Heroína

10 Ainda somos os mesmos, mas ainda estamos tão diferentes de antes


Notas iniciais
Oi gente, vocês também ficam escrevendo fanfic em vez de atualizar o currículo Lattes? Pois é. Estava sem nada pra fazer, decidi terminar a postar o capítulo de hoje. Eu fiquei realmente inspirada, então espero mesmo que gostem! Como sempre, a recepção é incrível, muita gente acompanhando, obrigada pelos comentários, eu amo cada um deles! Voltamos a programação normal depois de um flashback lindinho e meigo que eu tive que destruir com drama (euamoisso). Agora, seguimos com muuuito drama. Essa fic não vai ter grandes acontecimentos, vou situar ela basicamente no enredo principal e nas tramas já apresentadas, tentando desenvolvê-las ao máximo! Espero que gostem, e não deixem de conferir Quimera e Genderswap! ♥

Não importa o quanto eu ache que crescemos

Você sempre parece me avisar que não está dando certo

E quando eu tento ir embora

Você se machuca para me fazer ficar, isso é loucura

Eu continuo deixando você voltar

Como eu posso me explicar? O quanto doloroso isso tem sido

Eu apenas não posso estar com mais ninguém

Veja, eu sei o que temos que fazer

Você deixa ir, e eu irei deixar ir também

Porque ninguém me machuca mais do que você

— Ex-Factor, Lauryn Hill

—Capítulo X–

Ainda somos os mesmos, mas ainda estamos tão diferentes de antes

Aquele beijo tinha vários gostos, mas, principalmente, de provocação.

De fato, Hinata poderia ter desviado. Houve um instante, um ínfimo instante, onde tudo ao seu redor desacelerou. De repente, seus olhos capturaram o momento, entalhando detalhe por detalhe, em câmera lenta. Ela estava pouco ciente do céu que despontava ciano, ou dos minutos que passavam tão rápido, trazendo mais e mais alunos. Não, ela não prestou atenção nessas minúcias. Todavia, era capaz de citar perfeitamente quantas manchas coloriam o maxilar do garoto que a prendia em seus ombros. Quando o tempo ao seu redor parou, Hinata pode observar com primazia o que estava prestes a acontecer. Ela viu os olhos tão azuis quanto possível, fitando-a e diminuindo gradativamente, e as pálpebras cobertas de longos e invejáveis cílios se fechando. Ela pode gravar o contorno de seu nariz, e as marcas de nascimento que se assemelhavam a bigodes, tão claras que era impossíveis de serem notadas a menos que se estivesse muito perto – e Hinata estava –. Seu rosto ficava mais próximo a cada milésimo, e bastou um átimo até que ela compreendesse o que viria a seguir. E, quando percebeu, Hinata poderia ter se afastado. Poderia ter desviado e deixado que ele atingisse sua bochecha. Poderia ter gritado, esbravejado, chutado suas bolas. Mas não o fez. Antes que aqueles lábios tivessem tocado os seus, Hinata sabia que já tinha perdido aquela luta.

Nada mais passou por sua mente. Certo ou errado, causa ou consequências. Tudo que importava era aquela boca desacelerando, os lábios finos e umedecidos tão convidativos. O cabelo loiro caindo pela testa, espalhando fios dourados para todos os lados, implorando para que seus dedos se enroscassem neles. Mesmo alto, se curvava lentamente até que a alcançasse, e só Deus sabia como ela sentia os braços firmes segurando-a pela cintura, firmes como amarras de ferro, suaves como um carinho. Era química – corpos eletrizados e atraídos pelo puro magnetismo de polos opostos –, mas não era apenas instinto. Havia algo de racional no encontro deles, como se, inevitavelmente, estivessem fadados a escolher aquilo.

Hinata também se permitiu fechar os olhos, e, quando a escuridão a atingiu, todos seus outros sentidos se aguçaram. Pareceu demorar uma eternidade, mas, finalmente, quando seus rostos se chocaram, foi como um soco no estômago, deixando-a sem ar, com as pernas bambas. Parou de lutar, e seus braços, que outrora estapeavam o peitoral do Uzumaki, procuraram avidamente por seu pescoço, entrelaçando-se. Aquela foi a permissão final – nada mais estava entre eles, nem da parte dele, nem da parte dela.

No começo, foi como se ela se teletransportasse para quatro anos antes, e, de repente, nada tinha mudado. O mesmo Naruto, a mesma Hinata, na mesma rua íngreme do mesmo bairro. O mesmo beijo. O mesmo desespero estranhamente confortável que ele parecia ter quando a segurava pela base e a apertava contra seu corpo. No entanto, claro, nada era como antes – eles, o ambiente, a maneira com que seguravam um ao outro. Gradualmente, o gosto do beijo deixou de ser nostálgico, e passou a ser provocativo. Era exasperado, exigente, ansioso. Quando a língua de Naruto tocou a sua, correntes elétricas transpassaram cada veia em seu corpo, despertando-a. Nicotina, menta, cítrico, pasta de dente – mas, se conseguisse se concentrar, amargor, ânsia, mágoa era mais notáveis que mero paladar. Era raivoso, e suas bocas se moviam de um lado a outro em uma batalha desenfreada e, certamente, sem busca por vencedores. Hinata puxava os fios proeminentes de sua nuca, e Naruto apertava sua cintura, movendo as mãos ora para cima, ora para baixo. Era agressivo, mas de hostilidade morna, porque nenhum deles pretendia realmente se machucar. Mais que os sentimentos ruins, Hinata sabia que o que estava sentindo ia muito além de inquietação ou atração física.

