Notas iniciais
Olha, acho que nunca fiz uma fic que me desse tanta dor de cabeça, mas consegui terminá-la a tempo. Não vou me estender muito aqui, pois me falta pouco tempo. Essa história foi desenvolvida para o projeto @flopinhos, espero que vocês gostem!

Uma bela vista para o centro da cidade era tudo o que Huang Zi Tao precisava naquela manhã enquanto lavava a louça acumulada da noite anterior. Os orbes escuros que carregavam um passado nostálgico e perigoso gostavam da admirar o concreto cinzento dos prédios aos poucos sendo iluminados gradativamente pelos atenuantes raios solares, manchando a monotonia cinzenta da metrópole com o amarelo calmo e abrasador da manhã. Era tão relaxante observar a pequeneza dos carros naquela distância — e as pessoas ainda menores — que o frio da água escorrendo pelas mãos nem chegava a incomodá-lo. Mas, realmente, com o passado que teve, dificilmente encontrava algo que o aporrinhava a ponto de ceder ao uso de suas habilidades extra-humanas. Sua mente vagou para alguns anos atrás antes mesmo de conhecer seu ex-marido, Zhang Yi Xing.

Como todos ao seu redor, o chinês tinha segredos sombrios e um passado do qual não se orgulhava, embora tenha se redimido após passar alguns anos no papel de herói da cidade. Seus vizinhos, obviamente, não sabiam nem desconfiavam que o pai solteiro que morava ao lado com o rosto aquilino, olhos amendoados e pálpebras margeadas pela coloração preta era o famoso Transmuto, um dos mais famosos super-heróis que Seul já conheceu. Sua incrível capacidade de rearranjar suas células de modo que pudesse assumir a forma de qualquer coisa que quisesse, o ajudou muito durante a sua jornada para a ascensão, tornando-se um dos super-heróis mais queridos do mundo. E em seu melhor período, acabou conhecendo seu principal parceiro de equipe e que, no presente, tornou-se o pai de sua filha.

Zi deixou que um sorriso crescesse em seu rosto, enquanto colocava os pratos no escorredor e ergueu uma de suas mãos rente ao rosto. Aos poucos, a pele começou a se remexer suavemente como pequenas ondulações em um corpo de água, assumindo uma coloração esverdeada e escamosa, as unhas tornando-se pretas e crescendo em garras afiadas e monstruosas. Tal demonstração fez crescer em seu peito uma sensação que há muito tempo não tinha o prazer de sentir, a excitação por uma boa briga e a vontade de usar seus poderes para algo relevante. Havia uma parte dele que cogitava voltar a sua antiga profissão e jogar no lixo o desejo de uma vida normal, mas existia outra parte com ideais tão fortes e uma convicção tão poderosa que era capaz de silenciar qualquer pensamento que surgisse para desviá-lo de seu caminho. Zi Tao não podia se dar ao luxo de fraquejar e voltar atrás naquele momento; não quando a segurança de sua filha dependia dele.

Com um suspiro, o aspecto reptiliano acabou se perdendo retornando a tez pálida pertencente ao ex-herói.

— Papai?

O som sonolento daquela vozinha infantil invadiu seus ouvidos e toda aquela saudade que sentia de seu passado heróico foi sendo empurrada cada vez para o fundo até que não restasse vestígio de sua existência. Zi maneou a cabeça suavemente em direção ao chão, onde uma pequena garotinha de cabelos escuros e bagunçados com os olhinhos quase fechados, segurava a barra da calça de seu pijama, puxando-o tão vagarosamente que mal podia sentir. Seu sorriso alargou-se ainda mais e secou as mãos em um pano para depois pegar a filha no colo.

— O que faz acordada tão cedo? — Tao encaminhou-se para a sala de estar, sentando-se no sofá com Jin Mi que se aninhou sobre o peito do chinês e repousou a cabeça em seus ombros, relaxando o corpinho ainda cansado como se fosse dormir novamente a qualquer instante.

— O Sr. Urso disse que o papai Xing vai vir hoje — disse ela.

Zi soltou um riso anasalado. Desde que havia ganhado o ursinho roxo no dia de sua adoção, jamais se desgrudou dele e não foram incomuns às vezes em que seus pais viram e ouviram ela conversando animadamente com ele pelos cantos da casa.

— E você quer estar acordada para quando ele chegar, não é? — supôs o pai.

Ela não respondeu com palavras. Sonolenta, apenas maneou a cabeça afirmativamente para a conjectura apresentada por seu pai. Aninhando a filhinha nos braços, olhou para o relógio eletrônico ao lado da televisão. “Ele está atrasado!”, pensou Zi.

Não era surpreendente que Zhang Yi Xing se atrasasse nas visitas planejadas que fazia a Jin Mi nos dias de semana. Quando resolveram se divorciar dada a agenda ocupada de Zhang e a decisão de Huang em ter abandonado a vida de heroísmos, combinaram que seria mais seguro que sua filha ficasse com aquele que teria mais tempo para ela e foi a relutância de Propulsão em abandonar uma existência de perigos iminentes que resultou na separação daquela família, embora ambos os rapazes se esforçassem ao máximo para que sua filha não fosse afetada. Zi ainda mantinha um retrato da família toda reunida próximo a TV, escondida entre as flores artificiais que compunham a decoração.

— Está preocupado com o papai?

Tao não tinha percebido que Mi ainda estava acordada, pois ela costumava pegar no sono tão fácil quanto uma pena é soprada pelo vento. Ele encarou seus olhos interessados por trás das longas madeixas pretas e sorriu — era a sua forma de dizer para ela que não deveria se preocupar com nada.

— Sim — respondeu com sinceridade —, estou preocupado com o papai.

— Não precisa se preocupar com ele. — Jin Mi desvencilhou-se dos braços adultos que a envolviam e subiu no sofá, abrindo os próprios braços e jogando-os para o céu. — Os bandidos têm que se preocupar, pois os meus pais são os maiores heróis do mundo.

Um ataque de risos acometeu Zi ao escutar as palavras de sua filha e uma guerra de cócegas havia tomado conta da sala nos minutos que se seguiram — uma batalha com um vencedor, pois os dedos do maior eram mais rápidos e a criança já estava rendida entre os risos e a tentativa inútil de afastar o pai.

— Pa-pai... par-pare... — pediu a garotinha com lágrimas nos olhos e um sorriso de divertimento estampado no rosto. Tentando recuperar o fôlego, ela se jogou nos ombros de Tao e deu-lhe um beijo demorado no rosto. — Estou com fome.

— Vamos preparar algo para comer então. O que vai querer?

— Hum. — Ela colocou um dedo no queixo, pensativa. — Um sanduíche com geleia de morango e um copão bem grandão de leite com chocolate.

— Beleza, meu monstrinho, um sanduíche e um copão bem grandão de leite saindo.

Jin Mi se segurou firmemente no pescoço do pai e partiram para a cozinha.

O herói ficou observando a filha durante o tempo em que passaram juntos naquela manhã, admirando-se cada vez mais com o bem mais valioso que tinha em sua vida. Momentos como aquele antes de ter que levá-la para a escolinha ou antes de ter que pensar em passar todo o fim de semana sem ela para permitir que Yi Xing criasse uma certa proximidade era difícil, pois compreendia muito bem como o mundo poderia ser cruel, especialmente para uma criança indefesa e sem poderes. Entendia o porquê de seu marido ter optado por seguir aquele caminho, mas ainda assim, lhe doía no fundo da alma como pregos sendo pressionados contra a carne que ele tivesse tão pouco tempo para a própria filha.

O som estridente do telefone tocando acordou-o de seus devaneios e atendeu.

— Zi, sou eu!

— Onde você está? — perguntou o chinês sussurrando ao aparelho para que a filha não ouvisse. — Tem ideia de que horas são? Já era para você estar aqui.

— Sim, eu sinto muito por isso, mas-

— Não importa, que horas você chega? — Tao interrompeu o ex-marido, rispidamente.

Nada pôde ser ouvido do outro lado da linha, exceto pela respiração desregulada do outro. Cansado, Zi sentiu uma pontada surgir nas têmporas, sabendo que aquele seria um dia terrivelmente estressante.

— Você não vem, não é?

— Eu queria ir, mas surgiu uma missão de última hora.

— É claro — cuspiu Zi completamente descontente e irritado. Não era a primeira vez que algo assim acontecia, embora não pudesse dizer que havia um padrão, pois eram raros os momentos. Contudo, era a terceira vez em um curto espaço de dois meses. — O que mais poderia ser?

— Me desculpe, de verdade.

— Que se dane, Yi Xing. — E desligou abruptamente.

