Hexenbiest
4 Capítulo Quatro
— Uma Hexenbiest? Então você é... tipo... uma bruxa?
Seth. Doce e amigável Seth. Eu nunca ia imaginar que ele fazia parte do meu mundo.
Eu assenti.
— E você é um lobo nas horas vagas.
Ele riu.
— E Tessa não sabe de nada? — ele pressionou os labios e balançou a cabeça, negando. — Oh, deus. Quando eu não podia falar nada para ninguém, era uma coisa. Agora fica difícil me lembrar o tempo inteiro de quem sabe o quê.
— Ah, é, vai ter que se controlar pra não ir de vassoura pra escola.
— Não é nada assim — suspirei. — Se eu não quiser ir a louca, estilo bruxa de blair, quanto menos magia o melhor. É por isso que "hexens" costumavam ser tão temidas. — fiz aspas no ar.
— Você realmente não gosta desse termo, não é?
— Ah, eu não sei... É estranho. Como se eu adimitisse que sou um monstro, quando eu falo. Eu não sou nada disso. Sou só... eu.
— Adrienne pode ter uma opinião diferente.
Revirei os olhos.
— Ela pediu por isso. Eu tinha que saber o que estava acontecendo! Não queria ter que ir embora. Não depois de todo o esforço que meu pai faz pra viver aqui.
Seth ficou calado, mas não quis perguntar. Ele sabia que dinheiro não era um problema, mas não sabia que era aqui que minha mãe tinha morrido. Não tinha como saber: mais cedo, ao explicar para Sam o que era, tinha sido a primeira vez em anos que eu a mencionara.
— Olha, eu estou cansada, meu braço dói e é muito desconfortável eles todos me encarando — gesticulei para as pessoas que fingiam estar ocupada para escutar nossa conversa — como se eu fosse colocar fogo em todo o lugar. Eu não gosto de tanta atenção voltada para mim. Então aqui está o que eu proponho. Você me liga quando estiver livre, e terá um encontro com cinco mil anos de história que predata a palavra escrita, a qual vai poder repassar para todos os seus amiguinhos. De acordo?
— Eu não acho que vou conseguir um melhor que esse, né?
— Não mesmo.
— Fechado, então.
Gabbe ficou no mínimo meia hora falando no meu ouvido quando eu cheguei em casa. Foi só então que ela percebeu o curativo manchado de vermelho por baixo da minha blusa de frio, e então começou a falar daquele imprudente garoto Uley sempre nos colocando em problemas e eu percebi que a transfiguração de adolescentes não era nenhum segredo, ao menos para os nativos. Gabbe pegou um kit de primeiros socorros e começou a limpar o corte no meu braço.
— Eles esperam que eu explique para eles o que eu sou — eu disse para ela.
Gabbe revirou os olhos.
— Eu sei. Como explico algo que nem eu entendo direito?
— Você não o faz. Explique apenas o que você realmente sabe, Marissa, e vai ser melhor para todos. Não quer mexer com o que não deve e perder o controle outra vez, quer?
Eu me senti culpada.
— Não. Claro que não.
Eu passo em frente ao quarto do meu pai no caminho para o meu; a porta está aberta, o que é estranho. Qualquer coisa que não seja uma porta trancada é estranho, se tratando dele. Ele deixou de ser meu pai anos atrás. Agora é apenas Nicholas Brown, professor e escritor fracassado, inapto para ser pai de qualquer um.
Mas a parte ridiculamente esperançosa de mim ainda encontra forças para chamá-lo de pai.
— Pai?
Quando não houve resposta, me atrevi a entrar. Estava tudo uma bagunça, livros jogados por todos os cantos e a janela aberta para tirar o cheiro de bourbon e cigarros. Mas eu acho que esse odor já estava impregnado no local. E logo eu consegui ouvir o barulho do chuveiro na suíte sendo ligado.
Ok. Mínimo dez, máximo de 25 minutos até eu ser expulsa dali.
O quarto era o mesmo em que ele vivia com minha mãe quando ela estava viva. Era estranho—eu não tinha memórias da minha mãe saudável, tudo que eu me lembrava era dela doente, mas parecia que transformar o quarto deles naquilo corrompia a memória dela, de alguma maneira.
Os livros que não estavam jogados pelo chão estavam na escrivaninha. Alguns abertos, escancarados, e a maioria em línguas antigas que eu não conseguia entender.
Mas eu não precisei ser letrada em aramaico pra entender aquilo.
— Marissa — Escutei ele chamar-me. — O que você está fazendo aqui?
O vapor que saiu do banheiro fazia o cheiro do quarto ficar ainda pior. Meu pai não me via desde que a gente tinha chegado nessa casa e isso era tudo que ele tinha pra me perguntar.
— Bem, eu moro aqui — resmunguei. — Nada. Eu só... vi a porta aberta e quis checar se você estava bem. Agora que eu vi, bem, eu posso te deixar em paz...
— Marissa, você... eu não quis... — ele tocou meu ombro.
— Não é isso. É só que, hum, eu tenho planos.
