Hereafter
4 Capítulo Quatro
Notas iniciais
Capítulo
Quatro
Eu estava cheia de impulsos bobos ultimamente. Lá estava ele, o garoto que eu andava tão interessada (bom, obcecada, na verdade) nesses últimos dois dias. Ainda assim, saí correndo o mais rápido que pude na direção oposta quando ele apareceu. Se eu ainda tivesse alguma gota de adrenalina, ela teria ardido nas minhas pernas enquanto eu fugia.
Pelo visto, e como eu suspeitava, meus instintos na morte continuavam mais fortes quanto os que tive em vida. Fantasma nunca deveriam ser vistos, por mais que queriam. Qualquer coisa que aponte para o contrário era um bom motivo para se sair correndo, e rápido.
Ou pelo menos esse teria sido meu raciocínio se eu conseguisse pensar direito. Mas naquele momento, a única coisa na minha cabeça foi um pânico alucinante. O medo se espalhou pelo meu cérebro e quase bloqueou a voz que irrompeu atrás de mim.
– Pare! Qual é? Calma! Por favor!
Foi o tom da voz que me convenceu (baixo, e ainda meio rouco pela água do rio que ele tinha engolindo ou talvez a voz dele seja assim mesmo). Ao perceber essa fragilidade, senti uma dorzinha bem no meio do meu peito. Foi só uma pontada leve e discreta, mas incapacitante.
Derrapei com os pés no chão até parar, já quase do outro lado da ponte. Bem devagar, me virei na direção dele.
–Obrigado. –gritou, rouco (é a voz dele é assim mesmo), enquanto se acomodava no lugar. Pela sua postura, parecia que estava prestes a sair correndo atrás de mim.
Ainda tensa, acenei a cabeça para ele. Após uma pausa considerável, ele por fim perguntou:
– Bom, então... você pode voltar aqui?
Balancei a cabeça. Nem pensar.
Mesmo estando longe, consegui ouvi-lo soltar um suspiro.
– Tu-udo bem... –ele demorou no "u", como se estivesse aproveitando esses segundos a mais de pronúncia para enfrentar com mais calma um frustante enigma.– Bom... posso ir até aí então?
Franzi a testa, sem indicar nenhuma resposta. Acho que ele entendeu minha indecisão como um sim, porque começou a vir na minha direção.
Ele estava andando visivelmente devagar e com as mãos erguidas em frente ao corpo, no gesto universal "calma, não vou machucar você".
– Eu venho em paz. –disse, abrindo um sorriso de canto. Um sorriso ao mesmo tempo seco, gentil e cauteloso.
Não tive como não sorrir de volta.
O garoto abaixou suas mãos e abriu ainda mais seu sorriso para mim.
Em seguida, a dorzinha explodiu em meu peito como uma bomba, espalhando calor por todo o meu corpo.
Quente. Me senti quente por dentro. De verdade, como me senti com o toque de sua mão debaixo d'água. Meu sorriso cresceu também.
– Esse sorriso quer dizer que posso chegar mais perto?
– Não. –disse eu, baixinho.
Ele parou de andar, surpreso com as minhas palavras, ou talvez só com o som da minha voz.
– Sério? –perguntou depois de um instante.
– Vá para a grama. –disse eu.
Ele franziu a testa, juntando as sobrancelhas escuras.
– Por quê?
– Eu não gosto dessa estrada. Quero voltar pra lá. –disse eu, apontando com a cabeça para a encosta que eu tinha acabado de subir.
Ele continuou franzindo a testa, mas vi seu sorriso curvando o canto de sua boca.
– Tu-udo bem. –ele me olhou nos olhos com um ar pensativo. A mensagem estava clara: eu era o frustante enigma que ele estava enfrentando com calma.
Mas então ele sorriu, com os lábios fechados e acenou a cabeça para mim. Ele enfiou as mãos nos bolsos do jeans, virou-se de lado e começou a andar de volta até a encosta.
Devagar. Devagar demais. Mexendo as pernas com um jeito lerdo e exagerado. Soltei um suspiro alto.
– Dá pra ir mais depressa, por favor?
Ele deu uma risada, ainda se afastando de mim.
– Você é meio mandona, sabia? Parece que você não é muito de conversa.
Levando em conta que você é a primeira pessoa com quem falo em sei lá quanto tempo desde que morri...
– Você nem imagina. – murmurei.
Não sei se ele me ouviu, porque hesitou um pouco. Mas então continuou andando em frente, só que sem aquele jeito lerdo forçado. Depois que ele percorreu uns três metros, comecei a segui-lo. Mas ainda mais devagar do que ele. tentando pensar, pensar no que eu iria fazer, ou falar, quando ele parasse.
