Heroína

29 A morte do universo e de todas suas estrelas – o que resta é a escuridão


Notas iniciais
Eu demorei um pouco mais do que pretendia pra terminar esse, mas reescrevi algumas coisas que não senti que estavam ficando boas. Finalmente achei bom o suficiente pra postar ♥ Pra todos que me cobram no twitter e nas mensagens: obrigada e CONTINUEM EU SÓ CRIO JEITO NA BASE DA PRESSÃO A todos que acompanham, comentam, favoritam e leem: nada disso teria sentido sem vocês Prepara coração que agora é só LADEIRA ABAIXO Pretendo acabar com 35 capítulos, nem consigo acreditar ♥

Essas feridas não vão cicatrizar

Essa dor é muito real

Há muita coisa que o tempo não pode apagar

— My Immortal, Evanescence

—Capítulo XXIX–

A morte do universo e de todas suas estrelas – o que resta é a escuridão

Uma corrida contra o tempo foi iniciada no momento em que Naruto passou pelo arco de entrada de Komu, na segunda rodovia de acesso. Embora Konoha estivesse mais próxima, ambos concordaram que o estado de Hinata demandava cuidados mais especializados e urgentes, que só poderiam ser oferecidos em uma das clínicas da cidade maior.

O Uzumaki estacionou o carro em duas vagas, na transversal, sem se importar em arrumá-lo com três ou quatro manobras inúteis; contudo, parou com cuidado antes das barras de concreto acopladas ao chão, para que o menor movimento fosse realizado. Desligou e saiu, batendo a porta como se nada mais importasse. Deu a volta, abrindo a porta traseira e inclinando-se para pegar o corpo inerte de Hinata em seus braços.

Com somente a luz da entrada do hospital iluminando o estacionamento, Naruto não pôde deixar de ofegar silenciosamente quando seus olhos esquadrinharam o rosto da garota uma nova vez. Parecia pior, de algum jeito. Sem as amarras, seus pulsos estavam arroxeados, com alguns cortes e sangue seco. Seus olhos sequer poderiam ser abertos, e havia manchas avermelhadas por toda a extensão de suas roupas.

Shion tremia um pouco quando ajudou ele a equilibrar o peso. Seu rosto estava vermelho, com lágrimas ainda escorrendo. Naruto sequer imaginava como ela tinha se sentido durante o curto trajeto, segurando o corpo imóvel, rezando para que, por um milagre, Hinata sobrevivesse. Ela tinha que sobreviver.

Naruto segurou suas pernas e seu torso com delicadeza, procurando não tremer muito. Correu direto para a porta da emergência, que abriram e apitaram. No período da noite, o hospital não atendia muitos casos, especialmente naquela época do ano. Duas recepcionistas e uma enfermeira assistiam ao telejornal quando o silêncio foi quebrado pela voz falha e desesperada do homem:

— SOCORRO! ALGUÉM ME AJUDA, SOCORRO!

Imediatamente, dois profissionais e a enfermeira se viraram, e, ao colocarem os olhos em Hinata, correram para tomar as devidas providências. Em menos de um minuto, uma maca havia sido providenciada, enquanto os enfermeiros maiores seguravam seu corpo como se fosse nada. Naruto não tinha percebido que seus braços estavam dormentes até que Hinata estava fora deles – sentiu-se vazio. Cansado, suas pernas fraquejaram, e sua garganta se fechou.

Diversas mãos começaram a explorar o corpo dela, puxando a camiseta, colocando aparelhos contra trauma e estudando qualquer coisa que fosse. Naruto não saiu correndo quando ela foi levada para além das portas automáticas, para o centro cirúrgico, conforme indicava a placa; sabia que teria de responder uma série de perguntas, e sentia-se tão fraco e indefeso que sequer seria capaz de segui-la. Queria gritar, mas não encontrou sua voz.

Shion chegou logo em seguida, abraçando o próprio corpo. Suas pernas tinham algumas manchas escuras, mas ninguém se incomodou. Naruto a segurou pelos ombros, como se precisassem do peso um do outro para continuarem de pé.

