Hereafter
2 Capítulo Dois
Notas iniciais
Capítulo dois
Não queria que ele morresse, alguém tão lindo como ele não podia morrer. Não ali, não daquele jeito.
Fui pra cima dele, tentando em desespero agarrar suas roupas e seus membros para arrastá-lo de volta a superfície. Puxei sua camisa de manga comprida, seu jeans e até seus cabelos negros.
Tentei e tentei, mas não aconteceu nada, é claro. Minhas mãos, mortas e inúteis não tinham como tocá-lo, como salvá-lo. Foi como quando me debati na água na noite de minha morte (nada do que eu fizesse poderia mudar o resultado daquela cena). Eu me senti impotente, inútil, e mais ciente do que nunca do fato de que estava morta.
Cai em um choro sem lágrimas e coloquei minhas duas mãos em seu peito. Enquanto afundávamos no rio, pude ouvir uma coisa com toda clareza: as batidas de seu coração, cada ver mais fracas.
Até onde sabia, eu não tinha nenhum sentido sobrenatural. Por mais que alguns de meus sentidos humanos tivessem sobrevivido a minha morte (como a visão e a audição, claro), não conseguia sentir mais nenhum cheiro, gosto ou toque de nada do mundo dos vivos. O que restou dos meus sentidos não tinha enfraquecido, mas também não tinha se aguçado.
Por isso mesmo, o som do coração dele me deixou chocada. Eu não devia estar ouvindo aquilo tão bem, mas estava. Mesmo com mais de um palmo de água entre nós e minha audição normal podia ouvir suas batidas claramente como se eu tivesse colocado um estetoscópio em seu peito.
Fiquei pensando se tinha alguma coisa a ver com a morte. Com estar morta. Talvez os mortos pudessem ouvir seus semelhantes chegando, vindo de repente para o nosso mundo. Ou bem devagar, neste caso.
Continuamos afundando, enquanto seu frágil coração batia erraticamente rumo à morte. Cada batida ecoava mais fraca que a anterior, até que finalmente...
Seu coração engasgou uma vez. Depois de novo. E então, não ouvi mais nada. Uma bolhinha de ar saiu do canto de seu lábios e boiou na água escura acima.
Eu gritei. Gritei como nos primeiros instantes de minha morte violenta, revoltada e humilhada com minha própria impotência. Gritei e bati com minha mãos em seu peito.
Foi então que seus olhos se abriram.
Ele olhou de um lado para o outro, assimilando onde estava. E então olhou para mim. Olhou bem nos meus olhos.
Fiquei paralisada. Será que ele podia.... me ver?
Ele sorriu de canto e então ergueu a mão para tocar no meu rosto. Senti sua pele, quente contra a minha. Sem pensar em nada, pus minha mão sobre a dele. Seu sorriso se alagou quando fiz isso.
Ele estava me vendo, sim.
Ele me viu, ele me viu, ele me viu.
Meu coração inerte e morto foi às alturas. E o dele também.
Seu coração (que eu tinha acabado de ouvir morrer) bateu, e depois de novo. essa nova batida ecoou fraca e irregular no começo, mas logo se estabilizou.
Ele olhou para o próprio peito e depois de volta para mim, com as sobrancelhas arqueadas com um ar de surpresa ao perceber o som que vinha ali de dentro.
Em seguida, tossiu. Esse movimento sacudiu seu corpo e fez bolhas de ar escaparem de sua boca.
Ele começou a se debater. Enquanto isso, percebi que não estava mais ouvindo seu coração. O som tinha sumido, pelo menos para mim. Mesmo assim, ele estava todo agitado lutando contra a água escura. Continuou a tossir violentamente enquanto seus pulmões voltavam a funcionar. Em meio a água revolta, pude ver sua expressão. Parecia irritado, em pânico e desespero.
Reconheci aquele olhar. Eu mesma já havia sentido aquilo. Aquele garoto estava vivo. Estava vivo e não queria morrer.
– Nade! –gritei, de repente.– Para cima! Para fora daqui!
Ele não olhou para mim, mas começou a bater as pernas e sacudir os braços pela água sobre sua cabeça. E ao contrário dos meus próprios esforços na noite de minha morte, os dele surtiram efeito. Ele começou a flutuar rumo a superfície do rio.
Nunca tinha me sentido tão aliviada. Nem mesmo depois de acordar um milhão de vezes daqueles meus terríveis pesadelos. Nem mesmo depois de um milhão de vezes daqueles fôlegos que provavam que eu não estava mais me afogando.
– Para cima! –gritei de novo, desta vez com alegria.
Ele continuou a subir pela água, sem olhar uma única vez para mim ou reparar no som da minha voz enquanto o seguia sem esforço. Talvez para ele, eu tivesse voltado a ser diferente...morta. Mas naquela hora, aquilo não tinha a menos importância para mim. Ele iria se salvar. Não iria morrer naquele abismo escuro e frio como eu. Isso já era mais do que bastante para me alegrar.
O garoto pareceu levar uma eternidade para chegar a superfície, mas chegou. Sob o ar frio da noite, ele tossiu, cuspiu a água e ofegou, batendo os braços como se estivesse tentando alçar voo.