Eram pessoas diferentes, com bagagens diferentes, e uma história mal resolvida no passado, se reencontrando por uma piada mal contada do destino. Naruto não era o mesmo, e tampouco Hinata o era, mas, enquanto ela o beijava tão ardentemente que seus pulmões começariam a queimar por oxigênio, como conseguiria negar o amor irremissível que tentou desesperadamente suprimir? Quando bastava um toque, e ela se entregaria de bom grado àquele homem que jurou odiar?

Muitos pensamentos cruzaram sua mente naquele intervalo de tempo, mas toda sua atenção acabava voltando para o aperto quente e a boca rudemente macia. Naruto sabia mesmo como conduzir um beijo – Hinata estava atordoada, e, por muito pouco, não desfaleceria naquele chão. Se dependesse unicamente de seus impulsos – e de uma parcela criminosa de intenção –, continuaria ali pelo resto de seus dias, e estaria suprida. Mas a racionalidade chegou para tomar seu espaço, e, conforme seu juízo foi se recuperando, ficou mais fácil quebrar, o mínimo que fosse, aquele contato.

Ela era uma viciada, mas Naruto era sua pior droga.

Desgrudou suas bocas, consciente do estado nada agradável que deveria apresentar naquele momento – nem mesmo o batom vinte e quatro horas seria capaz de suportar aquela investida, além das roupas amassadas e do cabelo despenteado. Com deleite, anotou discretamente que Naruto não estava muito melhor, com os fios caóticos e marcas de arranhão descendo por sua nuca. Todavia, a satisfação durou pouco. Os olhos do Uzumaki se abriram, brilhantes como duas pedras, e ele abriu um sorriso. Não qualquer sorriso. Era o seu sorriso. O sorriso torto, despreocupado, quase zombeteiro, que enchia sua bochecha com uma covinha e alcançava todo seu rosto, iluminando-o. Sim, aquele sorriso capaz de fazer o mundo se curvar, o sorriso que a fez amá-lo tão dolorosamente no primeiro instante.

Foi aquele sorriso que trouxe tudo à tona.

— Não, não, não, não, não... – aproveitou a distração de Naruto e conseguiu se desvencilhar do abraço, fazendo os braços caírem, moles, ao lado de seu corpo, enquanto encostava na parede, segurando a cabeça contra as mãos e assumindo o que deveria ser a pior das máscaras aflitas.

Céus, ela tinha mesmo acabado de beijar Naruto. Ela tinha traído Kiba! Tão vergonhosa e desenfreadamente – sequer tinha se lembrado dele por um instante que fosse. Sentia-se tão enojada que teve que abaixar por um momento, o sangue, que estava aquecido, esfriando bruscamente. Queria chorar, o asco percorrendo sua pele. Tinha sido baixa, da mesma maneira que ele a acusara tantas vezes, e pior: não tinha sentido culpa. Nem por um segundo, enquanto se agarrava com outro homem. Era o pior tipo de garota, sem consideração ou escrúpulos. Não tinha tido respeito pelo cara com quem estava há dois anos, que a acolheu sabendo que ela amava outro, que suportou todas as noites sem dormir, todos os porres, todo o choro e lamentação. O cara que não saíra do seu lado enquanto ela chamava, bêbada, drogada, pelo nome dele, que cuidara pacientemente, juntando as peças quebradas e remendando. Uma vadia da última espécie.

— Hinata... – Naruto se abaixou, subitamente preocupado, tocando seu ombro, mas, pela segunda vez, a Hyuuga agiu pelo instinto, afastando-o com um tapa e recuando, assustada. Não tinha se dado conta das lágrimas que começaram a escorrer, manchando parte da maquiagem.

— Não! – gritou, mantendo-se afastada o máximo que podia, com as mãos tremendo. O encanto durou pouco, e todos os sentimentos que afloraram, antes, foram substituídos a força por remorso e angústia. Hinata viu Naruto a encarar com os olhos machucados, desassossegado genuíno, o que apenas aumentou a sua dor. Ela não merecia que ele se preocupasse com ela, ao passo que o culpava, em partes, pela dor, de todos aqueles anos. A realidade era que amar Naruto, depois de tanto tempo, ainda doía – Não, Naruto, não. – implorou, abraçando o próprio corpo e piscando para afastar o choro que começara a cegar sua visão. O loiro tentou se aproximar, cuidadoso, mas Hinata tornou a se afastar.

— Hinata, por favor. – a voz ele era agoniada, e a garota sacudiu a cabeça, tentando respirar fundo, com a garganta fechada. Sentia-se vulnerável, exatamente como anos atrás. Sabia que se deixasse que ele a abraçasse, jamais sairia novamente, porque era fraca demais – Eu... eu sinto muito. – era uma frase simples, mas o peso que ela trouxe carregava uma vida inteira – Se você me der outra chance, eu posso explicar, eu sei que posso. Por favor. – implorou, parecendo a beira do choro também – Eu te amo. – Hinata soluçou com a nova pontada que a atingiu, dolorosa como agulhas, mais ainda porque ela queria acreditar – Eu sei que você me ama também. Por favor, você precisa dar uma chance para nós. – ele falava verdadeiramente atormentado, com a mão esticada, e, céus, Hinata queria entrelaçar aqueles dedos, dizer sim e dar se permitir entregar.