Com um nó preso na garganta, Zi Tao encostou as costas na parede buscando apoio enquanto seu sangue fervia de raiva em suas veias. As conversas passadas com o ex-marido voltaram a sua mente como balas e fizeram seu coração pulsar como dezenas de dinamites. Ele se curvou e apoiou as mãos sobre os joelhos, cerrando-as sobre o tecido da calça, enquanto tentava se acalmar. Quando ergueu a cabeça, deu de cara com os olhos brilhantes de Jin Mi com uma curiosidade preocupante. Huang pôde ver naquela imensidão acastanhada que ela entendia o que estava acontecendo — tinha passado por isso algumas vezes no mês passado — e a raiva que o chinês sentia automaticamente se transformou em decepção.

— Ele não vem de novo — disse ela.

Era possível enxergar o esforço que ela fazia para não chorar. Jin Mi era uma menina forte para os seus quatro anos de idade, mas ainda assim, ser negligenciada daquela forma por um dos pais não era algo pelo qual uma criança deveria passar; e, por mais que Zi ainda amasse Yi Xing, o apreço por sua filha era maior e faria qualquer coisa para protegê-la da hostilidade, tristeza e rejeição (mesmo que precisasse socar seu ex-marido).

— O papai não me ama mais?

O chinês engoliu em seco e arregalou os olhos para a pergunta da filha. O moreno não tinha o costume de falar pelas outras pessoas, porém, mesmo que Yi Xing prezasse demais o seu trabalho e o dever para com a população, tinha certeza de que a filha que ambos tinham juntos era tão especial para ele quanto era para si próprio.

Ele segurou suavemente os ombros cabisbaixos da garotinha, atraindo o olhar tristonho dela para os seus orbes escuros.

— Ele ama você tanto quanto eu te amo.

— Mas então porque ele não vem?

— Sabe como o papai é ocupado no trabalho.

Trabalhar como super-herói tinha seus benefícios, todavia, alguns anos depois que havia ingressado na DIAH (Divisão de Inteligência e Ação de Heróis) notou que a profissão tinha mais desvantagens que vantagens. Era impossível constituir uma família e mantê-la quando colocava sua própria vida em risco, e mesmo que tentasse, o cuidado redobrado para que seus inimigos não descobrissem sua identidade secreta e os laços que tinha para que não fossem usados contra você era desgastante de um modo desumano.

— Você é ocupado, mas tem tempo para mim.

O ex-herói estava em um beco sem saída e sabia que poderia acabar em situação pior caso aquela conversa continuasse. Ele não queria destruir a imagem que Jin Mi tinha do pai se soubesse o que Tao pensava sobre Yi.

— O que você acha de pegar a sua mochila e o Sr. Urso para passar o dia com o papai no trabalho?

Huang trabalhava em um laboratório na DIAH atendendo as necessidades dos heróis que precisavam de auxílio, obviamente, um local repleto de agentes químicos e armas mortais não era um lugar para crianças, entretanto não conseguia pensar em deixar a sua filha sozinha naquele dia. E, certamente, não era a mesma coisa que passar todo o fim de semana com um de seus pais, porém quando se está entre a cruz e a espada, a escolha mais sensata é aquela que causa menos dano.

...

Heróis existiam no mundo inteiro com uma imensa variedade de superpoderes e não era incomum que nas grandes capitais houvessem departamentos para controlar e supervisionar a ação deles para que permanecessem na linha. Na Coréia do Sul, se reunia uma das mais conceituadas agências em super ação — um termo muito utilizado entre os departamentos para descrever a efetividade dos heróis em campo — que tem ganhado muito reconhecimento por conta da baixa porcentagem de crimes e alta taxa na captura de vilões. Mesmo tendo abandonado a vida como um dos mocinhos, Zi ainda relutava para se desvencilhar totalmente de seu passado, e manter-se trabalhando em um laboratório nas instalações de desenvolvimento da DIAH era a melhor maneira de manter o herói que existia em si ainda vivo.

Uma imensa parede de vidro fumê separava o lado de dentro do departamento do lado de fora e quando seus pés pisaram no saguão do prédio, o espanto e a admiração que surgiram na face rubra de Jin Mi e fizeram seu queixo cair fora quase instantâneo. O piso era tão branco que poderia ser confundido com uma pista de patinação do gelo, contudo, não era igualmente escorregadio. Uma série de colunas brancas erguiam-se próximas à parede de vidro e se espalhavam por todo o hall de entrada para sustentar os andares superiores. Se olhassem do alto, Jin Mi poderia facilmente distinguir a variedade de corpos que entrava e saía do prédio com suas roupas pretas.

Para Zi, no entanto, não era nada de impressionante; nem mesmo quando tinha sido levado à força para a sede depois de ter sido capturado por Sirena. O chinês devia ser um dos poucos heróis ali que tiveram um passado como vilão e, naquele meio-tempo, provou ser uma peça-chave na vitória dos heróis contra o maligno Dr. Alpha, o pior vilão que a DIAH enfrentou até os dias atuais. E apesar de ter sido aclamado pela comunidade regional como um dos mais heroicos heróis, ainda era visto com desconfiança por alguns de seus colegas — o passado sempre iria persegui-lo de um jeito ou de outro.

Justamente naquele momento, seus olhos fixaram-se nas madeixas avermelhadas de seu ex-marido trajando seu uniforme azul e vermelho com labaredas estampadas nas laterais das botas. Huang semicerrou os olhos e direcionou toda a sua fúria para a nuca de Zhang Yi Xing. O herói sentiu um calafrio passar por sua pele eriçando os pelos dos braços, mas atribuiu isso à mudança repentina de temperatura até que se virou e encontrou o alerta de morte no olhar de Tao. Jin Mi, por outro lado, ficou feliz em ver o pai e saiu correndo do lado do moreno, jogando-se nos braços de Propulsão com o ursinho roxo pendendo em sua mão.

— O que está fazendo aqui, minha gatinha?

Lay era bom com crianças, especialmente com sua família; era cuidadoso e amoroso, evitando ser sufocante. Talvez fosse para compensar o tempo curto que passava com ela ou para fazê-la perceber que ele também se importava muito com a filha mesmo sendo mais ausente que o normal. O único obstáculo nisso tudo era seu ex-marido que o havia pintado como um vilão por tê-lo abandonado. Foram inúmeras as vezes que teve de ouvir Tao jogando em sua cara como ele era pretensioso com sua profissão, escolhendo passar as noites patrulhando a cidade ao invés de passar algumas horas com a família, mas ele tinha suas motivações. Assim como Huang, ele prezava pela segurança de Jin Mi mais do que pela própria e a maneira que encontrou para deixar que a filha crescesse em um mundo menos violento foi agir como um escudo humano contra as ameaças que existiam lá fora; um pensamento egoísta, sabia disso, porém, o único modo que via para manter sua filha em segurança das garras do mal.

— Papai me trouxe para o trabalho hoje — respondeu.

— Foi uma surpresa. — Zhang lançou um olhar misterioso para o avermelhado que significava dance conforme a música ou morra . — Ao invés dele ir buscar você em casa, tivemos que trazê-la aqui para que pudesse encontrá-lo.

Nenhum deles gostava de mentir para Jin Mi, todavia, Tao não conseguia pensar em outra alternativa além de poupar ao máximo os sentimentos da criança. Lay entendeu de imediato o que ele estava tentando fazer e abriu um sorriso para a garotinha em seu colo.

— Exatamente. Você gostou?

— Sinceramente, não foi nada legal. — O herói riu sem graça. Tinha se esquecido de como a filha podia ser terrivelmente sincera. — Fiquei muito triste quando papai me disse que não iria me buscar.

— Sinto muito, meu anjinho. Mas estou aqui agora, tudo bem.

Antes que pudesse falar qualquer coisa repleta de sarcasmo e escorrendo veneno, os fios roxos da cabeça de Lu Han apareceram em sua visão periférica junto da figura magra e esbelta de sua ex-parceira de equipe, Krystal. Eram os melhores amigos de Zi Tao e Yi Xing e considerados os tios de Jin Mi, por isso, ela se desvencilhou do abraço do pai e correu para a dupla saltitando de alegria; não era sempre que ela via tantos rostos que gostava no mesmo dia.

— Veio fazer uma visita? — Lu perguntou.

— Vim ver meu papai.

Krystal e Lu Han lançaram um olhar desconfiado para Tao, mas nada disseram.

— Podem levá-la para dar um passeio nas instalações? — Huang perguntou com uma frieza sutil na voz que apenas os adultos ali presentes seriam capazes de perceber. Os recém-chegados trocaram rápidos olhares apreensivos e Lay sabia o que esperar daquilo. — Tenho que conversar com ele.

Eles não demoraram no saguão. Jin Mi permaneceu com os orbes castanhos sobre os pais até que eles desaparecessem dentro do elevador.

— Sei o que está pensando.

Zi molhou os lábios com a ponta da língua e virou-se para o ex-marido, as linhas pretas contornando suas pálpebras tornando-se mais profundas e escuras à medida que a raiva do mais alto tornava-se aparente.

