Herdeiros de um Passado Esquecido
1 Uma bruxa, cinco almas e um destino
New York, 2005
Jay encarou o portão a sua frente por alguns instantes, enquanto dava um trago no cigarro e soltava a fumaça lentamente. O portão era antigo, descascado e com aparência de madeira apodrecida, e estava incrustado em um muro de pedras cinzentas onde a hera crescia e depois caía em galhos frágeis.
— Tem certeza que é aqui? — ele indagou a Leo, enquanto procurava um interfone ou uma campainha. Mas, aparentemente não havia nenhum dos dois.
— Absoluta. — o outro retrucou. Ele passou a mão pelo cabelo, molhado pela chuva fina que caia — Foi esse o endereço que me deram.
Os dois sujeitos ali parados na chuva eram irmãos, embora a semelhança estivesse apenas nos cabelos aloirados e nos olhos claros. Leonard era alto, forte, com uma postura ereta e confiante. Cabelo curto, arrepiado, olhos de um azul claro como um céu de verão. Olhando de relance, parecia um valentão, mas era só aparência. Era só um garoto de gestos gentis e sorrisos fáceis. Quanto a Jay, este era um pouco mais baixo e mais esguio, com um jeito sério e observador. Seus olhos esverdeados pareciam sempre estar atentos a todos os detalhes. O cabelo comprido até a altura do ombro estava preso por um elástico simples, embora uma mecha teimosa insistisse em cair em seu rosto.
Leo aproximou-se e empurrou o portão deliberadamente, que abriu com um rangido sinistro. Ele lançou um olhar satisfeito a Jay:
— Viu? Estava aberto.
E com um dar de ombros entrou, seguido pelo irmão.
Naquela tarde fria e nublada de outono, o jardim parecia mais triste e desolado do que deveria realmente ser. Uma grama rala falhada cobria o chão, onde uma calçada de pedras levava a varanda. Um balanço antigo oscilava levemente ao sabor do vento, como se movido por um fantasma invisível, enquanto as agulhas de um pinheiro caiam suavemente sobre a tela que cobria uma piscina.
Eles pararam no meio do jardim para observar a casa. Não era uma mansão, mas tinha dois andares e uma arquitetura que parecia ter saído de um bairro antigo de Londres ou Paris. Quase todas as janelas estavam apagadas, exceto uma no andar superior, de onde saia uma música alta. Com um pouco de atenção, reconhecia-se que era Monster, da banda Skillet.
Ao chegarem na varanda, finalmente acharam uma campainha. Nem um minuto se passou depois de terem tocado e uma jovem abriu a porta. Ao ver os dois desconhecidos, ela perguntou:
— Pois não?
— Eu poderia falar com o Sr. Minamino?
— E qual seria o assunto?
— Assunto particular. — replicou Jay, tragando o cigarro mais uma vez.
— Se é particular, vocês podem se encaminhar para o cemitério. — retrucou uma voz que veio lá de dentro.
— É porque nosso pai já faleceu há cinco anos… — explicou a jovem rapidamente — Mas quem são vocês?
— Desculpe a minha indelicadeza, eu nem me apresentei. Meu nome é Leonard Steiner. — disse ele, apertando a mão dela subitamente, e foi então que ele reparou na garota pela primeira vez. E definitivamente ela não era o que ele esperava encontrar naquela casa.
Ela tinha um rosto bonito, com traços delicados e a pele clara marcada por pequenas sardas, parecendo uma boneca de porcelana. Os cabelos eram ondulados, castanhos claros, e caiam até o meio das costas. Usava óculos redondos de aro fino, os quais ela endireitou antes de abrir um sorriso e se apresentar:
— Sofie. É um prazer.
— Jay. — o outro a cumprimentou com um movimento de cabeça.
— Não querem entrar? Está frio aí fora. Eu posso trazer um café...
— Seria ótimo, obrigada.