— Eu não posso. – ela sussurrou, mas também poderia ter gritado – Naruto, eu não posso. — sabia que sua voz estava trêmula e agoniada, como ela mesma se sentia. Seu âmago queimava, e todas suas células eram atraídas para aquele garoto parado à sua frente, todas suas terminações nervosas imploravam para estar com ele. Mas ela não era ingrata, e não era egoísta. Tinha alguém que a esperava em casa, alguém para quem devia muito. Alguém que estava lá quando Naruto não estava mais – Eu sinto muito. – murmurou, se soltando e limpando as lágrimas que ainda escorriam. Pegou sua bolsa, há muito largada no chão, e jogou nos ombros. Naruto a fitou, entristecido, e mais um segundo faria com que ela abandonasse tudo pelo que havia lutado até ali. Porque Hinata poderia ignorar tudo. Ela poderia esquecer a dor e a tristeza e o abandono, porque nada mais importava. E aquilo a assustava.

Baixou a cabeça e saiu apressada, desviando de trombar contra o ombro de Naruto, para não causar mais reações contra seus corpos. Vários alunos entravam, e, de repente, já estava quase na hora da aula. Com a boca tremelicante e as pernas instáveis, correu escadaria acima e entrou no primeiro banheiro que se lembrou, no corredor dos laboratórios. Estava vazio, e, sem pensar, entrou na cabine, trancando-a e sentando-se, respirando fundo. Não chorou mais – talvez porque não tivesse mais lágrimas. Tentou estabilizar seus batimentos, mas estava inquieta, e precisava muito de um maldito cigarro.

As lembranças do beijo voltaram com toda força contra ela, jogando em sua memória cada sensação, cada desejo íntimo realizado. Quantas noites ela não sonhou com aquele momento? Quantas foram as vezes que sua mente o visualizou à sua frente, no lugar de Kiba? Ela nem conseguia contar. Tão subitamente, de repente sua vida está de cabeça para baixo, e ela não tem mais controle. Basta Naruto aparecer, e ela se torna novamente aquela garotinha ingênua e frágil que acreditava mesmo que eles seriam felizes para sempre.

Fechou os punhos, repentinamente com raiva. Gostou daquele sentimento que substituiu a tristeza, porque foi a força da ira que a tirou daquela cabine, fazendo-a ir até o espelho e limpar as manchas em seu rosto. Limpou o batom borrado e retocou, mais forte do que antes, todos os pensamentos voltados para o ódio que alimentava sua determinação. Ela já chorara muito por Naruto, e também já se entregara a promessas vazias e lembranças do toque lascivo que apenas ele tinha. Era uma verdade incontestável, comprovada e refutada – ela sempre amaria Naruto, com a mesma intensidade irritante e dolorosa. Não podia lutar, não podia omitir. Mas ela podia lembrar. E ela sempre lembraria do dissabor de acordar sozinha depois de uma noite de amor, e assim permanecer, abandonada, como se não significasse nada.

Encarou seu reflexo deplorável, desafiando a si mesma a se recompor. A tempestade de emoções que passaram por seu corpo em um período tão curto de tempo faziam seu estômago doer, mas ela tomaria aspirinas, e aquele problema estaria resolvido. Como uma atriz prestes a entrar no palco, encorporou o personagem que há tanto interpretava – o dela mesma. A garota que se criou para ser, e, com esforço cansativo, empurrou os acontecimentos daquela manhã para um baú, trancado. Certamente, não conseguiria mantê-las por muito tempo ali – Hinata podia tentar enganar seu corpo, mas não sua essência. Entretanto, ela lidaria com aquilo depois, sozinha, onde não pudesse ter a influência inconveniente do Uzumaki.

Satisfeita e sem ter as pernas bambas, saiu, verificando no celular que estava ligeiramente atrasada. Correu para a sala, e o professor não havia entrado ainda. Jogou na carteira do fundo, perto da janela, onde ninguém pudesse incomodá-la, e focou cada aspecto sentimental em concentração, anotando as informações do quadro e dos slides. Não podia fazer muito com sua boca formigante ou os olhos inchados, mas era mais fácil trabalhar com a raiva do que com a piedade, afinal.

Passou os quatro créditos sem mover os olhos das próprias mãos, controlando, vez ou outra, os dedos que insistiam em tremer. Era como uma abstinência incômoda, como se sua estrutura estivesse implorando por uma substância, as veias saltadas e a cabeça explodindo – o que deixou Hinata com mais raiva. Um beijo. Bastou um beijo, e até mesmo seu corpo a traía, entregue completamente ao vício que Naruto Uzumaki representava para ela. Era patético.

