Hermione em: Harry Potter e a Pedra Filosofal

2 O embarque na plataforma nove e meia


Eu estava tão ansiosa por aquele primeiro de setembro que o mês de outubro pareceu se arrastar. Embora o mês anterior tivesse sido bastante enevoado e chuvoso, setembro chegou trazendo consigo um caloroso sol e nuvens tão brancas quanto algodão. Após pouco mais de meia hora no trânsito, chegamos na estação king’s Cross por volta das 11:15. Era demasiado cedo, mas eu estava intrigada com o número da plataforma informada na carta que eu havia recebido da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, então resolvi me antecipar no horário para não haver transtornos em relação a isso e também para evitar atrasos. Papai parecia nervoso e reprimido, mas nada comparado a mamãe: sua respiração estava instável e ela teimava em mordiscar as unhas de uma das mãos e segurar a minha com a outra. Andamos pela estação a passos miúdos e, quando finalmente avistamos a plataforma 9, vi exatamente o que eu desconfiava: não existia plataforma 9 e meia.
— Hermione, não existe a plataforma nove e meia, acho que deveríamos perguntar àquele guarda se ele sabe como resolver esse engano. — Disse papai, inclinando a cabeça na direção de um guarda que estava parado junto a plataforma 10.
— Não, papai. Devemos ser cautelosos. Não se preocupe, eu já pensei nisso, está tudo sob controle. — Tranquilizei-o e comecei a avançar até a barreira que ficava entre as plataformas nove e dez.
Parei diante da imensa parede e, lentamente, toquei o concreto. Como eu imaginara, a parede estava maleável, era um tipo de "passagem secreta." Tão óbvio e ao mesmo tempo tão inteligente, não sei como demorara tantos segundos para deduzir que era assim que se chegava a plataforma sigilosa, aposto que todos imaginam logo de cara."

Voltei alguns passos, para onde estavam meus pais, e dei um longo abraço no papai.

— Agora preciso ir, obrigada por tudo, vocês são os melhores pais dos mundo inteiro! — Afirmei enquanto me desprendia do abraço de papai e me direcionava a mamãe.
— Filha, estamos tão orgulhosos de você! — Começou ela enquanto me abraçava tão forte que achei que minhas costelas iriam se partir ao meio. — Mas promete para a mamãe que você vai se cuidar e escrever sempre que puder?
— Sim, mamãe. — Respondi, e antes de voltar a falar, saí sutilmente do seu abraço, pois meu pulmão já estava quase sem ar nenhum. — Já fiz essa promessa quase o ano inteiro, desde o dia em que descobrimos que fui aceita na Escola. Vai ficar tudo bem! — Prometi com ar de quem tem certeza.

— Tudo bem, então. Mamãe e papai te amam! — Afirmou, tentando segurar o choro.
— Ah, mamãe, eu também amo vocês e vou morrer de saudades! Mas agora eu realmente preciso ir. — Falei enquanto contemplava seus rostos tão tristonhos mas ao mesmo tempo carregados de orgulho.

— Tem certeza de que precisa levar todos estes livros? — Indagou papai subitamente

Não verbalizei uma palavra sequer, nós já tínhamos conversado sobre isso em casa e eu havia explicado a ele que precisava refazer essas leituras na Escola para o caso de esquecer algum detalhe. Sendo assim, apenas o olhei com o olhar enviesado de quem não vai mais discutir o assunto.

— Escreva nos contando como é a escola e sobre seus novos amigos — Ele trocou o assunto entendendo que o outro já estava encerrado.

— Farei isso com muito prazer. — Falei sorrindo, sentindo minha empolgação vir à tona.

Dei quatro passos até onde estavam duas malas: uma abarrotada de livros e outra com o restante dos meus pertences.

— Se cuidem na minha ausência, tudo bem? — Brinquei, mas eles não riram (não sou o tipo de pessoa que sabe ser engraçada e descontraída, não que eu me orgulhe disso).

— Filha, tente se divertir um pouco, sabe, não precisa ficar estudando a todo o tempo — disse mamãe num tom preocupado.

Posso adivinhar o que ela está pensando: em mim, sentada a um canto, estudando sem parar e sem fazer amigos nenhum. Certamente é porque todo o meu período na escola de trouxas foi assim, mas ela não pode me culpar por preferir os livros, mamãe não imagina como é ter colegas tão alienados que só ficam por aí falando besteiras e pior: colando nas provas. Aposto que na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts todos os alunos são aplicados e interessados. Por isso tenho estudado tanto, não posso chegar lá sabendo tão menos que eles, já que a maioria nasceu de famílias de bruxos, já tem uma base desde o berço. Preciso me apressar e estudar muito mais.