Sofie se afastou da porta para que eles passassem. Jay apagou o cigarro num vaso de plantas que havia na entrada e jogou a guimba ali mesmo, sem parecer se importar se a anfitriã aprovaria ou não, e entrou logo depois do irmão. Então sua atenção se concentrou na figura que falara anteriormente...
Era uma jovem que não deveria ter mais de 20 anos, e ele não saberia explicar o que realmente lhe chamou tanto a atenção. Com certeza não foi o rosto pálido, de traços finos, onde se destacavam os olhos cor de amêndoa carregados de delineador preto. Nem a camiseta com estampa de caveira, o bracelete de espinhos ou o crucifixo de prata pendurado no pescoço. Não era a primeira nem a última roqueira, punk, gótica, ou seja lá o que diabos fosse, que ele via na vida. Poderia ter sido o cabelo, afinal, que o fez questionar quanto tempo ela deveria levar para penteá-lo. Era tão comprido que as mechas mais longas atingiam a altura dos joelhos e Jay não conseguiu definir se ela era loira, morena ou ruiva, pois ele possuía matizes que iam do loiro ao castanho e, em algumas partes, principalmente nas pontas, a cor tornava-se vermelho sangue. Porém, o que realmente despertou seu interesse foi o jeito que ela o olhou e, por uma fração de segundo, ele percebeu um brilho diferente em seus olhos, embora seu rosto fosse uma máscara sem expressão.
— Essa é minha irmã, Isis. — apresentou Sofie, mas esta os ignorou e sentou no braço do sofá, sem demonstrar a menor cortesia, afundando o rosto num livro de Lovecraft — Não reparem, ela é meio… tímida.
"Antipática, eu diria..." — foi o que o rapaz de cabelo comprido pensou de imediato, mas ele não era a pessoa mais apropriada para criticar. Na maioria de seus dias, ele não se apresentava muito sociável.
Sofie sumiu por alguns minutos, deixando os que ficaram na sala num silêncio constrangedor. Leonard sentou-se no sofá, enquanto Jay observava uma estante lotada de livros que se estendia por uma parede inteira. Livros de fantasia, romances policiais e histórias de suspense ocupavam todo o espaço, indo da coleção completa de Senhor dos Anéis até a coletânea com os melhores contos de Agatha Cristh. Um bom gosto literário, na opinião dele...
Sofie retornou, trazendo uma bandeja com uma garrafa térmica e algumas xícaras. Colocou-a sobre a mesa de centro, dizendo:
— Por favor, sirvam-se. Gostaria que me dissessem o que queriam com meu pai.
— Bem, eu realmente não sei por onde começar. — disse Leo, meio sem jeito, servindo-se de um pouco de café. Colocou uma quantidade exagerada de açúcar, e deu um gole, antes de continuar — É muito complicado…
— Não tem problema. — encorajou Sofie, se acomodando no mesmo sofá em que Isis estava. — Coisas estranhas são o forte da casa.
Jay apanhou uma xícara, colocou um pouco de café e o tomou puro, enquanto encostava na parede. Em nenhum momento ele pareceu disposto a se sentar. Vendo a hesitação do irmão, ele tomou a iniciativa:
— Há uma lenda, muito antiga e pouco conhecida. Ela conta que um aventureiro encontrou um baú, que guardava um artefato mágico e muito perigoso…
— A chave do inferno. — completou Isis, levantando pela primeira vez os olhos do livro. Ela o fechou e o colocou no sofá, cruzando os braços em seguida. Parecia que enfim merecia sua atenção.
— Conhecem a história? — surpreendeu-se Leo.
—Ah, claro. — confirmou Sofie, com uma pontinha de entusiasmo. — Essa lenda é praticamente uma tradição de família, a ouvimos desde que éramos pequenas.
— Então devem saber sobre o quinteto conhecido como a Irmandade… — continuou Leo. Mas ele parou ao reparar que havia algo acontecendo. Começou com uma luminescência sutil, e logo virou um clarão.