Quando o professor anunciou o fim da aula, Hinata percebeu que estava com um ligeiro torcicolo, e que suas mãos estavam manchadas de caneta. Ao menos, quatro páginas de anotações impecavelmente distribuídas, que até faziam aquela matéria deplorável parecer interessante. Juntou seu material, arrumando na bolsa surrada, enquanto esperava todos saírem. O professor se despediu dos poucos que restaram na sala, e Hinata ficou para trás. Não queria ser alvo de encaradas – sabia que provavelmente ainda estavam com a feição irritada, e, para ajudar, seu olho não tinha desinchado completamente, embora a maquiagem disfarçasse bem os hematomas amarelados. Caminhou devagar, se misturando aos demais com a cabeça baixa. O sol já estava ao pino, e o clima estava abafado, mas ela não se surpreenderia se chovesse. Arrumou a saia e abriu a jaqueta, distraída. Era mais de onze horas, mas não sentia fome. Seu estômago ainda estava um pouco embrulhado, e estava tendo calafrios. O cansaço vinha de ficar lutando internamente a todo momento, refreando aquelas memórias, porém, talvez conseguisse alguns remédios de gripe com Shizune caso fizesse uma careta doente.

Estava prestes a subir a escadaria para o refeitório quando foi parada.

— Hinata! Que bom que te encontrei aqui. – a garota se virou, sorrindo genuinamente, vendo seu professor preferido andar em sua direção. Como sempre, ele vestia roupas sociais demais para combinarem com a fita que prendia seu cabelo para trás e com o cigarro despojado atrás da orelha, mas aquilo só o tornava mais emblemático. Hinata gostava mesmo era da maneira que ele parecia estar sempre sorrindo, não importava a ocasião. Suas aulas eram leves, contudo, infelizmente, a Hyuuga só tivera dois períodos optativos, e a iniciação júnior acontecia uma vez a cada quinze dias. Ainda tentava frequentar as aulas avançadas de física, quando ele estava de bom humor e deixava que ela matasse o mesmo período para estar em sua sala.

— Bom dia, professor! – cumprimentou, virando-se. Ele a encarou com expectativa – Em que posso ajudá-lo?

— Eu vim falar sobre seu requerimento de iniciação avançada comigo nesse semestre. O Congresso acontece só na primavera, mas eu tive algumas ótimas ideias para aplicar no seu projeto em parceria com o curso de astrofísica. – falou, animado demais, e Hinata estremeceu, não demonstrando que seu ânimo acabara de cair por terra.

— Bem, eu ainda não pensei sobre isso... – enrolou. Ela suspeitava que Asuma soubesse exatamente o motivo de sua relutância. Ele era uma das pessoas mais inteligentes que conhecia.

— E o que tem para pensar? – retrucou, inconformado – Hinata, você é uma das alunas mais brilhantes desse campus. – ela corou levemente – Eu ainda não sei o que você está fazendo em Administração – bufou sem puder – quando eu mesmo já me ofereci para assinar sua carta de transferência. – ergueu uma sobrancelha, e ela se limitou a suspirar.

— Já conversamos sobre isso, professor. Eu gosto do meu curso. – mentiu descaradamente, torcendo para que ele acreditasse.

— Claro que sim. – debochou – Mas, de qualquer maneira, não vim aqui para te convencer a mudar de curso. Eu me recuso a deixar que um potencial como o seu seja desperdiçado. Eu e o professor Kakashi conversamos com o diretor, e ela está disposto a aumentar sua bolsa. A iniciação avançada pode te abrir muitas portas, e você vai poder sair do estágio na secretaria, se é isso que a mantém lá. – Hinata gemeu internamente com a proposta. Uma bolsa aumentada seria perfeita naquele momento, mas como explicar aquilo à Kiba? Ele surtaria.

Hinata estava sonhando com aquela extensão desde o primeiro ano de faculdade, quando escolheu a matéria de Asuma como uma das optativas. Ele administrava cálculo avançado dois na época, mas também era coordenador chefe dos cursos de astrofísica, metafísica e física quântica. No fim das aulas, a Hyuuga gostava de ficar conversando até mais tarde, e confessou, secretamente, sua admiração por astronomia e influência dentro de casa. Asuma se tornou absolutamente obcecado por ela, a incentivando e lhe dando provas para testar seus níveis de habilidade. Foi inevitável que se tornassem próximos, ainda mais depois que o professor descobriu o nível de QI da garota, e como ela tinha conhecimento evoluído nos assuntos. A convenceu de fazer a iniciação júnior, apenas em cálculo, mas o curso desenvolvido que ele ministraria para ela era ousado, e ela poderia ser reconhecida em todo o país e fora dele também. Era um sonho se tornando realidade – sonho este que caiu por terra quando comentou a ideia com Kiba. Sua garota cursando física, astronomia, cálculo avançado? Inadmissível. Depois de uma das brigas mais feias que tiveram, Hinata desistiu da ideia enquanto caloura, mas Asuma não deu o braço a torcer, a abordando todos os dias para tentar convencê-la a ser sua orientada. E estava cada vez mais difícil de dizer não.

O fato era que Hinata também se lembrava das noites em claro, estudando as estrelas, e o calor do corpo de Naruto contra o seu, enquanto ela olhava pelo telescópio da varanda de seu quarto, na casa de seus pais. Tantas recordações, pungentes. Era uma balança injusta – a mesma paixão que magoava, era a única coisa que lhe restava do passado.

— Eu não faria pelo dinheiro, professor. – murmurou, mordendo a bochecha, e envergonhou-se com o sorriso largo que Asuma lhe deu.