Procuraram por cadeiras para se sentarem, mas, antes que pudessem, uma enfermeira voltou das portas automáticas, com o semblante sério, uma prancheta nas mãos e passos apressados.

— Com licença, vocês estão acompanhando ela? Podem me responder algumas perguntas? – seu rosto não parecia dizer que ela queria saber só o tipo sanguíneo ou o sobrenome.

— Sim, sim, nós... – Naruto respirou fundo, fechando as mãos em punhos – Sim, estamos com ela. Ela se chama Hinata Hyuuga, eu posso explicar tudo.

Pela próxima hora, Naruto fez um relato completo sobre a história. Engasgou em alguns momentos, e Shion o auxiliou nas colunas que lhe faltaram à memória. A enfermeira anotava furiosamente na prancheta, evitando demonstrar reações, embora seu rosto tenha endurecido quando Naruto lhe disse sobre o desaparecimento e o exame de sangue para confirmar o tempo de gravidez. Quando terminaram, o garoto sentia-se ainda mais exausto, se possível, e Shion enxugava o canto do olho, respirando fundo.

A enfermeira agradeceu todas as informações e caminhou até o balcão, pegando o telefone quase imediatamente. Ela informou que chamaria a polícia e as autoridades competentes para recolher depoimentos. Naruto deixou-se cair em uma das cadeiras, esfregando os olhos e abaixando os ombros. Teria que contar cada um dos piores detalhes de novo, e de novo, e de novo.

Por um lado, ficava aliviado que aquele filho da puta não sairia impune, e cada policial competente estaria atrás dele em um raio de cem quilômetros, nem que tivesse que pagar para isso; por outro, só queria que Hinata ficasse bem, e não ter que reviver aquele pesadelo mais uma vez.

— Como você está? – Naruto perguntou quando Shion sentou-se ao seu lado. Suas roupas estavam sujas e amassadas, não melhores que seu rosto cansado.

— Não pior que ela. – tentou lhe dar um riso, mas sua boca estava endurecida, e nenhuma expressão atravessou os olhos entristecidos – Se eu visse Kiba, seria capaz de matá-lo eu mesma. – murmurou. Naruto assentiu, segurando sua mão com solidariedade.

— Ele vai pagar. – depositou toda sua força em cada uma daquelas palavras – Obrigado, Shion. Não teria conseguido sem você.

— Eu quem tenho que te agradecer, Naruto. – o encarou com os olhos acinzentados – Você não estava com ela desde o começo, mas eu estava, e eu consigo dizer o quanto ela mudou. Me matava por dentro ver Hinata sem vida, com aquele desgraçado, mas, quando você voltou, ela ganhou vida. Eu nunca a vi tão feliz quanto nas últimas semanas, e tudo por você. – Naruto engoliu em seco, lutando para não chorar – Hinata estava perdida, e você a salvou.

— Não. – discordou, cansado, mas conseguindo entortar a boca em um sorriso cálido – Ela mesma se salvou. Hinata é forte. Eu fico feliz de ter conseguido ajudar, ao menos um pouco, mas é tudo mérito dela. – sua voz morreu no final da frase, e, com uma careta, algumas lágrimas quentes brotaram sem sua permissão – Shion, se alguma coisa acontecer...

A loira o puxou rapidamente pelo pescoço, abraçando-o e escondendo o rosto em seu ombro, quando Naruto finalmente permitiu-se desabar todo o peso que vinha carregando nas últimas vinte e quatro horas. Chorou copiosamente, com soluços abafados pelo tecido, enquanto Shion acariciava suas costas e murmurava palavras de consolo.

O garoto nunca teve problemas em demonstrar seus sentimentos, e tinha orgulho de ser uma pessoa sensível. Chorar não era vergonha para ele; contudo, também queria parecer forte. Forte por Shion, que ele imaginava estar tão mal, ou pior, do que ele. Forte por Hinata, em algum lugar daquele hospital emergencial, e ele sequer sabia o que estava acontecendo. Em suas memórias, a cena em que a encontrou, desacordada, amarrada, repetia-se como um filme de terror. O cheiro de sangue e urina impermeou seu nariz, e não parecia querer sair, mesmo com o aroma esterilizado e, sobretudo, seguro, de onde estavam.

