Como eu poderia começar a minha música? O que exatamente eu poderia escrever? Pois eu não sabia descrever o que eu estava sentindo...

Depois que a minha vó saiu, eu demorei mais ou menos meia hora até pegar meu violão e começar a tocar na sala. Só que pelas janelas enormes da sala eu vi o dia lindo que estava fazendo lá fora e eu de pijamas dentro de casa.

Subi para o meu quarto e me troquei.

Assim que saí de casa uma brisa leve me atingiu e eu vi que estava mesmo um lindo dia para tocar uma canção... Comecei a pensar em algo a dizer...

Mas eu não estava sentindo ódio por ele, só me sentia magoada, enganada.


… Did you regret
For holding in yours arms?

Não, não...

… Did you regret
Ever standing by my side…

Sim, era mais ou menos isso que eu queria...

- Did you forget. What we were feeling inside... – eu ouvi uma voz dizer ao longe.

- Quem disse isso? – eu perguntei assustada olhando pros lados.

- Oi, me desculpa. – uma menina morena dos olhos amendoados e
cabelos lisos, pareceu do outro lado do muro que divida a casa vizinha com a da minha avó.

- Ah, tudo bem. E me desculpe... Eu to te atrapalhando? – tentei puxar conversa

- Não, eu estava aqui com o Fred, meu cachorro, e te ouvi compondo... – ela se sentou no muro e sorriu.

- Prazer eu sou a Demitria. – deixei o violão de lado e fui cumprimentá-la.

- Oi, eu sou Selena – ela estendeu a mão e eu apertei. Parecia que eu já a conhecia de algum lugar...

- Muito prazer em conhecê-la garota do muro – brinquei.

- O prazer é meu, compositora. – ela sorriu.

- Acho melhor você descer desse muro, pode se sentar ali... – apontei pra onde eu estava.

- É melhor mesmo... Mas sabe de uma coisa, eu acho que já te conheço. – ela comentou enquanto nos sentávamos

- Eu também acho. – tentei revirar a minha memória, aquele rosto não era desconhecido pra mim... Porém não conseguia me lembrar.

- Você é parente da Dona Anna?

- Sim, sou a neta dela. – respondi

- Ah, por isso. Lembra quando você vinha aqui quando mais nova... — eu concordei com a cabeça tentando acompanhar o raciocínio dela.

- E nós brincávamos quando pequenas... Mas faz muito tempo.

Claro! Agora eu estava me lembrando dela.

- Ah! Agora eu me lembrei. Você ainda tem aquele ursinho... Como era mesmo o nome dele?

- Melman. – ela respondeu envergonhada.

- Isso! Melman... Eu adorava aquele seu ursinho. – comecei a rir com a minha confissão.

- Ele ainda está inteiro guardado no meu armário. – parecíamos mais íntimas assim. – Mas o que trás você aqui depois de quase seis anos?

Por que as pessoas sempre tinham que perguntar sobre isso?

- Vim visitar a minha avó. – respondi rapidamente

Selena me encarou por alguns instantes e eu estranhei, será que eu era tão má mentirosa assim?

- Eu estou duvidando da sua resposta. – ela me encarou como se soubesse de tudo...

- Mas é a verdade. – respondi automaticamente

- Olha, faz algum tempo que não te vejo e to vendo que você não mudou nada. – ela balançou a cabeça caçoando de mim.

- Como assim? – ela era doida isso sim.

- Você mentia e ainda mente muito mal. – ela prendeu um risinho.

- Eu não estou mentindo. – é talvez ela não fosse doida.

- Eu sei ler olhos, sabia?

- Ler olhos? Nunca tinha ouvido essa. – ok. Retiro o que disse, ela era totalmente pirada.

- É o meu dom... – ela respondeu toda satisfeita.

- Hum... – fiquei com medo de contrariá-la, vai que ela era uma feiticeira e jogasse alguma praga em mim? Eu não queria mais azar na minha vida não.

