Heroína
32 Nuvens, névoas, náuseas, nociva, nova, nada
Notas iniciais
Se pelo menos eu soubesse que você tinha uma tempestade para enfrentar
Então, antes que você vá
Havia algo que eu poderia ter dito
Para fazer tudo parar de doer?
Me mata saber como sua mente pode fazer você se sentir tão insuficiente
— Before you go, Lewis Capaldi
—Capítulo XXXII–
Nuvens, névoas, náuseas, nociva, nova, nada.
Não havia mais dor. Não havia mais nada.
Por um instante, Hinata sentiu-se flutuar para um horizonte brilhante, azul e sem nuvens. Não – na verdade, não poderia dizer com precisão o que estava acontecendo. Mas apenas porque o tempo parecia estranho. Se dissesse que se passara apenas um instante, poderia estar sendo traída por sua própria mente.
Alguns segundos, minutos, horas. Dias inteiros. Apenas alguns instantes. Começou a se incomodar com a dificuldade de identificar o período no qual ficou imersa. No entanto, Hinata sabia que estava vogando sob a névoa macia; quase podia sentir a maciez tocando sua pele, acariciando seus braços desnudos. Quando fitou os membros, não viu uma mancha sequer. Sem cicatrizes ou hematomas, era quase como se ela mesma fosse feita de luz.
Talvez a morte não fosse tão assustadora. Talvez não precisasse sentir medo.
Nunca tinham lhe dito como era morrer. Tampouco lera isso em seus livros e histórias. Não tinha lembranças de filmes que trabalhavam a temática; Hinata nunca gostou muito de assisti-los, e, quando mais nova, prendia-se a contos de fada distantes da realidade. As princesas e seus príncipes eram felizes para sempre; eles nunca morriam.
Mas, se aquela fosse a sensação, não era tão ruim. Não doía, ou amedrontava. Certamente era melhor que estar viva. Porque não tinha dor – conseguia respirar profundamente, sem dilacerar seus pulmões. Seu coração batia ritmadamente, sem espasmos de nervosismo e desespero. Sua mente finalmente estava em paz.
Paz.
Era engraçado pensar que, durante a morte, Hinata era capaz de respirar, ter um coração pulsante, pensamentos claros. Era como se pudesse relatar a forma que seu corpo flutuava no vazio brilhante. Estava dentro, e estava fora. Via a si mesma, e tudo ao seu redor; mas também via suas mãos, seus dedos, suas unhas. Que experiência mágica. Perguntou-se o que significava aquela fantasia; era o céu?
E então, seus pensamentos inflaram-se como balões de gás hélio, diretamente para o infinito. Ir para o céu era mais do que jamais sonhara. Não tinha sido uma garota de muitas crenças em vida, mas, de alguma maneira, tinha sido abençoada pela força superior, onde quer que ela estivesse.
E se existia alguém que merecia estar no céu era Hanabi. Ah, Hanabi. A possibilidade de rever a irmã a deixava extasiada, quase eufórica. Era como se a vontade de vê-la estivesse movendo seu corpo feito de luz, ascendendo cada vez mais alto.
Mas, então, tão rápido quanto seus pensamentos vieram, eles se foram. Foram substituídos por uma pequena centelha de dúvida, de questionamento; Hinata merecia ir para o céu?
E essa foi sua ruína.
Os bons pensamentos, as memórias felizes e a ansiedade quase palpável de estar em paz deram lugar para a culpa, o remorso e o medo. Não, ela não tinha medo de morrer; mas tinha medo de que suas escolhas tivessem eximido suas chances de alcançar aquele pequeno sentimento de alívio.
No momento em que Hinata começou a duvidar de si mesma, a sensação de paz esvaiu-se. Seu corpo se tornou pesado, e as nuvens e as névoas foram substituídas pela aspereza de folhas secas. Como uma língua felina, que procura acariciar, mas arranha e incomoda.
Começou a cair. Do alto do céu, começou a cair, pesada, ofegante. Seus pulmões, que antes respiravam um ar puro e limpo, agora fugiam de seu peito, em busca de oxigênio. Em algum canto de sua mente conturbada, imaginou se não estaria indo para o inferno; infelizmente, parecia ser seu destino.