Só quando eu cheguei no meu quarto e respirei fundo que eu percebi que tinha prendido a respiração.
Eu tinha livros. Gabbe tinha livros. Essa casa inteira estava lotada deles. Livros sobre a minha familia, livros sobre outras hexens e livros até livros sobre as cidades que elas desimavam. Gabrielle conseguiu eles pra mim quando eu tinha treze anos e quis aprender mais sobre o que eu era. Mas nada era muito denso em conteúdo. O que eu tinha acabado de ver era provavelmente tudo que se tinha escrito sobre hexenfeuers em todos os quatro cantos do mundo. Anos de pesquisa. E eu não fazia ideia.
Eu adormeci com um nó na garganta que eu não conseguia de maneira alguma desfazer.
...
Port Angeles é tudo que La Push não é, e tudo ao que estou acostumada. Seattle seria a escolha que eu faria, mas Port Angeles já é melhor do que nada. Me lembra de todas as outras cidades em que morei. O ambiente miscelâneo de pessoas de toda parte do mundo é familiar, e o restaurante espanhol em que vamos antes do cinema me deixa faz lembrar do único lugar do mundo no qual eu já me senti em casa: Barcelona.
Quando eu não atendi o telefone naquela noite, nem na noite seguinte, e nem apareci na escola na segunda feira de manhã, meus queridos amigos Seth e Theresa não fizeram o que qualquer pessoa sã faria, que era perceber que eu queria ser deixada em paz. Não, é claro que não. Ao invés disso eles apareceram na minha porta assim que foram liberados da escola, e trouxeram a porcaria do resto da "gangue" com eles. Felizmente meus gritos histéricos com Seth foram suficiente para assustar a maioria deles. Só sobraram a tal da Adrienne, contra quem eu cometi uma tentativa de assassinado, e Embry, contra quem eu deveria pedir uma ordem de restrição. No fim, concordei em sair, mas não era minha culpa. Theresa estava armada com chocolates.
Era um restaurante confortável e rústico, as mesas iluminadas à meia luz. Adrienne conversava comigo de tempos em tempos, e eu respondia, mas eu simplesmente não confiava em alguém tão simpática. Seth e Tess—pra variar—mergulharam em seu mundinho particular assim que deixei claro que não havia nada de errado comigo. Na verdade eu apenas não queria conversar, mas fui convincente o suficiente. Eu tinha duas escolhas: a louca da síndrome de estocolmo, ou o louco perseguidor. Eh...
— De onde você se mudou? Eu acho que nunca perguntei.
É claro que você nunca perguntou, cabeça de bagre. Nos conhecemos quando tentei te matar.
— Florença, mas eu só passei algumas semanas lá, então não acho que conta como um lar. Portanto... Berlim.
— Você já morou na Itália e na Alemanha? — Embry perguntou, assustado.
Eu sorri.
— Sim. E Espanha. E Inglaterra. E Escócia. E Brasil, Portugal, Argentina e França.
— Fucking Jesus — respondeu Estocolmo. — Algum preferido.
— Eu amei Barcelona — respondi. — Mas se tiver que ser o país como um todo... então eu vou ter que responder Argentina.
— Porquê você muda tanto? — perguntou Embry.
— Meu pa— eu me interrompi. — Nicholas é um escritor de livros de história. Ele gosta de pesquisar, porque tudo tem que estar historicamente correto. Já que minha mãe estava fora da figura assim que eu pude andar, ele sempre me arrastou junto com ele.
— Eu sinto muito.
— Porquê? — respondi. — Eu não sinto.
Eles dois me encararam por um momento. Desde pequena, sempre ganhei a compaixão de estranhos pelo fato de ser órfã de mãe, mas nunca achei que merecia.
— Gente, que cheiro é esse? — Seth falou para ninguém em especial, cortando a atmosfera tensa que eu tinha criado. Eu não sentia cheiro algum.
Uma garçonete se aproximou, falando num forte sotaque espanhol, e nós fizemos os pedidos. Minha Paella quase me fez sentir em território espanhol outra vez.
Eu respondia as perguntas que me eram feitas e sorria quando a situação pedia para isso, mas tudo que eu queria era passar mais algumas horas trancada no meu quarto.
O restaurante tinha uma grande janela de vidro que dava para uma rua menos movimentada. Quando eu olhei de relance naquela direção, eu vi uma loira, baixa, fumando na parte mais escura. Apesar de estar escuro e eu não ter uma visão tão boa assim, eu conseguia jurar que seus olhos, manchados de lápis e sombra preta, eram púrpura. Parecia um deja vu—o rosto dela era familiar, como se eu já a tivesse visto antes.
Não. Era como se ela já tivesse me visto antes, e em algum nível de consciência eu soubera que estava sendo observada.
Como se ela estivesse ali esperando por mim.
O pensamento fez meu corpo inteiro congelar. Apesar disso eu não conseguia refutá-lo. Quando seguimos para o cinema, parte de mim quis ficar para trás.
Fale com o autor