Hereafter

9 Capítulo Oito


Notas iniciais
~LEIAM AS NOTAS FINAIS~

Capítulo 8

~*~

Por mais que eu não pudesse experimentar a sensação física de estar no carro, não estava nem um pouco chateada com isso. Eu me senti livre e mais veloz que nunca, como se estivesse voando.

— Sakura?

A voz preocupada de Sasuke dissipou meus pensamentos.

— Oi? — mesmo o achando lindo, mal consegui desviar o olhar da longa estrada à nossa frente por tempo o bastante para olhá-lo de lado.

— Não quero ser chato, nem nada, mas você pode vir um pouco para trás? Sentada desse jeito, parece que você está confiando demais na minha direção.

Dei risada.

— Bom, não é como se eu pudesse sair voando pelo para-brisa — pelo canto do meu olho, vi Sasuke franzir a testa. A imagem de seu carro afundando no rio me veio à mente. Balancei a cabeça para dissipar minha própria estupidez.— Desculpe — murmurei. — Foi uma piada sem graça.

— Tudo bem — respondeu com um leve sorriso.— Mas… mesmo assim você está me deixando nervoso.

— Desculpe — repeti, e então me encostei no banco.

Continuei com os olhos grudados no cenário borrado que passava voando pelas janelas. Mas como estava sendo difícil não me debruçar sobre o painel de novo.

Por fim, os bosques à nossa volta deram espaço a uma cidadezinha. A estrada desembocava em uma espécie de avenida principal, cercada por vários prédios pequenos e alguns pinheiros aqui e ali. Uma placa de madeira ao lado da estrada dizia: Bem-vindo a Konoha, Konohagakure!

Aquela cidadezinha me lembrava de uma foto vagamente familiar, uma imagem que tinha visto muito tempo atrás e agora não sabia direito onde. Será que eu já tinha passado por aqui antes de morrer? Nunca reparei muito nos lugares por onde eu andava. Não tinha como saber, mas essa estranha sensação de familiaridade me deixou inquieta.

Logo depois, Sasuke desacelerou para entrar em outra rua, essa mais cercada de pinheiros. Quando as árvores rarearam, avistei um conjunto de prédios baixos. Enquanto Sasuke chegava a um estacionamento, avistei alguns alunos andando de um lado para o outro, ou entrando nos corredores entre os prédios.

— Pronto — disse Sasuke, suspirando aliviado. Estacionou o carro, tirou o cinto e então se virou até o banco de trás para pegar sua mochila.

Continuei focada nos prédios de tijolos à nossa frente, assimilando aquela cena de telhados brancos retos, brancos roxo-escuros no gramado, uma placa de metal esmaecida que dizia “TIGERS CAMPEÃO!” em letras de forma. Alguma coisa naqueles prédios mexeu comigo... Alguma coisa que eu não entendi bem o que era.

— O bom e velho Colégio Konoha. Vamos lá?

A proximidade da voz de Sasuke me fez pular no meu banco. Ele estava ao meu lado, mas fora do carro, segurando a porta do passageiro aberta com uma das mãos, e a alça de sua mochila em seu ombro direito com a outra. Eu estava tão distraída que nem percebi que ele tinha descido do carro, nem aberto minha porta.

— Hum...

Comecei a torcer a barra do meu vestido, já nervosa de novo. Antes de conhecer Sasuke, um possível contato com o mundo dos vivos me deixaria triste. Agora, só por ele conseguir me ver, e sinceramente, pelo próprio Sasuke, essa minha tristeza havia se encolhido em uma parte remota do meu cérebro.

Ainda assim, a imagem daqueles prédios, e a inquietante sensação que eles me causavam, me deixaram com um pouco de medo. E mais do que um pouco colada no meu banco.

— Vamos, Sakura. Você está me fazendo parecer um doido aqui, parado com a porta aberta para um carro vazio — sua palavra poderiam ter parecido ríspidas, mas seu tom foi de brincadeira. Mesmo sabendo que minha indecisão o faria chegar atrasado à aula, ele apenas sorriu e me estendeu a mão.

Pelo visto, minha coragem era um pouco maior do que eu imaginava porque peguei sua mão e desci do carro. Na mesma hora, um pulso incendiário subiu pelo meu braço.