Então, voltou a doer. Uma dor incontrolável, que tira o fôlego, a atenção e a reação. Pegou Hinata de repente, enquanto ela continuava caindo. Estava com medo da queda, mas, em determinado momento, desejou chegar ao chão, e encerrar de vez a consciência.
Quando parecia desacelerar, um ruído soou em seus ouvidos. Ela quis gritar para que se calassem, porque estavam lhe dando dor de cabeça. Um soco forte em seu peito lhe fez gemer, querendo apertar os pulsos; não teve força. Os socos continuavam, enquanto suas costelas ameaçavam furar seu estômago.
Continuou, quase como se assumisse um ritmo musical – Hinata não saberia dizer, porque tentava se concentrar em morrer. Não queria mais dor. Não queria mais pensar. Queria apenas que a dor passasse, fosse como fosse. No céu ou no inferno.
Em queda livre, era como se estivessem movendo seu corpo de um lado para outro; o vento, talvez. Forte o bastante para que ela sentisse os chacoalhões conturbados, rodas passando por pedrinhas na estrada. Não sabia o que estava acontecendo, e agora sentia medo. Mais medo do que nunca.
De repente, Hinata chegou ao chão. Disso sabia com certeza. Porque quando seu corpo atingiu o solo, em plena velocidade, foi quando seus olhos se abriram.
Ela encarou o teto, incapaz de piscar contra as luzes que a cegavam. Suas córneas queimaram, e ela quis chorar. Quis gritar, e cobrir o rosto com as palmas das mãos, mas não conseguia mexê-las. Debateu-se, desesperada, confusa, aflita. A dor era tanto que sequer era capaz de sentir seus membros.
— Apliquem dois de epinefrina! Agora!
Os socos no peito voltaram. Hinata sentia algo engasgado em suas vias respiratórias, impedindo-a de gritar. Não sabia quem eram aquelas pessoas, ou porque continuavam apertando-a, jogando-a, amarrando-a, quando tudo que queria era dormir. Era morrer.
Finalmente, uma explosão de luzes e agonia tomou conta de suas células, e Hinata apagou, de volta para sua consciência confusa. Mas, agora, tudo estava escuro, e ela já não sabia se estava viva.
Bom, Hinata não estava morta. Pelo menos era o que conseguia perceber sozinha.
Veja bem, ela era uma mulher da ciência. Observava astros, fazia cálculos e confirmava suas suspeitas unicamente baseada nos fatos. Em determinados momentos, tinha se deixado levar pela ambiguidade da situação, da emoção e do ópio; ou quando as dores de sua mente transpassaram seu corpo, e tornavam a fantasia doce demais para ser ignorada.
Mas, mesmo assim, Hinata sabia que algo em seus pensamentos não deixaria que ela se levasse por meras especulações. Nem mesmo o céu, o inferno ou as nuvens.
E, agora, ela sentia algo que declarava seu estado pleno de vida – estava com frio.
Hinata estava com frio. Acreditava que o ar condicionado estava ligado, arrepiando suas terminações nervosas. Queria pedir um cobertor, ou pedir para que desligassem. Queria se aquecer, para poder dormir. Sua respiração estava estranha, robótica e abafada. O sangue começava a se esvair de seu rosto, à medida que despertava.
Não era sonho, porque não estava flutuando em nuvens, mas a dor crescente e aguda continuava perfurando sua pele.
Ela queria gritar. Queria falar, queria implorar, mas as palavras não chegavam em sua boca. Sequer saíam de sua cabeça. Mas sua audição estava confusa – zumbia como insetos, mas alguns barulhos chegaram até ela. Passos, talvez. Pessoas, então.
Estava perdida. Não sabia onde estava, ou o que tinha acontecido. Fragmentos de memória passavam como ondas fluviais, sem se encaixar corretamente. A morte ainda era uma opção? A dor era real, e Hinata não queria continuar com ela. No entanto, o aperto em seu coração tinha diminuído, porque já conseguia respirar; porém não chorava.