— Não sabe.

Tao rugiu tão baixo e venenoso que fez os ossos de Yi Xing tremerem; uma raiva silenciosa que escorria lentamente por todo o seu corpo como se fosse água.

— Uma missão? Jura?

O moreno entendia como a vida de super-herói era corrida e imprevisível, porém, custava acreditar que o ex-marido havia preferido sair em missão no lugar de passar o fim de semana com a filha como tinha sido combinado.

— Sabe que não temos controle sobre a nossa agenda. — Yi Xing cruzou os braços.

Huang Zi Tao direcionou o seu olhar para o chão, cruzando os braços sobre o peito. Queria sentir raiva do super-herói abestalhado a sua frente, mas tudo o que seu dilacerado coração processava era a decepção e a tristeza.

Desde que fora salvo da vida que levava como vilão e várias oportunidades caíram em seu colo ao se tornar um dos principais heróis da cidade, o mais alto nunca imaginou que se casar e constituir uma família com aquele que amava fosse se tornar um dos seus maiores desejar; um desejo tão grande que suplantou até a mesmo a vontade de continuar como um super-herói. Foi uma decisão quase imediata quando adotaram Jin Mi — desistir de sua carreira e abandonar a identidade de Transmuto foi uma das escolhas mais fáceis que já teve de tomar; sabia que seria arriscar a sorte continuar sendo uma luz para a população tendo uma criança que precisaria dele para sobreviver.

— Sei como a carreira é importante para você e não te julgo, durante um tempo, foi importante para mim também — falou Zi. — Ela te admira e tem orgulho do que você faz, mas se continuar colocando a sua família em segundo plano, deixando a nossa filha de lado; vai perder os melhores anos dela.

O mais alto não esperou por qualquer resposta e começou a andar em direção ao elevador, deixando Lay petrificado no saguão encarando o vazio a sua frente — como se todos funcionários formalmente trajados houvessem desaparecido instantaneamente. Naquele momento, foi como se ser o super-herói mais veloz do mundo não tivesse qualquer importância, pois o tempo pareceu escorrer através de si como uma cachoeira. Yi Xing virou a cabeça e tensionou o maxilar, seus pés giraram e em menos de um segundo estava dentro do elevador junto de seu ex-marido antes que as portas se fechassem.

— Mas o q-

— Só me escuta, pode ser. — Zhang interrompeu-o. — Sei que estou sendo um idiota com você e principalmente com a nossa filha. E também sei que não há muito o que eu possa fazer para me redimir por todas as vezes que não fiquei com ela como o planejado.

— Ainda bem que você sabe — murmurou Zi, impaciente.

Yi revirou os olhos, mas não retrucou.

— Então, por favor, dê-me uma chance de consertar as coisas, está bem?

Ter o olhar de Zi Tao sobre si era a mesma coisa que ter um abutre esquadrinhando cada centímetro de seu corpo, analisando por qual parte deveria começar a comer, qual era a mais apetitosa. Isso deixou Lay apavorado (e excitado) nos mais diversos sentidos. O moreno cruzou os braços e pigarreou:

— E como pretende fazer isso?

— Vou ficar esse fim de semana com ela como combinamos. — Um forte suspiro escapou dos lábios de Zi, porém, Lay continuou antes que ele pudesse falar alguma coisa. — E para ser mais justo, também vou ficar com ela a semana inteira para você tenha um tempo só para você.

Não era uma proposta tão tentadora como imaginou, porém considerou que seria interessante ter um tempo apenas para si (embora ainda estivesse relutante em deixar Jin Mi). Mesmo que tivesse uma determinação de ferro, não era um monstro a ponto de negar que Lay passasse um tempo mais longo com a própria filha; seria uma forma de estreitar o laço entre eles e, quem sabe, fazê-lo perceber que existem coisas mais importantes e maneira diferentes e mais seguras de realizar os seus objetivos.

Com um vagaroso suspiro, Tao falou:

— Muito bem. Contudo, se tiver algum problema, você vai me ligar.

— Ok! — Foi como se um peso enorme tivesse sido retirado de suas costas.

Quando as portas do elevador se abriram e Tao passou por Lay — mesmo que por poucos segundos —, o avermelhado poderia jurar que viu um sorriso mínimo tomar-lhe os lábios rubros.

...

Do mesmo modo que seu ex-marido, Zhang estava tão familiarizado com aquele lugar quanto era possível. O ruivo andava o mais vagarosamente possível — algo incomum para alguém com os seus poderes — para que a garotinha em seus braços pudesse assimilar cada canto daquela organização.

O prédio tinha cerca de trinta andares que o público conhecia, mas, na realidade, existiam outros quinze níveis abaixo do solo — onde testes de armaduras e equipamentos que alguns super-heróis usavam eram testados. Alguns anos atrás, existia um décimo sexto andar subterrâneo incrivelmente extenso que servia como uma prisão para os vilões capturados. Porém, desde o ataque do Dr. Alpha contra a DIAH, a seção de confinamento foi transferida para um lugar secreto nas montanhas e poucos eram os agentes — e heróis — que tinham acesso a sua localização.

— Onde você trabalha, papai? — perguntou Jin Mi chamando sua atenção.

— O papai trabalha lá em cima — respondeu apontando para o alto. — É onde todos os super-heróis ficam.

— Podemos ir lá?

Lay deu um sorriso.

— É exatamente para onde estamos indo.

Com um impulso contra o chão, Yi Xing alçou voo.

Voar não era uma habilidade incomum para os heróis, em média, muitos deles possuíam essa capacidade e com Propulsão não era diferente. Talvez, o único empecilho fosse a falta de controle sobre a velocidade exercida durante os seus movimentos — atingindo facilmente a rapidez de um fogo em lançamento. E mesmo assim, o voo com sua filha foi o mais agradável possível e quando pousaram, Jin Mi pediu por mais.

— Bem vinda a seção dos heróis.

Ficar de queixo caído era uma expressão autêntica daqueles que visitavam pela primeira vez a seção dos heróis que lembrava vagamente a entrada da sede terrestre da liga da justiça. Era um espaço amplo de um branco perolado, sustentado por grossas pilastras de mármore piguês apresentando um fundo bastante claro, com veios suaves e espaços dando uma aparência confortável e uniforme. Em cada uma dessas pilastras estava posicionada a estátua de um herói esculpida também em mármore.

— É a Vingadora Escarlate — apontou Jin Mi correndo pela sala até as estátuas dos seus heróis e heroínas prediletos. — O Combustão. Olha, papai, o tio Lu Han e a tia Krystal.

Mais ao lado, próximo a estátua do falecido Lince, estavam duas estátuas que não via há muito tempo. Era raro que esculpissem duplas em mármore para colocá-las no salão dos heróis, contudo, isso era destinado apenas as melhores equipes cujo a interação excedia os limites do imaginável.

— Olha, Sr. Urso, são meus pais.

As estatuetas de Transmuto e Propulsão guardavam em suas poses uma beleza especial e uma história mais feliz quando comparada com as demais, pois eram os únicos heróis das equipes originais que ainda permaneciam vivos e, parte disso, se dava por seu companheirismo incomum e a confiança que tinham um no outro. Para muitos era óbvio a relação que o tempo tinha para com os seus super-heróis; a geração seguinte era sempre mais poderosa que a anterior — era uma questão de tempo até que surgisse alguém capaz de superar o Propulsão e ele fosse jogado para escanteio.

— Propulsão e Transmuto foi a primeira equipe de heróis a terem uma estátua nessa sala em honra aos serviços prestados à população. — Uma voz doce e sensual ecoou atrás deles assim como o barulho dos saltos agulha ressoando contra o chão. Jin Mi se virou curiosa para a mulher trajando roupas vermelho-sangue com seus longos e volumosos cabelos castanhos. Lay continuou olhando fixamente para o rosto do ex-marido perpetrada na rocha sólida e sentindo saudade dos velhos tempos. — Super-heróis mais antigos foram adicionados ao nosso memorial recentemente.

Tímida, Jin Mi puxou suavemente a mão de seu pai, escondendo-se atrás dele.

— Papai, quem é essa moça?

— Ela é a Diretora — respondeu com um afago nos cabelos da filha. — É a chefe do papai.

A Diretora era uma mulher estonteantemente atraente e sabia usar sua sensualidade como uma arma — Lay arriscava-se a dizer que era a heroína mais poderosa de sua geração, embora não estivesse mais em atividade. A mulher de roupas vermelhas apoiou as mãos no joelho e sorriu para Jin Mi, estendendo-lhe a mão.

— Seus pais me chamam de Diretora, mas você pode me chamar de Bo Ah — disse ela. — É um prazer finalmente conhecê-la.

Um pouco acanhada e motivada pelo pai, Jin Mi estendeu a mão para segurar a da bela moça à sua frente com seu ursinho colado ao seu lado. O ruivo achou incomum encontrar a diretora da organização naquele lugar e horário, porém não fez alarde e resolveu aproveitar a oportunidade.