Toda a dor que Hinata teria sentido – aquilo o estava corroendo, matando, agonizando. Se pudesse, Naruto teria trocado de lugar com ela. Teria aguentado tudo, apenas para que não precisasse sofrer. Já tinha aguentado tantas coisas, e, de alguma maneira, tinha permanecido com sua essência bondosa, gentil. Hinata era luz, embora a vida estivesse, constantemente, tentando cobri-la com sombras de morte e desespero.

Naruto se acalmou aos poucos, fungando e soluçando. Não saberia dizer quanto tempo tinha se passado, a medida que a madrugada mergulhava sobre eles. O corpo cansado não pedia sono ou comida, de modo que não saberia como melhor o esgotamento que sentia; demorou a entender que sua mente era que estava esgotada, e tampouco descansaria.

O barulho da porta automática se abrindo fez com que ambos olhassem para cima com rapidez, estralando o pescoço. Um médico, em roupas de plantão, saiu retirando as luvas e a máscara, o semblante sério. Se levantaram, indo até ele, em busca de informações.

— Com licença! – Naruto chamou quando ele se inclinou para o balcão. O médico se virou – Com licença, nós estamos acompanhando Hinata Hyuuga, que entrou na emergência. Pode nos dar alguma informação. – sua angústia refletiu em sua voz forçadamente polida. O médico baixou as sobrancelhas quando ele se identificou.

— Pobre garota. – coçou os olhos, resultado de um plantão complicado – Podem me dizer o que houve com ela? – pediu, e Naruto entreolhou Shion, ambos ligeiramente confusos. Provavelmente o médico não sabia da história.

— Ela é minha namorada, e o ex não aceitou o término. Nós somos de Konoha, e ontem ela desapareceu depois de vir aqui na cidade buscar um teste de gravidez. – sua garganta se apertou, e, de repente, não conseguiu terminar. Shion assumiu seu lugar.

— Ele se chama Kiba Inuzuka, e foi ele quem fez aquilo. – sua voz estava séria e determinada – Nós já conversamos com a enfermeira, e estamos esperando notícias para tomar as devidas providências.

— A senhorita Hyuuga perdeu uma quantidade significativa de sangue, e precisamos fazer uma transfusão de emergência. – informou, com tom profissional – Eu não sei o que aconteceu, mas aquela garota foi torturada. – Naruto fechou os olhos por alguns segundos, e pareceu como a eternidade. A voz do médico continuou ressoando em seus ouvidos, mas não claramente; como se estivesse submerso, e as palavras cruzassem a água até ele – Ela teve cinco costelas quebradas, fraturas na coluna, hematomas nos rins, fígado e duas hemorragias internas. Há fraturas na cabeça, seu maxilar foi deslocado e suspeitamos de outras rupturas em seu torso, estamos terminando os exames e cuidando de seus machucados.

Naruto sentiu a mão de Shion apertar a sua, um pouco mais forte. A descrição, surpreendentemente detalhada, fez com que sua mente reproduzisse a cena repetidamente, com maior nitidez e compreensão. O garoto era capaz de visualizar cada um dos machucados, enquanto corria até uma Hinata desacordada.

Em que momento ela teria desmaiado? Antes ou demais dos socos, dos chutes, das agressões? Teria sofrido tamanha dor que, em algum momento, simplesmente desistiu de lutar? Teria esperado, amarrada, amordaçada, pela morte?

Naruto sequer conseguia sentir raiva, ódio; apenas um enjoo forte.

— Nós fizemos tudo que estava ao nosso alcance para estabilizar a situação da senhorita Hyuuga, e ela está desacordada, na UTI. – ambos soltaram um suspiro aliviado, porque, apesar de tudo, ela estava viva – Vamos continuar com os exames e procurar por consequências mais graves que possam dificultar sua recuperação, mas não saberemos a extensão de todas as fraturas até ela recuperar o sangue e sair da entubação. – explicou, de forma técnica e prática. Houve uma pausa, e Naruto estava pronto para agradecer pela prontidão e pelas informações, mas o médico voltou a falar. Havia algo de diferente em seu tom, e na maneira que ele fitava o rosto do Uzumaki, quando voltou a abrir os olhos – Os primeiros exames toxicológicos indicaram a presença de uma substância desconhecida, mas altamente reagente. Estamos trabalhando para identificar a origem e se foi a responsável, ou se foi a série de agressões que a senhorita Hyuuga parece ter sofrido. – responsável? — Sinto muito, mas ela perdeu o bebê.

