Hey, Juliet!
1 Capítulo I
"JULIETA — Ai de mim!
ROMEU — Oh, falou! Fala de novo, anjo brilhante, porque és tão glorioso para esta noite, sobre a minha fronte, como o emissário alado das alturas ser poderia para os olhos brancos e revirados dos mortais atônitos, que, para vê-lo, se reviram, quando montado passa nas ociosas nuvens e veleja no seio do ar sereno.
JULIETA — Romeu, Romeu! Ah! por que és tu Romeu? Renega o pai, despoja-te do nome; ou então, se não quiseres, jura ao menos que amor me tens, porque uma Capuleto deixarei de ser logo.
ROMEU (à parte) — Continuo ouvindo-a mais um pouco, ou lhe respondo?”
- Espera, aí! – Sra. Parson, professora de Literatura, disse interrompendo pela milésima vez o ensaio. — Jonathan coloque mais entonação na sua fala, você precisa encarnar o personagem. Se continuarmos assim vai parecer mais um diálogo entre você e seus colegas do que uma peça de Shakespeare.
O garoto sacudiu a cabeça, concordando com a mulher, e fechou os olhos como se tentasse se concentrar.
Estavam presentes no auditório, todos os alunos do terceiro ano que haviam se disposto, ou sido obrigados, a apresentar na peça de teatro daquele ano: Romeu e Julieta.
Para Lívia não seria esforço nenhum, desde pequena encontrara um talento nato e uma paixão por estar em cima dos palcos interpretando e criando personagens. Era seu destino! Aceitara de primeira o papel principal e se sentia entusiasmada por estar presente em todos os ensaios. Havia apenas uma coisa que fazia todo aquele sonho se tornar pesadelo. E essa coisa tinha nome e sobrenome: Danny Jones!
- Se quiser eu posso fazer o Romeu, professora. – Danny disse enquanto subia no palco com seu jeito maroto. Aproximou-se de Lívia, que permanecia em seu posto e apenas rolava os olhos. – Eu tenho dons para o teatro se vocês ainda não notaram... – Fez cara de galã e logo soltou uma gargalhada.
- Cai fora, Jones. Nem que me pagassem eu faria uma cena romântica com você. – Lívia cruzou os braços e arqueou uma sobrancelha, tentando parecer indiferente e controlar a raiva que começava a crescer dentro de si.
Sra. Parson ignorou os dois garotos e se aproximou de Jonathan para dar-lhe algumas instruções, enquanto o restante da turma voltava a se distrair com seus afazeres.
- Ah, não? – Danny disse enquanto voltava a se aproximar de Lívia. Também não era fácil para ele estar ali, mas ele não era do tipo que se deixava render por uma garota. – Eu sei que você não aceitou contracenar comigo porque eu te faço perder a cabeça.
- Não me faça rir, Jones. Você sabe muito bem que as vagas do teatro eram pra pessoas e não para vermes. – Lívia o olhou de cima abaixo e virou-se de costas.
- Por que essa raiva toda, minha gente? – Harry se pronunciou, enquanto saía de perto das cortinas, ao ver que os dois não parariam de discutir e a professora acabaria perdendo a paciência, assim como acontecia em todos os ensaios.
- Você ainda pergunta? Todo mundo sabe que Danny Jones é a pessoa mais abominável do mundo. – Lívia respondeu rolando os olhos mais uma vez e Harry passou um braço pelos ombros da prima.
- Claro! – Danny sorriu ironicamente. — Porque fui eu que...
- Cala a boca! – Lívia gritou interrompendo-o e chamando a atenção de todos que estavam no auditório.
- Todos vocês aí, vamos parar com a discussão. – Gritou a professora de Literatura batendo as mãos na beirada do palco. – Agora estamos ensaiando e não decidindo quem tem raiva de quem. Harry e Danny desçam já daí. Lívia e Jonathan sigam com a cena... – Virou-se e começou a caminhar em direção à porta do auditório sem parar de falar. — Mais entonação, mais entonação...
- Idiota. – Lívia sussurrou encarando Danny com os olhos semicerrados.
- Linda. – Respondeu rindo e mandou um beijo no ar para a menina. Logo desceu do palco e saiu do auditório imitando o jeito de andar da Sra. Parson e arrancando risadas de todos os outros alunos que ali estavam presentes.
- Lih? — Harry chamou, fazendo a garota parar de olhar para Danny e encará-lo. – Vai ficar com raiva toda vez que ele chegar perto? Você sabe que ele vai ta sempre no seu caminho, é inevitável...
- Eu sei, mas ainda é difícil engolir tudo que ele me fez passar... – Lívia franziu a testa e começou a fitar o chão, tentando evitar o nó que se formava em sua garganta cada vez que ela pensava a respeito daquele assunto.