— Quero pedir uma semana de folga.

— Co-como assim... uma semana? — gaguejou a Diretora, incrédula.

Os heróis não tinham tempo para folga, pois o dever não tinha hora para chamar, mas ainda assim lá estava Zhang diante da maior autoridade do Departamento.

— Digamos que eu fiz uma promessa de passar a semana toda com a minha filha — ele deu de ombros. — E seria muito ruim se eu quebrasse.

Bo Ah massageou as têmporas, imaginando que talvez tivesse sido um erro não comentar com os heróis sobre a estranha movimentação de vilões nos subúrbios da cidade e a inoportuna fuga de sua meia-irmã da área de contenção nas montanhas. Seus olhos desviaram-se do piso límpido e ela alternou os olhares entre Yi Xing e Jin Mi, pensando se valeria a pena dispensar temporariamente um dos super-heróis mais qualificados diante de uma crise. E com um longo suspiro, deu-se por vencida no final.

— Tudo bem, você pode tirar alguns dias de folga. Todavia, se precisarmos da sua ajuda, eu vou te ligar e terá que responder o chamado, entendido?

— Sim, capitã. — Lay bateu continência antes de pegar a garotinha no colo e sair.

Com os braços cruzados, Bo Ah permaneceu parada observando pai e filha se distanciar e desaparecerem em meio a claridade incômoda que cercava aquele lugar. Ela estava apreensiva e todos aqueles da alta cúpula dos heróis, seguiam o mesmo exemplo. Um aperto em seu peito que não podia ser ignorado dizia que estava fazendo a escolha errada. A Diretora encarou a estátua de Transmuto e Propulsão com pesar e preocupação.

— Será que eu deveria ter dito que a Coração Gelado escapou das instalações? — O questionamento foi deixado no ar, enquanto ela se distanciava do hall dos heróis, mergulhando em um silêncio cadavérico, o lugar que deveria ser uma homenagem a todos os homens e mulheres que ajudaram a população.

...

Em comparação ao apartamento de Huang Zi Tao, podia-se dizer que a moradia de Zhang Yi Xing era mais luxuosa; digna de um super-herói famoso. O ruivo morava nos últimos andares daquele prédio com uma varanda que tinha uma vista clara para todos a grande parte dos edifícios da cidade. Sua sala era extensa e se dividia em duas partes imaginariamente delimitadas: em delas foram posicionados largos sofás em frente a uma enorme televisão que conseguia cobrir uma parede quase que totalmente, e na outra parte, uma série de poltronas rodeava uma mesa de centro onde um tabuleiro de xadrez estava disposto em um jogo intocado.

No lado direito do apartamento, uma escada subia até o mezanino onde ficava o quarto de hóspedes com vidros fumê e cortinas escuras e pesadas para que nenhuma atividade das visitas fosse atrapalhada, e do outro lado do recinto, cruzando a sala de estar, um pequeno corredor levava a suíte — ocupada pelo dono da casa — e um quarto à frente do seu que fora destinado à sua filha repletos de brinquedos e ursos de pelúcia (com uma tintura azul bebê, pois Jin Mi não era chegada ao rosa). Seria exagero alegar que o apartamento do herói Propulsão era mais aconchegante que a toca de um hobbit , mas chegava quase.

Jin Mi se jogou no sofá assim que chegaram em casa com o Sr. Urso em seus braços e a televisão ligada em um programa qualquer. Yi Xing sentou-se ao lado da filha para aproveitar uns minutos com a garotinha de cabelos pretos antes de ir preparar alguma coisa para comerem e tomar um belo e merecido banho. Não demorou muito para que, entre as quedas que ignoravam a força da gravidade e os objetivos que caiam em cima dos animais e não ofereciam qualquer dano aparente, Lay desistisse de entender aquelas animações repetitivas e sem sentido e fosse para o seu quarto trocar de roupa e tomar um bom banho. Sentir a água quente escorrendo pelo seu corpo e relaxando os músculos tensionados pelo trabalho excessivo talvez fosse a melhor parte do seu dia.

No quarto, assim que colocou a última peça de roupa e secava o cabelo úmido, a melhor parte de seu dia transformou-se subitamente em um desastre. Da sala, um alto estrondo chamou sua atenção, e preocupado com Jin Mi, saiu às pressas do quarto deixando o secador ligado. Seu coração disparou quando seus olhos focalizaram o que estava acontecendo e Lay teve que dar vários tapinhas na cara para ter certeza de que não estava sonhando. Contudo, seus orbes pretos ainda viam um enorme urso de pelúcia roxo lutando com uma de suas poltronas, enquanto Jin Mi pulava no sofá e ria apreciando a briga entre os objetos.

— Mas-

As peças do tabuleiro de xadrez voaram para todos os lados quando a poltrona derrubou o urso de pelúcia sobre a mesa de centro e movendo as perninhas diminutas, saltou sobre ele. Todavia, o urso era rápido e desviou-se com maestria, levantando-se rapidamente e derrubando a poltrona de lado para que não tornasse a se levantar. O urso ergueu os braços fofos para o alto cantando sua vitória e Jin Mi correu até ele feliz, jogando-se em sua barriga estufada e rolando pelo chão ao som de sonoros risos.

— MAS O QUE É QUE ESTÁ ACONTECENDO AQUI?

Jin Mi se assustou com o berro do pai, uma atitude que fez o urso se levantar e se posicionar diante dele para defendê-la — um fofo urso de pelúcia feroz. O mais velho olhou para a sala destruída, incrédulo.

— Jin Mi — chamou o avermelhado sentindo a ponta das orelhas queimarem. — O que aconteceu?

Com medo de represálias, a garotinha permaneceu em silêncio com a cabeça baixa. Zhang entendia o porquê, pois nunca tinha gritado com a filha de maneira alguma. Ele tentou se acalmar e ajoelhou-se no chão, estendendo a mão.

— Desculpe ter gritado. Venha cá.

O urso afastou-se um pouco quando ela tocou sua perna e a garotinha correu para os braços do pai com lágrimas nos olhos. De repente, Lay sentiu-se mal por ter tido aquela reação por mais legítimo que fosse o seu espanto. Eles se separaram do braço e o mais alto limpou as lágrimas de seu rosto.

— Conte para o papai o que aconteceu.

Ela olhou para o urso de relance e como em um passe de mágica, a pelúcia saltou sobre o sofá e começou a encolher de tamanho até que se tornasse o ursinho roxo e surrado que Jin Mi carregava para todo o lado. Foi nesse momento que o mais velho entendeu o que tinha acontecido.

Na época em que ainda estavam juntos, Zi Tao e Yi Xing haviam concordado em adotar uma criança para aumentar a família que estavam tentando construir juntos. Como em todos os lugares, existia um orfanato para seres superdotados e o ruivo deixou claro desde o início que gostaria de uma criança com superpoderes — embora ele fosse amar qualquer uma que escolhessem adotar —, mas o moreno por seu forte desejo em viver uma vida calma e pacata longe dos perigos da profissão bateu o pé para a ideia. O herói amava o marido e faria tudo para vê-lo feliz, até mesmo apoiou a ideia quando ele decidiu aposentar o seu traje de combate; e não foi diferente com a adoção.

Entre os diversos orfanatos espalhados pelo Extremo Oriente, existia um ao sul do país nas proximidades da província de Suncheon. Era um lugarzinho caindo aos pedaços cerca de 2km do mar e havia poucas crianças ali. Quando souberam que dois heróis estavam em busca de adotar alguém, os diretores logo os atenderam para sanar as dúvidas e ver se alguma daquelas crianças cumpria com as necessidades do casal, mas todos eles manifestavam algum nível de peculiaridades — menos uma.

Desde o surgimento dos super-heróis, era comum que as crianças começassem a manifestar suas individualidades com seus três ou quatro anos; não era necessariamente uma regra, porém, ocorria dessa forma na maioria dos casos. No entanto, aquela garotinha de vestido florido e orbes grandes não tinha manifestado qualquer habilidade especial. Foi como se a esperança que enchia os olhares profundos direcionados ao casal tocasse seus corações instantaneamente — eles haviam encontrado sua filha. Não havia muitas informações sobre a garota, exceto que o nome dela era Jin Mi e junto de um pingente que ela sempre carregava no pulso — uma pedra branca e leitoso enrolada em uma correntinha de ouro branco.

— Me desculpa.

— Não precisa se desculpar por nada — ele sorriu. — Você tem superpoderes, e daí? Hoje em dia muitas pessoas os têm.

Ela fungou e secou as lágrimas com suas mãozinhas.

— Mas o papai Zi... ele...

— Shiu. — Yi Xing abraçou a filha. — Está tudo bem, não vai acontecer nada demais. Ele ama você e sabe disso. Você não tem culpa nenhuma.