Em determinados momentos, algumas pessoas pareciam ser capazes de experienciar uma desaceleração da gravidade; do mundo ao redor. Não do modo que filmes procuravam retratar, não. Era diferente. Inexplicável. Como se não fosse câmera lenta, mas uma percepção real, acelerada, enquanto todos os outros funcionam em lentidão. Como se a mente, tão complexa, pudesse acelerar e processar uma quantidade inexorável de coisas ao mesmo tempo.

Quando os joelhos de Naruto cederam e ele caiu, algo semelhante aconteceu. Ele conseguiu perceber o arfar de Shion, como um grito sufocado, e ela se virando em direção a ele. Viu duas enfermeiras correrem em sua direção, quando seu corpo perdeu a força. Viu o médico inclinar-se, com os braços estendidos, para tentar segurá-lo. Naruto viu, e sua mente entendeu a situação ao seu redor. Contudo, incapaz de reagir, seus joelhos chocaram-se contra o chão, e, naquele momento, todo seu coração morreu.

As palavras, cruéis e frias, representavam um sentimento profundo e inexorável, que, subitamente, pareceu se fixar em seu peito, como ferro quente. De repente, o mundo saiu dos eixos, e, de certa forma, jamais tornaria a se alinhar.

Naruto pranteou a morte de um filho que não conhecia. Uma criança que não chegaria a ver crescer, um bebê que não seguraria em seus braços desleixados, ciciaria para dormir, acariciaria as bochechas rosadas.

Era um filho que sequer existia. Um feto, quantos meses teria de vida – pouco menos de três. Teria sentidos? Um coração pulsante? Pequenas mãos formadas? Qual tamanho teria? Naruto sequer teria uma imagem de ultrassom para guardar em sua carteira. Um pequeno amontoado de células, que ele passou a amar, indubitável, com todo seu ser.

E Hinata? Por Deus, Hinata. A mulher da sua vida; a mulher que ele amava, que carregou seu filho. E pensar que, poucas horas antes, ela estava com os exames que comprovavam sua paternidade. E então, o destino agiu – não, o destino não. Apenas um filho da puta assassino. Nem todos os xingamentos criados pelos homens seriam capazes de expressar o ódio que amargava sua língua.

Milhões de pensamentos passaram por sua mente em um raio de milissegundo. Todos seus sentidos, ativos e alertas, captaram, quadro a quadro, uma série de acontecimentos. No entanto, o desolamento enroscado em sua garganta libertou-se na forma de gritos, que não foi capaz de escutar; e nada mais importou.

Shion abraçou Naruto com um choro contido, fazendo com que sua cabeça fosse sufocada contra os ombros. Não foi o suficiente para abafar a agonia lancinante que transpassava todo seu corpo, fazendo-o tremer. As lágrimas, grossas, quentes, molharam o tecido, e, quanto mais escorriam, livremente, mais dor se instalava dentro de seu peito.

Anestesiado, Naruto não ouviu a pequena troca de frases entre Shion e o médico, garantindo que não precisavam de ajuda. Deixou que o garoto chorasse, tentando sustentar o peso de ambos, embora estivesse quebrada por dentro.

O Uzumaki não soube dizer quanto tempo havia se passado quanto começou a acalmar os soluços que faziam suas costas tremerem. Tentou respirar fundo, mas, a cada inspiração, era como se o ar não chegasse em seus pulmões. O oxigênio queimava, rarefeito, e começou a ofegar. Seus membros estavam doloridos, e seu peito doía, esmagado, como um ataque cardíaco eminente. Queria encolher-se, perder os sentidos. Estava com medo, estava em agonia; estava morto.