— Cosmo, água, terra, vento… e fogo. — a princípio, tinha-se impressão de que a mão de Isis estava pegando fogo. Bem, não era só impressão, a mão dela realmente tinha se alto incendiado. — Depois de tantos anos, não esperava ouvir essa história de novo, ainda mais vindo de dois desconhecidos. — o fogo dançou em volta de seu braço em fitas incandescentes, até que ela fechou o punho, e tudo desapareceu como se nunca tivesse acontecido.
Jay soergueu uma sobrancelha, e olhou para o irmão, que exibia uma expressão de surpresa e murmurava alguma coisa que parecia ser “encontramos”. Quanto a Sofie, não sabia-se dizer se ela estava constrangida ou se queria xingar Isis. Ela tirou os óculos e segurou a ponte do nariz, obviamente procurando algo a dizer sobre aquilo. Então, Leo pigarreou, e tentou amenizar:
— Está tudo bem. Nós também somos… parte da Irmandade.
— Sério? — ela recolocou os óculos rapidamente — Incrível…
— Tava na cara desde que eles entraram aqui… — resmungou Isis, revirando os olhos — Dá para sentir a aura de longe. Não finja que você também não percebeu.
— Eu percebi que havia algo diferente sim, mas não imaginei que seria isso. — a irmã replicou, com um dar de ombros — Como você mesmo disse, depois de tantos anos…
— Então, é isso… Depois de séculos, a Irmandade se reúne uma vez mais. — disse Leo, com uma pitada de empolgação.
— Estamos em quatro. — observou Jay, recolocando a xícara vazia na bandeja — Falta um…
— Ora, temos um Sherlock Holmes aqui…
— Isis, pare de ser tão desagradável. — a irmã censurou, e voltando-se aos rapazes, esclareceu — O membro que falta é a minha outra irmã, mas ela não mora com a gente.
— Vamos logo ao ponto. — Leo deu mais um gole em seu café, que já começava a ficar frio. — Queremos a ajuda de vocês pra combater os demônios e bani-los de uma vez por todas.
Sofie hesitou. Sua vida inteira soube que esse dia chegaria. Desde pequena, junto com suas irmãs mais novas, fora treinada e preparada para esse momento. Mas agora que a hora da decisão finalmente se apresentara, lhe oferecendo um destino sombrio e incerto, ela sentiu como se um enorme peso tivesse se alojado em suas costas. Sua expressão tornou-se séria, e por alguns instantes ela ficou em silêncio, analisando os prós e os contras, só para chegar a uma simples conclusão: não tinha escolha.
— Acho… que viemos a esse mundo com esse propósito, afinal. — o pequeno sorriso que ela exibiu nada tinha de feliz, era apenas resignação.
— Fico muito feliz que…
Isis aplaudiu brevemente, o que fez Leo parar de falar e todos olharem para ela.
— Mas que bonitinho. Sério, qual é o próximo passo? Marcar uma excursão à praia ou um piquenique? Vocês tem noção de onde estão se metendo?
— Claro. — a voz de Jay soou baixa, mas firme. — Durante anos, temos caçado monstros, enquanto procurávamos por vocês.
— Acham mesmo que nós quatro podemos enfrentar uma legião de demônios que já dizimaram exércitos? Isso não funcionou da primeira vez, não vai funcionar agora. —Ela parecia realmente puta com aquela situação, mas também não elevou a voz — Além do mais, a humanidade vem fazendo um excelente trabalho em se destruir sozinha. Porque eu deveria arriscar minha vida? Para salvar os inúmeros assassinos, ladrões, estupradores, pedófilos? Para ser mais um nome esquecido numa lápide, enquanto o mundo vai continuar a merda de sempre, com monstros ou não?
