Heresia

9 Um motivo para lutar


Notas iniciais
Eu adoro feriados, gosto tanto que resolvi escrever. Espero que gostem!

Eu enterrei os pais do menino perto da casa, ele ainda dormia enquanto terminava de colocar as últimas pedras nos túmulos. Já era quase meio dia, a criança não havia acordado, eu olhava a casa toda queimada enquanto bebia um pouco de água e não parava de pensar. O que iria dizer aquela criança? O que faria com ela? Ele estaria bem? Será que se machucou. Pela primeira vez em séculos eu estava realmente preocupado com um humano, não vou mentir para ninguém, estava muito preocupado, ele era tão frágil, tinha no máximo seis anos, como não me preocupar?

O céu já começava a ficar avermelhado quando o menino começou a abrir os olhos.

— Onde estou? Quem é você? Disse a criança muito sonolenta e tentando se levantar.

— Calma! Disse eu segurando-o pelo braço quando o vi caindo – Façamos o seguinte, coma primeiro. Depois conversamos.

Eu lhe dei um pão e ele não recusou, estava realmente fraco e com febre. Sua pele estava queimando e olhos vermelhos, foi realmente um milagre não ter morrido, comia o pão cabisbaixo, deveria estar muito fraco, a mais fraca brisa ele tremia todo, isso me deixava muito triste.

— Pegue! Disse eu tirando o casaco de pele que vestia por cima de minhas vestes.

— Obrigado, você é realmente um anjo. Disse ele com um sorriso doce.

Assim que terminou de comer caiu cabisbaixo ao lado da árvore, voltou a dormir. E agora, o que eu faço? A única que conhecia que poderia me ajudar era Miguel, mas estávamos brigados (adivinha o motivo!) depois que ela me deixou louco de tanto falar de humanos, poxa não é tão difícil manter silêncio ou falar sobre o tempo, plantas ou coisas do gênero. Não tinha escolha, teria que chamá-la, ela era única que poderia curá-lo.

Pensei e pensei em uma oração para ela, mas não lembrava nada, até que veio um pedaço de uma em minha mente. Eu me ajoelhei, fechei os olhos e comecei a rezar:

— São Miguel arcanjo, vem em auxílio dos homens que Deus criou à sua imagem e semelhança e que remiu por alto preço da tirania do demônio. A Igreja Te venera como Guarda e Patrono.

Eu rezei algumas vezes, umas dez ou trinta vezes no máximo, até que ouvi a gostosa e inconfundível risada de minha irmã. Ela estava em cima de uma árvore.

— Que gracinha rezando.

— Preciso de ajuda, pode me ajudar?

— Claro, eu posso ajudar a criança.

Ela pegou um pouco de água de seu cantil, pediu para a criança beber, mas não engolir. Eu podia ver que enquanto a água estava em sua boca, Miguel rezava de olhos fechados, quando terminou pediu que o garoto engolisse toda a água. Ela pegou um pouco da água do cantil e com um pano limpou o rosto do garoto, o que sobrou fez outra oração e me pediu para lhe dar ao amanhecer e o que sobrasse ao anoitecer. Depois de feito seu trabalho, ela ia embora, mas eu a peguei pelo braço.

— Espere!

— Por quê?

— Porque... Porque eu preciso que você me perdoe. Não te deixo ir embora se não me perdoar.

— Que coisa mais boba, te perdoei no dia mesmo em que brigamos. Mas você precisa seguir seu caminho sozinho, não posso te acompanhar toda hora. Disse ela sorrindo – Porém não hesite em me chamar caso precise.

Ao amanhecer dei a água a aquele menino e contei-lhe sobre o que havia acontecido, ele chorou muito e ficou muito triste, mas pelo menos parecia que a febre havia abaixado.

— Você não tem tios, primos, alguém mais?

— Não, eram apenas eu e meus pais. Ele queria chorar.

— Eu entendo o que é sentir-se sozinho, se quiser chorar pode, vai sentir-se melhor, mas não resolverá. Disse eu, sou péssimo com as palavras.

O menino ficou cabisbaixo, mas não chorou.

— Você está certo. O senhor vai me proteger?

Eu não sabia o que fazer, mas não o deixaria sozinho, isso eu tinha certeza.

— Sim, até arrumar um lugar para você.

— É bom ter um anjo como proteção. Disse ele sorrindo.

— Hã?!

Na noite passada....

“Não!” Noah pulou em cima do menino o protegendo com seu próprio corpo, a viga caiu e parou há um metro dos dois.

O garoto olhou para cima, viu a viga cair enquanto Noah o segurava, mas não somente isso, viu o que os havia salvado, asas. Isso mesmo, asas, mas não com penas e ossos, na verdade parecia de uma renda trançada de fios de luz, os fios se entrelaçavam e formavam uma asa não tão grande e com a aparência de estar muito ferida, mas que os salvou.

O menino havia engolido muita foligem, por isso estava muito fraco e foi inevitável que a fraqueza o fizesse desmaiar. A casa em chama estava cada vez mais instável, não poderiam ficar lá mais tempo, se o próprio ar não os matassem, a construção faria isso.

Pelo corredor em chamas passaram o “anjo caído” com a criança em seus braços. Por mais que Noah não as visse, elas estavam lá, suas asas, essas eram impossível quebrar, arrancar ou mutilar, ninguém além de Deus poderia tirá-las. A criança abriu momentaneamente seus olhos e viu novamente as asas, elas os tampavam e impedia-os de se queimar.............

— Então foi isso que o ceifador quis dizer... Noah pensou alto.

— O que você disse?

— Nada, a propósito... Qual seu nome?

— Meu nome é Arthur e qual seu nome?

— Me chamo Noah.

— Você já foi anjo da guarda?

Aquela pergunta trouxe uma pequena dor no coração de Noah, lembranças o atormentavam. Ele não respondeu a pergunta do pequeno, apenas passou a mão em seu cabelo, a criança muito esperta respondeu:

— Deve ser, não vejo mais suas asas. Mas quando me salvou eu as via nitidamente, sem contar que eu as vi sumirem quando acordei, você deveria estar muito preocupado.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.