— Vai ficar tudo bem, mamãe. Não se preocupe. — Afirmei já rumando até a barreira que me levaria até a plataforma nove e meia.

— E não esqueça de passar fio dental todas as noites antes de dormir — ouvi ao longe a voz de papai já quase inaudível devido ao tumulto de pessoas que caminhavam às minhas costas.

Olhei cuidadosamente a todos os lados e, quando tive certeza de que ninguém estava olhando, passei com cautela pela parede esponjosa.
O lugar era realmente mágico. Havia pessoas, não muitas, alguns gatos andando entre as pernas de seus prováveis donos e corujas piando, exasperadas, presas em gaiolas. Mas o que mais chamava a atenção era a imensa máquina a vapor que estava parada na estação. Uma locomotiva vermelha que liberava fumaça para todos os lados. Não consegui conter o riso ao divisar o letreiro no alto da transporte que informava: “Expresso Hogwarts, 11 horas”. Apressei o passo para entrar logo e ter a chance de escolher um bom lugar, mas uma saliência abaixo do meu pé esquerdo e um grito alto e agudo me fez parar imediatamente. Olhei para baixo e vi um lindo gato siamês se afastando as pressas de mim. Instintivamente sussurrei: “me desculpe”, e poderia jurar que o animal entendera, pelo olhar desafiador que me lançou antes de se virar e seguir em frente.

Embarquei na locomotiva e encontrei o segundo vagão vazio. Ocupei o espaço com meus pertences e antes de guardar as malas no compartimento, retirei de uma delas o livro Hogwarts, Uma História e de outra as minhas vestes da Escola. Deixei o livro em cima do banco, junto à janela e saí para procurar o banheiro a fim de ter mais privacidade ao vestir o uniforme.

Quando voltei a cabine, havia um menino sentado no banco em frente ao que eu reservera.

— Com licença — comecei, me aproximando dele — me chamo Hermione Granger — e o ofereci a mão direita para cumprimentá-lo.

O rosto do menino lembrava o sol poente, redondo e avermelhado. Acho que andou chorando.

— Perdi meu sapo! — Sussurrou ele, limpando o nariz que parecia entupido.

— Ah, sinto muito. Você quer ajuda para procurá-lo? — Perguntei, sinceramente preocupada enquanto guardava a mão antes que ele pudesse apertá-la com a mão suja de meleca.

— Eu o perdi antes de subir no trem, ele simplesmente pulou das minhas mãos lá fora e eu não o vi mais. — Depois de pronunciar a última palavra, ele deu início a uma série de soluços mesclados a um choro abafado.

— Não fica assim! — Falei e pus uma das mãos sobre sua cabeça e acariciei seus cabelos, tentando consolá-lo.

Entrementes, uma menina de cabelos alaranjados adentrou a cabine.

— Olá, posso ficar… — Ela se deteve ao notar que o garoto chorava. — O que aconteceu?

— Ele perdeu o sapo. — Expliquei.

Ela abriu a boca para falar alguma coisa, mas acabou desistindo. Inspirou com força e sentou-se ao lado dele, colocando uma das mãos em suas costas e dando umas batidinhas. O menino baixou a cabeça e encolheu os ombros, chorando mais alto agora. Nós nos entreolhamos, ambas sem saber o que dizer a ele. Foi então que uma quarta pessoa invadiu a cabine. Um garoto magricelo de cabelos curtos e bem penteados chegou carregando algo entre nas mãos: um grande, feio e esverdeado sapo.

— Oi! — saudou ele. — Por acaso viram um garoto chamado Neville?

— Eu me chamo Neville! — Disse o menino que ainda chorava sem parar, mas permanecia com os olhos grudados no chão.

— Ah, olá! Uma senhora me pediu para eu encontrá-lo e entregar esse sapo. Acho que é seu.

Neville levantou-se num ímpeto e quase derrubou a menina ruiva que estava abraçada nele.

— Trevor! — Ele gritou, adiantando-se para segurar seu sapo.

— É, pelo jeito você estava esperando por ele. — Entregou o sapo a Neville, limpou as mãos no casaco e deu alguns passos em direção a um assento livre ao lado de onde se encontrava meu livro. — Tudo bem se eu me sentar aqui com vocês?

