bem, talvez um pouco.

Olhou para a floresta, que seguia até a linha do horizonte e parecia não ter fim. E naquele momento quis, mais que nunca, sair daquele lugar.

Então, suspirou. E sorriu levemente, por um motivo que nem ela sabia.

E continuou a olhar para a floresta sem fim.