Barreiras em suas lembranças a impediam de recordar corretamente os últimos instantes antes de sucumbir. Eram rostos sem nome, ações sem motivação. Choro sem lágrimas. Não, ela não queria se lembrar, porque aquilo traria o sofrimento de volta; e Hinata não queria sentir.
As vozes se aproximavam, cada vez mais altas. Ela continuava atada, incapaz de falar ou manifestar sua presença. Os ruídos soavam distantes, como se estivesse em um terminal de pouso, e o vento ensurdecedor não a deixasse ouvir o que falavam.
— ...correu tudo bem... – a frase parecia vir de uma ligação muito ruim – Ela... cardíaco... emergência...
Estava falando dela? Não conseguia unir as peças. Aquilo a irritava; não ser capaz de enxergar a imagem completa. A confusão era sedativa, mas Hinata queria atravessar a bruma, e enfrentar o outro lado.
— Eu aprecio-
Aquela voz.
Hinata a reconheceria em qualquer lugar; em qualquer situação, consciência ou devaneio. Era a voz que costumava ouvir em seus sonhos, seguir em suas alucinações, desejar em seus piores dias.
— Ela po- ...mesmo... dor?
Dor. Sim, Hinata estava sentindo dor. O frio amortecia suas pernas, mas sua espinha dorsal queimava, como um incêndio em seus lençóis. Em determinado momento, quase podia sentir sua voz atravessando os tubos que obstruíam sua garganta, apenas para implorar por misericórdia. Precisava que alguém apagasse o fogo, ou, ao menos, acelerasse o processo, para que a levasse de vez.
No entanto, foi distraída por uma nova onda de pensamentos, que, pouco a pouco, proporcionaram-na maior lucidez. Em vez de entorpecer, Hinata sentia que despertava, de um sono muito longo. Estava alerta, ligeiramente taquicárdica; talvez fossem monitores apitando em sua cabeça, ou mais uma ilusão.
Tudo isso apenas por um motivo. Por ele.
Inevitavelmente, tudo voltava para ele. Sua voz, seu cheiro, sua presença. Em seu leito de morte, Hinata se lembrava de desejar poder vê-lo uma última vez. Não se amedrontou com a possibilidade de ir para o céu, pois uma pequena centelha de esperança acreditava que voltaria a encontrá-lo no pós-vida. Porque tinha de ser.
Mas, então, o peso do passado voltava a sufocá-la, tão forte que parecia difícil permanecer imóvel. Seus membros não respondiam o desespero que emergia de seu íntimo, impetuoso o bastante para ser capaz de romper suas barreiras. O suficiente para trazer de volta suas lembranças. Mesmo as que não desejava.
A paciente começou a se debater, o que chamou a atenção do cirurgião geral. Ele deu as costas, conferindo o monitor enquanto abria ligeiramente a morfina. Aquele era um bom sinal – ela estava despertando surpreendentemente rápido da cirurgia, mas não poderiam mensurar os danos cerebrais até que demonstrasse consciência; isto é, se o fizesse.
— Está tudo bem? Ela está bem?
— Sim, não se preocupe. Seu corpo está respondendo aos estímulos mensais. Vou extubá-la, para que não engasgue. Aparentemente está filtrando oxigênio sozinha.
Naruto exalou o ar tão avidamente que quase caiu, tamanha fraqueza em suas pernas.
As últimas horas foram suficientes para que testasse a resistência de seu coração pelos próximos anos; certamente estaria livre de um ataque cardíaco, tamanha fibra. Passou por mais emoções que toda uma vida, alcançando a inconsciência em algum momento entre a aflição e o desassossego.
A imagem de Hinata sendo levada para o outro centro cirúrgico foi suficiente para minar toda sua força; seus pés, seus joelhos, seu tronco, sua cabeça. Tudo desabou. Se não fosse Sasuke, teria se jogado em direção aos médicos, que corriam e gritavam, provavelmente tropeçando poucos metros à frente.