Um forte estrondo vindo do lado de fora do apartamento assustou ambos, mas foi o suficiente para deixar Lay alerta para o que viria. Jin Mi correu para se esconder atrás do sofá, agarrado ao ursinho de pelúcia, enquanto seu pai aproximou-se cautelosamente para a entrada que estava coberta por uma fina camada de gelo. O ruivo não teve sequer tempo de franzir o cenho. Sem qualquer aviso, a porta foi arremessada com força sobre o herói, jogando-o do outro lado da sala e três cavaleiros de puro gelo adentraram o recinto.

Quando fez menção de se levantar, um dos soldados de cristal pisou sobre ele fazendo gritar — o gelo queimava a sua pele em uma proporção sem igual. Praticamente debilitado, eles agarraram o braço de Yi Xing e o levantaram do chão; uma ardência espalhou-se por sua pele no local onde os bonecos seguravam. Ele engoliu em seco, procurando uma forma de sair daquilo ileso. Sua visão estava turva, mas se ajustava aos poucos, focalizando pequenos pontos na sala. Lay conhecia aqueles soldados gelados de seu passado, uma época sombria para muitos heróis; seu coração começou a bater tão rápido quanto ele poderia correr.

O super-herói tentou forçar as mãos das criaturas de gelo sem sucesso. Era como um antigo pesadelo que encontrou o caminho de volta para assombrá-lo. A pele do braço tocada por aqueles bonecos começou a arder ainda mais, fazendo com que o ruivo rangesse os dentes. Desesperado, tentou procurar pela filha nos arredores do apartamento. Mas quando a encontrou, seu corpo estava inerte no chão aos pés dela. Seus olhos ousaram se desviar da filha desacordada à medida que raiva latejante fazia seu sangue ferver, os braços começando a vibrar em uma velocidade alucinante, trincando o gelo que compunham aquelas marionetes.

— Eu não faria isso se você. — A voz doce e nauseante de Coração Gelado chamou a atenção de Propulsão para a lâmina de gelo sobre o peito da filha. — Seria uma pena se ela tivesse um ferimento falta, não é?

— Não ouse! — exclamou o ruivo entredentes.

Um riso alto e cortante atravessou os tímpanos de Lay quando o espeto de gelo se desfez em neve fofa sobre a criança. Com um sorriso malicioso em seu rosto e um olhar frio lancinante, Coração Gelado se aproximou a passos vagarosos do herói; uma fina camada de gelo se formava onde seus pés tocavam.

— Ah, Propulsão, faz muito tempo que imagino esse momento. — Ela acariciou sua face com a ponta dos dedos e deixando finos cristais congelados se formarem sobre a tez pálida. — Não tinha muita coisa para fazer na prisão, exceto sonhar com as dezenas de formas com as quais poderia torturar você e o desprezível Psyque. Fiquei muito criativa com o passar dos anos.

De todos os vilões e vilãs que já passaram pela vida de Zhang Yi Xing, nenhum chegou a ser um perigo real, com exceção do Imperador e da Coração Gelado. Os anos sombrios em que os heróis eram assassinados sem piedade durante as patrulhas ou alguma missão que terminava sendo uma emboscada ainda atormentavam seus sonhos. Lay havia presenciado a crueldade do Imperador e o desejo sádico de Coração Gelado que sempre deixava as cenas cobertas de neve vermelha — seu mentor havia sido assassinado na primeira vez em que topou com a dupla de amantes insanos.

— O que você quer aqui, sua vaca?

— Isso não é jeito de falar com as visitas. — Ela maneou a cabeça em negação movimentando os cachos esbranquiçados e cobertos de gelo. — Temos um passado Propulsão, trágico e doentio e repleto de sangue e mortes. Mas ainda assim temos uma história. Está atrelado a mim para todo o sempre, quer goste quer não goste.

Certa vez, Propulsão teve de visitar um colégio como parte de um trabalho de conscientização dos estudantes e fora perguntado qual o pior tipo de vilão. Ainda tendo pesadelos com o que havia acontecido ao seu mentor, o ruivo acabou soltando que os piores vilões são aqueles que manipulam o gelo, pois o seu coração também era assim; e, portanto, desprovido de bondade, amor e compaixão. Ele só havia encontrado mais um vilão que manipulava aquele elemento chamado Nevasca.

Coração Gelado era pura maldade. Seus olhos eram de um preto intenso mais sombrio que a própria noite, ressaltados pela tez absurdamente pálida e os lábios azuis de um cadáver; os cabelos eram compridos e iam até a cintura, tão brancos quanto a neve e cobertos por uma constante camada de gelo. Mas o mais aterrorizante eram os movimentos vagarosos que realizava, como se as juntas estivessem totalmente congeladas e se partissem com facilidade de um toque.

— O reencontro foi bom, no entanto, o tempo de reviver lembranças empoeiradas acabou — disse ela sentando-se no braço do sofá. — E eu agradeço imensamente a você e ao seu namorado.

— Agradece pelo quê? — bradou o super-herói.

— Por cuidarem tão bem da minha filha, é claro.

Por um momento, os batimentos cardíacos de Yi Xing pararam. Ele arregalou os olhos em descrença, incapaz de acreditar em qualquer palavra que saísse da boca daquela assassina desgraçada.

— Isso é mentira — cuspiu ele.

— Qual é. — Coração Gelado se debruçou sobre o corpo inerte de Jin Mi cobrindo por inteiro, agarrando o rosto dela sem qualquer cuidado e colocando-o ao lado do seu para uma comparação bizarra. — Não vê a semelhança? Tudo bem senão vir, ela puxou o pai de tantos modos que chega a ser nojento. O Imperador sempre teve uma boa aparência, então ela será uma mulher muito bonita.

— Fique longe dela — gritou o super-herói.

Lay tentou mais uma vez se desvencilhar do aperto dos soldados de gelo e conseguiu apenas deslocar o seu ombro; um novo grito agonizante tomou o local, mas as mãos frias de Coração Gelado taparam sua boca.

— Shiu, shiu, shiu — murmurou ela. — Não vamos querer que os vizinhos te ouçam gritar, não é? Detestaria ter que brigar com um bando de super-heróis enxeridos, então, se não quiser que a garota se machuque, ficará quietinho.

Seu olhar se desviou rapidamente para a filha estirada no chão com lágrimas escorrendo pelos olhos e congelando instantaneamente assim que se aproximavam da pele da vilã. Ela virou a cabeça para encarar o ponto onde estava a sua atenção e soltou um riso tão estridente que os vidros espalhados pela sala vibraram.

— Não se preocupe, bobinho, ela não está morta... ainda. O Imperador e eu tínhamos planos para ela, então ela tem uma certa utilidade. — Coração Gelado deu de ombros e abriu um sorriso maquiavélico. — Mas como tudo nesse mundo é descartável, vai saber quanto tempo ela vai durar, não é mesmo?

Lay se debateu em desespero, contudo, não conseguiu se mover ou emitir qualquer sonoridade fora os gemidos abafados pela congelante da mulher.

— Você sabia que fica muito mais bonito sem aquela máscara ridícula? Transmuto deve ter aproveitado bastante. — Coração Gelado soltou a boca bruscamente. Seus dentes batiam um contra o outro e o maxilar tremia. Zhang não conseguia ver o estado de seu rosto, mas chutaria que estava quase totalmente azul. — Quisera eu ter tempo para brincar com você como seu namoradinho brincou; ver quanto tempo duraria comigo.

Uma longa unha tão afiada quanto uma garra e fria como a baixa temperatura de uma geleira, deslizou pelo lado esquerdo de seu rosto abrindo superficialmente a pele e desceu pelo pescoço até chegar ao meio do peito. Ela tomou as bochechas do ruivo com ambas as mãos o forçando a mirar a imensidão fria e sombria que eram os seus olhos, enquanto passava suavemente a língua por seus lábios azulados.

— Infelizmente, terei que me contentar com um único beijo. O único que sobreviveu a um beijo meu foi o Imperador e até mesmo ele se debateu para se livrar de mim. — Seus lábios se aproximaram dos de Yi Xing. Os olhos arregalados do herói mesclado com as palavras ininteligíveis que saiam de sua boca deixavam Coração Gelado mais eriçada, excitada. Ela gostava quando os homens demonstravam seu medo tão abertamente. — Não se preocupe, não irei matá-lo, Propulsão. Será um beijo rápido apenas para me dar tempo e depois quero que me encontre. Se quiser a pirralha de volta, é claro.

E tudo foi tão rápido que sequer notou o que tinha realmente acontecido. Quando os lábios frios da mulher tocaram os seus, uma ligeira dormência tomou suas bochechas e espalhou pelo restante do rosto e, em seguida, dor. Todavia, ele não conseguia gritar, só sabia que sentia uma dor agoniante espalhando-se até a metade do rosto; o suficiente para borrar a sua visão, enquanto caia no chão e observava Coração Gelado levar Jin Mi embora.

