Hey, sister
1 Capítulo único
Notas iniciais
O vento frio do primeiro dia de inverno envolvia os dois irmãos que treinavam na grande arena á céu aberto do castelo. O mais velho, de cabelos negros e olhos azuis, mantinha-se atento à pequena Ellen, pronto para corrigir sua postura; ela, por sua vez, apertava fortemente os dedos na rédea do cavalo e sorria enquanto dava voltas e mais voltas ao redor do príncipe herdeiro. Não havia nada para ser corrigido ali. A garota era uma cavaleira nata, como sua mãe. Tharin sorriu:
— Muito bem, miosótis! — Ele incentivou, chamando-a pelo apelido que passara a usar conforme a garota crescia. — Desacelere agora. — Com uma leve e sutil mudança, a garotinha fez o cavalo diminuir a veloocidade até parar, e o irmão se aproximou para ajudá-la a descer.
— Como eu fui? — Perguntou, tirando o capacete e passando os dedos pelos fios grossos e castanhos de seu cabelo. Os olhos cor de mel brilhavam com o sol de início de mahã.
— Daqui a pouco, vai poder fazer as trilhas ou até as competições ao redor do arquipélago. — O irmão mais velho respondeu, começando a puxar o cavalo de volta para o estábulo. A garotinha se aproximou correndo.
— Por que a Marion não está aqui com a gente? Ela nunca perdeu um treino meu... — Curiosa, perguntou, parecendo um pouco decepcionada.
Tharin não respondeu na mesma hora, mas pôs-se a pensar na irmã do meio, que parecia extremamente esquisita nos últimos dias; por fim, sorriu para tranquilizar a caçula.
— Ela tinha algumas coisas pra fazer com a mãe. Coisa de gente grande.
Ellen fez bico, cruzou os braços e seguiu o irmão de volta para o castelo onde moravam.
*
Tharin encontrou Marion no Penhasco das Lamentações. O local era um ponto famoso de Mitéra, e recebeu esse nome porque o vento, ao passar pelo cânion, parecia lamentar. Era dali, daquele ponto, que aqueles que morriam em batalhas e guerras eram enviados para a Morada Eterna.
Quando mais jovens, antes do nascimento de Ellen, Marion e Tharin gostavam de apostar corrida até ali e passar horas ouvindo o som do vento, deixando os cavalos pastarem livres atrás de si. Ficavam sentados na beirada, as pernas pendendo para a abertura. Era nessa mesma posição que Marion e encontrava
— Você vai me explicar o que está acontecendo, Mari? — O príncipe perguntou, sentanfo-se ao lado dela. O vento lamentou mais forte. Marion continuou a olhar para o horizonte.
— Eu sinto como se o céu estivesse desmoronando em cima se mim. — Ela sussurrou. Tharin a abraçou de lado.
— Eu não posso te ajudar se você não me contar o que esta acontecendo, mana.
— Eu não me sinto mais em casa, Tharin.
— O que?
— Desde quando viemos para Nnanrena, era como se eu não pertencesse mais à lugar nenhum. Como se eu não tivesse o direito de estar aqui.
Tharin sabia do que ela estava falando. A irmã adotiva foi abandonada na porta de um hospital na terra, onde faziam vários testes em busca da fonte da magia; como uma tentativa de testar a mágica, Marion, com apenas seis anos, fora escolhida para receber uma transfusão de sangue de um telecinético. No final, o homem que servia para o teste morreu e a garotinha ganhara os poderes. O povo mágico, porém, a considerava uma intrusa, uma assassina.
— Você não tem culpa do que fizeram pra você, Marion. A mamãe mesmo disse que a Magia escolheu se prender em você.
Marion ergueu os olhos e os prendeu no rosto do irmão.
— Ele morreu, Tharin, e eu fiquei com os poderes dele. Isso não tem como ser bem visto em lugar nenhum!
Os dois ficaram em silêncio, apenas se encarando. Por fim, o mais velho abraçou-a novamente e beijou a testa dela.
— Você vai pra Terra? Já se decidiu? — Ele perguntou por fim.
— Eu acho que vai ser o melhor. Posso viver uma vida sem poderes lá, ou usá-los para ajudar os humanos…
— Como uma super-heroína? — Ele sorriu, tentando irritá-la de brincadeira como sempre faziam. Marion sorriu de leve.
— Algo assim.
Ficaram novamente em silêncio. Tharin não sabia como reagir; no fundo, sentia que era o certo, mas, de forma egoísta, questionava-se como poderia viver sem implicar com a irmãzinha. Não era a mesma coisa com Ellen; a irmã mais nova era apegada demais aos pais, de modo que as brincadeiras entre eles eram muito mais brandas.
— Você quer que eu vá pra Terra com você? — O príncipe perguntou de repente, assustando Marion.
— O quê? Não! Minhas deusas, Tharin, por que faria isso?
— Porque não há nada em todos os mundos que eu não faria por você, Marion. Eu sei como é ficar longe da terra onde nasceu... — Seus olhos adquiriram um brilho maior e ele suspirou baixinho. A irmã nunca o vira tão triste. — Se você me pedir pra ir contigo, eu irei.
Marion deitou a cabeça no ombro do irmão e olhou para o horizonte. Já havia pensado inúmeras vezes naquele diálogo, mas não tornava as coisas mais fáceis.
— Não vou pedir que vá comigo, Tharin. — Sentenciou, por fim. O irmão, involuntariamente, sorriu. — Você encontrou um lar aqui. Você é um príncipe por nascença. A Ellen é uma princesa nata. Eu simplesmente não me encaixo. Seu lar é aqui, com a mamãe e a Elly.
— E o Bruce. — Ele completou, fazendo a irmã sorrir mais ainda.
— Sim. Meu pai também construiu um lar aqui.
— Você sabe que, se as coisas derem errado, eu vou te ajudar?
Marion riu com o comentário.
— Claro que sei Tharin; sei disso desde o dia que a mãe nos apresentou, e você nunca precisou me falar isso.
Tharin sorriu e a abraçou mais forte. Juntos, assistiram o sol se por, sabendo que, a partir dos próximos dias, não fariam mais isso.
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