Hidden

41 Enrolada


Notas iniciais
Mais um!

- Não somos um casal. É proibido o envolvimento entre mutantes e humanos. – fingi cuspir a palavra: “humanos”, e menti com a culpa batendo em minha cabeça.

Shenid riu.

- Qual é... Até parece que eu não percebi o jeito nojento que vocês se olham. – disse ele mexendo no blazer vermelho, e deixando a luz bater na pequena e potente arma que carregava no cinto.

Por algum acaso isso foi uma tentativa xula de me deixar com medo? Perguntei a mim mesma.

- E isso passou a ser seu problema quando...? – perguntei deixando a frase inacabada.

Shenid se inclinou para frente meio que bruscamente.

- Quando ele quis trabalhar comigo. – respondeu.

Sua resposta foi pior que um soco no estômago. Fiz uma careta não muito legal, e tentei soltar-me das cordas que prendiam meu punho. Foi em vão.

Aldeth veio com a seringa nas mãos e um sorriso nos lábios. Cuja boca eu queria socar até destruir.

- Pronta para ter a pior experiência da sua vida? – perguntou ele com a voz baixa e roucamente ameaçadora.

Não respondi pensando que ele iria me matar com uma só voadora no peito, mas daí eu percebi que, o que eu falava – ou pensava – era ridículo!

- Tanto faz.

Ele sorriu, e não se importou com meus gritos quando ele enfiou a agulha em meu braço. Aldeth pegava meu braço com somente uma das mãos, e parecia ter prazer em me ver berrando igual a uma condenada.

Quando ele acabou, me vi ajoelhada no chão, sentindo meu organismo mudar completamente. Senti uma coisa de mim como se fosse uma ânsia de vômito muito grande. Comecei a suar frio, e sentir-me como se estivesse no Alasca ou algo do tipo. As coisas ficavam muito turvas para mim. Minha visão ficou meio embaçada e ruim, quase como se eu tivesse acabado de acordar ou algo do tipo. Minha mão estava menor do que eu estava acostumada. Olhei para meu braço, e percebi que o furo onde a agulha estava à pouco, ainda estava se fechando, e o líquido escorria pelo meu braço como se fosse sangue.

Uma luz se ascendeu em minha cabeça e lembrei-me de que, todos – ou pelo menos a maioria – das pessoas presentes eram humanos, e que eu era o monstro da tasmânia. Eu podia voar, podia pegar meu irmão, e fugir. Eu podia esquecer Bernardo pelo bem de Rubens. Podia esquecer Adam, Davil, Remi e todas as pessoas que eu conheci aqui.

- Então, como se sente querida? – perguntou Shenid vagamente interessado.

- Não te interessa bola de pelos. – respondi mal educada referindo-me a barba pesada que ele carregava no queixo.

Ele riu.

- Engraçada você. Nem um formigamento de nada? – perguntou ele.

Eu sentia sim um formigamento leve, e irritante no braço.

- Não. – respondi tentando me levantar, quando vi Aldeth vindo com mais uma seringa com o mesmo líquido dourado.

- Ok. – disse Shenid fazendo um gesto com as mãos, dizendo para que Aldeth avançasse.

Recuei com o corpo tentando levantar-me mais uma vez. E novamente, meu corpo reagiu mal. Ignorei a dor latejante que percorria minhas pernas, e saltei tentando levantar vôo ou pelo menos sair do chão.

Consegui ficar no ar – sem as asas aparentes – por alguns segundos, mas alguém puxou a corda de meus punhos quando eu ia me soltar. Cai com a mão esquerda em contato bruto com o chão, e ouvi o osso quebrar facilmente. A dor deixava-me desnorteada, e minha visão ficou preta. As lâmpadas piscaram fortemente, e eu gritei quando Aldeth ficou por cima de mim, prensando meu punho machucado.

As lágrimas pareciam queimar meu rosto. Enquanto eu gritava, apertei a mão direita com brutalidade, e uma lâmpada estourou, e algumas fagulhas de fogo relampejaram em minha vista. Aldeth pressionou a agulha em meu braço novamente, e conseguiu – a base da força – colocar aquele líquido dentro de mim. Ardeu.

Bernardo gritou para o homem alguma coisa, e o empurrou, porém meus ouvidos pareciam estar entupidos e pressionados por alguma coisa. Bernardo empurrou o homem enquanto ele ainda aplicava a injeção de sei lá o que em meu braço, e tirou a agulha de meu antebraço.

- Você está bem? – perguntou ele tocando em meu rosto, preocupado, e abraçando-me. Seus olhos estavam inchados mais do que o normal.

Não consegui assentir e nem falar nada. Minha boca agora parecia pesar mais do que o normal, e parecia que eu estava carregando um pedaço de chumbo na boca.

- Então eu estava certo. – ouvi Shenid dizer.

Arquejei com a dor que possuía meu ser e corroia minha alma. A dor latejante parecia perfurar sem dó nem piedade minha carne.

Bernardo olhou para mim ainda me segurando e sorriu.

- Quer saber? – disse ele. – Você est...

- Não estava certo. – respondi segurando a garganta para forçar a voz, e cortando Bernardo.

- Não? Tudo bem. Se vocês não são um casal, não se importam em ver o outro sofrer, não é? – perguntou Shenid.

Arregalei os olhos, pensando para Bernardo: “Sai daqui, seu idiota!”.

Notas finais
continua?