Herdeiros do Olimpo
5 Leona - Lembranças
Notas iniciais
Trabalhar, cultivar, proteger.
Essas são as primeiras palavras que eu me recordo desde quando eu era criança. O lema da minha família foi criado pelo meu vovô, Antônio, que veio morar nos EUA por causa da minha vovó. Ele era coronel do exército brasileiro, e ex membro do já desmanchado Brasinhas, um grupo de elite da polícia brasileira da década de 70.
Ele veio morar nos EUA, após a visita de minha vovó, Camila, ao Brasil, ela era filha de um membro do exército grego que estava de férias no Rio de Janeiro. Meu vovô me dizia que foi amor à primeira vista quando a conheceu, ele dizia: Como não se apaixonar pela Camila, ela era linda, tinha os traços de Afrodite, a deusa grega do amor, ela era tão linda quanto você minha netinha. Logicamente eu acredito nele, eu sou linda, perfeita, e diferente da minha irmã mais velha, sou a tranquilidade em pessoa, nunca perco a calma e a compostura.
Infelizmente nunca conheci a minha vovó, mas se ela era tão linda quanto eu, devia realmente ser perfeita. Minha mamãe certa vez me disse que ela faleceu no mesmo dia que nasci. Estavam todos no carro, vovô, vovó e mamãe, mas estava tendo uma grande tempestade e o vovô perdeu o controle do carro, saindo da estrada e chocando contra uma árvore. Minha mamãe disse que eu sobrevivi por ordem divina, mas minha vovó acabou morrendo a caminho do hospital. Logicamente ninguém me culpa pelo acontecido.
Eu realmente não sei o que as pessoas entendem sobre mim! Quando eu tinha cinco anos quebrei o braço da minha irmã mais velha. Estávamos brincando de beisebol, e acabei rebatendo com muita força, a bola atingiu o braço da minha irmã, foi um alvoroço só, minha irmã chorando, minha mamãe gritando, meu vovô rindo, sim meu vovô achou graça da situação. Após esse acidente, muitos outros começaram a acontecer, comecei a quebrar janelas, cadeiras, mesas, sempre por acidente, mas minha mamãe disse que era porque eu era muito nervosa, discordo dela.
Não demorou mais que dois meses, e fui colocada em uma escola de Ballet, está por sinal era muito conceituada, mas mesmo eu não sabendo nada ela conseguiu uma vaga e para piorar, ainda tive que entrar na aula de violino e de piano, tudo para controlar a minha raiva.
Quando comecei minhas aulas, as odiava, frequentava a classe com um monte de patricinhas perfeitinhas que não amavam unicórnios e ainda debochavam do meu tutu com um unicórnio bordado nele.
O incidente que me fez ter visitas frequentes com o psicólogo aconteceu na segunda semana de aula, não estava indo bem, não pegava os passos e ficar na ponta do pé doía, mas a perfeitinha da escola, Mikaela, começou a zombar de mim, dizendo que meus passos não eram leves como os de um unicórnio e sim pesados como o de um cavalo manco, que meus pés deviam ser para trás igual ao do curupira, e que eu devia entrar em uma canoa e voltar para Brasil. Eu não percebi o que fiz, eu apenas segurei o braço dela e a empurrei, está bem, confesso que ela era leve, mas como eu ia perceber que tinha quebrado o braço dela? Que o empurrão tinha sido muito forte e que ao chocar com os vidros do salão de Ballet algumas das suas costelas quebrariam? Confesso que gostei de sentir o osso do seu antebraço quebrar, de sentir minhas mãos empurrando seu peito contra os espelhos, ouvir aquela sinfonia de ossos e vidros quebrados era uma harmonia única.
Deus sabe o que sofri naquele dia, achava que minha mamãe iria vir, me pegar pelos cabelos e me esfolar viva, mas não, ela veio toda preocupada, perguntou o que estava acontecendo, me abraçou de forma tão carinhosa que me fez sentir pena de mim mesmo pelo que eu fiz aquela víbora que chamavam de menina. Esse dia eu chorei, chorei como nunca por ter decepcionado a minha mãe, ela lógico não me disse nada, mas pude ouvi-la conversar fora do carro com os pais daquela víbora, os ouvi dizendo que iriam me processar e minha mãe toda diplomática conseguiu que o pai da víbora não o fizesse, não sei o que ela fez, mas sei que mexeu seus pauzinhos no exército. Depois desse fato, tive que começar a fazer visitas ao psicólogo, que tentou me convencer que eu sofria de ataques de fúria e que não controlava minha raiva.
