Here's Lucille
3 Capítulo 2 - O Apocalipse é Girlpower
Notas iniciais
— Capítulo 2 – O Apocalipse é Girlpower
De cima da beliche, pude ver pela janela quando o sol começou a aparecer no horizonte. Lá fora, a escuridão ainda era predominante, mas seria questão de tempo até o dia clarear.
Joguei as pernas para o lado e pulei de encontro ao chão. Dando uma rápida espiada pela janela, nenhum errante parecia estar por perto.
“Uau, quase 16 horas sem nenhum morto por perto? Um Record, com certeza”.
Pegando minha mochila, fui até a cozinha. Como ainda não estava claro, eu não tentaria a sorte saindo no escuro. Se tem uma regra que se aprende com o tempo ao viver em um mundo onde o maior número de seres é canibalmente ativo é que não se deve ficar vagando por ai durante a noite. Ou você passa a noite em um lugar alto, como em árvores, ou em alguma casa/abrigo. A não ser que você tenha uma visão noturna aprimorada, ou sei lá, goste de morrer.
Sendo essa regra entendida e respeitada, vamos direto a regra numero dois: nunca permaneça mais de 48 horas em um só lugar. Os errantes chegam, e chegam rápido. Minhas experiências de fuga improvisada não tinham sido nem um pouco agradáveis
Basicamente, eu me tornara uma ambulante. Talvez, todo esse tempo eu estivesse apenas procurando alguém, que tivesse sobrevivido tanto tempo quanto eu.
Balancei a cabeça, me desfazendo das expectativas. Esperar coisas nunca é bom sinal.
Abri o armário, dando uma melhor olhada no que tinha por ali. Eu estava com tanta fome e exausta que mal vi o que de fato tinha e simplesmente peguei a primeira coisa em minha frente. Rapidamente retirei tudo o que tinha dentro do armário e coloquei em cima da mesa.
Vários potes com frutas secas e vegetais, barras de cereais e enlatados estavam em bom estado. Peguei algumas barras e joguei o resto dentro de minha mochila.
Com tudo arrumado, minha mochila nas costas e o Sol iluminando o vale, estava na hora de sair. Segurando firmemente meu machado, abri a porta, sendo recebida por uma brisa gelada comum àquela hora da manhã.
Dei uma olhada em volta. No tal centro de meditação haviam mais duas casas além da que eu tinha me alojado. A julgar pelo tamanho, a do centro deveria ser a casa principal. Se eu desse sorte ainda poderia encontrar algumas coisas por ali.
Na casa só existia uma entrada. A grande porta de madeira branca era toda entalhada com símbolos de paz e desenhos de um Buda cabeçudo. No andar de cima, grandes janelas de vidro se encontravam fechadas.
Forcei a maçaneta, porém a porta estava trancada. Com o machado quebrei a maçaneta, abrindo a grande porta branca, que rangeu alto.
Eu já devia estar esperando. Buda poderia ter me permitido um banho e comida, mas nem mesmo ele era tão benevolente assim.
Em minha frente, pelo menos vinte errantes grunhiram, vindo em minha direção. No susto, acertei um na cabeça e chutei outro para longe. Eu precisava fechar aquela porta. Apenas com o meu machado eu não tinha nenhuma chance contra aquela legião de mortos.
Pela direita, uma mulher sem um braço veio para cima de mim, e eu a joguei em cima de mais dois que vinham pela frente. Consegui derrubar mais um e puxar violentamente a porta, fechando-a.
Me afastei, arfando e xingando de todos os nomes que eu lembrava esse deus maldito. Corri, saindo do vale e dando de cara na estrada. Eu precisava ir para longe. Eu tinha quebrado a maçaneta, então aquela porta não duraria muito tempo, além do fato do barulho dos mortos poder atrair ainda mais mortos.
Minha corrida se tornou um trote, e depois uma espécie de marcha, até eu me sentir confortável o bastante para andar. Beirando a estrada, quase entrando na floresta, minha mão que segurava o machado suava.
***
Depois de tanto tempo andando, as rápidas batidas de meu coração finalmente desaceleraram. Minha barriga roncou, o que me levou a comer uma segunda barrinha de cereal, enquanto eu descansava minha cabeça na copa de uma arvore bem próxima a estrada. Suspirei por um momento, fechando os olhos.
Um leve estalo. Passos rápidos em cima de folhas.