— Claro! — Me antecipei em responder.— Me chamo Hermione Granger. E você?

— Sou Blás Zabini! — respondeu e em seguida sentou-se — Acho que o trem vai sair logo, está um tumulto de alunos lá fora. — Comentou.

— Por isso eu preferi chegar cedo! — Afirmei e ocupei o assento ao seu lado. — Não gosto de bagunça e algazarra, sempre que posso evitar, o faço.

Ele me observou com um certo interesse.

— Hum… Quantos anos você tem, Hermione? — Indagou, curioso.

— Doze incompletos. Tecnicamente ainda tenho onze, mas daqui alguns dias é meu aniversário. — Expliquei animada. Adorava o fato de estar ficando mais velha.

— Sério? — Perguntou, incrédulo. — Achei que já tivesse uns quarenta, pela falta de senso de humor e chatisse evidente.

Neville e a garota, que agora estavam sentados no assento a nossa frente, riram na mesma hora. Mas se obrigaram a abandonar o riso quando eu os lancei um olhar de pura ofensa. As bochechas da pequena ruiva enrubesceram.

— Nossa, como você é engraçadinho, morri de rir! — Me inflei de dignidade e respondi a Blás, sem demonstrar um sorriso sequer no rosto.

Ele achou graça e estalou a língua, mas antes que pudesse responder, um garoto baixinho entrou timidamente no compartimento.

— Ér… Oi. O trem já está quase cheio, será que eu posso me sentar por aqui?

— Simas! — Exclamou a garota.

— Susana? — Perguntou com a voz baixa, mais para si mesmo do que para ela. — Achei que você fosse mais nova que eu, como pode estar indo para Hogwarts?

— Na verdade eu fiz onze anos há alguns dias, minha carta chegou de última hora, mas conseguimos comprar tudo a tempo!

— Isso é ótimo, Susana! — Ele sentou-se ao lado dela, parecendo muito animado. — Mas me conta, como vão seus pais?

Pigarreei alto.

— Ah, pessoal — começou ela, percebendo minha interrupção voluntária. — Esse é meu amigo Simas! Para falar a verdade, não nos vemos há alguns anos, desde que me mudei de Cambridge.

— Olá Simas. Me chamo Hermione Granger. E esses são Neville e Blás. — Apresentei apressadamente, apontando para os meninos.

— Agradeço a apresentação, Hermione. — Agradeceu Blás, com a voz cantarolante ao pronunciar meu nome.

Revirei os olhos para ele e abri meu livro. Ouvi um apito tocar e, momentos depois, a locomotiva deu partida em direção a minha nova Escola.

Meus quatro prováveis novos colegas permaneceram os minutos seguintes conversando sobre assuntos banais. Eu lia atentamente meu livro, mas também prestava atenção na conversa deles, para o caso de ouvir algo de extrema importância ou talvez precisar fazer alguma interferência. Quando estavam debatendo sobre qual casa de Hogwarts queriam pertencer, um comentário de Simas me chamou a atenção.

— O que você disse? — Perguntei olhando absorta para ele.

— Que meus feitiços nunca funcionam?

— Não, antes disso.

— Ah, que o diretor pertenceu a Grifirória? — Recordou

— Sim! Isso. — Respondi, excitadíssima. — Uau! Isso é o máximo! Eu já simpatizava com a Grifinória antes, quero dizer, muitas pessoas no Beco Diagonal me disseram que é a melhor de todas as quatro casas. Agora então, quero mesmo ir para lá! Na verdade, eu já tinha pensado na hipótese de escolher a Corvinal, dizem que os bruxos mais aplicados e inteligentes estão todos lá, mas agora não tenho dúvidas de que quero ir para a Grifinória. Vocês sabem né, o Diretor Dumbledore é o bruxo mais poderoso do mundo! Temos muita sorte de ter ele como líder.

Blás inspirou e expirou alto.

— Garota, você não respira não? — Perguntou, parecendo indignado.

— O quê? Por que diz isso? — Pisquei descontroladamente depois de fazer a pergunta.

— E você ainda pergunta? Nossa! — Virou-se para a frente e cruzou os braços. — Espero que você fique lá pela Grifinória mesmo, tenho certeza de que não vou para aquela casa de exibidos mesquinhas, e o meu maior desejo no momento é ficar em qualquer casa em que eu não seja obrigado a ficar ouvindo você falar sem parar. — E me olhou antes de terminar — Sua sabe-tudo.