...

O movimento do restaurante estava ameno para um dia como aquele. Era comum que os estabelecimentos gastronômicos tivessem um aumento na clientela quando estavam próximos do fim de semana, mas não era o que acontecia ali. Tudo estava tão calmo que Zi Tao mal percebia os fregueses que entravam e saiam. Sua mente vagava pela imensidão inexplorada e uma aflição crescia em seu peito, porém, de origem desconhecida. O ex-herói apenas voltou para o mundo real quando Lu Han e Krystal sentaram-se à sua frente.

— Está mais disperso que o normal — comentou a mulher.

— Não, ele é avoado assim mesmo — resmungou o arroxeado.

Uma rápida olhadela foi o que precisou antes de voltar a encarar o nada mesmo ciente da movimentação dos amigos. Fazia muito tempo que não saiam para se divertir ou comer alguma bobagem nas ruas de Seul e ter Yi Xing cuidando de sua filha foi a brecha que precisava para que se sentisse um pouco mais vivo. Todavia, aquele rápido pensamento que vagou sobre a imagem de Jin Mi, fez com que a aflição que esmagava seu coração aumentasse.

— Ei! — chamou Lu estalando os dedos em frente ao rosto de Zi para chamar sua atenção. — Está com constipação ou algo assim? Sua cara está péssima.

Lu Han era um homem despojado que carregava um ar jovial sobre si mesmo sendo o mais velho do grupo. Seus cabelos roxos caiam suavemente até atingirem as bochechas e, geralmente, eram cobertos por uma touca preta folgada. Ele tinha um lado extrovertido assim como Zhang Yi Xing, contudo, não era dotado da mesma seriedade que ele, tendo uma personalidade mais cômica que o comum. Todavia, Krystal era mais contida e tímida quando estava perto de estranhos — não que mudasse alguma coisa perto dos amigos. Seus cabelos pretos e escorridos, o rosto magro e os olhos grandes faziam dela uma bela mulher.

Mas por mais inofensiva que fosse a aparência de cada um dos superpoderosos naquela mesa, suas habilidades eram impressionantes. Lu Han — conhecido como Psyque — é dotado de uma grande capacidade telecinética que foi forte o suficiente para parar o vilão Hércules quando lutaram. De acordo com o arroxeado, ele quase conseguiu estabilizar um trem desgovernado. Krystal tinha uma peculiaridade ainda mais rara e o seu codinome “Ampulheta” era auto explicativo: um controle parcial sobre o tempo e os acontecimentos que estavam em seu campo de visão.

Zi suspirou e disse:

— Só estou com um mal pressentimento.

— O nome disso é dor de estômago — falou Lu.

Krystal cutucou-o com o cotovelo e silenciosamente Tao agradeceu. O mundo estava todo estranho, o ar estava mais frio e era possível sentir isso suavemente na pele macia de seu rosto. E como se o mundo resolvesse, de repente, lhe dar respostas, o celular tocou. O ex-herói encarou o nome de Lay na tela do telemóvel e já imaginou que alguma coisa de muito errada tinha acontecido com ele e a sua filha — o que o fez sair em disparada para fora do restaurante e deixando os seus acompanhantes confusos.

Quando chegou do lado de fora estava mais frio que o normal, porém permaneceu na calçada e levou o aparelho ao ouvido.

— Lay? — chamou. — O que aconteceu?

Por um longo momento, Tao apenas conseguiu ouvir os dentes tremendo do outro lado da linha até que ele falou.

— M-m-me-e... a-aj-aju-da-a... — Não era nada além de um sussurro quase inaudível, um murmúrio de súplica jogado ao léu, mas continha desespero o suficiente para que o ex-herói soltasse o celular e começasse a correr pela rua.

Tanto Lu quanto Krystal se entreolharam sem entender nada, porém, saíram do restaurante às pressas e correram atrás do amigo.

Assim que Huang Zi Tao chegou às portas do apartamento do ex-marido e a encontrou no chão, uma pontada em seu peito se fez presente fazendo-o se curvar para a frente momentaneamente. No instante em que se recuperou, ele atravessou o arco da entrada da casa sem qualquer impedimento e observou a situação do lado de dentro.

Havia água espalhada por todo o canto da sala de estar, alguns móveis quebrados, as peças do tabuleiro de xadrez estavam espalhadas pelo chão com um fina camada de gelo às envolvendo, a mesinha de centro tinha sido cortada ao meio e as poltronas estavam em postos diferentes da sala — era como visitar uma cena de filme de terror.

Com passos cautelosos, o moreno adentrou ainda mais o recinto e parou abruptamente quando sentiu algo frio subir por sua perna. O chinês virou os olhos para o chão e encontrou o marido em condições que nunca tinha visto antes: os orbes vidrados em um único ponto e os lábios tão azuis quanto o de um cadáver. Ele se ajoelhou preocupado e recuperou o corpo de seu amor, carregando-o suavemente até o sofá.

— O que aconteceu aqui?

Lu Han atravessou a porta acompanhado de Krystal.

— Tem dois quartos no corredor à esquerda — ele apontou com o queixo. — Tragam o máximo de cobertores de que conseguirem.

— Zi... — murmurou a mulher.

— RÁPIDO!

A comoção que se deu na casa foi das maiores.

O moreno retirou seu casaco e contornou o corpo do ruivo com ele, sentando-se ao seu lado e apertando o corpo do super-herói contra o seu. Embora tenha se passado longos minutos desde o encontro terrível de Propulsão com a Coração Gelado, os resquícios de gelo ainda estavam presentes em sua pele e espalhados por toda a casa, Tao conseguia sentir a frieza atravessar a sua camisa e penetrar-lhe a tez fazendo gelar o sangue.

Uma série de cobertores foi jogado apressadamente sobre os dois e ainda assim nem mesmo isso parecia adiantar para aplacar o frio que o mais novo sentia.

— Lay — sussurrou o moreno. — Faça o seu corpo vibrar mesmo que minimamente, isso vai gerar uma pequena onda de calor.

Seus olhos se encontraram instantaneamente e uma compreensão que não tinham há muito tempo os atingiu. Lay recostou a cabeça no ombro do ex-marido e seu corpo todo começou a vibrar vagarosamente.

— E-ela... el-a... l-lev-levou a... n-no-ssa fi-lha — gaguejou o avermelhado. — N-nã-não co-cons-consegui... im-pe-pedir, me d-descul-pe!

Era fácil ruir os alicerces que sustentavam a convicção de alguém. Desde o momento em que tinha pisado na casa e encontrado Yi Xing daquele jeito soube imediatamente o que havia acontecido, mas tinha esperanças de encontrar a criança escondida em algum ponto da casa ainda que seu coração entendesse que ela não estava mais ali. A aflição que estava sentindo durante o restante da noite agora tinha um motivo e a dor de saber que a filha estava nas mãos de uma vilã perigosa se tornava cada vez mais insuportável.

— Liguem para Bo Ah e peçam para que ela venha até aqui com o Combustão — pediu o moreno para Krystal. — Vamos precisar dele.

Os minutos transcorriam vagarosamente ao redor deles. Lay continuava vibrando, mas o frio parecia não diminuir. Lu Han e Krystal andavam de um lado para o outro sem saber o que fazer ou o que falar e Zi Tao preferia assim — não estava interessado em ouvir qualquer coisa que não tivesse relação com a segurança de Jin Mi. Justamente naquele momento, Bo Ah entrou no apartamento encarando o que tinha acontecido. Logo atrás dela, um homem de estatura mediana, cabelos grisalhos e uma meia-máscara vermelha combinando com o uniforme laranja como labaredas acompanhou o andar cauteloso da Diretora — a água se transformava em vapor começou a subir à medida que ele pisava no chão.

— Droga, sabia que deveria ter contado sobre isso antes — resmungou a Diretora.

— Você sabia que Coração Gelado escapou? — Tao semicerrou os olhos.

A compartimentalização de informações era um ramo perigoso muito comum naquele meio. Geralmente, quem estava no alto escalão precisava esconder determinadas coisas de seus subordinados para exercer um certo nível de controle. Mas Bo Ah não conseguia deixar de se sentir mal pela péssima decisão que havia tomado. Entretanto, se tivesse contado sobre a fuga de Coração Gelado mais cedo, ele teria abandonado tudo para ir atrás dela e, possivelmente, teria sido morto.

— Sim, eu sabia. Iríamos discutir o caso com os demais heróis amanhã.

— E n-não p-pensou em m-me con-t-tar?

Mesmo quase paralisado a irritação de Lay era palpável.

— Tomei a decisão mais prática e que o impediria de se jogar nas garras da morte.

— Ela levou nossa filha — Tao também estava furioso.