Em vez disso, sentiu fortes braços ao seu redor, como grilhões de ferro, e deixou-se cair, incapaz de permanecer de pé. Naruto não via como continuar lutando, se aquela cena continuava se repetindo em sua mente, de novo, de novo e de novo. Hinata, coberta de fios, sangue, pinças e materiais cirúrgicos. Um corpo esbranquiçado, sem vida. Ela estava sem vida.
Sinceramente, não seria capaz de dizer quantas horas teriam se passado até que recuperasse parte da lucidez; apenas o suficiente para se lembrar onde estava, e perguntar por Hinata em lamúrios que beiravam a loucura.
Naruto rezou, algo que não costumava fazer com frequência; ironicamente, até aquelas últimas semanas, jamais tinha dedicado parte do seu tempo para conversar com algo que não acreditava, realmente, existir. Mas, então, encontrou na oração um motivo para continuar. Se Deus atendesse suas preces, então Hinata sobreviveria; se não, Naruto teria alguém para odiar.
Ele jamais poderia atribuir a culpa daquela situação à ela, independente do resultado. Culpar a Deus, em seu lugar, parecia uma boa alternativa.
Mas então, um milagre. A noite já domava o céu e as estrelas de Komu há muito tempo quando o médico voltou do corredor da morte. Da ala das más notícias. Naruto não se levantou da cadeira, com medo de cair novamente. Não aguentaria palavras como as da última vez.
Ele tirou a máscara e a touca cirúrgica. Seus olhos eram sérios, mas não pesarosos. Alguém que estava cansado, mas não carregava consigo a culpa de ter perdido um paciente. Naruto acompanhou seus movimentos, e viu seus lábios se mexerem, formando palavras que não chegavam em seu ouvido.
Foi quando Shion apoiou-se em seus ombros, escorregando do seu lado; mas não de um jeito ruim. Estava trêmula, os dedos ligeiramente brancos, mas Naruto sabia que era diferente. Ela não estava gritando, ou perdendo os sentidos. Estava aliviada.
Então Hinata estava viva.
Foi quando o médico chamou sua atenção, e, lentamente, o zumbido permitiu que voltasse a ouvir com mais clareza. Ele disse que ela tinha saído da zona de perigo, e estavam aguardando que ela despertasse. Apenas o contato de emergência podia entrar no quarto enquanto ela não fosse transferida da UTI, e, por isso, Naruto podia vê-la.
Como um choque que atravessou seu corpo, levantou-se. Energizado, alerta, atento. O coração batendo rápido como asas de um colibri. Seu rosto estava paralisado, mas quando abraçou Shion, apertando o rosto contra seu ombro, sentiu lágrimas escorrerem.
Ainda não estava em plenos sentidos quando acompanhou o cirurgião de volta para o corredor, tropeçando nos próprios pés. Quando passou pela porta da UTI, foi como atravessar um portal para outro mundo. Havia aparelhos, fios e tons de branco por toda parte, mas seus olhos subitamente clarearam, enxergando apenas uma única figura.
Ela.
Hinata. No centro do quarto; no centro de tudo.
Uma onda de impressões invadiu Naruto no momento em que sua visão pousou sobre a garota. Alívio, tão paralisante que precisou se apoiar na parede. Uma sensação de gratidão pelas orações atendidas por aquele Deus que não acreditava, mas por quem se tornou imensamente agradecido. Felicidade, explodindo em seu peito, cegando-o para todo o resto. Apesar dos pesares, ela estava viva. Uma nova chance. Eles tinham uma nova chance.
Não pensou nos motivos que levaram Hinata até ali – não era da sua conta. Ele não a culparia, sequer relevaria aquilo. Se dependesse dele, jamais tinha acontecido. Tudo que importava era que ela sobrevivera, e toda a dor, todo o remorso e toda a culpa que restariam em seu coração deveria ser expurgada. Naruto faria o possível, e o impossível, para fazer com que Hinata jamais fosse dominada por aqueles sentimentos novamente.
O primeiro passo era mostrar que Hinata não estava sozinha. Se a conhecesse, ao menos um pouco, sabia que a garota tentaria se fechar, inibir seus sentimentos; não demonstrar fraqueza. Mas havia três pessoas na sala de espera do hospital, e mais tantas que aguardavam notícias. Naruto precisava mostrar que ela não tinha de passar por aquilo sozinha.