Enchi o pulmão de ar para responder, mas antes de desgrudar os lábios, percebi que me faltaram palavras.

Passado alguns segundos — que pareceu uma eternidade — sem ninguém falar uma palavra sequer, olhei ao redor e vi Simas, Susana e Neville, sentados um ao lado do outro, tão constrangidos quanto eu. Me sentindo triste, vulnerável e, ao mesmo tempo, a ponto de explodir de tanta raiva e humilhação, decidi voltar os olhos para meu livro e fingir que nada daquilo acontecera.

Algumas horas mais tarde, quando todos, inclusive eu, já estavam mais calmos e a vontade, pude ouvir o alvoroço que vinha dos corredores e das outras cabines se intensificando. Que decepção! Eu me enganara. Os alunos de Hogwarts eram tão bagunceiros quanto os alunos da minha antiga escola. Me recostei na janela e observei a paisagem formada por pequenas árvores que mudava rapidamente, mas meu momento de aprazibilidade passou imediatamente quando ouvi um berro de Neville.

— Trevor! Volte aqui!

Ao que parecia, o sapo dele fugira mais uma vez. O garoto saiu correndo cabine afora, deixando todos nós espiando com a cabeça inclinada para a porta, num prolongado silêncio.

— É — Blás quebrou a mudez — Dessa vez a vó não está aqui para encontrar o sapo para ele. — E riu com ar de deboche.

— Ao invés de ficar rindo — bradei olhando fixamente nos olhos dele — você deveria ajudá-lo a procurar!

— Vai você então, deve saber onde ele está, já que é uma sabe-tudo! — Retorquiu

— Eu vou! Mas não só para ajudá-lo, vou porque não suporto ficar nem mais um minuto nessa cabine respirando o mesmo ar que certas pessoas! — Deixei meu livro em cima do banco e, antes de abandonar o cômodo, lancei a ele um olhar mortífero.

Ao sair da cabine, quase trombei com uma mulher que vinha carregando um carrinho aparentemente lotado de doces e comidas nada saudáveis.

— Desculpe — Falei rapidamente

— Vocês, alunos… Não param de correr um minuto! — Comentou num tom simpático e divertido. — Não vou me surpreender se ver um caído pelos corredores daqui a pouco.

E seguiu em frente, ainda sorrindo e balançando a cabeça.

Estava pronta para ir atrás dela e dizer que não sou como o restante dos alunos, mas desisti ao avistar Neville, quase no outro extremo visível do corredor, saindo desamparado de dentro de uma cabine. Caminhei apressadamente até onde ele se encontrava, desviando de alguns alunos que passavam correndo em completa desordem pela reduzida passagem, no mesmo momento que o via bater à porta e adentrar a outra cabine.

Cheguei até o lugar onde o vi exatamente quando ele tristemente deixava a cabine, fechando a porta atrás de si.

— Nada? — Perguntei, mesmo sabendo que a resposta seria não.

Ele não respondeu, em vez disso, soluçou e deixou uma lágrima escorrer por seu rosto redondo.

— Tenha calma, eu vou te ajudar a encontrar o Trevor, tudo bem? — Ele assentiu com a cabeça e limpou a lágrima com as costas da mão. — Você viu por onde ele foi, Neville? — Perguntei.

— Por aqui. — Murmurou.

— Vamos começar perguntando no último vagão, então, e depois... — Comecei, enquanto andava em direção ao final do trem, mas ele me interrompeu.

— Mas eu já perguntei por lá, ninguém o viu. — Disse, andando atrás de mim

— Depois vamos perguntar no penúltimo, no antepenúltimo e assim sucessivamente. — Concluí, ignorando completamente o que ele acabara de falar.

Chegando ao limite do trem, adentrei o último vagão.

— Com licença — falei, ao ver todos os rostos se voltarem para mim. — Por acaso, algum de vocês encontrou um sapo?

Os alunos trocaram olhares em silêncio, até que uma menina loura que aparentava ter uns 15 anos falou:

— Não, o seu amigo aí saiu daqui não faz nem cinco minutos. Nenhum sapo entrou aqui, posso garantir.

O garoto sentado ao lado dela abafou um riso e a colega o cutucou tentando fazê-lo ficar calado, mas rindo também.

