Hey Brother
5 Count On Me
Notas iniciais

— Por favor — Ian exclama do outro lado da linha — me diga que você está ligando do telefone fixo porque perdeu seu celular embaixo da cama.
— Não — Fernanda responde — eu não perdi, meu pai quebrou, e Oi, boa noite, estou bem sim, e você?
— Hum — ele digere as palavras — seu pai quebrou seu celular — prossegue pensativo — você tem consciência de que seu pai é meio pancada né?
— Não, ele não é, mas e você — Fernanda pergunta mudando de posição no sofá.
— Meu pai também é meio pancada — ele tenta não tocar no assunto “Pai”.
— Eu estou falando sério — Fernanda bufa.
Ian solta um suspiro, como se seu bom humor estivesse murchando lentamente.
— A mesma coisa de sempre — ele parece arrancar as palavras de si mesmo — acho que já posso me acostumar.
— Não pode nem deve — a garota responde indignada — você sabe que é melhor que isso, todo mundo sabe, e se seu pai não vê isso ele precisa prestar mais atenção.
— É... bem... talvez — ele responde deconfortável com os elogios, mas Fernanda solta uma exclamação de indignação e ele reformula sua resposta — Ok, tudo bem, você tem razão, sou melhor que isso.
— Muito bem — Fernanda congratula.
— Às vezes eu só queria, sei lá... um tempo... — ele pensa um pouco — fugir.
— Eu até entendo você — ela responde solidária — mas nossa vida é assim, recebemos as bênçãos e agora lidamos com as consequências.
— Eu não escolhi ser rico — Ian se defende em um sussurro.
— Eu também não — Fernanda concorda.
Os dois ficam em silêncio por alguns segundos, cada um perdido nos próprios pensamentos em seu mundinho particular.
— Ao menos — Fernanda comenta esperançosa — temos roupas, comida, casa, estabilidade financeira...
— E eu realmente sou grato por isso — Ian responde — mas e o resto? — ele faz a pergunta para si mesmo — Não deveria haver mais? Por que sempre tem que ser necessário o “mais”?
— Não sei — ela responde suspirando — talvez a verdadeira felicidade plena seja impossível de ser alcançada nessa vida, talvez haja algo que nós ainda não podemos ver com nossos olhos nebulosos. Algo que está além do nosso horizonte.
— Quem sabe — Ian responde voltando ao tom informal.
— É, quem sabe — Fernanda concorda recuperando o bom humor também.
— Alguém tem que ligar para o Lucas — Ian boceja — eu faço isso.
— Tudo bem — Fernanda concorda também bocejando — Tenho que falar com a Nicolly.
— Boa sorte — Ian desdenha — Larissa está tentando fazem quase duas horas. E antes que você perca tempo Becca ainda está dormindo, e do jeito que essa menina é abençoada por Hipnos, eu não me surpreenderia se ela só acordasse amanhã, de tarde ainda.
— Vou me lembrar disso — Fernanda responde após uma risada — Tchau.
— Tchau — Ian responde e desconecta a chamada no telefone.
— Lucas, Lucas, Lucas — Ian murmura para si mesmo ao procurar o nome na lista de contatos — Ah, aqui está “Lucas Costa”.
— Alô? — A mãe de Lucas atende no segundo toque — Quem fala?
— Boa noite, aqui é o Capitão Caesar Menedo — Ian engrossa a voz ligeiramente — Seu filho, o jovem... Lucas Costa — ele finge ler o nome — está sendo procurado para depor sobre um caso ocorrido na noite de ontem no Bota Fogo. Fomos informados de que este número é da casa dele. A informação procede?
— Hum — a mãe de Lucas responde.
— Poderia falar com ele? É um caso de urgência, a família da vítima está desesperada — ele tenta ainda com voz grossa.
— Hum, essa foi boa Ian — ela reponde com uma risada — até pra você.
— Ah droga — ele exclama — O Lucas está em casa?
— Está, mas está de castigo — a mulher responde.
— Deixa eu falar com ele, por favor — ele pede prolongando o último “or”.
— Me deixe pensar — ela responde meditativa — pelo trabalho para inventar a mentira, eu te dou quatro minutos, por quase ter me enganado mais cinco minutos, e mais um minuto porque Caesar foi o nome do meu primeiro namorado — ela soma.
— Isso! — ele exclama após uma risada — e como eu quase lhe enganei?
— Pensei que fosse o Rafael — ela responde.
— O que me denunciou? — ele pede.
— A escolha do local — a mãe responde orgulhosa.
— Droga, ele sempre fala do Alemão — Ian se repreende.
— Sim, e ele já ligou hoje — ela continua.
— E qual foi a dele?
— Hospital, namorada grávida — ela responde casualmente.
— Ei, essa foi boa — Ian congratula.
— Também achei — a mãe concorda — mas não vou mais tomar seu tempo. LUCAS!
— Até mais Tia — Ian se despede, chamar de tia era algo normal pra ele.
— Apareça aqui em casa quando os dois saírem do castigo — ela convida.
— Pode deixar — ele responde alguns segundos antes dela passar o telefone para Lucas.
— OI — Lucas grita.
— OOOOI — Ian grita em resposta — Chegou bem em casa? Fernanda não parou em um beco escuro e te molestou?
— Não — Lucas responde dando uma risada.