— Ah! — gritei e então soltei sua mão. Enquanto se inclinava para fechar a minha porta, ele pareceu espantado, mas mesmo assim não perdeu a suavidade em seu rosto.

— Depois, tem mais — sorriu de canto. — Mas agora, vamos para aula. Venha comigo.

Ele me deu uma piscadinha e então passou apressado por mim. Um sorriso, meio sem jeito e meio empolgado, se abriu no meu rosto, e então o segui até um dos prédios menores. Enquanto a gente andava, ele continuou falando sem abrir muito a boca e sem olhar muito para mim, acho que para não parecer que estava falando sozinho.

— Tudo bem com você?

— Sim, acho que sim — disse eu, falando baixo com ele, por mais que não precisasse. — Este lugar me parece tão... Familiar. É como se eu me lembrasse desta escola, mas não sei por que, nem de quando.

— Hum. Isso pode ser... Interessante. — ele ficou em silêncio por um instante e então, com um tom inseguro, sussurrou: — Mas tudo bem então? Porque, enfim, meio que forcei você a vir aqui, né?

Ele me pareceu tão genuinamente preocupado que precisei conter uma risada. Pelo visto, ele não tinha pensado em me perguntar se eu queria estar ali até o último segundo possível.

— Acho que vou ficar bem — disse eu em voz alta, e em seguida, enquanto olhava para suas costas, largas e fortes sob sua camiseta cinza levinha, acabei pondo para fora meu pensamento seguinte. — Bom, tanto faz para onde a gente está indo, só quero ficar perto de você mesmo.

Ao ouvir minhas palavras, Sasuke parou de repente com uma das mãos na porta que estava para abrir. Enquanto olhava para suas costas, mordi meu lábio inferior por frustração. Eu era mesmo tão idiota assim a ponto de dizer uma coisa dessa sem nem ter como ver a reação dele?

Vi a mão de Sasuke ficando tensa na maçaneta e então me preparei para o pior: iria dizer que minha simples presença ali era um perigo, como eu já desconfiava; iria me dar uma bronca por ter tocado nele em público e pedir para eu esperar do lado de fora... Ou só ir embora de uma vez.

Mas, é claro, que eu estava errada de novo. Em vez de se afastar de mim, Sasuke esticou uma das mãos para trás, ainda virado para frente, apertou a minha. Em seguida, abriu a porta e entrou na sala de aula enquanto o sinal ecoava pelo gramado atrás de nós. Eu o vi abrir e fechar a mão que ele tinha usado para me tocar, talvez em resposta ao mesmo fogo que eu estava sentindo arder nos meus dedos. Respirei fundo e entrei na classe antes que ele fechasse a porta.

Acho que eu não estava preparada para essa mudança de cenário, porque fiquei surpresa com a repentina penumbra da sala. A verdade é que eu não tinha muita experiência com as salas de aula mal iluminadas desde minha morte, e fiquei pensando meio distraída se minhas pupilas iriam se expandir no escuro ou não.

Uma tossida alta de Sasuke me despertou desse pensamento na mesma hora.

Essa tosse foi claramente um aviso, porque uma senhora estava bem na minha frente, com sua cara a poucos centímetros da minha. Seu rosto era jovem, mas era perceptível que já tinha uma idade avançada, fora os seios avantajados e olhos castanhos claros.

Que estavam olhando bem para os meus.

Em desespero, olhei para Sasuke, que estava paralisado em frente a primeira fileira de mesas. Eu me virei de volta para a mulher, sentindo todos os meus músculos tensos. Será que ela também já tinha morrido e agora podia me enxergar, como Sasuke? Ou outro fantasma maligno como Deidara?

No entanto, uma segunda olhada em seu rosto me esclareceu tudo. Seus olhos não estavam focados nos meus, mas sim em Sasuke, atrás de mim. Ela estreitou a vista, talvez sem conseguir ver muito bem comigo em sua frente, como alguém veria alguma coisa através de um leve fio d fumaça distraída, mas sem perceber ou se importar. Quando ela por fim falou, suas palavras confirmaram minhas suspeitas.

— Sasuke-San, o seu breve encontro com a morte por acaso o deu permissão para entrar quando bem quiser na minha aula sem pedir licença?

— Não, Tsunade-Sama. Não cheguei antes do sinal?