Os lábios rubros da Diretora tornaram-se uma fina linha e por um minuto chegou a questionar a eficácia de suas ações, mas mesmo assim manteve o pé firme quanto à decisão que tinha tomado.

— Nós vamos encontrá-la.

— É melhor que encontrem — falou o mais alto. — Nem que precise enviar um alerta de chamado para todos os super-heróis do país.

Bo Ah pegou o celular e encaminhou-se para fora do apartamento sendo seguida por Lu Han e Krystal. O moreno engoliu em seco, abandonando durante uns instantes o corpo friorento de Yi Xing para conversar com Combustão. Eles se afastaram um pouco do herói caído.

— Ela quase o congelou até a morte, Ji Hoon. — Um murmúrio tristonho exalou de sua garganta. Todos os heróis tinham um mentor da geração passada para lhes ensinar as artimanhas e o que significava ser alguém naquele meio, quais deveriam ser suas convicções e anseios. Lay havia perdido o seu mentor, Alta Voltagem, muito cedo, porém, Zi ainda tinha o dele embora não fossem mais tão próximos. Combustão era um dos poucos heróis da geração passada que continuava na ativa, pois seus poderes eram muito úteis em várias situações. — Pode derreter os cristais de gelo que ainda estão em seu corpo?

O herói das chamas lançou um olhar preocupado para Zhang e voltou a mirar seu aprendiz.

— O gelo é cruel, rapaz — disse ele. — Eu posso tentar aquecê-lo, mas receio que ele ficará com sequelas para o resto da vida.

— Como assim, quer dizer que ele pode não ser mais um super-herói?

— Ele continuará sendo um super-herói, mas não poderá seguir o mesmo ritmo que tinha antes — Combustão alertou — ou correrá o risco de se ferir gravemente.

— Tudo bem. É melhor que ele ainda tenha algo em que se apegar, embora não possa mais depender do seu antigo eu. Faça o que for possível.

O moreno se afastou e deixou com que Combustão trabalhasse. Ele ficou parado no centro da sala imaginando o que teria acontecido e nas infinitas possibilidades do que Jin Mi teria sentido e onde ela estaria. Nesse meio tempo, a Diretora retornou para avisar que todos os super-heróis tinham sido acionados e estavam a par da situação e que ela, Lu Han e Krystal iriam para central tentar localizar anormalidades climáticas instantâneas em determinados pontos da cidade.

Ji Hoon, o mentor de Huang Zi Tao, também não permaneceu ali. Tendo feito o que pôde, agora era dar tempo ao tempo para que Yi Xing se curasse. Ele se despediu de seu mestre com um abraço e um agradecimento. O moreno sentou-se ao lado do ruivo, afagando seus cabelos e encarando o vazio. Com uma única pergunta ecoando em sua mente: onde estava Jin Mi?

— Em que está pensando?

A voz de Lay era baixa e estava rouca.

— Onde ela está e se está bem.

— Ah, ela é uma garotinha forte — Lay se sentou com um pouco de esforço —, sabe se cuidar. Qualquer coisa, ela pode dar vida aquele ursinho e fazê-lo dar uma surra em Coração Gelado.

Zi franziu o cenho e encarou o ex-marido, confuso.

— Jin Mi tem poderes, meu bem — disse ele. — Ela fez o Sr. Urso ter uma briga de MMA com uma das minhas poltronas.

— Isso não é possível.

O moreno meneava a cabeça negativamente se negando a acreditar. De fato, não era. Porém, o ex-herói não tinha ouvido a história de Coração Gelado como Lay ouvira e, por mais desconfiados que deveriam ser próximos de vilões, mentirosa era algo que a mestra do gelo nunca foi.

— E tem mais — prosseguiu o ruivo. — Jin Mi é filha biológica do Imperador e da Coração Gelado.

Por um momento, o moreno não conseguia respirar adequadamente. Eles tinham acompanhado cada teste realizado com a família para terem certeza de que Jin Mi não era dotada de qualquer individualidade extra-humana. Mas testes como este eram falhos em diversos pontos, pois não dava para determinar se alguém tinha alguma habilidade até que elas começassem a se manifestar. Huang Zi Tao apenas não percebeu os sinais ao seu redor para o apego exagerado que a filha tinha para com o seu ursinho velho — algo que imaginou ser apenas afeição de uma criança.

Lay agarrou seu pulso com firmeza.

— O urso.

— Sim, ela pode dar vida ao urso, você acabou de dizer isso — o maior resmungou.

— Não é isso. — O avermelhado fez um esforço para se levantar do sofá e encaminhou-se até o seu quarto, sendo seguido por um ex-marido confuso e irritado. — Eu coloquei um rastreador no ursinho de pelúcia para o caso de acabar perdendo-a no parque ou no supermercado.

Camisas e calças voaram pelo quarto até que o super-herói encontrasse um modelo obsoleto de rastreador — Lay adorava guardar equipamentos retrô que poderiam voltar a ser utilizados algum dia. Tao se aproximou dele e encarou sobre os ombros do mais baixo um pequeno ponto vermelho piscando na tela com linhas esmeraldas formando as casas e edifícios em um mapa perfeito da cidade.

— Isso é uma... loja de brinquedos?

— Sim — respondeu o avermelhado, abandonando o aparelho aos cuidados do mais novo e disparando até onde havia deixado sua fantasia.

— O que está fazendo?

— Vou atrás da nossa filha.

— Lay, você acabou de se recuperar...

— Estou muito bem, Zi Tao — ele o interrompeu. — Jin Mi pode estar assustada e sabe-se-lá-o-quê aquela maluca pode estar fazendo com ela. Temos que salvá-la e não dá para dependermos da boa vontade da DIAH. Mandaremos um recado antes de chegarmos para que enviem ajuda, mas precisamos ir ajudar a nossa garotinha.

Era a primeira vez que o mais alto o via agir como um pai e um sorriso brotou em seu rosto. Deu um espaço para que ele pudesse se vestir e encaminhou-se para a sala até que o ruivo estivesse pronto para lutar.

Lay surgiu com seu uniforme vermelho e azul colado ao corpo e uma capa pendendo logo atrás — seria cômico se não fosse um momento trágico. Sem mais delongas e com a vida de sua filha em jogo, os super-heróis saíram do prédio o mais rapidamente que as pernas lhe permitiam para deter uma super vilã lunática em uma loja de brinquedos.

...

Combustão tinha feito o máximo que podia contra o gelo impiedoso de Coração Gelado e ainda que Propulsão estivesse em de pé com aquele rastreador na mão, Zi Tao sabia que ele ainda não estava 100% para enfrentá-la. Ele temia tanto pela segurança de Jin Mi que estava sozinha com uma das vilãs mais perigosas daquela geração e, agora, teria que se preocupar com o bem-estar do ex-marido também. O moreno não tinha forças para impedi-lo de continuar mesmo sabendo ser arriscado, todavia era um risco calculado — todos os super-heróis sabiam o que poderia acontecer caso enfrentassem vilões em um estado debilitado e estavam sempre dispostos a pagar o preço.

— Ela está aqui... em algum lugar.

Ambos se encontravam em uma loja de brinquedos e artigos infantis; uma escolha inusitada para que uma super vilã decidisse se esconder. A capa de Propulsão se arrastava com suavidade pelo chão, mas não o suficiente para que alguém percebesse a movimentação estranha e à medida que continuaram andando o ambiente começou a ficar mais e mais frio até que notassem estarem andando sobre um fina camada de gelo que cobriu uma área significativa da loja. Como em uma passo de mágica — ou as ações vilanescas de uma psicopata insensível ao frio —, as luzes se acenderam uma a uma. Dezenas de bonecos de neve estavam dispostos ao redor da dupla. Estavam encurralados.

— Vejam só. — Uma voz fria e sem emoção ecoou por de trás de uma pilha de brinquedos congelados. — Imaginei que demorariam mais para me encontrar.

— Onde está minha filha? — cuspiu o moreno e quase se arremessou contra ela senão tivesse sido impedido por Propulsão.

Uma espécie de sorriso imutável cresceu em seu rosto esbranquiçado e ela estalou os dedos. De um ponto mais longe, um guarda de gelo trouxe uma menina garotinha assustada e com os olhos inchados de tanto chorar. Jin Mi focalizou o rosto dos pais em meio a claridade e tentou correr para eles, mas foi derrubada no chão sem qualquer compaixão. O sangue dos heróis ferveu e em um gesto impensado avançaram sobre o pequeno exército de marionetes de gelo.

Embora sua velocidade e força não estivessem totalmente a sua disposição, Propulsão viajou pela sala com uma rapidez maior que a de um patinador. Seus punhos abriam sem piedades buracos no corpo dos soldados glaciais e rachaduras que faziam com seus corpos se espatifassem no chão. Transmuto não ficou para trás e assumiu a forma de um elefante africano enfurecido que saia pisando em tudo sem o menor cuidado. Seus chifres de marfim partiam os soldados de gelo ao meio sem o menor esforço e os pés pesados esmagavam as partes que sobravam. Todavia, nem mesmo isso parecia ser capaz de deter o avanço dos bonecos de Coração Gelado que pareciam vir cada vez mais.