Sabe, sou linda, fofa, a queridinha de todos, sério como não me amar? Sou perfeita, ao menos era nisso que eu acreditava até entrar na escola. Eu simplesmente não conseguia aprender nada, sabe o que é nada? Então era tipo isso. Lógico que dessa vez eu não machuquei ninguém além de mim mesma. Treinei arduamente no Ballet, piano e violino, foquei tanto em Ballet e nos instrumentos, que consegui convencer a minha mãe a me tirar da escola e ter aulas em casa para se encaixar melhor com os meus ensaios e treinos.
A cada dia eu ficava melhor, confesso que quebrei alguns violinos nos primeiros meses, e o coitado do piano foi consertado tantas vezes que acabou sendo trocado com um ano de uso. Quanto mais eu melhorava no Ballet, mais eu tinha dificuldade nas aulas e mais me afastava das crianças da minha idade.
Com sete anos, consegui uma bolsa de estudos na Ballet school of Boston, a melhor escola de Ballet de toda região, foi quando a minha vidinha que eu achava que não podia piorar, piorou. Eu e minha irmã, meio que competíamos em tudo, mas ela era nervosa, dava trabalho na escola, mas sempre foi uma musicista e bailarina melhor do que eu. E diferente da maioria dos irmãos, nos duas éramos unha e carne, éramos como o rio e Iara, goiabada com queijo, farofa com torresmo, tá eu sei que não são bons exemplos, mas meu avô sempre falava esses, dizia que sentia saudades do Brasil. Voltando, me recordo como se fosse ontem, eu e minha irmã estávamos treinando, iríamos ter o teste para a Ballet school of Boston, os passes eram difíceis, mas resolvemos encenar o lago dos cisnes, iria ser o cisne branco, a escolha era óbvia, com todo o meu glamour e, minha irmã seria o cisne negro, entretanto naquela noite, uma mulher chegou, conversou com minha mãezinha e ficou para o jantar.
Durante o jantar, a mulher se apresentou como Hera e que era representante de uma escola famosa, parando para pensar não me recordo o nome da escola, nunca lembrei, mas, é porque eu fiquei muito nervosa perto daquela mulher, quando chegou se parecia com uma bailarina, sua postura era impecável, seus cabelos estavam presos em um coque perfeito com uma pena de pavão o enfeitando, seu rosto era bonito, rígido, como de uma mulher que passará muito tempo sendo esnobe com as pessoas. Sabe eu não me recordo do seu rosto, acho que esqueci por causa do que aconteceu durante o jantar, ela foi ficando desfocada, mudava de rosto como se estivesse sendo desconectada, tipo em uma televisão, depois seu corpo ficou em volta de uma névoa, eu não me recordo de suas palavras, mas quando ela disse que ia levar a minha irmã, eu subi para o meu quarto, me prendi lá, e não quis falar com mais ninguém. Sim a porta quebrou quando a fechei.
Minha irmã foi a primeira a vir conversar comigo, não entendi bem o que tinha acontecido, porque dormi por dois dias. Minha irmã veio até o meu quarto deitou do meu lado e me chamou de "leoazinha", minha leoazinha, ela sempre me chamou assim. Quando acordei, olhei em seus olhos, percebi que eles estavam vermelhos, ela chorava muito e parecia que já o fazia a bastante tempo. A abracei, disse que tudo ficaria bem e que ela iria me ver nas férias, mas não consegui me segurar, chorei muito, sabendo que não podia impedi-la, me arrependo, porque ela estava indo embora naquele dia e os dias que podíamos ter passado juntas passei dormindo, exausta por um motivo que não sei o qual. Minha mãe a levou a Nova York, não sei o motivo. Esse dia eu quebrei o piado de novo, destruí o violino e só não quebrei minhas pernas, porque vovô não deixou.