Ela franziu a testa e deixou que sua expressão ficasse mais carrancuda.

— O sinal marca o começo da aula, não o limite para sua entrada. Agora, sente-se.

— Sim, senhora. — resmungou. Com a cabeça abaixada, Sasuke entrou às pressas entre as carteiras e se sentou em uma que estava vazia; que era seu lugar, presumo.

Um garoto sentado na mesa ao lado deu um tapinha nas costas de Sasuke e sussurrou:

— Você devia ter matado a sexta aula também, cara.

Sasuke acenou a cabeça com um ar tenso.

Seu olhar de novo para mim, ou através de mim, na verdade, a Tsunade-Sama foi para trás da sua própria mesa. Olhei para Sasuke e passei a mão na testa, dizendo, “Ufa”, só com os lábios. Ele me abriu um leve sorriso de alívio e então começou a tirar alguns livros da mochila.

Nesse momento, percebi que estava que estava diante de uma sala de aula cheia de vivos. De repente, me lembrei do típico pesadelo adolescente: aparecer pelada na frente de uma classe com todos os seus colegas. Claro, eu não estava sem roupa, e aquelas pessoas não eram bem meus colegas, mas ainda assim, me senti terrivelmente exposta. Tive a desagradável sensação de que aqueles alunos estavam me todos me encarando, por mais que a maioria perecia estar somente entediada enquanto via a professora começar a escrever na lousa atrás de mim.

Só então me dei contra de que nunca tinha estado em nenhum lugar com tantas pessoas vivas ao mesmo tempo desde minha morte. Ver tantas pessoas assim, respirando, cheias de vida e com o coração batendo, Fez com que eu ficasse assustada. Fez com que eu me encolhesse para me proteger.

Olhei para Sasuke. Ele estava olhando à sua volta pela classe com uma expressão de espanto também. Depois de analisar cada um dos colegas, ele se virou para mim e disse “Nossa” só com os lábios. Franzi a testa, confusa. Bem de leve, ele virou a cabeça em um círculo apontando para toda a classe, e então acenou com um ar de cumplicidade para mim.

Entendi. Ele estava chegando à conclusão de que era mesmo a única pessoa que podia me ver. No parque, ele me ouviu e acreditou na minha história... me teoria. Mas aqui, essa teoria tinha sido posta à prova. Uma prova que confirmou que eu era invisível... que eu era um fantasma.

Acenei a cabeça. E para reiterar sua repentina descoberta, falei em voz alta:

— Que estranho, né?

Ninguém além do próprio Sasuke olhou para mim. “Nossa”, repetiu ele baixinho, e sorriu.

Aquele sorriso falou por si só, me dizendo exatamente o que ele achava sobre os poderes de sua nova amiga, o que disparou aquela dorzinha quente no meu peito, uma sensação bem-vinda em meio a minha insegurança; aquele sorriso foi todo o reconforto de que eu precisava.

Já mais confiante, sorri de volta. Pus uma das mãos em frente a minha barriga e fiz uma reverência para aquela plateia entediada e alheia à minha presença, e então bati palmas, como se estivesse os agradecendo pela atenção dispensada.

Uma breve memória me veio à mente: minha própria voz, gritando para estranhos que não podiam me ver, logo após minha morte. Alguma coisa nessa lembrança angustiante, comparada a este momento de agora me deixou, não sei como, com a minha cabeça leve e quase eufórica. Comecei a andar de uma lado para o outro na frente da classe, com os braços atrás das costas feito um general.

— Vocês devem estar se perguntando por que convoquei todos vocês aqui hoje. — entoei com minha voz mais séria.

Sasuke bufou e balançou a cabeça.

— Sua louca. — disse em voz alta.

— Como é, Sasuke-San?

A voz irritada da Tsunade-Sama atravessou a sala enquanto se virava da lousa para trás. Sasuke engasgou e tossiu, tentando em desespero consertar seu equivoco.

Infelizmente, alguns de seus colegas, incluindo o garoto ao seu lado, confundiram as palavras de Sasuke com uma provocação intencional à professora. Começaram a rir, entrando na suposta brincadeira.

A Tsunade-Sama, acreditando ser o alvo de alguma piada que não tinha ouvido, se endireitou na frente da sala, rígida como um pedaço de giz que ela tinha na mão, e um olhar enfurecido.