— Mas eu insisto. – teimou, com as mãos no bolso. Hinata mordeu os lábios, travando uma nova batalha interna, onde, mais uma vez, ela sabia que seria fraca o suficiente para ceder – Isso é um sim? Posso ter sua carta de recomendação e enviá-la ao conselho de aprovação? – seus olhos eram incisivos, mas Hinata jamais poderia ter dito que ele a forçara a dizer as próximas palavras:

— Claro. Pode contar comigo.

Era o primeiro sorriso fidedigno que abria em dias. Não era grande – ergueu somente um dos lados da boca, mas ele atingiu seus olhos. Surpresa, foi rodeada pelos braços fortes de Asuma, que a prendeu subitamente, soltando-a tão rápido quanto, com um riso travesso, deixando-a constrangida. O professor pareceu não se importar, saindo e acenando pelos ombros, cumprimentando outros alunos pelo caminho. Hinata continuou parada, sorrindo para os pés, incrédula. O dia estava definitivamente estranho, e, no fim do dia, ela escorregaria no chão do banheiro, perguntando-se se aquilo era mesmo real.

Coisas boas apenas não aconteciam com ela.

Desnorteada, caminhou até o almoxarifado da secretaria principal, cumprimentando suas colegas de expediente e deixando sua bolsa no armário. Puxou a calça jeans e a camiseta social, indo para o vestiário e tirando sua saia. Vestiu a camiseta por cima das vestes, e colocou novamente a jaqueta, mesmo que estivesse calor. Retocou a maquiagem marcante e penteou o cabelo para trás, vendo-o, tristemente, caindo acima dos ombros, recém-cortados. Guardou seus pertences, procurando pela sua bolsa de remédios, mas, antes que a alcançasse, seu celular começou a tocar. Puxou do bolso, engolindo em seco quando o viu o nome do visor.

— O-oi, amor. – gaguejou estupidamente, sendo inundada por uma nova onda de culpa devastadora, que queimava sua garganta.

— Oi, gata. — ele pareceu não ter percebido nada de diferente, e era difícil ouvir sua voz no telefone.

— Aconteceu alguma coisa? – enrolou. Kiba não costumava ligar, principalmente na hora do almoço.

— Não, pode ficar tranquila. — ela respirou fundo – Liguei para avisar que não vou para a uni hoje. – ele nunca avisava – Vai ter uma festa na casa do Toneri. — ah, ali estava – Você quer ir comigo?

Não era propriamente um convite, Hinata sabia. Caso recusasse, a única coisa que ele faria seria desligar o telefone, mas, quando se encontrassem, estaria dopado o suficiente para não se lembrar de ter raiva. Assim como a grande maioria de seus amigos, Toneri não era menos desprezível. A garota não estava realmente disposta a passar mais uma noite com aqueles homens sórdidos, fedendo a álcool e cocaína. Mas, por outro lado, o arrependimento era o sentimento que predominava, e ela já estava devendo para ele, uma conta muito maior do que podia pagar.

— Claro. – disse, pela segunda vez no dia – Festa na quarta-feira. Estou dentro. – tentou parecer animada, mas sua voz soava como um enterro.

— Perfeito, gata! Eu te pego em casa. Amo você, até mais.

— Também te amo... – murmurou para o telefone mudo, um segundo atrasada.

Suspirou. Pelo menos tentaria se redimir, o mínimo que fosse, enquanto comemorava, secretamente, a nova iniciação. Em algum momento, acharia o jeito certo de dizer ao namorado, mas não seria naquela noite, definitivamente.

Ainda tinha que trabalhar, então, engoliu rapidamente duas aspirinas, não tão fortes quanto gostaria. Voltou para a recepção, onde encontrou Shizune, como sempre, com uma pilha de relatórios nas mãos e uma faceta concentrada, mandando e desmandando nos novos estagiários. Hinata gostava de ver os novatos sendo escravizados, mas acabavam tornando sua tarde muito tediosa, sem trabalho para fazer. Naquele dia, ficou na primeira sala, autorizando requerimentos e passando pastas para o diretório principal. Era particularmente fácil, então, vez ou outra, entrava no Facebook e rolava o feed, apenas para sair dois minutos depois. Estudou um pouco online, mas não era como se estivesse realmente interessada em contabilidade empresarial – a ansiedade começou a atormentá-la, imaginando o que Asuma lhe ensinaria. Estava tão cansada o tempo todo, vivendo uma espiral viciosa que ia para baixo. Agora, era como uma luz, uma esperança, uma nova paixão.

As horas passaram vagarosas, e poucos alunos vinham, realmente. Hinata gostava quando ficava na recepção, vendo o movimento do estacionamento, e os corredores apinhados de estudantes dos cursos vespertinos. Naquela saleta, tudo que tinha era o calor insuportável e carimbos sem tinta. Conversou com suas colegas, mas preferia se manter reservada. Não tinha mais tato para amigos, e a cordialidade era sua maior aliada – sem intimidade, sem perguntas desnecessárias –. Distraída, e sob o efeito tranquilizante das pílulas tomadas sem necessidade, começou a devanear sobre os bons aspectos que se apresentavam. Seu rosto estava quase inteiramente curado, apenas com algumas manchas amareladas que sumiriam dentro de um ou dois dias. Os cortes no supercílio e no lábio haviam cicatrizado bem, e os hematomas piores em seu abdômen também não incomodavam mais, embora tivesse que usar blusas longas. Embora temerosa, àquela altura, nem Kiba seria capaz de fazê-la desistir do curso de Asuma, do Congresso da universidade, dos seus sonhos.