Flutuei até estar ao seu lado, totalmente alheia a correnteza ou ao alvoroço criado por ele na água. Quando ele finalmente puxou um imenso fôlego de ar, ri alto e bati palma. E então tapei a boca com as mãos. Eu nunca tinha dado risada. Não desde que morri.
–Uchiha! Uchiha!
Aquela voz estranha me espantou. Alguém tinha gritado do outro lado do rio para nós. Bom, para o garoto, pelo menos. Dei as costas para ele, quase sem querer, e avistei um grupo de figuras na margem do rio atrás de nós.
–Uchiha! –gritou uma menina.– Meu Deus, Uchiha! Por favor! Ajudem o Uchiha, por favor!
Eu me virei para o garoto, que ainda estava tossindo e se debatendo.
– Uchiha? –perguntei.– Você é o Uchiha? –mas ele não respondeu.– Bom, de um jeito ou de outro, sei que você está cansado. Nossa, e como sei. Também sei que você provavelmente não deve estar me ouvindo. Mas você precisa nadar na direção daquelas vozes. Você me entendeu?
Por um instante, ele não reagiu. Mas depois, com uma dolorosa lentidão, começou a bater os braços. Não era o nado mais desenvolto do mundo, mas pelo menos já foi o bastante para que ele começasse a arrastar seu corpo pela água.
Conforme se aproximava da margem, os gritos foram ficando mais altos. Em meio a todo o alvoroço, quase consegui ouvir um fio de uma conversa mais racional sobre tirá-lo da água.
Mas eu na verdade nem esta escutando as pessoas na margem. Só estava vendo aquele garoto nadar, mais concentrada nisso do que em qualquer coisa antes. Eu me peguei orando pela primeira vez, desde minha morte. Orando para que ele chegasse em segurança até a margem; orando para que ele não desistisse e se deixasse ser levado pela correnteza.
– Por favor. – sussurrei enquanto o seguia.– Por favor, Deus, deixe que ele se salve...
O garoto acabou se mostrando muito mais forte do que eu jamais tinha sido. Durante vários (e agoniantes) minutos de angustia, ele enfrentou a correnteza até, por fim, chegar perto o bastante para que alguém pudesse agarrar seu braço e nadar a muito custo com ele até a margem.
Gritos de alegria e pânico eclodiram da multidão que havia se aglomerado na grama em volta do rio e na ponte sobre nós. Um homem, o que tinha tirado o garoto da água, o estendeu em cima de uma terra vermelha e lamacenta. Enquanto eu saía da água e andava até a margem, pude ver o homem passando as mãos pelo corpo do garoto, à procura de algum sinal de vida.
O garoto se virou de lado na mesma hora, deu uma tossida e depois começou a vomitar água. Suspiros altos de alívio irromperam da multidão. Seus rostos estavam sendo iluminados pelos faróis dos vários carros parados aqui e ali na grama e na ponte também. As expressões dos curiosos eram de tensão, entusiasmo e medo.
– Uchiha! Uchiha! –gritavam em coro.
Todos pareciam saber o nome do garoto.
Foi então que vi o brilho multicolorido das luzes vindo dos veículos que tinham formando sua própria aglomeração atrás dos curiosos sobre a ponte. Depois do que parecem ser apenas poucos segundos, dois paramédicos desceram à margem e colocaram o garoto (o meu garoto, para ser fiel a minha repentina sensação de posse sobre ele) foi posto numa maca e o carregaram encosta acima. A multidão avançou junto com os paramédicos, e eu o perdi de vista.
Eu deveria ter ido embora depois disso, mas ainda assim, não consegui ficar parada. Não podia ir embora, vendo aqueles estranhos levarem a única pessoa viva que me viu. O meu menino. O meu Uchiha.
Determinada, abri caminho em meio a multidão. Eles não podiam me ver, nem me sentir, é claro, mas ainda precisei de muito esforço para encontrar uma passagem livre.Por algum milagre, consegui. Me espremi entre duas pessoas e, de repente, me vi ao lado da maca enquanto os paramédicos começavam a erguer as suas pernas com rodinhas para colocá-lo dentro da ambulância.
Me inclinei sobre o garoto. Ele parecia pálido sob o luar, com seu rosto magro e exausto. Por algum motivo, precisei conter um soluço de angústia.
– Uchiha? –gemi confusa sobre o que fazer. Confusa sobre tudo.
Então ele abriu os olhos. Olhos escuros (escuros demais para que eu identificasse sua cor à noite). Ele se virou para mim e ficou me olhando enquanto os paramédicos o levavam embora, talvez pra sempre.
– Sasuke. –grunhiu, rouco depois de engolir tanta água. – Me chame de Sasuke.
Em seguida, a maca foi posta dentro da ambulância, as portas se fecharam e ele foi embora.
Ele falou comigo... Ele falou... comigo? O meu garoto...
Não sabia nada sobre ele... sua idade, seu sobrenome, como seria sua voz ao falar meu nome. Mas sabia que minha existência tinha mudado. Para sempre.
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