— Do que você está rindo? — Perguntei exasperada — Vocês estão tentando nos enganar com alguma brincadeira idiota, é?

Passando os olhos pelo vagão, rapidamente percebi que havia uma pequena bandeirinha verde e prata, tinha uma serpente bem no centro e estava pendurada no vidro da janela. Obviamente aqueles alunos pertenciam a Sonserina. Eu tinha lido sobre as quatro casas de Hogwarts em: Hogwarts, Uma História, e, se pudesse escolher, não gostaria de pertencer àquela casa, levando em consideração o número — não exato, mas significativo — de alunos que viraram seguidores de Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado.

— Ah, dá um tempo novata! — Disse um outro garoto sentado no lado contrário ao que eu encarava o imbecil debochado — O que iríamos querer com um sapo? Temos coisas mais interessantes para fazer. E você não deveria estar perdendo seu tempo procurando esse sapinho perdido, aposto que a essa altura ele não está nem respirando mais. — Ele riu e todos os outros fizeram o mesmo. — Agora se puderem fazer o favor de cair fora.

Soltei o ar com força e abandonei a cabine, mas tive que voltar para puxar Neville que, pateticamente ficou lá parado, aterrorizado e sem reação nenhuma.

— Tudo bem, Neville. Nós vamos encontrá-lo! Não dê ouvidos a esses babacas. — Falei, depois de abandonarmos aquela cabine e nos dirigirmos a penúltima.

Já sem muita paciência e com bastante pressa, abri abruptamente a porta a minha frente.

— Alguém viu um sapo? Neville perdeu o dele. — Falei, tentando ser o mais inflexível possível, para o caso de mais alguém tentar alguma gracinha.

Havia apenas dois garotos neste vagão. Os dois pareciam ser novatos, como eu. Um era moreno, com os olhos verdes vívidos e os cabelos mais embaraçados que eu já vira na vida. O outro tinha os cabelos vermelhos e o nariz um pouco grande para o rosto pequeno. Reparei também que o ruivo tinha um rato adormecido em seu colo. Mas o que mais me chamou a atenção, foi a varinha que o garoto dono do rato brandia. Ele estava prestes a fazer alguma mágica.

— Já dissemos a ele que não vimos o sapo. — Respondeu o garoto que segurava a varinha. Mas o sapo de Neville podia esperar, eu queria vê-lo praticar magia.

— Você está fazendo mágicas? Quero ver. — Afirmei e em seguida sentei-me à sua frente, ao lado do menino despenteado.

— Hum… Está bem. — Disse, e pigarreou antes de continuar:

— Sol, margaridas, amarelo maduro, muda para amarelo esse rato velho e burro.

Assim que terminou a frase, balançou a varinha na direção do rato e esperamos um instante.

Nada aconteceu.

— Você tem certeza de que esse feitiço está certo? — Questionei. — Bem, não é muito bom, né? Experimentei uns feitiços simples só para praticar e deram certo. Ninguém na minha família é bruxo, foi uma surpresa enorme quando recebi a carta, mas fiquei tão contente, é claro, quero dizer, é a melhor escola de bruxaria que existe, me disseram. Já sei de cor todos os livros que nos mandaram comprar, é claro, só espero que seja suficiente. Aliás, sou Hermione Granger, e vocês, quem são?

Os garotos se entreolharam, pareciam espantados. Não entendi por quê.

— Sou Rony Weasley. — O ruivo que não era muito bom com feitiços respondeu primeiro.

— Harry Potter. — Declarou o garoto de olhos verdes e cabelos desgrenhados.

Harry Potter! Ele estava presente em muitos dos livros que eu havia lido neste último ano. Era o garoto que sobreviveu, na noite que Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado perdeu seus poderes. Os livros dizem que o bruxo das trevas lançou a maldição da morte nos pais de Harry primeiro, porém, quando foi lançá-la sobre o garoto — que era apenas um bebê indefeso — de alguma forma, a magia negra não funcionou e o menino sobreviveu. Claro que eu já sabia que ele entraria para Hogwarts no mesmo ano que eu, pois conferi as datas e tínhamos a mesma idade, mas não imaginava que já o conheceria no trem.

— Verdade? Já ouvi falar de você, é claro. — Falei, me dirigindo a Harry. — Tenho outros livros recomendados e você está na História da magia moderna e em Ascensão e queda das artes das trevas e em Grandes acontecimentos mágicos do século XX.

— Estou? — Perguntou ele, parecendo surpreso e impressionado.

