Here is gone
1 Prólogo
Notas iniciais
Branco, vazio, irrelevante, foram essas as conclusões que tirei observando o teto de meu quarto pelos últimos 90 minutos. Naquela noite faziam exatos 19 anos do dia de meu nascimento, eram 23:59 e eu apenas contava os segundos para que aquele pesadelo acabasse.
Muito havia acontecido nesses anos, conheci pessoas legais, vivi várias aventuras, e, em algumas delas, fui quase decapitado ou esmagado por um monstro. Infelizmente, no momento em que minha mãe me deu a luz, a sorte não sorriu para mim. Como uma prole de um Deus sou quase como um sinalizador de cabelos negros para criaturas que muitos consideram ser apenas mitos e devaneios gregos. Quem dera que tal ser fosse apenas um mito. Titãs, monstros, sátiros viciados em café, todos são reais, todos estão por ai, em todos os lugares, observando.
– Percy, ainda está acordado?- a voz de minha mãe soou tranquila e sonolenta, o que significava que ela não dormira bem nos últimos dias. Pensei seriamente em apenas não responder e esperar que ela fosse até a cozinha, bebesse um copo de água e voltasse a dormir. Contudo, fiz exatamente o oposto do que minha mente ordenava, eu apenas falei, o mais audível que pude:
– Entre.
Minha mãe me observava enquanto entrava no quarto, como se para ter certeza de que não estivesse fazendo nenhum movimento brusco.
– Está tudo bem?- disse com a voz ainda ressonante. Meu palpite sobre a falta de sono logo se confirmou ao que percebi as manchas arroxeadas que formavam-se abaixo de seus glóbulos oculares.
– Sim mãe, eu estou bem- dei um sorriso leve para tentar incentivá-la a voltar para a cama e mostrar que estava bem. Mas, como diz a lenda, toda mãe sabe quando um filho está passando por problemas, elas enxergam isso através da energia negativa que você emana, pelo menos é o que aparenta.
– Não minta para mim Percy- ela me encarava sem modificar sua expressão, como se estudando minha alma. Talvez, apenas talvez, a nova idade tenha me deixado poético, ou eu simplesmente devo está delirando de sono.
–Apenas estou cansado está bem?- falei com uma arrogância que não me foi proposital, ela apenas saiu sem que eu percebesse- desculpe.
– Qual o problema Percy? E não me venha com uma desculpa como "estou cansado" ou "meu cachorro me mordeu"- ela me cortou antes mesmo que eu chegasse a abrir minha boca, se bem que, caso a Sra O'Leary chegasse a me morder eu não estaria aqui para contar minha história, afinal, quantos sobreviventes de mordida de cão infernal gigante com pensamentos de um cachorro comum vocês conhecem?
– Mãe, você já pensou como seriam nossas vidas se eu fosse normal? A senhora não teria de ter aguentado o Gabe, eu não teria de mudar de escola todo semestre, monstros não me perseguiriam a cada quadra que eu andasse...
– Percy- me interrompeu mais uma vez antes que eu continuasse com meu dilema sem fim- não se pode mudar o passado, você apenas o atura e o supera, é tudo uma questão de superação, caso eu não tivesse convivido com o Gabe eu nunca teria ganhado dinheiro com aquelas esculturas, e se eu não viesse a conhecer seu pai você não existiria, eu nunca teria achado o Paul e eu provavelmente estaria vadiando por ai alheia- não pude conter um sorriso quando minha mãe anunciou tal discurso.
– Obrigado mãe- falei ainda com o sorriso envergonhado em meu rosto. A maior recompensa para um filho é ver um sorriso na face de sua genitora para consigo.
– Tenha uma boa noite filho- seus braços largaram-me e ela andou calmamente até a porta, checando o quarto mais uma vez antes de fechar a porta.
O quarto aparentava estar mais escuro do que estivera à minutos atrás, era como se uma grande sombra tivesse se estabelecido sobre ele, como se os raios prateados da lua que o iluminava tivesse desaparecido na noite.
O relógio apitou ao lado de minha cômoda indicando o início de um novo dia. Às exatas 00:06 eu me decidi, eu aceitaria quem eu sou, o que o universo decidira para mim. Talvez já fosse a hora de recomeçar.
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