Em seguida, teria que insistir. Por Deus, ele teria que ser teimoso, tanto quanto jamais fora – e Naruto era muito teimoso –. Porque Hinata não se deixaria vencer, e não admitiria seus problemas. Ele precisava tentar, e precisava conseguir fazer com que ela percebesse o abismo, e saísse da beirada. Não era tolo; sabia que precisava de ajuda profissional. Não apenas para se curar, mas para se livrar das amarras do passado. Ele não era a pessoa indicada para ajudar Hinata a cruzar a ponte, mas estaria próximo para lhe dar a mão.
Se aproximou da cama. Passos pequenos, com medo de assustá-la; sentia que, se fosse brusco demais, Hinata levantaria voo para longe, como um pequeno pássaro amedrontado. Tinha que ser cauteloso, mesmo enquanto ela estava inconsciente.
Por um momento, prendeu a respiração, assustado com a imagem que preenchia seus olhos. Uma Hinata tão diferente da que se lembrava – não havia mais o fogo no olhar, as maçãs do rosto coradas, o sorriso tímido, porém decidido. Agora, era apenas um corpo sobre a cama. Estava magra, tão magra que podia ver os primeiros ossos de sua costela. Seu rosto estava vazio, com as bochechas secas e a mandíbula óssea. Grossas olheiras contornavam suas pálpebras, e o cabelo ressecado estava em todas as direções, maior do que costumava ser quando os fios formavam uma cortina sobre sua testa.
O coração de Naruto se apertou, porque ele daria tudo para que ela não estivesse naquela situação – mas sabia, há algum tempo, que não dependia apenas das suas vontades. Ele tentou, e não foi o suficiente. Mas isso não significava que era sua culpa. E também não significava que ele desistiria.
— Qual o próximo passo, doutor? – perguntou em meio-tom, ainda sem tirar os olhos da garota. Algo lhe dizia que Hinata podia sentir que estava ali.
— Precisamos esperar que ela desperte para avaliar possíveis danos neurológicos. É muito relativo, nesta situação. A senhorita Hyuuga pode estar consciente, mas incapaz de se comunicar, por exemplo. Ou mesmo ter algumas de suas funções de fala, mas danos em outros sentidos. Só teremos resultados conclusivos quando ela reagir ao tratamento. – explicou. Naruto sentiu um arrepio subir por sua espinha enquanto processava as palavras.
— Quer dizer que ela pode me ouvir?
— Não é nada decisivo, mas, pessoalmente, minha opinião é que sim. Ela reagiu com o tubo de oxigênio, e até agora seus sinais vitais apenas aumentaram. Acredito que ela estava recobrando a consciência, mesmo em internamente. Isso significa que ela pode reagir a estímulos externos, ou mesmo mexer as mãos, abrir os olhos. – deu de ombros – Como médico, já vi algumas situações assim, mas é apenas um palpite. – Naruto assentiu, percorrendo os dedos pela beirada da cama enquanto se aproximava, do lado direito – Vou deixá-lo com a senhorita Hyuuga. Qualquer reação inesperada, basta apertar o botão e as enfermeiras virão ajudá-lo.
— Obrigado, doutor. Muito obrigado. – seus olhos ferveram de gratidão, e o médico assentiu, batendo em seu ombro uma vez.
Quando a porta se fechou e o silêncio tomou conta do quarto, Naruto soltou o ar pesadamente. Encarou Hinata como se sua vida dependesse disso; precisava memorizar cada detalhe novamente, antes que fosse tarde demais. Não. Não seria tarde demais. Eles teriam tempo.
Naruto não deixaria Hinata uma segunda vez.
As semanas que passou sem notícias foram como vivenciar o inferno. Seu corpo clamava por misericórdia, mas sua mente apenas procurava subterfúgios para se esconder da dor que era respirar. Não houve uma só noite tranquila, ou um só dia de paz. Naruto pensava, solitário em seu apartamento, como continuaria vivendo se nunca mais pudesse ver Hinata de novo.