Uma fina camada de gelo formou-se no chão ao toque da vilã fazendo com que Transmuto escorregasse e o impacto fez com que assumisse a forma humana novamente. Com um vagaroso movimento das mãos no ar, Coração Gelado fez surgiu uma lança de gelo e sem hesitar, cravou-a sobre o ombro do herói. O grito agonizante do ex-marido chamou a atenção de Propulsão que abandonou as marionetes de gelo e avançou sobre sua antiga inimigo, porém, seus pés foram cobertos pelo gelo que emanava em ventos frios da mulher.

— Sabe, Propulsão — ela começou a contar. — Durante muito tempo tentei entender o que levaria um herói a matar outro ser humano a sangue frio. — Ela torceu a lança de gelo arrancando mais um grito agoniado de Transmuto. — Foi vingança pelo que fizemos ao seu mentor, não foi? Como era mesmo o nome daquele imprestável... Alta Voltagem? O nível de heróis tem baixado muito desde a segunda geração.

Lay cerrou os punhos, irritado.

— Seu assunto é comigo — bradou. — Deixe minha filha e meu marido irem.

Coração Gelado desviou os olhos de Tao e do sangue que manchava o chão para encarar o ruivo. Seu olhar estava diferente de quando se encontraram mais cedo, não havia mais aquela escuridão sádica escondida entre as sombras, agora era só... trevas.

— Você ainda não entendeu. Desde que matou o Imperador, eu fiquei perdida, sabe? Sem saber para onde ir ou que fazer e tudo o que me restou foi a criança que tínhamos planejado. — Seus pés tocaram o chão escarlate e o sangue de Zi Tao que escorria sem parar, congelou. — Eu não queria ser mãe e nem quero, então esperei a menina nascer e levei-a para um orfanato afastado e esperei até que os poderes dela se manifestassem. Nesse meio tempo, fui capturada e o resto você sabe. É o centro disso tudo, Propulsão, você e sua família. É a sua morte que desencadeará uma guerra entre os heróis e os vilões. Será o principal símbolo dessa revolta. Sua família foi manchada por você, pintou um alvo em suas costas e eles irão pagar. E não se preocupe, meu benzinho, será o último a morrer. Antes disso, vou congelar o corpo do seu namorado e fazê-lo assistir ele sendo despedaçado e transformado em um amontoado de sorvete de cereja. Talvez, eu aproveite um pouco da situação depois, afinal, um homem tão bonito sendo desperdiçado não é uma boa ideia. Quanto a garota, assim que ela não tiver mais utilidade, vou me livrar dela também.

— Fique longe da minha família. — Transmuto grunhiu.

— Nossa, você ainda está acordado — observou a mulher. — Que herói resistente.

Um novo movimento das mãos fez com que outra lança de gelo se manifestasse no ar, porém, quando ela a ergueu para cravá-lo no peito do herói, mas no último momento, o moreno se transformou em um corvo e voou para longe mesmo com a asa quebrada. Ele bateu contra uma pilha de caixas de presente antes de voltar a forma humana quase inconsciente.

— Estou cansada de brincar.

Coração Gelado moveu as mãos sobre o gelo e uma nevasca incontida inundou o lugar nublando a visão dos heróis, e quando se dissipou, uma nova onda de marionetes havia surgido e começaram a marchar até Zi.

Em uma última tentativa de romper o gelo, Yi Xing fez com que seus pés vibrassem freneticamente até que a camada fria se rompesse e ele correu até o amado. Todavia, na metade do caminho, ainda sentindo os resquícios de quase ser totalmente congelado, ele caiu e seu corpo deslizou para perto do moreno embora estivesse impossibilitado de se mover com precisão. As marionetes estavam sobre eles e em sua parca tentativa de proteger o homem que amava, Lay o cobriu com seu próprio corpo e esperou pelo pior.

As pancadas não vieram e nem o frio. Yi arriscou mirar as marionetes e seus movimentos pararam no último minuto — eram apenas montes de cristais de gelo sem vida sobre eles. Coração Gelado pendeu a cabeça para o lado, confusa. E, então, um urso roxo de quase dois metros apareceu totalmente descontrolado e detonou as marionetes inertes espalhando cubos de gelo em todo canto. Tanto Zi quanto Yi encararam Jin Mi mais atrás com os punhos cerrados e aquela característica carranca zangada que todas as crianças faziam.

— Não machuque meus papais — ela berrou.

Uma explosão de vento tendo Jin Mi como centro arremessou tudo o que estava próximo para longe, inclusive Coração Gelado que caiu sobre a prateleira de ursos de pelúcia e em sua inútil tentativa de tentar se levantar, fora arrastada por um exército de ursinhos fofos fortes. Huang Zi Tao observava tudo aquilo com espanto, enquanto Zhang Yi Xing não conseguia sentir outra coisa além de orgulho. Com esforço, eles se levantaram e apoiaram-se mutuamente para conseguirem chegar até Jin Mi.

— Mas o que foi isso? — perguntou o moreno.

— Acho que esqueci de contar que nossa filha tem superpoderes.

Tao deu um leve soco no ombro de Lay e eles riram. Os heróis se ajoelharam e puxaram a filha para um abraço apertado. No entanto, a felicidade da família durou pouco. O gelo começou a cobrir os ursinhos de pelúcia que montavam guarda sobre Coração Gelado e explodiram em milhares de pedacinhos.

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— Ah, minha criança, você não é poderosa o suficiente para me enfrentar.

E arremessou outra lança de gelo mirando o coração de Jin Mi. Lay e Tao colocaram-se na frente do arremesso. Os heróis sequer piscavam enquanto tentavam proteger a filha, mas para o alívio deles, o projétil parou no ar assim como Coração Gelado.

— Estamos atrasados?

O moreno desabou o que restante de seu corpo que ainda conseguia ficar em pé no chão, aliviado. Seu peito subia e descia, enquanto o coração tentava escapar pela boca. Lay abraçava a filha com toda a força à medida que o grupo de heróis se aproximava.

— Chegaram na hora certa.

Os raios de sol começaram a emergir pelas altas janelas e o gelo começou a derreter lentamente. Para aquela família, o terror havia terminado. Um grupo de agentes da DIAH adentrou a loja de brinquedos junto de Bo Ah com sua característica roupa vermelha e um par de algemas inibidoras fortificadas para garantir que Coração Gelado não escapasse novamente das instalações.

— Você ficou com medo? — Huang perguntou para Jin Mi, preocupado.

Ela não largou o ursinho roxo em nenhum momento, porém não brincava com ele como costumava. De repente, não era mais uma brincadeira divertida dar vida às coisas — seu mundo de fantasias ruiu como um castelo de cartas.

— Um pouco — respondeu. — Mas eu sabia que viriam me salvar.

— Claro que iríamos. — Lay afagou sua face ruborizada sentindo o coração mais leve. — Você é nosso pequeno tesouro.

Nenhum dos heróis se encontrava em boas condições. O moreno estava com o ombro enfaixado e seria afastado das atividades do laboratório durante a sua recuperação e Yi Xing estava cogitando seriamente abandonar a vida de herói, pois tudo o que precisava para se sentir completo estava à sua frente.

Atrevido, o ruivo passou um dos braços pelos ombros do Tao, atraindo o olhar do maior para si.

— Vou morar com vocês — ele avisou.

— Quando foi que tomamos essa decisão mesmo?

— Depois que meu apartamento foi detonado.

Zi deu de ombros, mas não pôde evitar que um sorriso aparecesse.

— Papai — chamou Jin Mi. — Nós vamos para casa voando?

— Não mesmo. — Tao retirou o celular do bolso. Fora a tela trincada, nada mais estava danificado, por mais incrível que fosse. — Vou chamar um Uber.

O mundo dos heróis era cruel.

Existiam vilões por toda a parte e era um trabalho em tempo integral. Contudo, mesmo que aparente ser uma vida solitária, através de muito esforço era possível partilhar de momentos raros como aqueles com as pessoas que se amava. E como a maioria dos heróis depois de um trabalho terminado, o trio acompanhado de um ursinho roxo surrado nas mãos de uma garotinha com um futuro incerto caminharam rumo ao alvorecer.

Notas finais
Agradeço a @squirrelssi (Social Spirit) pela betagem, ela foi minha salvadora durante a minha busca desesperada por alguém que avaliasse essa fic em um único dia. Também gostaria de agradecer a @Helwa (Social Spirit) pela capa que aqueceu meu coraçãozinho, tô muito apaixonado, te amo mil milhões ♥

Espero que tenham gostado da história que foi postada no AO3 em 22/03/2021
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!