- Posso? – ela perguntou indicando o violão.

- Claro, mas você sabe? – perguntei enquanto ela pegava o violão.

- Quem disse que eu vou tocar? Você toca e eu acompanho o ritmo... Você aprendeu a tocar, certo?

Já que eu não tinha mais nada de importante pra fazer mesmo.

- Que música vamos tocar?

- Qual você sabe tocar? – ela estava duvidando do meu potencial? Ah não! Agora viro pessoal o negócio.

- Fala uma música.

- Avril?

- Qualquer uma... – agora isso era mais pra um desafio. E Avril ainda? Eu sabia tocar todas.

- Don't Tell Me. – ela me desafiou com o olhar.

Peguei o violão da mão dela e começamos a cantar. Ficamos a manhã toda tocando, senti meus dedos começarem a doer quando vovó passou por nós duas.

- Bom dia, Selena. – minha avó chegou carregando algumas sacolas.

- Bom dia, Dona Anna. – ela respondeu enquanto corríamos para ajudá-la.

- Vovó, você não pode ficar carregando essas coisas pesadas... Era só pedir que eu ia com a senhora. – tentei ser dura com ela.

- Ó, pare com isso minha querida. A sua vovó aqui agüenta muito mais do que três sacolas de mercado.

- Ai, vovó. – eu e Selena rimos.

É, talvez se eu tivesse ido com ela não teria reencontrado Selena e aquela manhã que eu tinha passado com ela foi muito boa.

Entramos em casa e Selena foi conosco. Guardei tudo em seus devidos lugares e Selena me ajudou depois vovó foi fazer o almoço e nos chamou para ajudá-la.

- Vó, você fica sentada ai e manda a gente fazer as coisas que eu e Selena faremos. – ordenei enquanto colocava o avental.

- Selena, querida. Você não vai só fazer o almoço, vai comer conosco, certo?

- Ah, eu não sei não Dona Anna... – ela tentou fugir da meleca que nós faríamos pro almoço.

- Que isso, me deixe ir lá falar com a sua mãe enquanto vocês fazem as coisas ai – vovó se levantou e saiu.

- Estava tentando fugir da gororoba que vamos fazer? – perguntei enquanto procurar o macarrão.

- Não. É que minha mãe nunca me deixa fazer nada. – ela resmungou.

- Não tem problema, a minha vó nunca aceita “não” como resposta. – tentei tranqüilizá-la.

- Eu percebi. — ela sorriu.

Eu estava preparando a massa do macarrão e Selena o molho quando vovó voltou e disse:

— A sua mãe permitiu,Selena.

Virei-me pra Selena e pisquei. Eu conhecia muito bem a vó que eu tinha... Aliás, quem resistiria aquela velhinha fofinha dos cabelos brancos? Ninguém no mundo.

- Que bom, porque o macarrão ta ficando com uma cara boa. – Selena lambeu os lábios.

E era verdade mesmo, o cheiro já estava muito bom.

Então Selena juntou o molho à massa e eu fui arrumar a mesa, vovó ficou nos espiando e conferindo o nosso trabalho.

- Meu Deus! Deixei o violão lá fora! – gritei limpando as mãos no avental e já ia sair de casa quando vovó respondeu:

- Demi! Eu trouxe o violão pra dentro. – ela respondeu calmamente

- Ai, vó. O que seria de mim sem você? – sorri beijei seus cabelos brancos

O nosso almoço por mais incrível que pareça havia ficado delicioso. Eu e Selena comemos quase todo o macarrão disputando até o final.

- E a bebida pra nossa visitante, Demi? – vovó perguntou contente.

Fui até a geladeira e vi vários sucos, refrigerantes e outros tipos de bebidas e comidas.

- Coca? – perguntei diretamente a Selena

- Pode ser. – ela respondeu timidamente.

Eu até pensei em perguntar se ela queria o refrigerante de laranja, mas não queria ter uma recaída na frente dela...