— Naruto, Naruto... – Shion sussurrou em seu ouvido, a voz grossa e falha, tentando fazer com que se acalmasse. O garoto puniu-se por não ter se importado com os sentimentos dela, naquele momento. Obrigou-se a se recompor, fungando e aspirando o ar pela boca entreaberta – Naruto, eu sinto muito. Eu sinto muito, muito mesmo. – o apertou mais forte. Pela primeira vez desde que cedeu, Naruto reagiu; a abraçou de volta.

Juntos, foram capazes de reaver os pequenos pedaços da ruína em que estavam. Ergueram-se, e Naruto se apoiou sobre o corpo de Shion, esfregando os olhos e respirando fundo. Seu peito ainda se apertava, tão dolorosamente quanto se fosse física a dor.

O saguão da emergência estava tão vazio quanto se lembrava, com a única exceção que o médico já não estava mais ali. Shion ajudou Naruto a se sentar, acariciando seu rosto de maneira carinhosa e suportiva.

Uma enfermeira se aproximou, compadecida. Foi gentil o suficiente para não comentar nada sobre o episódio, trazendo dois copos de água e uma caixa de lenços. Naruto aceitou ambos com uma gratidão silenciosa.

— O Dr. Kim está responsável pela cirurgia da senhorita Hyuuga, e pediu para avisá-los que, assim que possível, volta a trazer informações.

— Muito obrigada pela atenção. – Shion respondeu por ambos.

— E nós já alertamos a polícia e repassamos o depoimento de vocês. Eles já deram início a uma investigação e irão notificar os pais de Kiba Inuzuka, que está sendo procurado para prestar testemunho.

Assentiram, e a enfermeira se afastou. Naruto suspirou, a cabeça pesada. Apoiou o queixo contra as mãos, fechando os olhos e tentando reorganizar os pensamentos. Sentia tanta dor que parecia não conseguir continuar. Além disso, a preocupação com Hinata parecia consumir o que restava de seu autocontrole. Não imaginava como um órgão podia ser tão forte, mas seu coração, certamente, aguentava mais do que jamais pensou ser possível.

Mediante uma perspectiva passiva, e desanimadora, Naruto decidiu que era melhor poupar energia, e tentar ser forte, para quando Hinata acordasse – e ela ia acordar –. Agora, mais do que nunca, estaria do seu lado.

Resistiu ao impulso de cochilar, evitando pesadelos e os pensamentos sombrios que tumultuavam sua mente, Naruto permaneceu acordado, os olhos vidrados, evitando reprisar as cenas que insistiam em retornar. Em vez disso, assistiu ao jornal da madrugada. Cuidou do plano de saúde, onde fez questão de arcar com todas as despesas e da burocracia referente à Hinata. Acomodou Shion sob seu colo, para que ela descansasse, exausta como estava.

Enquanto desviava determinadas ideias, concentrou-se na loira. Seu coração, despedaçado, sangrando, foi capaz de se aquecer, ao menos um pouco, percebendo que mulher incrível estava ao seu lado; forte como ele jamais seria. Suportou tantas coisas em sua vida, e, mesmo assim, permaneceu com o espírito livre, determinado, justo. Estava sofrendo, tanto quanto ele, mas foi capaz de secar suas lágrimas.

Foi assim que Naruto assistiu o dia nascer, através das vidraças transparentes da sala de espera, onde as paredes de cores pastéis se fechavam ao seu redor, caso permanecesse com o olhar voltado para um único ponto por mais de trinta segundos. Quando as luzes começaram a entrar, o saguão se tornou um pouco mais movimentado.

Para uma cidade movimentada como Komu, as ocorrências da noite eram poucas. Um homem deu entrada com fortes dores no apêndice, e foi internado, desaparecendo por trás das portas automáticas que levaram Hinata há pouco mais de seis horas.

Um novo dia nasceu, e o passado parecia distante; mas Hinata ainda estava internada, e ainda tinha perdido seu bebê. Nada do mundo seria capaz de mudar o que havia acontecido, e compreender que aquela verdade era, de fato, imutável, doía mais que tudo.