Claro, ele mantinha esperanças, mas uma parte de si precisava se preparar para o pior. Sabia que ficaria quebrado, e um ferimento daqueles jamais poderia ser consertado. Seu coração seria, para sempre, da garota. Nem mesmo futuros amores, improváveis e hipotéticos, preencheram o buraco, quase físico, que iria se instalar.
Contudo, a ligação do hospital chegou. Agora ele sabia que, durante o sono, foi capaz de sentir quando Hinata...
Ele sabia que sim. Estavam ligados por algo mais forte que a física, a química ou a biologia. Nenhuma explicação racional, lógica e exata seria capaz de dizer como Naruto sabia que aquela hora tinha chegado. Ele sentiu as dores dela, ele sentiu a morte.
E agora estava ali.
Naruto não era um homem de fé, mas sempre tinha sido um garoto sonhador. Sabia que o universo escondia segredos extraordinários, incapazes de serem descobertos até que o momento chegasse. Sempre foi fã das artes, das pinturas e da literatura. Não apenas por Minato, mas também pela magia que essas áreas carregavam. O amor, a dor, a paixão, o ódio. O modo sublime como eram retratados – quase como se os sentimentos pudessem ser capturados de maneira palpável.
Quando conheceu Hinata, foi como se seu coração finalmente tivesse encontrado a inspiração verdadeira para produzir aquilo. Naruto era capaz de entender cada pintura, cada soneto, cada poesia que já leu, porque fazia sentido. Hinata tinha lhe dado um novo olhar, um novo sopro de vida.
E, então, como Ícaro, teve medo de voar muito perto do sol, e derreter suas asas. E cair. E morrer.
Naruto sempre teve medo de morrer. Era um covarde, e sabia disso. Hinata não – Hinata era a garota mais corajosa que já tinha conhecido. Ela nunca teve medo de arriscar, e se queimar no fogo, desde que pudesse ver suas faíscas de perto.
Mas Hinata estava quebrada. A vida tinha sido muito dura com ela – a vida e o miserável que um dia ousou se aproximar da garota. Enquanto Naruto acreditava que ninguém jamais poderia preencher o buraco em seu coração, caso Hinata se fosse, ela tentara, desesperadamente, fazê-lo.
E de novo, quando Hanabi morreu. A culpa a dilacerou, e mesmo quando encontrou uma centelha de esperança, foi novamente posta à prova. Como alguém poderia culpá-la por querer que a dor acabasse?
Por isso, Naruto ficaria. Naruto lutaria, até esgotar suas forças. Mesmo que Hinata não o quisesse, mesmo que ela desejasse acabar com tudo, ele tentaria. Porque, por ela, valia a pena.
— Hinata... – murmurou seu nome, erguendo os dedos para acariciar seu rosto minguo. Quando o calor corporal aqueceu sua pele, ele suspirou. Sabia que ela estava ouvindo; Hinata era forte, forte o suficiente para fazer o que tinha feito. Não, ela não era fraca por querer desistir. Era forte por ter aguentado até aquele momento – Eu te amo. – sussurrou, inclinando-se até que seu rosto estivesse próximo à bochecha murcha.
Naruto poderia ter dito que sentia muito. Falar sobre como se arrependia pelo que tinha feito, e pelo que tinha deixado de fazer. Poderia ter dito para que ela acordasse, ou prometido fazer a dor passar. Havia, de fato, muitas coisas que Naruto queria ter dito. Mas aquelas palavras – aquelas palavras – apenas pareciam certas.
Ele não estava garantindo a paz. Ou tranquilidade. Ou a remissão de todos os seus pecados. Mas Naruto tinha, sim, feito uma promessa; seu amor ficaria. E ele a amaria, qual fosse sua decisão no futuro. Naruto amaria Hinata pelo resto de sua vida, e aceitaria todas as consequências daquele amor.
Aguentaria a dor, e a saudade. Aguentaria os arrependimentos, e a esperança. Aguentaria a mágoa, o rancor e o pesar. Muitos poderiam pensar que aquela situação era uma âncora, afundando para as profundezas de um oceano escuro e sufocante. Mas eles não sabiam; não tinham como saber. Hinata era a boia que o mantinha acima da superfície – que o impedia de naufragar.
