Heróis modernos
2 Os cossacos
Você já deve ter ouvido falar da máfia russa. A Solntsevskaya Bratva (mas que nome mais enrola-língua!), ou simplesmente Bratva. Aqui na cidade eles são o tipo de pessoa que você não quer que cruze o seu caminho numa noite escura. Ah, vá! Sejamos verdadeiros... Quando eu era normal não queria cruzar com estes caras nem num dia de sol. Eles são tipo os bichos-papões das ruas. Controlam vastas áreas de crime organizado, jogos ilegais, drogas, prostituição, roubos... Mas a especialidade deles é a proteção. Você sabe... Você paga uma taxa para proteger você deles. Para que eles não venham no seu estabelecimento e quebrem tudo, incluindo você.
Eu cresci vendo esses mafiosos assombrarem a periferia da cidade. Aquele fim de mundo que aparece todas as noites no jornaleco sensacionalista policial pinga sangue do canal 54. Eu ainda me lembro quando a barbearia do seu Joshua resolveu eu não ia mais pagar a proteção deles. O cara dono da loja, o tal de Joshua P. Graves, tinha sido combatente na segunda guerra mundial ou na guerra da Coréia e um dia surtou expulsando os Ivans da loja dele aos pontapés. Mas a Bratva não guarda o jantar para o almoço. No mesmo dia, no fim do expediente a loja dele foi invadida e depredada. Fizeram dele um exemplo. Ele não morreu pelo que eu sei, mas teve todos os ossos dos braços e pernas quebrados. Rolou na época uma suposta fotocópia do relatório do legista que dizia que os dentes do cara tinham sido arrancados pela pressão exercida pelo arranca pregos de um martelo. Só de pensar me lembra o meu dentista, o Doutor Romero. Tenho que marcar consulta, falando nisso.
Mas eu estou divagando. Por que eu estou falando da Brat... quer dizer, dos Cossacos? Eu acho mais fácil falar cossaco e Ivan do que correr o risco de engasgar com a minha própria língua. Por que eu sei que eles vão agir hoje. Bem na minha frente. Vamos colocar assim: eu estava no Callahan Park cuidando da minha vida quando ouvi dois cossacos conversando sobre dar uma lição num “judeu” na rua Marston. Eles estavam falando em russo, mas eu entendi uma boa parte do que disseram. É aquela coisa cara, você não cresce em Torrington sem aprender algumas coisas de chinês, russo e espanhol. Bom, o único estabelecimento comercial mantido por judeus na rua Marston é a pizzaria Bonno Tutto. Eu já tinha comido lá uma vez e não aprecia que o dono, um tipo italiano grande como um armário, era judeu. Mas é aí que estava a jogada. Ele não era judeu. O namorado dele é que era. Deu trabalho sacar aquilo tudo e tive de deixar duas garrafas de Jack Daniel’s nas mãos de um pinguço para ter a informação. Tenha dó! 17 dólares! Será que o Batman no começo da carreira passava por isso?
Estou esperando faz cerca de duas horas. A pizzaria abre pontualmente as dezoito horas e vai até a meia noite. Noite de quinta, quase meio da semana. Pizzaria quase vazia, exceto pelo entra e sai do motoboy. Esse sim trabalha pra caramba. O cara é bom de roda, mas é pinguço e meio pilantra. Como eu sei? O nome dele é Peter Holm. Foi meu colega de segundo grau. Não que fôssemos chegados e nem nada assim. Acho que o termo correto é que frequentávamos os mesmos ambientes e tínhamos alguns amigos em comum. Mais uma hora se passa. Será que eu ouvi certo? Pode ser que uma hora dessas outro grupo da máfia estivesse dando cabo de um outro judeu na noite da cidade e eu aqui, esperando... resolvi que o tempo passaria mais rápido se eu comprasse uma pizza. Atravessei a rua e pedi duas fatias de marguerita e uma coca light e me sentei de frente para rua. Já estava na metade da segunda fatia quando uma van preta estacionou do outro lado da rua. Desceu um cara musculoso que mais parecia uma versão inflada do Fiódor Emelianenko. Você sabe, aquela montanha que lutava MMA nos anos noventa. Joguei o capuz da jaqueta por cima da toca que estava usando e fiquei esperando. O cara deu a volta na van e bateu na lateral. A porta de trás se abriu e mais três Ivans do tamanho de gorilas apareceram. Nenhum deles se encaixava nos dois Cossacos que eu tinha escutado em Callahan. Eu não ia ter chances de acabar com eles se deixasse que entrassem. Enfiei a última fatia de pizza na boca e me apressei para intercepta-los anda do outro lado da rua. A ideia era simples: eu ia esbarrar num deles e começar a briga. Estava contando com a minha superforça e com algumas lições de MMA que peguei no youtube.com para dar cabo deles.
Atravessei a rua, puxando a toca nobre o meu rosto. Eu achei que nunca teria serventia para aquela toca ninja que comprei para o halloween do ano passado, mas acho que em enganei. Quanto menos eles soubessem quem eu era, melhor. Cruzo com eles de cabeça baixa e esbarro propositalmente num deles. O Ivan não perde tem e começa a me xingar – em russo, claro – e me empurra em seguida. Eu o empurro de volta e ele voa uns quatro metros antes de se arrastar mais dois sobre a calcada.
Os outros voam para cima de mim, apesar do efeito do empurrão. Um deles saca uma pistola automática e aponta para mim. Hora da lição de kravmagá que treinei a semana inteira. O objetivo era desarmar o cara, mas eu faço alguma coisa errada e quebro alguns dedos do cara enquanto amasso a pistola na mão dele. Enquanto eu fazia isso outros dois começaram a me bater com cassetetes retráteis, feitos de ferro. É engraçado... sabe essas lutas que você vê no cinema ou nos games em que o herói esta cercado e os amigos atacam um de cada vez? Bom, só acontece nos filmes e nos games. Na vida real o pessoal faz montinho na primeira oportunidade. No começo as pancadas não incomodavam muito, mas depois de levar umas na cabeça comecei a me sentir um pouco tonto. De repente senti como se tivesse encostado num fio desencapado. Uma arma taser. Porra, com essa eu não contava.
Fui ao chão todo tremendo enquanto os dois cossacos me socavam sem dó. Tava doendo muito agora. O que foi que houve com a minha resistência? Foi que aconteceu. Passou pela gente uma coisa de jaqueta vermelha e capacete de motociclista. Seja lá o que foi essa coisa derrubou os dois cossacos rapidinho e com maestria de fazer Bruce Lee (não sabe que é também? Pô vai fuçar no google!) parecer figurante de filme de terceira.
Quando ouvi as sirenes de longe ela já tinha ido embora. Como eu sei que era ela? O perfume e as formas do corpo cara. E o cartão que ela deixou. Era de um dojo. O red lótus. Assim que a minha cara sarar eu pretendo ir lá. Nada mais de lições de luta pelo youtube... não mesmo.
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