Os funcionários do turno da manhã já tinham chego, e Shion despertara de seu cochilo, o rosto amassado e a feição desolada, quando o médico responsável por Hinata, dr. Kim, passou novamente pela porta. Desta vez, sem jaleco, com touca e uma prancheta em mãos.

Naruto saltou da cadeira, energético, e caminhou até o médico, esperando por novidades.

— Gostariam de chegar os pais da senhorita Hyuuga, ou algum outro familiar? – perguntou. Naruto trocou um olhar significativo com Shion.

— Isso não seria possível no momento, somos só... somos só nós. – engoliu em seco, pigarreando para buscar firmeza na voz.

— Tudo bem. Ao todo, realizamos três cirurgias na senhorita Hyuuga antes de conseguir estabilizar sua situação, e todas foram bem-sucedidas. – uma onda de alívio transpassou Naruto, e ele sentiu que poderia ceder o peso de suas pernas novamente – Diminuímos a dosagem dos sedativos gradativamente, e ela acordou sem piores sequelas.

— Espera, o que? – Naruto interrompeu, eufórico – Ela acordou? Hinata acordou? Podemos vê-la? – as perguntas saltaram de sua boca antes que pudesse impedi-las.

— Na verdade, era sobre isso que eu gostaria de conversar. – o tom ainda mais sério fez com que quaisquer resquícios de esperança desaparecessem por completo de seu corpo e mente – A senhorita Hyuuga preocupou a equipe médica. – as palavras tornaram-se mais afiadas, confusas e polidas, a medida que Naruto afundava novamente no oceano escuro que perturbava sua percepção— Mesmo depois de recuperar plenamente todos os sentidos, a senhorita Hyuuga se recusou a falar conosco, sequer para analisarmos seu caso clínico com mais profundidade, ou para confirmar os depoimentos. – Shion tateou, cegamente, em busca da mão de Naruto, e a agarrou com uma força desesperadora – Durante os exames, constatamos que alguns dos ferimentos da paciente não provinham da agressão recentemente sofrida, mas fraturas antigas e mal recuperadas, como nas costelas e na mandíbula. – Naruto respirou profundamente pelos dentes cerrados, assoviando involuntariamente – Acredito que estejam cientes da situação de violência da senhorita Hyuuga. – seu olhar sério indicava uma espécie de compreensão pouco solidária – Somado à situação psicológica de retração, acreditamos que ela esteja sofrendo de um sério quadro de depressão e estresse pós-traumático.

Não era como se realmente não estivessem esperando; ainda assim, o golpe foi certeiro.

— Os recentes acontecimentos com a senhorita Hyuuga parecem somar uma série de traumas que, dizendo de modo direto e simplificado, estão apresentando todas as consequências de uma só vez. Precisaríamos de uma análise mais profunda para um diagnóstico preciso, contudo, a paciente se recusou ao tratamento, e sua condição nos preocupou. Eu sugeri, então, que ela procurasse um centro especializado, e ela aceitou. Assinou a transferência, e nós determinados que estava em plenas faculdades mentais, e, por ser maior de idade, a requisição era válida. Será transferida ainda hoje, e foi bastante clara quando negou visitas.

O grande volume de informações criou ruídos na mente de Naruto.

— Perdão?

Ponderou ter interpretado errado.

— Centro de tratamento especializado?

Série de traumas.

— Como assim transferida hoje? Sem visitas?

Depressão.

— Aqui está o formulário. – estendeu a prancheta que tinha trazido consigo.

Recentes acontecimentos.

— Hospital psiquiátrico? Hinata assinou mesmo?

Ela perdeu o bebê.

— Era a melhor opção para o quadro clínico dela. A senhorita Hyuuga será capaz de se recuperar física e psicologicamente, e vocês poderão visitá-la depois de algumas semanas. Acreditamos que será o melhor a ser feito.

Naruto sentiu-se imergir por completo no oceano de sentimentos que invadiram seu peito, arruinado, destruído. Por um momento, a angústia pareceu tomá-lo por completo, interminavelmente. E, no próximo segundo, permaneceu.