Concluí que o garoto tampouco sabia sobre seu passado.

— Nossa, você não sabia, eu teria procurado saber tudo que pudesse se fosse comigo. — Admiti, e imediatamente troquei de assunto. — Já sabem em que casa vão ficar? andei perguntando e espero ficar na Grifinória, me parece a melhor, ouvi dizer que o próprio Dumbledore foi de lá. Mas imagino que a corvinal não seja muito ruim… Em todo o caso, acho melhor irmos procurar o sapo de Neville. — Notei que Neville continuava parado junto a porta, inexpressivo. — E é melhor vocês se trocarem, sabe, vamos chegar daqui a pouco.

Terminando de falar e desocupei a cabine dos meninos, levando Neville comigo.

Passamos rapidamente pelo corredor e entramos na terceira cabine. De um lado se encontrava um menino solitário, concentrado na leitura de um livro intitulado Quadribol Através dos Tempos (inclinei um pouco a cabeça e consegui ler a capa), e do outro avistei três garotas absortas numa revista que continha fotografias de bruxos famosos.

— Olá, alguém viu um… — interrompi a frase ao ver Trevor pular sobre os cabelos da menina que estava sentada mais próxima a janela. Ela ficou inerte, incapaz de manifestar qualquer reação. A garota era muito bonita, morena, e seus cabelos eram lisos e alongados. — Ah... — Tentei pensar em como ajudá-la. Suas amigas estavam tão concentradas na revista que nenhuma pareceu se dar conta. Olhei para o menino a procura de ajuda, mas ele tampouco tirara os olhos do seu livro. Para minha sorte — ou da garota — três garotos entraram logo atrás de nós.

— Olívio, você precisa ver o que o Lino tem nesta caixa — Começou um garoto muito alto e ruivo, seguido nos calcanhares por outro que tinha exatamente a mesma aparência. Eram gêmeos idênticos. O terceiro garoto era moreno e vinha logo atrás deles.

— Angelina! — Exclamou o outro gêmeo, indo em direção a garota que mantinha o sapo preso nos cabelos. — Fique parada! — Pediu. (Como se ela conseguisse se mexer)

Então enfiou as duas mãos nos longos cabelos da garota e tirou Trevor de lá!

— Não sabia que você tinha um sapo de estimação. Maneiro! — Exclamou elevando o sapo e mostrando ao irmão.

A garota olhou horrorizada, sem conseguir verbalizar uma única palavra. Tocou os cabelos e fez uma careta.

— Trevor! — Bradou Neville

— Esse sapo é do Neville. — Voltei a falar.

— E quem seria Neville? — Perguntou o garoto que entrara na cabine com os gêmeos.

— Aliás, quem é você?

— Sou Hermione Granger. Esse — puxei Neville para que todos pudessem notá-lo — é meu amigo Neville. E esse — apontei para o sapo que continuava erguido no ar por um dos gêmeos. — É o sapo dele que fugiu.

— Entendi — disse o gêmeo que segurava o sapo. — Tudo bem então, pega aqui seu sapo. — E carregou o animal em direção a ele, se detendo antes de entregá-lo. — Mas antes… Você não gostaria de dar um beijinho de despedida nele, Angelina? — E empurrou o sapo na direção dela.

A menina se encolheu no banco.

— É, vá que ele vire seu príncipe encantado! — Acrescentou o outro gêmeo.

— Cala a boca, Fred! — Ralhou ela. — Não tem graça.

— Na verdade tem sim, não tem, Alicia?. — Perguntou a garota que estava sentado no meio, olhando debochada para a outra amiga do trio.

— Até vocês, Alicia e Katie? — Repreendeu as colegas, mas depois as três riram.

Todos na cabine acabaram rindo da brincadeira dos gêmeos, até mesmo Neville e eu. O ruivo entregou o sapo a Neville enquanto Olívio, que estava sentado em um canto e ainda não havia tido a oportunidade de falar, começou um assunto sobre o time de quadribol que supostamente eles faziam parte e argumentou que precisavam fazer um teste entre os quartanistas para encontrar um novo apanhador. Me retirei do aposento antes de ouvir a resposta dos seus colegas de time.

— Neville, vá vestir seu uniforme, acredito que não falta muito para chegarmos à escola. — Ordenei. — Eu vou falar com o maquinista.