Por sorte, ele continuou andando e passou pelo carro preto e pelo fim da ponte até chegar ao gramado da encosta. Estava tão preocupada com a conversa que logo iríamos ter que nem reparei que ele parou e se virou para mim. Ergui a cabeça bem a tempo de parar de repente a apenas um passo dele, ao alcance dos seus braços.
Senti uma onda de pânico. Poderia ter trombado nele. Se isso tivesse acontecido, eu o teria sentido, pele contra pele em um glorioso toque, ou apenas não sentiria nada além daquela mesma barreira mortiça e intransponível de sempre. De qualquer jeito, ele com certeza acabaria reparando que havia algo errado comigo e feito exatamente o que deveria: sair correndo para longe de mim.
– Bom... –começou ele, quase como se aquela fosse uma conversa normal.
– Bom... –respondi, olhando para meus pés descalços, cheia de vergonha, medo e empolgação.
– Meu nome é Sasuke.
– Imaginei mesmo.
O bom humor em sua voz me fez erguer a cabeça e por fim encarar seus olhos. Como eu já suspeitava, seus olhos eram bem escuros, mas não castanhos. Eles eram negros, quase como a cor do céu a meia-noite. Tinha certeza de que nunca havia visto olhos daquela cor antes, e eles causaram um efeito desconcertante em mim.
Fiquei ainda mais abalada só de olhar pra eles.
– Bom... –começou ele de novo.
– Você já disse isso.
– Sim, eu sei. –riu um pouco e abaixou a cabeça, passando uma das mãos pelo cabelo com um ar distraído até parar com ela na nuca.
Senti minha dorzinha de novo, percorrendo meu corpo como um pulso. Aquele gesto distraído (a passada inocente de mão pelo cabelo) tinha sido absolutamente fofo. Ele parecia tão vibrante, tão cheio de vida, que acabei deixando escapar uma pergunta sem nem perceber.
–Você quer saber o que aconteceu, né?
Fiquei assustada com as minhas próprias palavras, piscando feito idiota. Besta, besta, besta.
– Quero sim. Quero muito mesmo. – ele abaixou a mão do pescoço e me olhou com mais atenção, agora já sem mais nada daquele ar brincalhão em seus olhos.
Droga.
– Bom, é uma questão de ponto de vista, Uchiha. –disse eu.
– Sasuke. Me chame de Sasuke. –me corrigiu na hora.– Mas meu nome não importa muito agora.
Tempo. eu precisava ganhar tempo, e rápido, então disparei a primeira pergunta que me veio à cabeça.
– Porque eu tenho que chamar você de Sasuke se todo mundo te chama de Uchiha?
– Você não é todo mundo. –rebateu ele.– Mas enfim...
Percebeu que eu estava enrolando e me trouxe de volta para o rumo original da conversa, coisa que ficou bem clara. Não tão claro, no entanto, foi se ele estava ou não sugerindo algum elogio com essas palavras.
– Hum... –hesitei, e então me aconteceu uma coisa que não via desde minha morte: fiquei inquieta. Peguei a borda da minha saia e comecei a revirar as dobrinhas. Não tinha a menor ideia do que fazer.
Nem ele, pelo visto. Ele viu meus dedos enrolados na saia e então olhou para meu rosto até eu finalmente conseguir encará-lo de volta.
– Qual é o seu nome? –sua pergunta foi tranquila, gentil. Ele não tentava me levar de volta para a conversa. Ele só queria saber mesmo.
– Sakura.
– Qual o seu sobrenome, Sakura? –foi tão gostoso ouvir sua voz dizendo meu nome que acabei disparando uma resposta idiota.
– Eu não sei meu sobrenome. –ou pelo menos nunca tive coragem de procurar descobrir nas lápides do cemitério.
Ele ficou sem reação, surpreso.
– Hum. E onde você mora?
– Não sei também.
Desarmada. Eu estava desarmada. essa era a única explicação racional para a minha idiotice.
– Tu-udo bem. –disse ele, com o "u" arrastado de novo, mas não de brincadeira dessa vez.
Ele olhou para os seus tênis de lona, franzindo a testa e tentando enfiar a ponta de um pé a grama. Colocou as mãos de volta nos bolsos e inclinou os ombros para frente, um gesto por puro reflexo que o deixou com um ar inocente e fofo. Após mais alguns momentos de silêncio, ele voltou a olhar para mim.
– Sabe, a gente tem muito o que conversar. – seus olhos sérios e intensos se fixaram nos meus. Aquela dorzinha ardeu mais uma vez no meu peito.– Eu queria ter vindo aqui antes para encontrar você, mas eles não me deixaram sair do hospital. Pelo visto, meu coração pode ter... bom, eu posso ter... morrido por um tempo. Lá na água.