Fiquei treinando por uma semana inteira, perdi meu teste na escola e meu avô, sempre pronto para me ajudar, teve uma ideia brilhante, me levou para passar férias no Brasil. Eu achei que iria conhecer o Rio de Janeiro, ir à praia, bater nos valentões na orla de Ipanema, mas de lá eu só conheci o aeroporto, fui direto para Diamantina, nas minas gerais. Sabe eu ainda estava triste e desanimada, então viajar até Diamantina em um carro alugado com uma estrada toda esburacada não era bem a diversão que eu esperava ter por lá.
A casa onde ficamos parecia algo vindo direto dos anos, 70, para falar a verdade, toda a cidade parecia que tinha parado no tempo, mas meu avô disse que é porque Diamantina é uma cidade histórica, mas era realmente aconchegante, conheci minha tia, irmã do meu avô, Tia Bili, ainda envio cartas para ela, Tia Bili odeia tecnologia, mas você quinho, foi a melhor coisa que me aconteceu no Brasil.
–Obrigado, eu sei. Também foi engraçado ver uma patricinha nas ruas. Porém, nunca vou me esquecer quando te vi de tutu, como eu ri aquele dia, você não falava nada em português, e me aparece vestida com um tutu.
– Eu estava linda, vocês que são da roça e infantis.
–Nem vem com essa, você até que estava bonitinha, aquele coque, como ri daquele coque, mas se não abrisse a boca, iria se passar por uma brasileira facilmente.
–Eu sou 25% brasileira, e tenho orgulho disso.
–É verdade, mas olhe você agora, prestes a fazer 11 anos, só se passaram 3 anos e nem parece que você é tão nova. Você tem esse corpo de bailarina, esses cabelos cacheados sobre seus ombros, seus olhos castanhos claros são hipnotizantes, tiram até o foco desse seu rosto angelical, com seu queijo e nariz finos, mas ainda acho graça desses seus dentes meio abertos e por favor você podia tirar esse tutu rosa, compra um cinza –Quinho caiu em risos, não sei como, mesmo rindo muito, conseguiu desviar da almofada que voava em sua direção, fiquei assustada por um milésimo de segundo já que ele com sua mania de ficar sentado na janela, balançou bastante ao desviar da almofada.
–A vai plantar erva daninha na casa de outro. Você também não é de se jogar fora, mesmo para um caipira. –Estava mentindo, ele era lindo, seus cabelos castanhos longos, soltos, seguros apenas por uns fios do seu cabelo, se encaixavam perfeitamente com seu queixo fino, nariz e lábios finos, seus olhos negros como a noite, sempre me chamavam a atenção.
–Sim, mas me recordo quando entrei nessa casa a primeira vez, nunca que ia imaginar que você morava em uma fazenda e ainda mais que a casa da fazenda fosse uma mansão.
–Não é uma mansão você sabe disso. E foi uma surpresa incrível você vir morar aqui, depois das férias no brasil
–A não? Olha só esse quarto, você está deitada em uma cama king box, que cabe um elefante, espelhos em três paredes, o piso é de carvalho, um piano, ao lado um armário com uns 012938083902 violinos, e é tudo ROSA, seu quarto é completamente ROSA, sem falar que isso aqui é a prova de som e deve ter uns 100 metros quadrados. –Seus olhos diziam, estou fascinado, mas seu sorriso e tom de voz dizia: estou te esnobando.
–Serio? 1238910293 de violinos? Eu só tenho 10, e eles não foram tão caros, o estúdio minha mãe me deu, e trouxe a cama aqui para cima, porque eu acabava dormindo no chão.
–É eu sei, ri muito disso. Na verdade, o dia que eu quase morri de rir, foi quando sua mãe conseguiu a vaga para você na Ballet scru... a tanto faz o nome.
–Ballet school of Boston. E sim é verdade, ela usou seus contatos, já que eu perdi meu teste indo para as férias no Brasil, e o fato de ela ser uma coronel do exército americano, fuzileira, e atualmente trabalhar na embaixada brasileira, não tem nada a ver com aquilo. –Rimos tanto dessa piada.
–Tenho que me esconder, sua mãe está vindo. Obrigado por finalmente compartilhar comigo o que aconteceu antes de a gente se conhecer. – Quinho correu e se escondeu debaixo da cama.
