Hermione, A Diva
4 Capítulo 4 - Rá e Yahweh
Notas iniciais
Rá e Yahweh
Um segundo depois que as portas dos quartos se fecharam Hermione ajoelhou-se aos pés da cama de Harry.
— Eu disse para você dormir, criança!
— Dormir, você disse, dormir?!!! Escute meu coração, Hermione! A sua presença já me tira o sono, some a isto toda esta história de viagem no tempo, sangue do cristo, relíquias da morte, vinho dos céus... sem contar sua encenação com a varinha. Sei que você não precisa disso.
— Sei que você sabe, a varinha não participou de nada mas para meus pais seria muito chocante saber toda a verdade de uma vez só. Até você que está acostumado com as loucuras do mundo bruxo, teve dificuldades!
— Ainda não entendi direito...
— Já lhe disse! Sou algo além de uma bruxa, Harry! Vou continuar aluna em Hogwarts, mas sou mais poderosa que o Dumbledore e a Minerva juntos. Você se preocupa com o Voldemort, eu me preocupo com os que dão suporte a ele. A porta da morte não pode ser violada. Não se pode ir e vir. Seria o caos.
— E quem são eles?
— Seres além da compreensão humana, Harry, talvez o Dumbledore ou o Tom tenham tido uma ideia do que são. Um se afastou, só observa, mas já está abandonando este posto, o outro mergulhou de cabeça e está com a corda no pescoço. Talvez você o mate ou o salve, o certo é que é necessário que se defina de qual lado ele está. Ele não pode permanecer estacionado no portal.
— Nem morto e nem vivo?! Não pode ir porque está vivo e não pode voltar porque está morto?
— Algo assim. Aquilo que você viu na floresta proibida, matando um unicórnio, é apenas uma sombra do que ele é. Um espectro poluído com matéria de ambos os lados. É contra as leis de todos os deuses, de Rá a Yahweh! O que ele se tornou usando os ossos do pai é algo abominável, sem...
— Yahweh? Nunca ouvi...
— Ouviu sim, Harry. Só que criaram um tabu de que não se deve pronunciar o nome Dele, então cultuam o nome do filho por Ele. Sendo venerado como o deus do universo, temos que respeitar. Já foi chamado de o deus dos sacrifícios ou da vingança.
— Meus tios vão à igreja e nunca falaram em sacrifício ou vingança.
— Isaac, Jó, Jesus...
— Mas Hermione, não foi...
— Eu sei, Harry. Não foram consumados, ninguém morreu. Porém, imagina a tortura, catar lenha para fazer churrasco da própria carne! E Jó? Do topo do mundo ao fundo do poço, sem recursos, sem família, sem saúde só porque seguia as regras impostas por Ele. No entanto, a ideia ficou na história, sobrepujou o tempo.
— Como assim, ninguém morreu! O Crucifixo...
— Harry, o calvário, a cruz, os pregos, a humilhação, o solo imundo absorvendo as gotas de um sangue santificado, o ápice da barbárie humana, tudo isso é verdade, porém não existe avada Kedavra que dê solução de continuidade à vida do filho de um deus tão poderoso.
— Está me dizendo que foi tudo uma farsa?! Qual é...?
— Farsa não, mas você conhece a versão para gerar adeptos, prosélitos. Ele não deixou Isaac e Jó morrerem, porque deixaria o próprio filho?! Aquele povo tosco e inconstante, aquela mixórdia de templos locais e quartéis de Roma, um prostíbulo de nações e ritos sanguinários, uma terra de ninguém, merecia tamanho sacrifício?!
— Talvez por isso mesmo, ou você tem uma versão melhor?
— A melhor é esta que chegou aos seus ouvidos, certamente foi elaborada por Ele, contudo, posso te assegurar que aquela semana foi um show de horrores. Naquele domingo, os portões da cidade eram um tumulto só, todos com galhos, folhas e flores nas mãos. Tudo para enfeitar o caminho para a passagem de um homem em um burrico. Dava dó. Era um burrico tão pequeno que os pés do homem quase tocavam o chão.