—Mas você bem que queria que ela parasse não? — Ian brinca e para sua surpresa Lucas fica em silêncio do outro lado da linha — Ai meu... Ai meu... Você quer pegar a Fernanda! — ele grita pelo telefone — Como assim você quer pegar a Fernanda? — Lucas continua em silêncio — Você nem faz o favor de negar descaradamente como qualquer cara comum — Ian continua tagarelando — Quer dizer, ela é gostosa, eu acho... Os caras da escola falam que ela é, mas... Cara, é a Fer... — Ian está pronto pra gritar de novo, mas Lucas o corta.
— Eu não quero “pegar” ela — Lucas responde descartando o termo — eu só acho ela legal — ele continua, na defensiva.
— É pior do que eu imaginava — Ian exclama assustado — você gosta dela de verdade.
— E qual é o problema disso? — Lucas continua na defensiva.
— Bem... — Ian faz um esforço para responder — ela é minha amiga mais antiga, somos melhores amigos desde sempre, por isso que posso dizer com certeza que ela não faz o que faz por maldade ou algo do tipo, tenho certeza — ele continua, agora na defensiva — ela só é complicada, ninguém sabe o que ela quer, ou de quem ela gosta, ninguém sabe se ela já gostou de um cara de verdade.
— Eu sei disso — Lucas responde desanimado.
— Ela só não entende o conceito de “estar apaixonado”, não na vida dela — Ian defende — ela acredita que isso se aplica a qualquer um menos ela, e as pessoas que gostam dela, entende?
— Claro, claro — Lucas concorda — e não se preocupe, não vou tentar nada — ele sorri.
— Acho bom mesmo — Ian replica — se você fizesse algo eu seria obrigado a quebrar sua cara — Os dois riem com a piada — eu estou falando sério — ele reforça ainda rindo — Mas me conta, como é estar de castigo pela primeira vez na vida?
— Não é a primeira vez que eu fico de castigo — Lucas retruca na defensiva — eu já fui castigado algumas vezes.
— Pelo que? — Ian desafia.
— Esquece, você falou com a Larissa? — Lucas muda de assunto bruscamente, mas Ian não parece estar tão interessado nisso, então ele continua antes que o amigo possa falar algo — ele me ligou faz uns vinte minutos, parecia bem preocupada.
— Como assim preocupada? — Ian pedi finalmente prestando atenção.
— Ela me ligou, disse que passou na casa da Nicolly, mas não me falou mais nada — Lucas continua feliz por mudar de assunto — tentou ligar pra você mas não conseguiu.
— Ah, eu estava no telefone com o Rafael, e o sinal aqui tá horrível — ele se explica.
— Bem, ela só disse que precisava falar com todo mundo sobre a Nicolly — Lucas esclarece — mas eu acho melhor você falar com ela.
— Eu vou falar, depois eu te ligo — Ian responde distraído.
— Não acho que vá se necessário — Lucas responde misterioso — Até logo.
— Até — Ian responde já ansioso para ligar para Larissa.
Ele tenta algumas vezes até conseguir completar a chamada, Larissa atende no primeiro toque, parece ofegante, ela respira algumas vezes ates de responder ao “Alo” de Ian.
— Oi — ela ofega.
— O que aconteceu? — ele pergunta assustado.
— Não tenho mais tempo pra falar, eu te vejo na quadra da escola, agora! — ela ordena.
— Eu estou de castigo — Ian rebate.
— Eu não ligo, acabei de pular o muro, anda rápido, só temos uma hora — ela ordena novamente e desliga.
Ian passa quase cinco minutos olhando o celular, até decidir finalmente que não vai, e que Larissa não era tão mandona no inicio da relação. Cinco minutos depois ele espera a mãe sair da sala e sai do quarto tomando cuidado para o pai não vê-lo no corredor. Quinze minutos depois ele está na frente da escola, tentando entender como exatamente ele chegou até lá.
— Demorou um pouco hein? — Larissa diz ao vê-lo, mas seu alívio é visível — sabia que você viria — ela sussurra em seu ouvido e pisca.
— Bem — Ian ouve a voz de Rafael a suas costas, e percebe que todos, até Lucas e Fernanda estão lá — o que você tem pra nos dizer?
— Ok — Larissa senta no chão encerado da quadra — Nicolly está partindo pra Seattle — ela solta como se fosse uma bomba, todos ficam assustados com exceção de Rafael que apenas assentiu — no final do mês — ela finalmente jogou a bomba pela qual nem Rafael esperava.
— Como assim? No final do mês? — Rafael pergunta indignado.
— Sim — Larissa confirma — e até lá ela não está autorizada a ver nenhum de nós — ela encerra angustiada.
— Mas, os pais dela não podem fazer isso — Rafael se levanta irritado.
— Eles não só podem como vão — Larissa confirma — e nós vamos fazer algo sobre isso, mas no momento, do que nós realmente precisamos é de algo para mostrar pra Nick que nós estamos do lado dela.
— O que você sugere? — Becca pergunta se sentando ao lado dela.
— Algo bem simples — e ela começa a explicar.
...
São oito e meia da noite, Nicolly está deitada com a cara no travesseiro, seus olhos inchados já sem lágrimas, ela caminha até a varanda para tomar um pouco e ar fresco, passou o dia inteiro no quarto, sem dormir, sem comer, e com certeza sem fazer os tratamentos de beleza que sua mãe pediu, ela sente o cheiro da água, mesmo daquela altura, ela pode lembrar claramente do dia anterior, e seus olhos se enchem de lágrimas novamente, quando vindo do nada um carro de som roxo bem barulhento aumenta a folia na rua, ela leva alguns segundos para entender a música, e mais alguns para entender a mensagem contida, mas quando entende seu rosto duro pelas lágrimas se abre num sorriso.
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