Os aspectos negativos infelizmente a deixavam mais animada do que realmente deveria, e suspirou algumas vezes durante o dia. Naruto estava de volta, aquilo era um fato irremediável – pior que isso, ele ainda parecia amá-la. Tudo seria muito mais fácil se ele simplesmente estivesse com outra pessoa – como ela, aliás –. Hinata era apenas fraca perto dele, e cederia a qualquer coisa que ele dissesse sem pensar duas vezes. Era fácil tentar mentir – veja, tentar —, mas era óbvio que ainda o amava também, desmedidamente. Justo quando ela pensava ter contornado aquele inferno, ele aparecia, bagunçando as coisas. Grunhiu, afundando a cabeça contra as mãos e escorregando os cotovelos.

— Hinata? Está tudo bem? – aprumou a postura apressadamente, assentindo, sem jeito. Era uma de suas colegas, que a encarava. Ajeitou a franja com os dedos, e a gola da blusa de botões.

— Claro, claro, me desculpe. – murmurou, envergonhada – Precisa de algo? – abriu o computador, que apitou, rodando com preguiça.

— Não, na verdade, eu vim te dispensar. – riu sem graça, e Hinata a fitou, surpresa – A Shizune disse que os estagiários vão ficar até as cinco, então nós duas podemos. Acho que estamos perdendo nosso trabalho. – brincou, recolhendo alguns papéis, e Hinata riu, educada.

— Bom, eu não me importo de trabalhar menos. – retribuiu, cordialmente, se levantando e deslogando do seu e-mail.

Sorriu internamente. Sua sorte definitivamente estava mudando. Voltou para o vestiário, tirando a calça jeans e suspirando aliviada, com as pernas livres de novo. Tirou o camisete, deixando a mostra sua camiseta rasgada, e jogou a jaqueta sobre os braços, com a bolsa. A eficácia dos remédios já estava findando, mas a folga inesperada lhe daria muito tempo para dormir e se preparar – psicologicamente, claro –. Correu estacionamento afora, ignorando olhar para o caminho que levava até os fundos da propriedade, e seguiu até o ponto de ônibus, sem saber qual seria o próximo horário. Enquanto esperava, colocou os óculos escuros, assumindo sua melhor pose não-se-aproxime-idiota. Batia os pés, coçava a cabeça, olhava para os lados. Queria um cigarro. Decidiu que desceria uma quadra antes e iria no mercado. O ônibus, para sua sorte, virou a esquina, e estava vazio. Hinata entrou e pagou com seu passe. Sentou-se no fundo, olhando pela janela, vendo que não eram nem quatro horas.

O caminho era longo e cansativo, passando por quase todos os pontos da cidade, fora o trajeto na rodovia. Hinata encostou a cabeça no vidro, querendo cochilar. Viu pessoas entrarem e saírem, cheias de sacolas, bolsas, crianças, falando ao telefone ou ouvindo música. Gostava de observar, apesar de tudo. Depois de uma eternidade, entraram na cidade, passando pelo pequeno centro comercial e embrenhando-se nos bairros cheios de esquinas e buracos. Hinata desceu perto da mercearia, e não passou do primeiro corredor da lojinha cheia. Pegou um fardo de cerveja, analgésicos e um maço dos cigarros mais baratos. Passou as compras, respondendo educadamente sobre a nota fiscal e saiu. Tudo isso não demorou cinco minutos, muito menos que a caminhada até seu prédio, ladeira acima. Ao menos pode abrir a cartela de cigarros, puxando o primeiro e acendendo com uma mão.

A primeira tragada era sempre a mais recompensadora. De fato, fumava-o inteiro apenas pelo desperdiço de jogar trezentos e vinte ienes no lixo. A nicotina aspirada atingia diretamente seu pulmão, e subia para sua cabeça, tudo isso em menos de dois segundos. Quando a substância finalmente fazia seu milagre, todo o resto desacelerava. Era tranquilizante, e Hinata sabia que poderia ficar sem fumar por quanto tempo precisasse – se não vivesse sob ameaças de constante estresse. Era apenas uma saída mais fácil. Mais fácil que o psicólogo, mais fácil que enfrentar seus problemas.

Deixou uma trilha de cinzas pelo caminho, e quando avistou seu prédio, a bituca estava prestes a queimar seus lábios. Deu uma última tragada, aproveitando a fumaça escura enquanto ela queimava sua garganta e fodia com seus órgãos. Jogou os restos no cinzeiro que ficava na ponta de um canteiro de flores estranhas. Cumprimentou o porteiro com um aceno e esperou pelo próximo elevador, apenas para não ter que dividir com a vizinha fofoqueira do 302. Batucou os pés, estalou o pescoço e olhou em volta, tudo ainda muito escuro por conta dos óculos. Quando o elevador apitou novamente, ela entrou e encostou no batente, a sacola com o fardo de cerveja já pesando. Era sempre uma piada interna quando andava naquele elevador, por conta das portas espelhadas, refletindo sua imagem patética e deplorável. Sempre se lembrava das vezes que descia, manchada de sangue, machucada e maltrapilha. Era realmente cômico.