A primeira vez que vi ele dar uma Jean Grey, fiquei bastante cética, mas ele sempre acertava quando minha mãe estava vindo. Não considero minha casa uma mansão, mas é uma casa humilde de três andares, fica no centro de uma fazenda nas proximidades de Boston. A casa é feita com um padrão meio rustico, meu vô Antônio, dizia que não gostava das casas americanas, então ela era bem diferente, mais parecida com as casas brasileiras, não tinha sótão, e meu quarto ficava no terceiro andar. Meu avô derrubou uma parede para fazer um cômodo só, o que veio a se tornar o meu estúdio de ballet e música. E como sempre, Quinho acertou, praticamente quando ele se escondeu de baixo da cama, minha mamãe apareceu na porta.
–Leona, você está falando sozinha de novo? Deixa para lá, temos que conversar sobre seu aniversário. –Realmente não tem como, minha mamãe é uma deusa. Seus cabelos castanhos, cacheados cheios quase em sua cintura, lhe dava um ar de poderosa, seu corpo escultural, com busto vasto, cintura fina, e quadril largo, se encaixavam perfeitamente. Sua pele era cor de mel, igual a minha, eu tinha seus olhos castanhos claros, sua boca era fina, que também herdei, seu nariz encaixava perfeitamente com todo o conjunto de seu rosto.
–Eu não quero festa mamãe, já disse! Me levantando da cama e vou até a janela, ver o horizonte.
–Não lembro de ter perguntado se você queria uma festa. – Pisei alto, fiz algumas piruetas da janela até minha cama onde me joguei e apertei forte meu unicórnio de pelúcia.
–Eu não quero mamãe. Fiz minha melhor cara de menina fofinha. –Não quero que aquelas meninas da escola de Ballet venham, nem meus professores de piano e violino, muito menos aqueles malditos professores, eles sempre ficam com raiva.
–Você não tem culpa de ter TDAH. Seus professores a amam, e Mikaela perdoou há anos por causa do incidente que você quase a matou. –Ela não estava brincando, sua postura mudou, ela saiu da porta, foi até a beira da cama, cruzou os braços e, mudou o peso do corpo de um pé para o outro. –Gente aqueles sapatos eram um Vizzano, eu quero um, mas ela conseguia me assustar mesma vestida com um conjuntinho básico de terno e calça pretas, da Donatella.
–Mas mamãe, eu não quero festa. –Me debati na cama, sempre funciona dar uma de marrenta.
–Leona você não tem escolha, eu não vou falar uma segunda vez. O seu aniversário está chegando e suas amigas vão vir para comemorá-lo SIM! –Eu amo e odeio esse olhar. Minha mãe estava com aquela postura que os homens acham irresistível, seu rosto estava com aquela linha firme, mas feliz que todo brasileiro tem. Ela é linda, nem parece que tem seus quarenta anos e mais de cinco missões de paz com o exército.
–Não mamãe, eu não quero festa. E ponto final, não vou discutir, agora da licença do meu quarto, tenho que fazer meus alongamentos. –Não percebi quando sai da cama e agarrei a mesa de jantar.
–Olha aqui senhorita Alexis, se quebrar outra mesa, você vai dormir de couro quente. –Eu realmente não percebi que estava segurando a mesa a cima da minha cabeça.
–Desculpas mamãe. –Colocando a mesa no lugar, também a mesa nem era pesada, era uma dessas mesas de jantar que minha mãe obrigava a ter no meu quarto.
–E se arrume logo. –Ela estava saindo do meu quarto, quando percebi aquele sorriso, ela é o que chamamos de estrategista nata, quando eu percebi aquele sorriso de você pode apostar, algo vai acontecer. Eu não tive mais dúvidas.
–MINHA IRMÃ VAI VIR PRO MEU ANIVERSARIO!!! –Corri até a porta onde minha ela já estava, pulei sobre seu corpo e a abracei, comecei a beijar seu rosto de forma frenética.
–Eu não sei, vai que ela vem, agora sai de cima de mim. –Era impressionante, minha mãe realmente não sabia mentir para mim, podia ver em seus olhos e naquele sorriso satisfatório que minha irmã viria.
Ela saiu do quarto, coloquei minha música de treino: I love it (I don’t Care),by Icona pop I, e comecei meu aquecimento diário com aquele pensamento: falta uma semana pra eu rever minha irmã.
–Você realmente está feliz agora. – Estava tão feliz que nem percebi o Quinho deitando na minha cama.
–Sim, você vai finalmente conhecer a minha irmã. – Continuei meus alongamentos, precisava perder um pouco de energia.
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