Heterocromático

1 As margens e as águas


Permita-me ascender.

Não!

Um inútil como tal, que de um lado para o outro bamboleia sem cair? Faça-me um favor: desapareça.

Deseja demonstrar suas características heterogêneas?

Por que não renunciar o controle aos superiores?

Os superiores não são nada além de opostos que causarão intrigas e desavenças, não há um pingo de entendimento entre vocês.

Quem diria, a criança sabe falar. Não é apática como pensei, afinal.

Psicopata, largue esta soberba que o prende no extremo, atravesse a ponte. A verdejante costa é onde deve estar, o correto, o certo, o justo se encontra nesta margem.

Venha você, ingênuo, deleita-se e distrai-se com as cores inexistentes da perfeição. Afogando-se no azul pacífico, adormecendo sob as sombras imaculadas. Os domínios da ambição e poder muito mais vivos são. Sinta, experimente, usufrua enquanto ainda respira com estes nada resilientes pulmões. Venha ao outro lado.

A dor e sofrimento em nada assistiram o mundo que nos cerca, seus pensamentos contorcidos e consternados cegam seu coração, obscurecem sua mente e pensamentos formidáveis os quais em muito poderiam transformar os problemas em soluções.

Nossa vida não é monocromática.

Entretanto, ela deveria.

Navego abaixo da ponte, observando os conflitos sem resoluções, as intrigas sem fundamentos. Acima do muro, abaixo da ponte, entre paredes, no corredor. Escolhas e mais escolhas, quais escolher? Quais abandonar?

Nós somos um.

Escalas e tons de cinza, sem chegar aos extremos, todos nadando sem rumo, alguns próximos às margens vivas de alegria; outros, às margens atrativas do egoísmo. Mais um dia, mais uma noite. Somos dois idiotas e uma babá. Àqueles que esperam sem nunca conseguir, os extremos; àqueles que vagueiam por si, a água.

Inútil.

Alerto dos perigos que aguardam as margens, por isso procuram sempre se movimentar, permanecendo mortais.

Dois inimigos e o guardião.

Sob quem você está?

Quem escolherá?

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!