Notas iniciais
O começo está mais formal e um tanto mais difícil de ler, mas juro que com o passar dos capítulos irá ficar mais fluído.
Esse começo é só para dar uma ideia de o que ele passou, a história no geral não será assim.

Boa leitura!

Fé...

Algum dia você já perdeu a sua?...

Quem sou eu para falar de fé? Não sou humano, mas também não sou perfeito para se quer pensar em fazer esta pergunta. Principalmente porque perdi a minha por tanto tempo, que quando vi a luz novamente, ela quase me cegou. Mas Deus ama tanto seus filhos que me perdoou por meus pecados e me sorriu alegremente, me dando uma segunda chance.

Aliás, perdoe-me, não me apresentei ainda. Meu nome é Noah, Arcanjo Noah, Meu trabalho como meu próprio nome diz é dar conforto, mas eu recusei essa missão de Deus, por isso por muito tempo estive nas trevas. De que adiantava rezar todo dia se não tinha mais fé? De que adiantava rezar por meus irmãos humanos se eles também não tinham?

“O amor cura todas as feridas da ignorância”

Só quando realmente amei verdadeiramente alguém, depois de séculos sem se quer amar a mim mesmo eu entendi, entendi o amor de Deus. Mesmo cometendo uma heresia eu a amei, a amei mais que todos, mais que tudo.

Deus escreve certo por linhas tortas, e tudo que ele fez foi me ensinar a amar, amar à ele e meus irmãos humanos.

A minha missão era simples, dar o máximo de conforto e socorro à meus irmãos sem que eles percebam essa ajuda. O livre arbítrio existe, porém podemos interagir caso necessário, nosso pai nos dá a liberdade para ajudar nossos irmãos. Do mesmo modo demônios intervêm sobre humanos, só que para o lado negativo. Esse seria o famoso “equilíbro” das coisas.

Enfim, quando desci à terra, tudo que via eram trevas, raramente via alguém bom e puro de coração, mas logo a luz do individuo se apagava. Por muito tempo eu tive fé que eles poderiam melhorar, Deus tinha um plano para eles, deveria ter, essa era a única explicação e motivação que eu tinha.

Tentei, juro que tentei, tentei durante séculos, mas um dia comecei a perder gradativamente minha fé. Pouco a pouco fui perdendo a fé em meus irmãos, onde caminhava só havia neblina, era escuro.

No começo do século V ou idade média, começou a decadência total da minha fé. Pouco a pouco, dia a dia minhas penas foram caindo, com menos de 70 anos (Isso não é nada para um anjo) eu já não conseguia mais voar.

Admito, foi triste ver minhas penas ficarem secas como folhas no outono e caírem com um simples soprar de vento. Quando estava quase sem penas comecei a me sentir como derrotado, é estranho dizer isso, mas entrei em um estado lamentável e depressivo.

Humilhado!

Fracassado!

Inútil!

Meu pai confiou em mim, sempre me amou e confiou que eu faria o que era certo. Mas eu fui incapaz de realizar um pedido seu, ele confiou em mim, confiava que eu faria o melhor. O meu desgosto por mim mesmo era maior do que o pela humanidade.

Um dia fui tomar água à beira de um riacho, tirei a blusa que cobria meu peito e fui me lavar, quando cheguei na beirada do riacho vi meu reflexo. Comecei a chorar, não era mais um anjo, quase não tinha penas, mas minhas asas ainda estavam lá, porque os ossos que seguravam minhas penas ainda estavam lá.

AINDA ESTAVAM LÁ... AINDA ESTAVAM LÁ...

Dei um grito que mais parecia um rugido, até os pássaros que estavam por perto se assustaram. Peguei as roupas que havia tirado e me levantei, olhei novamente meu reflexo, não resisti e chorei, as lágrimas estavam misturadas com raiva, desgosto e tristeza. Caminhei até uma caverna que sabia que estava ali perto, chegando lá caí de joelhos.

— Senhor, meu pai, me perdoa!! Me perdoa!! Perdoe-me por ser incapaz, perdoe-me por ser fraco.

Passei as mãos sobre minhas asas, me veio à lembrança de como era bom voar, passar por entre as nuvens, sentir o vento forte e frio dos céu, ser um anjo. Tudo que me restavam eram aquelas asas, nunca mais seria o mesmo. Uma última lágrima caiu sobre minha face, então tomei fôlego, segurei uma de minhas asas, bem perto de minhas costas e puxei, puxei com toda força que tinha, forças que nem eu sabia que tinha, até que ouvi um forte estralado e uma força me impulsionou para frente. Minha asa se quebrou, a dor foi alucinante, não sei o que doía mais, se eram minhas asas ou minha decepção, apenas chorava lágrimas secas e ásperas.

Assim que me recuperei segurei a outra asa e repeti novamente o processo, quando a segunda se partiu, caí no chão e olhei minha angustia, minhas asas estavam ao meu lado, eu as abracei uma última vez antes de desmaiar por cansaço e com minha voz rouca, baixa e quase falhando sussurrei:

—Obrigado ao anjo que aqui vivia, pois nesta casa não pisará mais.