Ele assentiu com a cabeça e saiu a passos sinuosos e largos, carregando seu sapo nos braços. Caminhei até a cabine do maquinista, abri a porta e, antes dele notar minha presença, perguntei num tom alto se faltava muito para chegarmos. Ele pareceu espantado com a minha presença, mas respondeu que chegaríamos em alguns minutos. Saí de lá e comecei minha caminhada em direção à minha cabine, mas parei imediatamente ao lembrar de Blás. Eu não podia voltar, não queria revê-lo. Então me veio à cabeça os dois meninos que eu havia conhecido a pouco: Harry Potter e Rony. Eles eram bem simpáticos. Decidi ir até o compartimento que eles ocupavam.

Antes de adentrar a cabine, vi três garotos saírem de lá às pressas e correrem feito loucos pelo corredor, os rostos carregados de temor. Me perguntei o que poderia ter acontecido e apertei o passo para chegar a cabine e descobrir logo o motivo de tanto pânico.

— Que foi que aconteceu? — Perguntei imediatamente ao mirar os dois meninos.

O chão estava banhado de doces, por todos os lados. Rony estava pegando seu rato, ainda desacordado, que estava misturado num montinho de sapos de chocolate.

— Acho que apagaram ele — disse Rony, analisando seu rato. — Não… Não acredito… ele voltou a dormir. — constatou, tristemente.

Ia dar início ao meu interrogatório quando Rony terminou de sentar-se e voltou a falar:

— Você já conhecia Draco Malfoy?

— Ah, sim. Mais ou menos. — Harry começou a explicar. — Eu o encontrei numa loja de roupas quando fui comprar o meu uniforme, no Beco Diagonal. Mas não gostei nem um pouco dele, já de cara me pareceu metido e de má índole.

— Já ouvi falar na família dele — comentou Rony, olhando para Harry com a voz baixa. — Foram os primeiros a voltar para o nosso lado depois que você-sabe-quem desapareceu. Disseram que tinham sido enfeitiçados. Papai não acredita nisso. Diz que o pai de Draco não precisou de desculpa para se bandear para o lado das Trevas. — Parou um instante e olhou para mim. — Podemos fazer alguma coisa por você?

— É melhor vocês se apressarem e trocarem de roupa. Acabei de ir lá na frente perguntar ao maquinista e ele me disse que estamos quase chegando. — Comuniquei.

E, lembrando da confusão anterior, perguntei:

— Vocês andaram brigando? Vão se meter em encrenca antes mesmo de chegarmos lá! — Alertei.

— Perebas andou brigando, nós não — Disse Rony, com cara feia — Você se importa de sair para podermos nos trocar?

— Está bem, só vim para cá porque as pessoas nas outras cabines estão se comportando feito crianças, correndo pelos corredores. — Falei, omitindo a parte em que eu não voltara à minha cabine por causa de Blás e de como ele havia me deixado amargurada. — E você está com o nariz sujo, sabia? — Mudei de assunto, percebendo uma mancha preta no nariz de Rony.

Girei nos calcanhares e saí de lá.

Estava passeando pelos corredores e esquematizando um plano para pegar meus pertences sem precisar dar de cara com Blás, quando uma voz estrídula ecoou pelo trem informando: “Vamos chegar a Hogwarts dentro de cinco minutos. Por favor, deixem a bagagem no trem, ela será levada à escola.”

Um sorriso satisfeito brotou em meu rosto ao passo que alguns alunos abandonaram suas cabines e começavam a andejar pelo corredor. Avistei Neville saindo da cabine, sua cabeça apontava para o chão, aparentemente procurava alguma coisa. Ah, não, de novo não.

— NEVILLE! — Gritei.

Imediatamente ele me olhou. Os cantos de seus lábios caíram e vi o brilho de seus olhos. Ele estava a ponto de chorar. Avancei rapidamente em sua direção, enquanto ele fazia o mesmo para me encontrar.

— Ele fugiu de novo, Hermione! Trevor está desaparecido! — Choramingou.

— Ah, Neville. — Foi o máximo que consegui dizer.

O tumulto de alunos foi crescendo e radicalizando. Eles empurravam uns aos outros e pareciam se divertir com isso. Conduzi Neville segurando um de seus braços até a porta de saída do trem, e ficamos lá esperando em meio a empurrões e gritaria, até o veículo começar a diminuir a velocidade e, finalmente paralisar.

Fomos um dos primeiros a desembarcar. Já era noite e o vento frio me fez tremer.