Abri os olhos, quase arregalando-os e me afastei da árvore, olhando em volta.
A uns dez metros a minha frente uma mulher saiu da floresta correndo, carregando uma mochila em suas costas. No momento em que ia pisar na estrada para atravessar para o outro lado um tiro soou alto e pegou em sua perna. A mulher caiu.
Me escondi atrás da árvore, segurando fortemente meu machado. Não era possível. Pessoas? Vivas? E por que porras estavam atirando contra si?
Ouvi assobios. Agachada, espiei o que estava acontecendo na estrada. Meia dúzia de homens saíram da floresta e foram em direção a mulher que estava deitado no chão. Ela chorava e tentava se arrastar para longe.
— Pelo amor de Deus – ela soluçou – Não me matem.
De costas para mim, eles fizeram um semi-círculo, encarando diretamente a mulher.
— Claire, Claire... – Um deles, um homem grande e bem musculoso falou com deboche – Você sabe muito bem que não cabe a nós te matar. Mas, querida, você fez merda. Você jurou amor ao Negan e depois decidiu fugir? E ainda roubou nossas coisas.
O homem se aproximou, agachando-se até ficar na altura da mulher.
— Por... Por fa-favor – ela chorava muito, se encolhendo.
O homem a esbofeteou.
—Cale a boca – cuspiu – Você é inútil. Sempre foi. E quando Negan te ofereceu um lar, comida e abrigo, você o traiu – Ele soltou uma risada nasalada, virando-se para seus colegas – Acho que está na hora de darmos a essa vadia o que ela merece...
E com um movimento brusco, ela rasgou a blusa dela. Ela gritou, se arrastando para trás.
— Kevin, você sabe o que Negan pensa a respeito de atitudes como essa... – outro homem, que até então havia permanecido quieto, se pronunciou com certa relutância. Era como se ele tivesse um certo temor desse tal de Kevin.
— Eu estou pouco me fudendo para isso Dwight.
Minha respiração estava acelerando enquanto eu assistia uma cena absolutamente perturbadora. Há não sei quando tempo eu não via humanos, vivos, e ali eu estava prestes a presenciar um estupro.
Com minhas mãos tremendo, percebi que eu já tinha me colocado de pé. Adentrando na floresta, me aproximei um pouco mais. Eu não deixaria uma mulher morrer desse jeito. Eu estava a tanto tempo sozinha que me tornei maluca o bastante para encarar seis homens armados com meu pequeno machado.
Muito inteligente Lucille. Uma gênia do apocalipse.
Kevin continuava gritando com a jovem mulher. Sem nenhuma paciência, ele a arrastou pela estrada, até entrarem na floresta.
As lágrimas da mulher não paravam e seus soluços ficavam cada vez maiores. Kevin, debruçado sobre ela desabotoava suas calças.
Segurei firme meu machado. Meu coração cada vez mais apertado. Por um momento o olhar da moça cruzou com o meu. Ela gritou e Kevin começou a virar sua cabeça em minha direção.
Eu não pensei. Enfiei a lâmina em seu braço, fazendo ele urrar. Retirei a lâmina e chutei com toda a força que me restava seu rosto, que devido ao fato de ele estar agachado estava na altura de minha cintura.
Kevin caiu no chão.
— Sua...
Chutei-lhe o rosto, fazendo ele desmaiar. Meu coração estava tão acelerado que eu podia sentir as batidas em meu ouvido. Fechei os olhos, respirando fundo enquanto colocava minhas mãos no joelho. O choro de Claire chamou minha atenção.
Rapidamente fui até ela e me ajoelhei ao seu lado. Ela soluçava.
— Ei, está tudo bem – dei meu melhor sorriso, tentando transmitir-lhe calma – Você vai ficar bem cara, sério.
Ela balançou a cabeça em negativa ainda chorando.
Suspirei, segurando-lhe a mão.
— Fique tranquila. Não vou deixar que te machuquem. O apocalipse é o maior movimento girlpower do século, não percebeu? Mortos homens e mulheres tem os mesmos direitos e oportunidades de comerem humanos – tentei acalmá-la com uma piada bem digna.
Digna de uma cusparada na cara pois aparentemente não deu certo. Olhando através de mim ela se encolheu mais e recomeçou a chorar.
Uma arma foi engatilhada.
— Ponha suas armas no chão – um momento de silêncio – Levem-nas.
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