— Foi uma linda festa – prosseguiu – e até o burrico parecia feliz. Porém à volta havia meios-sangues de todas as origens. Cada qual com seu propósito, uns a favor e outros contra. E pensar que o início foi uma festa. Me perguntei na hora em que ele mais precisou: aonde foi parar todos aqueles festeiros? Toda a turba que o seguiu de Betânia até Jerusalém?
Guardou silêncio, absorta em pensamentos que traziam um ar sufocante para o quarto, até que Harry se manifestou.
— Credo! Até parece que você estava lá!
— O povo de Osíris – continuou ela – não dava trégua, juntou-se aos de Júpiter e o ar ficou carregado. Tudo era tão urgente, tudo tão pela hora, que até para respirar estava difícil. Marte não tinha a paciência de seus aliados, queria sangue imediatamente. Trucidaria a cidade inteira e junto ia o Anunciado. A turma do deixa disso, preferia descobrir primeiro qual era a estratégia do oponente para depois agir. Quando se deram conta, uma terceira força havia tomado a iniciativa com uma estratégia de entregar o Enviado diretamente às mãos daqueles a quem Ele deveria liderar e que não tinham a fé necessária para crer Nele, pois alguém havia plantado a discórdia. Dentro do templo, que em tese era do Pai, ladravam os cães da desconfiança. Com o peso da prata de Zeus, e, enquanto alguns discípulos cochilavam, um dos doze foi comprado, precipitando os fatos.
Foram dias de dor e de sangue para os da terra, para os do céu foi tensão, desconfiança e cisma. Quem errou? Quem traiu? Quem se precipitou? Pois aquela não era a estratégia! Ninguém queria um herói. A não ser o...
Aí se deram conta da estratégia do sacrifício, mas já era tarde demais. Alguém fez o jogo do oponente...
Quando o Arrependido atirou as moedas no templo, eu as recolhi. Quando a turma de Osíris o seguiu, eu sabia qual era o desfecho. Mantive o foco no Predestinado. Assisti a pregação, a traição, a negação, o julgamento, a ausência dos prosélitos, o lavar de mãos e a condenação. Mitiguei suas dores, ajudei no peso do madeiro e chorei ao pé da cruz. Acima das nossas cabeças a batalha era iminente. Legiões de Yahweh, de Júpiter e de Zeus. Todos prontos para uma batalha sem precedentes. Eram tantos que a luz do sol não chegava ao Monte das Oliveiras. Até que, sob a escuridão que se fez ao meio dia, o Crucificado, ainda banhado em sangue, pediu água. Engoliu a beberagem que lhe deram em uma esponja e suas pernas cederam, ficou sustentado só pelos braços, foi perdendo o pouco da cor que lhe restava e parou de respirar. Fazia meu papel de carpideira, mas instintivamente, entre relâmpagos e o ribombar de um poderoso trovão, segurei o braço do guarda, que de lança em punho ia espetar as costelas do Crucificado, para que não furasse além do necessário a que se cumprisse o que estava escrito; enquanto lá em cima a guerra se iniciava. Raios e trovões engoliam aquele monte. Gente morreu e paredes se quebraram. O tal templo, onde recolhi as moedas, mesmo com toda a proteção dos céus, teve sua cortina rasgada de cima a baixo.
Ao pé da cruz, junto aos que choravam, havia alguém mais diligente, um tal José, da cidade de Arimateia, que mesmo sem ser parente, reclamou o corpo. Reconheci os poderes dele, uma aura vinculada àquela beberagem e ao Crucificado. Me fiz de Madalena e com um pouco de levitação, colaborei para descer o corpo da cruz, momento em que, acima de nossas cabeças os ânimos pareciam se açodar. Ajudei-o a envolver o corpo em um lençol branco e no translado do mesmo a uma caverna que servia de tumba. Dentro da tumba, José me olhava desconfiado, mas não dispensou a ajuda, para aplicar os unguentos a título de preparação do corpo. Em minutos as chagas se foram, mas ele havia perdido muito sangue, voltou a respirar mas continuava amarelo e imóvel. A noite corria e ele não se levantava. O benfeitor não sabia mais o que fazer, e desde que o Sacrificado começara a respirar mas não se levantara, ele ia ficando nervoso. Ao cantar do galo, conjurei um cateter com agulhas e fiz uma transfusão, e antes do amanhecer o Crucificado estava restabelecido.