— Hermione, e o Trevor? Não posso deixá-lo lá! — Disse e apontou para o trem com o nariz curvo.

— Tudo bem, eles vão encontrá-lo. Confie em mim. Mas agora precisamos encontrar o caminho até a escola.

Eu mal terminei a frase e ouvi uma voz alta e clara bradando:

— ALUNOS DO PRIMEIRO ANO, POR AQUI! ALUNOS DO PRIMEIRO ANO!

Avistei uma luz que balançava para lá e para cá, como se alguém a estivesse sacudindo. Mas era impossível, a luminosidade vinha de muitos metros acima da minha cabeça, a não ser que um gigante segurasse a tal luz, era impossível que estivesse sendo carregada por um humano.

Mas estava.

Era um humamo

Era um gigante

Era um humano gigante.

— Por aqui. — Apressou-se em dizer, ao observar Neville e eu parados, completamente apavorados.

Permanecemos em constante silêncio até que ele conseguiu reunir todos os alunos do primeiro ano. Estava escuro como breu e fomos guiados apenas por sua luminária num caminho apertado e assustador. O Chão estava bastante lamacento e escorregadio, talvez fosse por isso ou pelas pernas bambas de medo que a maioria dos novatos estavam por causa do gigantesco homem, o caso é que houveram muitos tropeços e escorregadas durante o pequeno trajeto.

— Vocês vão ter a primeira visão de Hogwarts em um segundo, logo depois dessa curva. — Anunciou o homem.

Demos mais alguns passos e, ao ver a paisagem, todos murmuraram encantados. Estávamos diante de um imenso lago ainda mais escuro que a noite, se é que isso era possível. Ao longe, na outra extremidade, havia um grandioso castelo, com muitas torres de todos os tamanhos e, presente nelas, muitas janelinhas brilhantes.

— Só quatro em cada barco! — Informou o homenzarrão.

Só então percebi que havia uma porção de barquinhos parados na margem do rio. Um a um, fomos nos direcionando aos barcos e formando quartetos. Observei Harry e Rony subir em um dos barcos, segurei Neville pela mão e fui de encontro a dupla. Deixei Neville subir primeiro, o dando sustentação com a minha mão para que ele não caísse — o garoto era muito desastrado. — E subi logo depois, sentando-me ao seu lado.

— Todos acomodados? — Ouvi a voz grave perguntar. — Então… VAMOS! — E observei o homem pegar um barco só para ele.

Ao mesmo tempo, todos os barquinho flutuaram sobre o rio. Fez-se um silêncio absoluto quase todo o tempo, todos estavam impressionados e maravilhados com a linda visão do castelo, que quanto mais se aproximava, maior ainda aparentava ser. O silêncio foi quebrado pela voz do nosso guia gigante:

— Abaixem as cabeças! — Ordenou

Imediatamente me inclinei para baixo e precisei dar um leve tapa no braço de Neville para que ele fizesse o mesmo. Havíamos chegado ao penhasco que sustentava o castelo. Sem perceber, fomos engolidos por um túnel que parecia nos levar para baixo da construção. Desembarcamos ali mesmo, pisando em pedras que não pareciam muito consistentes.

— Ei, você aí! É o seu sapo? — Perguntou o homem, que agora estava dando assistência aos novos alunos que saiam dos barquinhos.

— Trevor! — Berrou Neville, já estendendo os braços para apanhar o sapo.

— Está aqui. Um garoto chamado Simas o encontrou e pediu que eu o entregasse a você.

— Obr-brigado Senhor — gaguejou Neville.

— Hagrid — disse — Pode me chamar de Hagrid. — E deu um sorriso amigável ao garoto, que já segurava o sapo em uma das mãos.

Hagrid virou-se e abriu caminho por uma passagem que levava para cima, iluminando o caminho com sua lanterna. Não muito tempo depois, chegamos a um gramado molhado e aparentemente limpo, na orla do castelo. Subimos uma curta escada de pedra e nos distribuimos em torno de uma enorme porta de carvalho. Procurei ficar bem à frente, para poder ver cada detalhe depois que a porta fosse aberta.

— Estão todos aqui? — Perguntou ele, assim que se pôs diante da porta. — Você aí, está com seu sapo? — Averiguou se Neville não tinha mais perdido Trevor.

E, virando-se de costas para nós, elevou o punho para bater à porta.

Ouvi apenas três batidas na madeira, mas no meu coração as batidas estavam descompassadas.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.