Puxou suas chaves do bolso de fora, acomodando as sacolas e seu material. Abriu a porta, da mesma maneira que deixara ao sair de manhã. Entrar em seu apartamento era como saltar de um buraco no tempo, caindo em uma linha temporal diferente. Tantas coisas haviam acontecido naquele intervalo de oito horas, mas o sofá continuava com as almofadas tortas e a pia da cozinha ainda tinha a xícara que ela não lavara. Tudo igual, tudo o mesmo, mas ela já era uma pessoa diferente. Como podia viver assim?

Desabou na poltrona, fechando os olhos por alguns instantes enquanto relaxava. Sozinha, era quase simples fingir que estava tudo bem. Não tinha trabalhos da faculdade ainda, e, de maneira geral, o ambiente estava habitavelmente limpo. Era quatro e meia, e Kiba chegaria as seis. Satisfeita, percebeu que poderia cochilar. Ativou o alarme do celular para cinco e quarenta, tempo suficiente para um banho antes da festa. Com um gemido interno, afundou no conforto do móvel, encolhendo-se como costumava fazer. Deixou sua mente esvaziar pouco a pouco, não sabendo se aquela tranquilidade passageira vinha dos analgésicos ou da nicotina.

Surpreendentemente, conseguiu cochilar quase instantaneamente, acordando somente com o barulho irritante do celular. Pareceu que havia apenas piscado, mas seu corpo estava relaxado e estava com um leve torcicolo. Desorientada, Hinata sentou-se, coçando os olhos e grunhindo quando seus dedos voltaram cheios de maquiagem borrada. O ambiente estava menos claro, com cores laranjas vindo da janela semiaberta. Ela quase não acreditou que tinha mesmo conseguido dormir, sem sonhos ou pesadelos. Estava com aquela sensação gostosa de pós-cochilo, e, quando se espreguiçou, ouviu as costas estalarem, e sorriu.

Se levantou, colocando a cerveja, que ainda estava no balcão, na geladeira. Coçou a cabeça, verdadeiramente feliz. Passou pelo espelho no corredor, ignorando seu reflexo, e foi direto para o quarto. Estava todo escuro e com um cheiro suspeito, mas ela também o ignorou, indo para o banheiro. Despiu-se devagar, aproveitando cada sensação de seu próprio toque, e deixou o chuveiro ligado para esquentar. Entrou de cabeça, sem tirar a maquiagem com desmaquilante. A água a atingiu em raios dispersos, criando vapor por todo o cômodo. Hinata suspirou, tomada por duas ótimas sensações. Dessa vez, permitiu que sua mente viajasse para onde quisesse, e, claro que foi tomada pelas imagens de mais cedo. Um sorriso se abriu, e, mesmo com água e sabonete, sabia que aquele gosto não sairia. Era forte demais – irritante demais –. Após tanto tempo, ainda parecia o mesmo. Ela também ficava horas no chuveiro, pensando, quando mais nova.

O cheiro de baunilha de seu condicionador preferido tomou seu nariz enquanto ela ensaboava os fios distraidamente. Era a última etapa, e estava triste por ter que abandonar a água quente, e ter que colocar novamente aquela máscara. Fingir o tempo todo era cansativo, sobretudo para o namorado. Tentaria, com todas as forças, comemorar internamente sua nova conquista, mas duvidava que a noite terminaria bem.

Saiu, se enrolando em duas toalhas, e aproveitou para deixar o cabelo bem solto. Voltou para o quarto e acendeu a luz, sentando na beirada da cama que ficava para frente do guarda-roupa. Não poderia usar uma cropped, e achava que esfriaria de madrugada. Suspirou enquanto observava todas aquelas peças escuras e sem graça. Pegou uma calça jeans qualquer, preta, com rasgos estranhos nos joelhos, mas que combinava com uma camiseta longa de banda que tinha. Se perfumou, e estava calçando as botas quando ouviu a porta abrir. Se apressou e apareceu no corredor, vendo Kiba tirar a bolsa carteiro e desabotoar os primeiros botões da camiseta social. Quando a viu, abriu um sorriso largo, e ela o imitou.

— Oi, gata. Que bom que já está quase pronta. – se aproximou para depositar um beijo. Hinata abraçou seu pescoço, incomodada com a comparação automática que sua mente criou. Expulsou aqueles pensamentos antes que lhe causassem problemas – Eu só vou tomar uma ducha. Separa aquela blusa verde para mim? – se afastou, despretensiosamente, e Hinata assentiu.

— Claro. A de gola escura? – voltou para o guarda-roupa, puxando a camiseta e o ferro de passar. Ele concordou do banheiro, e a Hyuuga passou as partes amassadas.

O clima ainda estava bom, e aquele era um bom sinal. O casal terminou de se aprontar, e Kiba insistiu que Hinata usava o batom vermelho vinho em vez do mais claro. Ela aceitou sem hesitar, para não estragar aquela bolha frágil. Vestiu a camiseta por última, quando já tinha os olhos delineados e as botas amarradas. Pegou a jaqueta de couro de mais cedo e a carteira. Kiba pegou seus capacetes e eles saíram, pouco depois das sete e meia. Era cedo para uma festa, Hinata pensou, mas quanto antes chegassem, mais ele e os amigos encheriam o rabo de cerveja e narcóticos ilegais, deixando-a em paz para dançar.