- Esquece isso, pequena. Já passou. – Harry disse passando a mão na cabeça da menina.
Lívia abriu um sorriso forçado, na tentativa de satisfazer seu primo e logo se virou para o lado a fim de continuar a cena. Notou então que Jonathan, o garoto que interpretava o Romeu, não estava mais ali.
Jonathan era um garoto bonito, alto, tinha os olhos verdes e os cabelos loiros e lisos — que às vezes ficavam caídos sobre seus olhos e às vezes arrumados para trás da orelha – e um corpo invejado por muitos garotos daquela escola. Mas apesar de toda a beleza, era uma pessoa um pouco estranha. Lívia o conhecera pouco depois de se mudar para Londres, mas os dois nunca mantiveram uma relação próxima, apesar de ela ter certeza de vê-lo a observando sempre que podia. Jonathan era do tipo de alunos que quase não freqüentavam as aulas e provavelmente só estava participando do teatro para cumprir algum tipo de castigo recebido. Diversos boatos sobre ele rodavam pelas bocas dos alunos, muitos envolvendo uso de drogas e até mesmo prisões, mas nada nunca havia sido confirmado e ele parecia não se importar muito com o que pensavam a seu respeito.
Sem pensar mais, Lívia decidiu que abandonaria também aquele ensaio e encontraria suas amigas antes que a aula começasse.
- Eu ainda mato aquele Jones! – A garota disse em um tom de voz mais alto do que o normal, assim que avistou Lis, Marcella e Bárbara conversando perto dos armários.
- O que ele fez dessa vez? –Lis perguntou, enquanto consertava uma mecha de seu cabelo que havia escapado de sua orelha.
- Interrompeu o ensaio, falou um monte de palhaçada e ainda saiu me mandando beijinhos... – Lívia semicerrou os olhos ao se lembrar da cena e as três amigas rolaram os olhos. Já estavam acostumadas com as brigas dos dois e apenas esperavam o dia em que tudo voltaria a ser pacificamente estável ali.
- Vocês vão ficar sempre nessa? Isso foi no ano passado, vocês não esquecem não? – Marcella indagou enquanto segurava os materiais de Bárbara para que ela pudesse prender seu cabelo.
- É o que eu venho tentando fazer, Mah. Mas parece que ele faz questão de me lembrar o motivo de me fazer odiá-lo a cada cinco minutos... E o Harry ainda me pede paciência. –Lívia rolou os olhos e após pegar seus livros em seu armário, saiu caminhando sem esperar ninguém.
- Harry estava lá? – Lis seguiu a amiga.
- Claro né? Esqueceu que ele que abre e fecha as cortinas? – Lívia respondeu seca, ainda lutando contra a raiva que insistia em dominar seu interior.
- É mesmo... Tinha esquecido. – Lis mordeu o canto da boca e começou a encarar o chão.
Lívia então olhou para a amiga e se lembrou que não era a única com problemas ali.
- Ainda pensando muito nele? – Lívia perguntou enquanto cumprimentava com a mão um grupo de garotas, sem ao menos olhar pra elas.
- Não, só estranhei o fato de aquele insensível estar envolvido com uma peça de teatro. – Lis fingiu um sorriso e Lívia rolou os olhos.
- Até quando você vai tentar esconder de mim o que você sente. Nós somos melhores amigas esqueceu?
- Não, não esqueci. Mas você é prima dele e enquanto vocês compartilharem o mesmo laço sanguíneo eu vou sim esconder de você os meus sentimentos. Sinto muito. – Lis disse nervosa e entrou para a sala, seguida por Lívia, que tentava acompanhar os passos rápidos que a garota dava.
- Parece que o dia não começou bem pra todo mundo hoje, não? Poxa, Lili, não precisa falar assim comigo, eu não tenho culpa de ter nascido nessa família. – Lívia tentou se justificar enquanto caminhava até seu lugar e via que Bárbara e Marcella já se encontravam ao seu lado.
O professor de Matemática não demorou a chegar e pedir que todos se sentassem, enquanto arrancava suspiros da maioria das garotas que estavam ali.
- Eu ainda não consegui me acostumar com a beleza dele... Cada dia eu acho que ele ta melhor. – Bárbara falou sem desgrudar os olhos do professor e as outras três garotas riram, esquecendo-se completamente de todo o clima ruim que dominava o ambiente.
- Olha o fogo da menina... – Marcella falou, se sentando ao lado da garota. — Fica quietinha aí que pelo que eu sei, ele é casado. – Riu e viu que Bárbara mudava rapidamente o sorriso que levava estampado no rosto por um olhar triste.