Aquele amor poderia fazer mal; talvez sim. Já tinha, há muito, consumido-o por inteiro. Mas também tinha feito com que amadurecesse, encarasse seu passado, seus pesos e seus ossos no armário. Se, no final, o desfecho não fosse feliz, apenas um momento positivo já teria feito uma vida inteira de erros valer a pena.
— Eu te amo. – repetiu, apoiando a testa em seu ombro, com cuidado, não querendo machucá-la – Está tudo bem. Você pode ir se quiser. – sua garganta se fechou com a mera possibilidade, mas ele continuou – Mas, se quiser voltar, eu estarei aqui. Eu não vou fugir dessa vez. – respirou fundo, sua mão apertando um pouco os dedos flácidos pousados sobre a cama dura – Eu fui covarde. Eu tive medo. Você era tão brilhante, e eu fiquei com medo. De ficar cego, de me queimar. Eu tive medo, mas eu não tenho mais. – sorriu, deixando que uma lágrima escorresse e se perdesse no lençol – Eu inventei desculpas demais para o que eu fiz. Eu não me arrependo de ter ido, mas eu me arrependo de ter partido sem ser sincero. Sem me despedir. Você pediu para que eu fosse honesto, e eu não fui. Eu era uma criança, imaturo, e eu quis fugir para não ter que lidar com as minhas próprias responsabilidades. – seus pulmões queimavam, e sua voz, baixa, parecia estar gritando – Eu levei tempo demais para perceber, e mais ainda para aprender a amar você todos os dias, como você é. Não a Hinata de anos atrás, mas a Hinata de hoje. E eu amo ambas tão intensamente... – as palavras morreram, tamanha emoção que tomou conta de si – Eu te amo. E sinto muito por ter chegado tarde demais, mas eu te amo.
— Na...
Naruto se afastou abruptamente, surpresa. Foi quando seus olhos se arregalaram, com um sorriso rompendo de seus lábios. A pressão em seus dedos foi retribuída por um aperto suave, quase imperceptível; mas ele sentiu.
— Na... ru...
Ele deixou que algumas lágrimas borrassem sua visão; não importava. Nada o impediria de gravar, novamente, aqueles olhos cristalinos. As íris lilases pareciam ligeiramente injetadas, cansadas e profundas. Os lábios ressecados se esforçavam para falar, mas sua garganta vibrava com dificuldade. Ela piscou uma vez, os cílios grudando. Seu queixo tremeu quando ela voltou a encará-lo. O rosto, que nunca esteve tão magro, parecia quase sem vida.
Mas Hinata estava viva.
Ela tinha acordado. Tinha chamado por ele.
— Hinata, meu Deus... – Naruto estava tremendo quando se inclinou sobre o corpo dela, sacudindo-o com seus soluços. Parecia impossível experimentar emoções tão extremas em um intervalo tão curto de tempo; agora, experimentava uma felicidade tão avassaladora que tirava seu fôlego.
— Naru... – ela ofegou, e ele se afastou de supetão novamente, sorrindo amarelo.
— Me desculpe! Não queria te machucar. – Hinata parecia querer sorrir, mas a fraqueza de suas expressões demonstrava dificuldade até mesmo para respirar – Meu Deus, eu estou... eu estou tão feliz... – gaguejou, limpando as lágrimas que insistiam em cair. Respirou fundo duas vezes, puxando a cadeira de plástico para se sentar o mais próximo que conseguia, sem soltar a mão da garota – E-Eu devo chamar as enfermeiras? – o médico disse para pedir ajuda em caso de reações inesperadas, e Naruto tinha medo de que o súbito despertar pudesse causá-la danos no futuro.
No entanto, Hinata balançou a cabeça negativamente, apenas alguns milímetros. Naruto quase riu; deveria saber. Ela sempre odiou hospitais. Agora, não conseguia pensar logicamente. Sua mente estava ofuscada pelo brilho de alívio, acima de tudo. Ele podia lidar com o que fosse – desde que ela estivesse viva.