Toneri morava do lado oposto de Asakusa Valley, perto das novas boates, nos limites da cidade. Era um bairro que poucas pessoas se atreviam a ir, mesmo com as construções elegantes e o movimento constante de carros de luxo. Ninguém podia provar, mas os boatos sempre corriam em um vilarejo tão pequeno – aquela era a área do tráfico. Exportação, revenda, lavagem de dinheiro, tudo que tinha direito. As boates eram famosas entre os jovens, mas apenas se você quer se divertir de um jeito diferente. As mansões eram construídas para encobrir os altos valores na folha do imposto de renda, justificando os três carros de marca na garagem e uma piscina aquecida. Hinata já tinha estado naquele lado algumas vezes – Kiba era um amigo íntimo de Toneri e toda seu círculo amigável.

A festa particular não seria nas boates, e sim na casa do próprio Toneri. Entraram pelo portão de ferro e seguiram devagar pela ruela que dava na entrada principal. Kiba estacionou na frente e Hinata tirou o capacete, arrumando o cabelo e as roupas. Deixaram no porta-malas da moto e subiram juntos, a Hyuuga não deixando de se surpreender com a riqueza de detalhes do hall, exibindo obras de arte que não pareciam falsificadas – ela identificou uma ou outra, punindo-se em seguida.

— Kiba! – o garoto de cabelos precocemente brancos o cumprimentou, já parecendo alterado – E Hinatinha, que surpresa. – ela sorriu amarelo – Fiquem à vontade, meus queridos. Já são de casa. – e saiu para recepcionar outros.

Hinata não se sentia nada a vontade naquele lugar. A música ainda estava baixa, mas tinha um número considerável de pessoas, com copos e cigarros, transformando a atmosfera em uma bolha de fumaça. Muitos homens da idade de Kiba e garotas de vestidos tubinhos, e aquele era só o primeiro cômodo. Estava parcialmente claro do sol, mas luzes vermelhas e verdes piscavam para todos os lados. A Hyuuga se adaptou ao ambiente, distinguindo as formas nos sofás e tomando cuidado para não tocar em nada suspeito. Tinha os dedos firmemente atados aos do namorado, que a arrastou para o bar improvisado, pegando dois copos de uma mistura estranha.

— O que é isso? – perguntou, divertida, cheirando. Fez uma careta. Tinha cheiro de gasolina e óleo para motor. Kiba sequer piscou quando entornou um gole generoso.

— Bebe, amor, vai te fazer relaxar rapidinho. – respondeu, com as sobrancelhas franzidas, e Hinata obedeceu, bebendo sem respirar.

Desceu queimando sua garganta, e lutou para não colocar para fora no primeiro segundo. Quase que instantaneamente, sua cabeça zonzeou em um baque, e ela se segurou no braço de Kiba. Não soube dizer se foi ele quem riu, ou outra pessoa ao redor deles. Não era de todo ruim, mas, depois de terminar o primeiro copo, já estava seriamente perturbada. Sua noção de tempo ficou distorcida, e ela não soube dizer quantas horas demorou até que o sol estivesse se posto totalmente. Haviam chegado tão cedo, mas o primeiro andar já estava lotado. A música aumentou, uma batida envolvente de um remix famoso.

As paredes se tornaram menores, e as piadas de Kiba ficaram mais engraçadas – ela não sabia porque queria rir tanto. De repente, estava se sentindo mais leve, mais solta, e dançava sozinha, sentada. Um grupo de amigos chegaram, os levando para o segundo andar, mais luxuoso que o primeiro, com estofados de couro e mesas de madeira cara. Hinata tropeçava nos próprios pés, envolta por uma nova realidade. Se certificava de ter Kiba em seu encalço, e ele ria gostosamente. Sentaram-se em bancos de costas para a pista, já cheia de gente, e Hinata tentou distinguir o que eles distribuíam na mesa. Tinha notas de dinheiro e sacos brancos. Parte de seu consciente sabia o que viria a seguir, e ela queria resistir, contudo, seu corpo não obedecia seus comandos já nada racionais. Bebeu aquela mistura ardente, e cerveja, e shots de vodka com limão. Seu estômago já revirava, mas ela queria mais. Kiba desprendeu o braço de seu ombro para arrumar carreiras de pó sobre a mesa, enrolando uma nota de dinheiro. Hinata queria sair dali.

— Aqui, gata. – sussurrou no pé de seu ouvido, causando-lhe arrepios, e ela riu, balançando a cabeça – Isso vai te dar a melhor viagem da sua vida.

Hinata queria lhe dizer que a melhor viagem que já tivera foi quando visitou a praia com seus pais, mas ele já estava empurrando um canudo de dinheiro para seus dedos frouxos, e curvando suas costas para mais perto da mesa. Olhares desconhecidos a encaravam, riam, incentivavam, como velhos conhecidos. Perdida, ela ajeitou, como Kiba tinha lhe ensinado, e aspirou o mais fundo que conseguia.

O resto da noite passou como turbilhões e redemoinhos, e ela sequer sabia o próprio nome. Estava escuro, e confuso, e nojento, mas ela ria, e ria, e ria mais. Ficou sentada, tentou levantar, e caiu de novo. A música ecoava em seu ouvido, e ela não teria memórias daquilo depois, mas Kiba estava certo – estava viajando para um lugar melhor, mais colorido, e, por algum motivo, gostou de perseguir dois pares de olhos azuis muito vívidos que a encaravam em suas alucinações.

Notas finais
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