O professor começou a fazer a chamada e enquanto todos os alunos conversavam e brincavam, o diretor surgiu e deu algumas fortes batidas na porta para ser notado.
- Com licença, professor. Eu trouxe um aluno, ele vai estudar nessa sala agora, já que os professores não estavam agüentando mais as bagunças com seus colegas... – George disse e logo puxou Danny pelo braço e o colocou dentro da sala. O garoto entrou rindo e olhando para todos que estavam ali. – Espero não ter mais problemas com você, Jones. – Concluiu com o dedo indicador apontado para o garoto e saiu da sala.
- Sim, senhor. – Danny bateu continência e logo riu debochando do homem.
- NÃO! – Lívia gritou de olhos arregalados quando viu o garoto entrando pela sala, mas quase não foi ouvida, pois todos conversavam muito. – É um pesadelo, não é? – Falou cutucando Lis. – Por favor, me fala que o diretor ta brincando...
- Desculpa amiga, mas ele falou bem sério. – Bárbara, que já havia se recuperado de sua tristeza momentânea, disse.
- Agora minha vida virou um inferno. – Lívia abaixou a cabeça e tentou sumir dali, mas infelizmente não conseguiu.
A sala tinha virado um alvoroço, alguns reclamavam, outros comemoravam e uns apenas riam. Mas Danny não ligava, seu olhar estava preso a uma certa cabeça abaixada. Sem querer esboçou um sorriso, que logo se desfez ao sentir a mão pesada do professor em seu ombro.
- Vá se sentar, Danny. Tem um lugar ali. – Apontou para uma carteira no fundo da sala e o garoto concordou.
Antes de se sentar ele arriscou mais uma olhada na direção de Lívia, mas a garota permanecia com a cabeça abaixada. Danny não sabia ao certo se aquela mudança seria boa ou ruim, mas com certeza ela traria consigo uma carga pesada de velhas lembranças.
O penúltimo horário não demorou muito a chegar naquele dia e Lívia não havia conseguido prestar atenção em nenhuma palavra dita durante todas as aulas anteriores. E parecia que não seria diferente com Biologia. Estava com os cotovelos apoiados sobre a carteira e seu queixo apoiado nas mãos e, apesar de olhar para o quadro, tinha o pensamento longe, em certa data do ano passado. Em meio a várias lembranças, sentiu algo batendo em suas costas e a despertando de seu transe. Ela olhou para trás e viu um bilhete jogado no chão. Esticou seu braço para trás e pegou o papel, desamassou e leu:
“Como está se sentindo agora que somos colegas de turma?”
Mal terminou de ler e sentiu o bilhete começar a tremer em suas mãos. Respirou fundo e logo o rasgou, sem nem olhar para trás. Sua vontade era responder, mandar um de volta xingando Danny e ordenando que ele se afastasse dela.
Com os olhos marejados, Lívia pegou uma caneta e apoiou em seu caderno. Ficou assim por alguns minutos até que desistiu da idéia. Apenas abaixou a cabeça e tentou não pensar em nada.
- Lih... Lívia... LÍVIA! – Lis gritou no ouvido da amiga que levantou assustada.
- Que foi? – Lívia perguntou coçando os olhos.
- A aula acabou. Você dormiu a aula de Biologia toda. Acho que a noite foi bem cansativa ontem, hein? – Lis brincou e ajudou a amiga a arrumar os materiais rindo.
- Você nem imagina o quanto. – Lívia entrou na brincadeira e se levantou. – Cadê as outras meninas?
- Foram olhar com a professora de física sobre a próxima avalia... Oh meu Deus! Era pra eu estar lá também. – Lis arregalou os olhos e saiu correndo da sala, sem dizer mais nada. Lívia riu e sacudiu a cabeça negativamente. Já estava acostumada com as confusões que Lis arrumava. Continuou a guardar os materiais, sem perceber que quase todo mundo já havia saído da sala. QUASE todo mundo.
Ouviu o barulho da porta se fechando e levantou o olhar. Viu Danny encostado na porta com as mãos nos bolsos a encarando.
- Você não respondeu meu bilhete... – O garoto se atreveu a dizer. Mas Lívia o ignorou tentando colocar um livro na bolsa, que insistia em não caber.
- Entra logo livro, eu trouxe você aqui. Agora vai ter que caber de volta. – Lívia dizia baixo para apenas o livro ‘ouvir’, enquanto tentava empurrá-lo com sua maior força.
- Pode continuar fingindo que eu não estou aqui, eu não me importo... Na verdade tava até pensando em tirar um cochilo. – Fingiu estar bocejando enquanto trancava a porta. Era impressionante como ele conseguia ter aquela escola em suas mãos.