– Então... –continuou.– ... depois que saí do hospital, comecei a procurar você por aí. Mas parece que ninguém viu você naquela noite. Nem minha família, nem meus amigos, nem os paramédicos. Não só ninguém viu você na margem, como também ninguém viu você na água junto comigo. O que achei estranho. Porque você estava na água junto comigo, não estava?
Mordi meu lábio inferior e respondi com um leve aceno de cabeça.
– Eu sabia que não tinha imaginado você. Bom, talvez quando estava, sabe, morto. –ele pronunciou a palavra como se tivesse medo dela.– Mas depois disso, não. Não quando eu nadei de volta até a tona, nem quando consegui sair da água.
Ainda mordendo meu lábio, balancei a cabeça. Não. Você não me imaginou. Você me viu.
– Tive que praticamente roubar o carro do meu pai para sair de casa hoje, e aí vim pra cá... para cena do crime. E cá está você.
– Sim... –murmurei, sem ter nada inteligente para dizer.– Cá estou eu.
– Bom... –murmurou de volta.– A gente tem muita coisa para conversar.
– Você já disse isso.
Ele deu uma risada, um som que nos deixou surpreso. Em seguida, acenou a cabeça para mim com determinação.
– Bom, é o seguinte, Sakura. A gente não precisa conversar agora. Mas tenho que devolver o carro para o meu pai logo, porque passei manhã inteira tentando achar você. Além do mais, parece que esta não é uma conversa que você quer ter, muito menos nesse lugar. Não posso dizer que não entendo você. –ele deu uma rápida olhada para o rombo no parapeito, estremeceu, e em seguida se virou de volta para mim.– Então, amanhã vou estar no Parque Kimiko. Sabe onde isso fica?
Por mais incrível e impossível que fosse, acenei a cabeça.
Eu conhecia esse parque. De repente percebi que sabia onde ele ficava tão bem quanto sabia meu próprio nome, assim como para que lado o parque ficava de onde eu estava agora. Isso me veio à mente como uma memória genuína que não tinha surgido e se esvaído na minha cabeça, mas só que... estava lá.
O que esse garoto estava fazendo comigo?
– Tudo bem, ótimo. Eu vou estar sentado no branco mais vazio que encontrar no parque. E só vou aparecer lá pelo meio-dia, porque infelizmente já estou bem o bastante para voltar à escola amanhã. Acho que consigo convencer meus pais a me deixarem faltar na quinta aula... apelando para compaixão deles, sabe como é.. mas não tenho como chegar antes.Enfim, vou estar lá no parque amanhã. E vou esperar você.
– E se eu não aparecer?
Ele encolheu os ombros.
– Vou respeitar sua decisão. Ou talvez perseguir você por ai como venho tentando fazer desde que me deram alta no hospital. Provavelmente a segunda opção na verdade.
Eu deveria ter ficado com medo. Deveria ter fugido de novo para me esconder por anos e anos até que Sasuke ficasse velho e aquela névoa voltasse a engolir meu cérebro.
Mas em vez disso, sorri.
Ele acenou com a cabeça, sorriu também e então passou andando por mim de volta até o seu carro.
– Até amanhã. –disse, com uma leve olhada para trás.
Fiquei olhando para ele, toda confusa de novo. Mas quando ele abriu a porta do carro, aquela dorzinha incapacitante voltou a arder no meu peito. Pelo visto, meus impulsos ainda estavam fazendo coisas estranhas comigo, porque a dor parecia ter incapacitado tudo no meu corpo, menos minha boca.
–Sasuke? –disse eu, com um leve tropeço na voz.
– Oi? –ele se virou na mesma hora. Podia jurar que ele parecia ansioso, talvez até empolgado.
– Como eu pareço para você? –ele inclinou a cabeça de lado, franzindo a testa.– Como eu pareço para você? –insisti, nervosa, com medo de que se não falasse rápido o bastante, teria tempo para perceber o quanto eu estava soando feito uma absoluta e completa idiota.
Sasuke sorriu e então me respondeu tão baixinho que mal consegui ouvir.
– Você é linda. Linda demais para as pessoas não terem reparado em você naquela noite.
– Ah. –foi tudo o que eu consegui dizer.
Ele endireitou as costas e limpou a garganta.
– Bom... hum... vou embora antes que diga qualquer outra coisa que me faça parecer tão idiota assim de novo. Amanhã certo?
Acenei com a cabeça totalmente atordoada.
– Amanhã.
Sasuke acenou a cabeça também. Em seguida, entrou no carro e deu ré para sair da ponte, passando bem longe do buraco do parapeito. Com um último movimento rápido, o carro foi embora, desaparecendo de vista ao dobrar uma curva.
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