Levantou-se, dispensando nossa ajuda, olhou para a porta, deu dois passos, abraçou José carinhosamente, como se este fora seu pai e em seguida voltou sua atenção para mim. Devassou minha alma, olhou dentro dos meus olhos. Abriu um sorriso luminoso e declarou:
— Em testemunho da verdade!
José parecia a angústia sobre pernas. Além da minha inusitada ajuda, e da minha ousadia em adentrar a tumba, coisa que as outras Marias não fizeram, preocupava-se com os possíveis e indesejados visitantes.
— Senhor temos que... – murmurou ansioso, sinalizando em direção à porta.
— Acalme-se José, sua vida é breve mas sua descendência terá terá mais dias.
— Senhor, os romanos... – tornou ele ainda na agonia.
— Não se preocupe, José, o Pai proverá – um sorriso e um tapinha nas costas foi o consolo que José obteve.
Comecei a ouvir os tacões das sandálias romanas se aproximando e nada da providência do Pai. José na angústia e ele na paz, me olhava sorrindo.
— Vá, José. Agora estou na casa do Pai. Feche a tumba e diga à Madalena que no domingo pela manhã eu a vejo aqui.
José nos olhou desorientado – cerrar dois vivos em uma tumba? Um recado para quem estava presente? – abraçou-O novamente, e no ritmo das sandálias romanas rumou à porta, mal olhou para mim e se foi.
— Flamell, o alquimista! – traduzi em murmúrio a imagem que me veio à cabeça.
A lápide obturou a cripta e por segundos ficamos no escuro, depois havia luz e Ele me perguntou:
— Então, Hermione, sabe para onde precisa me levar?
Fiquei tão surpresa que perdi o fôlego. Me fiz de tudo por ali, naquela semana, me fiz de Pedro e de João, de Centurião e de soldado, de enfermeira e de carpideira, e até das três Marias. José, o alquimista, viu a de Magdala e Ele via a Hermione. Ele riu do meu assombro e continuou:
— Preciso sumir desta terra e ficar longe dos olhos romanos. Minha sombra será maior que eu, então, já não sou necessário por aqui, porém a minha semente requer outros ares para florescer.
— Senhor, não é minha missão tirá-lo daqui – comecei insegura – porém existem terras muito além de Roma que...
Fui interrompida:
— Se meu Abba a colocou aqui é porque lhe cabe tais providências. Ele não lhe daria meu sangue se você estivesse fora do alcance das bênçãos Dele!
A princípio não entendi a frase mas me sentia muito diferente do que quando furei minha veia para hidratar as Dele.
— Senhor, e as demais passagens citadas nas escrituras. – Argumentei, novamente insegura.
— Minha filha, não seja como José, tenha fé e mantenha a calma, pois nenhuma letra escrita pelo meu Abba se perderá.
Lembrei-me de Freya e seu gesto. A janela de tempo e sol abriu-se tão naturalmente que me assustou. Mostrei-lhe as Higlands e as Lowlands. Sorriu em aprovação e fez mais uma observação:
— A Madalena vai adorar criar nosso filho em uma ilha!
Ainda abismada com a descendência anunciada, deixei ambos em uma daquelas ilhas e voltei para Freya.
Harry escancarou a boca, mastigou o ar, e depois que se recompôs, perguntou:
— Okay. Agora você acha que eu vou dormir?!
Hermione abraçou-o, beijou-o na boca e depois correu as mãos por sua testa murmurando um mantra suave e cheio de encantamentos. Segundos depois ele dormia o sono dos inocentes.
Fale com o autor