- Sai, Jones. – Lívia desistiu de colocar o livro na bolsa, pois depois teria que guardá-lo no armário mesmo, e foi até a porta.
- Oi pra você também. – Danny sorriu ao vê-la caminhar em sua direção.
- O que você quer garoto? Além de infernizar minha vida, é claro. – Lívia disse nervosa parando de frente para ele.
- Hum... Deixe-me pensar... Infernizar sua vida, infernizar sua vida e, talvez, infernizar sua vida. – Danny sorriu forçadamente para a menina e ela fez o mesmo.
- Ok, você já conseguiu então. Pode me deixar ir embora. – Lívia disse cruzando os braços esperando alguma atitude do menino, que ao invés de atender ao seu pedido, apenas se sentou em uma das carteiras.
- E perder a oportunidade de te ver descabelar? Você acha mesmo que eu me rendo tão fácil?
- Assim que eu sair daqui eu vou te entregar para o diretor. Você vai ser expulso, Jones. E eu, finalmente, vou ficar livre de você.
- Você não teria coragem, Magalhães. – Danny disse imitando o jeito debochado com que a garota falava seu sobrenome. – Eu sei que você não teria coragem de me entregar... Você gosta disso. Eu sei, nós sabemos. – Se levantou e foi caminhando em direção à menina, enquanto ela dava pequenos passos para trás.
- Você fala besteiras ainda piores cada vez que abre a boca, JONES! – Enfatizou o sobrenome do garoto. – Agora abre logo essa porta ou eu vou gritar. Te dou dez segundos.
- Você gosta de mandar, né? Gosta de estar no poder... É por isso que você odeia tanto se lembrar daquela festa, do dia em que VOCÊ era a loser. – Danny piscou para a garota e deu um sorriso de lado.
- Cinco... Quatro... – Lívia começou a contar alto, com a voz trêmula.
- E se eu não abrir?
-Três...
- Vai fazer o quê?
- Dois... – Lívia ouviu o barulho da porta se destrancando, respirou fundo, empurrou Danny para o lado e saiu da sala.
- Ele te trancou lá? – Bárbara quase gritou, assustada.
- Como ele tinha a chave? – Marcella indagou com a voz baixa, apenas para ela mesma ouvir.
- Idiota... – Lis terminou de colocar seus livros no armário e bateu a portinha do mesmo.
- Agora vocês tão vendo o porquê de eu me sentir tão mal quando ele ta por perto... E pelo jeito vai ser assim até o final do ano. Isso se eu não suicidar antes. – Lívia disse exageradamente, enquanto também terminava de guardar seus livros no armário e trancava sua portinha.
- Algum problema, meu anjo? – Harry chegou por trás dela e beijou sua cabeça.
- Aff... – Lis revirou os olhos.
- Não começa... Não to falando com você. – O garoto disse secamente e voltou a olhar pra Lívia.
- Pergunta pro seu amiguinho. – Lívia respondeu com um sorriso falso no rosto e saiu andando com suas amigas, deixando o primo sozinho no meio do corredor.
Lívia não gostava de tratar Harry daquela maneira, mas não conseguia entender o porquê do primo continuar sendo amigo de Danny, depois de tudo que ele havia feito com ela. E além de tudo, os dois garotos eram melhores amigos de infância. Estar perto de Harry, de qualquer forma, acabava se tornando sinônimo de estar querendo ficar perto de Danny. E isso era exatamente o que Lívia tentava evitar a maior parte do tempo.
- Quem? – Dougie perguntou ao chegar perto do amigo, acompanhado de Danny e Tom. Eles não estavam muito longe quando as garotas saíram caminhando e por esse motivo haviam ouvido a resposta mal educada que Lívia dera ao primo.
- Provavelmente, o Danny. – Tom se pronunciou enquanto observava Bárbara ir embora com um sorriso no rosto.
- Eu o quê? – Danny franziu a testa.
- Nós que perguntamos, Danny. O que você fez com a Lívia? – Harry cruzou os braços e encarou o amigo. Ele tentava se manter imparcial em toda a confusa que envolvia o casal, mas não gostava de ver sua prima nervosa e era muito mais fácil discutir com Danny.
- Nada demais. Ela que é uma fresca, como sempre foi. Nem sei por que ainda perco meu tempo.
- Ta aí uma coisa que nós concordamos. Com tanta garota, por que você continua no pé dela? Deixa a menina em paz. – Harry deu um tapa na cabeça de Danny bagunçando seu cabelo.
- Vai se fuder! – Danny revidou o tapa e saiu andando pelo corredor.
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