— Sasuke-San, como você parece dominar tão bem essa matéria, por favor, venha até aqui a lousa e nos diga qual é a ordem dessa equação diferencial. — disse ela, praticamente cuspindo as palavras.

Sasuke disparou um olhar de pânico para mim. Ficou dolorosamente claro pelo seu rosto que ele não era nenhum especialista em equações diferenciais.

— Ai, meu Deus — grunhi. — Desculpe, sou uma idiota.

Ele balançou a cabeça de leve, tentando me dizer que não, apesar da encrenca que eu tinha acabado de arrumar. Ele se levantou da carteira e se arrastou até a lousa, sem mal olhar para a Tsunade-Sama enquanto pegava o giz da mão dela.

Corri até seu lado, agitando as mãos em desespero. Olhei o complexo de matemática à sua frente e vi apenas um emaranhado de números, letras e símbolos. Ah, não, pensei, enquanto me esforçava para manter meus olhos focados enquanto examinava aquela equação. Só de ver todos aqueles d’s, 3’s, x’s e y’s, já senti minha respiração acelerar como a de Sasuke.

Ele ficou olhando para a equação na lousa também, com uma expressão totalmente perdida. Ele parecia ser muito inteligente... mas talvez não tanto. Não para algo assim de surpresa. Não para enfrentar esse monstruoso problema.

— Droga — disse eu em voz alta.

Não sabia o que fazer. Pelo canto de olho pude ver a Tsunade-Sama sorrindo para Sasuke, que tinha encostado o giz na lousa logo abaixo do problema e agora estava com ele parado ali. A expressão presunçosa da professora me enfureceu. Eu me virei de volta para o problema e o analisei com atenção, determinada a fazer alguma coisa, qualquer coisa.

Nada... nada... nada.

E então...

— Três! — gritei. — Sasuke, a derivativa mais alta é d³/dy³... a terceira! Então a ordem é três!

Ele me olhou de lado com uma sobrancelha erguida, e então rabiscou o número 3 na lousa. O espectro de um sorriso se abriu em seu rosto enquanto se virava para a Tsunade-Sama, mas sem alterar sua voz tímida.

— Acho que a ordem é três.

A Tsunade-Sama ficou boquiaberta como um peixe. Quando Sasuke esticou sua mão para devolver o giz, ela o pegou com um olhar distante e o guardou no bolso.

— Bom... hum...

Enquanto ela gaguejava na frente da classe, Sasuke voltou para o seu lugar, desfilando com as mãos no bolso. Eu o segui, espremida ao seu lado no corredor estreito. Nós passamos por um garoto loiro sentado em uma carteira na frente da de Sasuke, que ergueu sua mão, e Sasuke fez o mesmo para dar um “toca aí!” nele.

Aproveitando esse momento como uma distração, ergueu sua outra mão quase sem que eu percebesse e roçou seus dedos nos meus. A labareda que senti na minha mão já foi um belo agradecimento.

Notas finais
Primeiramente, quero pedir MIL desculpas pela demora da postagem do capítulo. Mas devo dizer que... Minha vida deu uma reviravolta COMPLETA e devido à isso, tive dificuldades para postar. A primeira delas é... Eu fiz um concurso público e consegui ir para o colégio dos meus sonhos. E lá, é praticamente regime escravo, fora que... É próximo ao Maracanã e eu moro no interior do Rio de Janeiro, ou seja... Longe pra caralho do colégio, sem falar que tive que me separar das minhas melhores amigas, quase irmãs, foi bom e ruim ao mesmo tempo. Mas valeu a pena. E... Agora, o colégio entrou em greve, como todo o colégio federal faz ¬¬. E, entre tudo isso, eu fui rejeitada pelo carinha que eu achava que gostava. Mas isso é outro assunto ç.ç Então, AGORA eu tenho tempo para postar mais. Se eu demorar puxem minha orelha, mandem mensagem, podem me perturbar. Agora que eu ganhei uma gatinha, vivo brincando com ela e esqueço da vida. hahaha ~ Bom, espero que tenham gostado do capítulo e vou fazer o possível e o IMPOSSÍVEL para postar o próximo e assim sucessivamente. Bjs e até logo
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.