Antananarivo, Madagascar
1 de janeiro de 2009


— Você não deveria estar aqui. – Rosnou uma mulher, se adiantando na frente de ambos. Gael sorria, aparentemente despreocupado, embora Oliver pudesse ouvir os batimentos dele acelerando ao seu lado. Ele não deixava de se sentir igual, com o bônus de sequer entender a situação.


— Eu ouço muito isso, acredite. – Ele respondeu com um sorriso, tentando parecer calmo, embora não estivesse. Não realmente. Pelo menos uma dezena de pessoas os cercava além da mulher na frente deles.


As pessoas passavam por todos eles como se nada estivesse acontecendo e Oliver sentia que eles eram neoseres, embora não estivessem com seus cristais. Algum deles, com certeza, tinha um poder que os impedia de ser notados.


— O que faz aqui, emissário dos porcos?


— Procurando dois dos nossos. Seu pequeno patrono achou que seria divertido pegá-los. Jennifer Moore discorda.


— Por que se incomodar se eles estarão tão mortos quanto vocês? – Respondeu, puxando uma espada e apontando-a para o rosto de Gael deixando menos que centímetros entre o topo da lâmina e seu nariz.


Gael deu uma risada nervosa: — Engraçado você dizer isso quando está apostando suas vidas por Chaos. Ele levou dois dos nossos companheiros e nós trouxemos um furacão de neoseres para seu território para pegá-los de volta. Isso? – Ele deu um passo para a frente, ficando mais próximo da ponta da lâmina, como se não se importasse. – Isso somos nós chutando a sua porta.


— Essa é a sua ideia de uma negociação valente? – A mulher sorriu, recolhendo a espada. Seus subordinados recuaram também. O olhar dela recaiu pesadamente sobre Oliver. – Vocês, pequenos heróis, são mais frágeis do que seus cristais. Não me admira que quebrem tão fácil. E tão rápido.


Ela fez um sinal para os outros e se preparou para partir quando Gael a chamou: — Você ainda pode voltar, Helena. Ninguém te culpa pelo que aconteceu.


— Talvez. Mas certamente me culparão pelo que acontecerá. – Helena suspirou. – Diga aos seus líderes que, da próxima vez que um de vocês decidir vir aqui, vai ser preciso mais do que um “furacão” para derrubar a nossa porta.


Gael contraiu os lábios, concordando com tristeza enquanto ela partia.

— Ela era… de Pandora? – Oliver perguntou, recebendo um leve aceno positivo como resposta.


— Nem sempre podemos salvar todos os nossos companheiros. Mas ainda podemos salvar alguns deles. Vamos.


Perth – Agora


— Oliver? – Molly chamou, puxando-o pelo braço. O solavanco trouxe seus sentidos de volta para o terraço. Ele se virou para ela:


— Pegue o seu celular. – Ordenou, se aproximando da beirada, de onde podia olhar para a rua abaixo. Observando atentamente, podia notar os carros suspeitos cuidadosamente espalhados. Tarde demais. Praguejou baixo consigo mesmo por não ter sido mais atencioso.


— Não tem sinal. – Ela constatou, atônita. – Você disse que ouviu alguma coisa, o que você ouviu?


— Uma arma. — “Eu sei que eles estão bem, acalme-se”, pensou, sem deixar os sons que vinham de baixo sumirem de seu alcance. As lágrimas e os corações acelerados. Não salvaria ninguém se perdesse o foco novamente. – Vamos.


Ela o seguiu pelas escadarias até um corredor. Ele expandiu o alcance, deixando de ignorar sons menores, como normalmente fazia. Cada detalhe contava. Além disso, não podia deixar de prestar atenção no que acontecia no salão, andares abaixo.


— É, isso é um problema. – O falso Pensador comentou, sentado em uma das cadeiras enquanto bebia de uma taça que tinha encontrado. Seus homens tinham movido a maioria das mesas e cadeiras, deixando o centro do salão com os convidados amontoados. – Eu não queria dizer “matem-nos”. Só escapou, sabe? – Ele suspirou – Quer dizer, vocês vão morrer. Eventualmente. Olhem para os perigos do mundo. Um cara com uma arma é tão perigoso quanto um cachorro raivoso, mas admitam, vocês preferiam um cão raivoso agora.


— V-você pode levar o dinheiro, se é o que quer, só… só deixe todo mundo ir. – Mortimer falou com dificuldade. Sua voz tremia a cada palavra, e ele mal conseguia fazê-las saírem um pouco mais altas que um sussurro.


— Ora, mas é Mortimer Heng! – O falso Pensador arrancou a máscara, exibindo o seu sorriso. – A estrela da noite. Eu a-do-ro o Salve Perth. Todo o conceito heroico da coisa. A união faz a força e essas coisas. Eu não quero o seu dinheiro. Nós não queremos o seu dinheiro e certamente não queremos sua vida. Pelo contrário, nós o admiramos. Não admiramos, rapazes?


Os homens armados ao redor acenaram vigorosamente, com sinceridade. O falso Pensador jogou a máscara no chão e se aproximou dos convidados, o enorme sorriso cobrindo cada lado do rosto.


— Nós vemos você como um herói. Mas, até você salvar todas as almas miseráveis dessa cidade esquecida mesmo por deus, o mundo já terá se consumido e acabado. Nós queremos salvá-lo antes disso, você entende, né? Nada pessoal. – Ele se virou, andando descontraidamente através do salão.


— Você é um fanático. – Mortimer concluiu, apavorado. – Se acredita mesmo no nosso movimento, ainda pode nos deixar ir. – Arriscou, recebendo mais um sorrisinho como resposta.