— Na-Naru... e-eu... – sua voz estava rouca e falha. Mas não eram necessárias palavras; Naruto sabia o que queria dizer. E também sabia que não precisava ser dito.
— Meu amor. – murmurou, acariciando seu rosto do alto a baixo. Hinata piscou um pouco mais longamente, e Naruto gostou de pensar que ela estava aproveitando o carinho. Depois de tanto tempo... era hora de começar a fazer as coisas certo – Eu sei. Eu sei. – inclinou-se, beijando o alto de sua testa – Nós não te culpamos. Ninguém te culpa. E é hora de você começar a se perdoar também.
— Mas... eu... – tanta dor. Tanto sofrimento refletido em seus olhos. Mesmo sofrendo, ela ainda se preocupava com o que os outros pensavam sobre ele. Sobre magoá-los.
— Não. Hinata, me escute. – Naruto afastou-se o suficiente para que ela visse seus olhos. Ele estava sério, com as sobrancelhas unidas em uma careta grave. Precisava começar fazê-la entender – Um dia, você me disse que não me culpava pela morte de Hanabi. – ele sentiu o pequeno tremor que passou por ela à menção do nome – Eu me culpava, mas você não. Eu fiz um monte de merdas, eu te machuquei, e, mesmo assim, você não guardou sequer uma mágoa. Você permitiu que eu me aproximasse, que eu entrasse de novo no seu coração. Você é alguém que já sofreu como o inferno, mas, mesmo assim, continua perdoando as pessoas. – a garota moveu os lábios, como se quisesse argumentar, mas nenhum som saiu de sua garganta, e Naruto continuou, energético: – Você foi capaz de perdoar aquele filho da puta, de novo e de novo. Você perdoou Sakura, por ter se afastado, por não ter insistido. Você perdoou uma garota tão perdida quanto você, uma garota fechada e cheia de feridas, e a amou o suficiente para ajudá-la a se curar. Você me perdoou. – sua voz foi inundada por um carinho além de qualquer explicação – Você me perdoou, Hinata, quando eu não fui capaz de me perdoar. – a fitou com todo o amor de seu coração – Está na hora de começar a fazer isso consigo mesma.
Seus dedos percorreram a lateral de seu rosto, capturando uma pequena lágrima que escorreu do canto de seus olhos fundos. Seus ombros tremiam, e ela inclinava a cabeça em direção ao afago suave.
— Não estou dizendo que será fácil, e não estou cobrando nada de você. Eu te amo, e estarei do seu lado para o que precisar. Eu vou te apoiar, mesmo se... – respirou fundo – mesmo se decidir ir embora. Eu não vou te impedir. Vou continuar te amando com todo meu coração e meu corpo, e te esperando. E não serei eu a te curar. Eu não vou te salvar. Você mesmo disse. – sorriu um pouco – Mas sim você. Você sempre foi sua própria heroína, Hinata. E vai se salvar.
Naruto quase perdeu o fôlego quando o rosto dela adquiriu um leve aspecto avermelhado. Mesmo naquela situação, ainda era capaz de fazê-la corar de vergonha.
— Você não desistiu, Hinata. Mesmo quando estava sem forças. Seu coração não parou de bater, seu corpo não deixou de se livrar do que lhe fazia mal. – soprou em sua direção, inclinado de modo que seus corpos compartilhavam a mesma onda de calor sobre o lençol hospitalar – Em algum lugar, sua mente sabia que parte de você queria lutar. Você é uma guerreira, você é forte. E você pode fazer isso. Pode dar quantos passos precisar até começar a entender que não é seu passado, não são as palavras que ele lhe disse, ou as coisas que aconteceram, que definem quem você é. Você é incrível, Hinata, e está livre. Livre para fazer o que quiser. O que você quiser.
Livre.
— Você não precisa viver por mim, ou por ninguém. – engoliu em seco, entrelaçando seus dedos definitivamente – Mas, se escolher viver, será por você mesma. Para se curar. Para se salvar.
A história estava apenas começando.
— Ninguém poderá fazer isso por você, mas você não está sozinha. Hinata, você não está sozinha.
A porta do quarto se abriu novamente.
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