— Shakespeare disse que se você ama uma coisa, deve deixá-la ir. – Recitou o falso Pensador. – Eu odeio Shakespeare. Um selvagem medieval que…


Um movimento súbito o interrompeu. Um dos guardas entrava no salão segurando uma garota:


— Encontrei essa garota estava bisbilhotando nos andares superiores. O que devo fazer? – Declarou, enquanto ela se debatia segura pelo pulso firme do homem.


— Molly! – Kylie exclamou, aterrorizada.


— Deixa ela ir. – Mortimer implorou, resistindo ao impulso de gritar, temendo irritar o seu captor.


— Não, não posso deixá-los ir. – Repetiu entediado. – Vocês são a isca. A isca para um falso herói. O lacaio de ditadores ultrapassados. O… — Então parou, atônito com o que aconteceu a seguir.


— Eu acho que a palavra que você procura – Disse o guarda recém-chegado, que agora apontava uma arma na direção do falso Pensador com a mão livre. — é “Pensador”. O original, não um rapaz fantasiado. – Embora ninguém pudesse ver, por trás da máscara nova, Oliver sorria. – Olá.


Antes


— Você precisa ficar aqui. – Oliver falou para Molly, abrindo a porta de um armário de limpeza. – Se o que eu acho que está acontecendo, está acontecendo, eu não posso te proteger.


— Eu não estou pedindo para você me proteger! Você não me diz o que fazer! – Exclamou, extremamente zangada.


— Ok, que tal isso então? Eu vou lá fora ver o que está acontecendo e você espera por… — Ele ouvia passos se aproximando. Três pessoas. Armadas. Pesadas demais para a altura, pelo modo como andavam, o que significava que usavam coletes bastante protetores. Não tinha muito tempo para argumentar. – Cinco minutos. Me dê cinco minutos, por favor. Pode fazer isso por mim?


— Não. – Determinou, inflexível, enquanto os homens estavam a três passadas de distância.


— Ótimo. Te vejo em cinco minutos. – Prometeu alegremente enquanto a empurrava para dentro do armário, batendo a porta e quebrando a maçaneta.


Imediatamente correu para o final do corredor por onde eles viriam, bem em tempo de arremessar o próprio sapato na lâmpada diminuindo as luzes do corredor. Pelos batimentos dos homens, ele conseguia dizer quão experientes eram. Apenas um não tinha se assustado com a sua presença repentina e segurava a própria arma com firmeza, ele cuidaria desse primeiro.


Antes do primeiro tiro ser disparado, ele já tinha desviado, se abaixando com cuidado para manter o próprio rosto oculto. A arma se voltou para cima quando Oliver rasteirou o mais experiente do trio, fazendo-o girar pelo ar. Abrindo ambos os braços, arrastou os dois restantes enrolando-se pelos seus pescoços para o chão consigo, batendo suas cabeças no chão. Quando o experiente se levantou, ele o chutou no rosto mascarado.


Em pouco tempo ele trocou as próprias roupas pelas de um deles, exceto a metralhadora. Já não estava tão confortável com o tanto de peso que estava levando, mas precisava daquilo se queria ter uma mínima de chance de enfrentar o pequeno exército que o falso Pensador tinha trazido.


Quando abriu novamente a porta do armário de limpeza, Molly estava preparada para lutar, erguendo um esfregão como se fosse uma lança na sua direção, confundindo-o com um inimigo:


— O que você fez com ele?!


— Ei, ei. – Ele se queixou, rebatendo as esfregadas com a palma da mão enquanto gotas de água voavam para todos os lados. – Eu estou do seu lado, estou do seu lado.


— E por que eu deveria confiar em você? – Questionou, ainda apontando o esfregão com desconfiança, embora não estivesse mais tentando acertá-lo.


Ele arrancou o esfregão das mãos dela e o partiu em dois com a mão: — Posso ajudá-la. São seus amigos lá embaixo?


Molly assentiu, percebendo que estava lidando com algo mais sério do que imaginava. Eles estavam realmente em perigo. Ela sabia que o Salve Perth a meteria em problemas eventualmente, mas não era como se estivesse se preparando para aquilo: — Tinha outro, Oliver. Ele estava aqui e…


— Eu o encontrei, ele está bem. – Tranquilizou-a, acenando com a cabeça para os homens caídos no final do corredor. – Não temos muito tempo, ok? Eu preciso que você faça algo por mim. Você pode me ajudar a salvar os seus amigos?


Ela não pôde deixar de sorrir ao confirmar. De alguma forma, ela sabia que podia confiar nele.


Agora


— Você deveria abaixar isso antes que alguém se machuque. – O falso Pensador sugeriu, em tom de provocação.


— Posso jurar que a ponta perigosa está virada para você. Diferente de você, eu não dou armas para adolescentes. – Retrucou, certificando-se com seus sentidos de que todos estavam bem, sem tirar os olhos do líder. Definitivamente estava em desvantagem e aquela roupa não melhorava as coisas para o seu lado. Era o melhor plano que tinha, não significava que era um bom plano.


— Não, você é pior do que isso. Muito, muito pior. – Sugeriu, com um sorriso maldoso.


— Você não sabe nada sobre mim.


— Oh, mas eu sei. – Ele apertou os olhos, curioso. – Você ouve eles gritarem? As pessoas que você matou. As mulheres, os idosos, as crianças. Você ainda ouve os seus gritos, “herói”?


Oliver sentiu como se tivesse sido socado múltiplas vezes e sentiu todos os olhares virarem em sua direção como se uma máscara tivesse caído do seu rosto, revelando uma criatura medonha. Um assassino até. Aquilo não o incomodava antes. Estava em paz com o que tinha feito quando não fingia ser um herói. Frágil como um cristal. E agora tinha quebrado.