Jay a encarou. Não pode deixar de concordar com alguns pontos… De certa forma, os argumentos dela eram consistentes. Havia sensatez e coerência naquelas palavras, mas ele não podia deixar de retrucar:
— Do mesmo jeito que existem pessoas que deveriam morrer, há pessoas que merecem ser salvas. Mas não cabe a nós decidir isso. Quanto aos riscos, eles são realmente grandes, e talvez realmente falharemos antes do fim. Mas a morte vem para todos, sem distinção. O que fazemos antes da chegada dela é o que faz a diferença.
— Besteira… No mundo de hoje não existe espaço para heróis. Esse tempo se foi. Enfim, façam como bem entenderem. — ela levantou, apanhou o livro, e subiu as escadas, sem mais nenhuma palavra.
Após um silêncio pesado que durou alguns instantes, Jay desencostou da parede e colocou sua xícara de volta na bandeja:
— Bem… Parece que o que viemos fazer aqui já está resolvido. Devemos partir o quanto antes.
— Sim… — respondeu um Leo desiludido, levantando do sofá.
— Eu lamento. — Sofie ajeitou os óculos, e também se levantou — Não posso fazer mais do que oferecer minha ajuda. Se precisarem de mim, estarei à disposição.
Depois de uma breve troca de telefones e de uma despedida repleta de sorrisos amarelos e de alguns “até logo” sem muita convicção, os irmãos Steiner deixaram a casa. E mal eles saíram pelo portão, Leo começou com as reclamações:
— Vamos lá, você disse. Vai ser tranquilo, você disse. Convencemos quem quer que seja e vamos embora em menos de cinco minutos, você disse. Não sei porque eu levo a sério as coisas que você fala.
— Não me responsabilize — retrucou Jay, acendendo outro cigarro. — Não fui eu quem resolveu puxar conversa perguntando pelo pai morto…
Leo deu de ombros:
— Não foi uma das minhas melhores ideias. E, além do mas, você queria que eu dissesse o que? “Olha, nós viemos aqui porque uma bruxa velha e esquizofrênica mandou procurarmos o pai de vocês, mas é claro que eu sei que ele já está morto”…
Jay revirou nos olhos, enquanto tirava a chave do carro do bolso. Eles haviam parado o velho mustang preto a alguns metros da entrada da casa, o que não fora uma ideia tão boa, já que em seguida começara a chover.
— Aquela velha nos deu mais informações relevantes do que já conseguimos em todos esses anos.
Leo abriu a porta do carona e se sentou, sentindo um certo desconforto com a lembrança da visita a bruxa. Aquela mulher lhe dava calafrios até hoje, e ele não pode evitar uma careta. Afinal, não fora uma experiência agradável. Para começar ele não conseguira prestar lá muita atenção no que ela falava, pois o cheiro extraforte de incenso vagabundo misturado com algo que parecia naftalina impregnava tanto aquela minúscula saleta que o deixou tonto e enjoado. Mas isso não era o pior. O que realmente o deixara muito impressionado (no mal sentido, é claro), fora a aparência dela. Ela era tão velha que Leo não pode deixar de se questionar se ela dormia num sarcófago. Os cabelos eram um emaranhado acinzentado que parecia não ver pente ou água há anos. A cara era mais enrugada que uma uva-passa, e ela tinha uma corcunda que a deixava completamente fora de eixo. Porém, o pior de tudo eram os olhos. Ah, aqueles olhos cegos, brancos e leitosos, que pareciam enxergar dentro dele e vasculhar bem no fundo de sua alma. Resumindo, muito desagradável. Mas, aparentemente, seu irmão não se incomodara nem um pouco com nada daquilo.
Alguns dias antes, Jay tivera a genial ideia de visitar a tal bruxa, no intuito de tentar descobrir a localização de um artefato antigo que eles vinham procurando há anos. Mas, ao invés disso, ela começou a falar de espíritos atormentados, de reunir cinco guerreiros lendários, entre outras coisas que Leo não entendeu. Depois, o irmão explicou-lhe que a mulher dissera que os espíritos de cinco guerreiros haviam voltado para cumprir a missão na qual falharam anteriormente, e que de nada adiantaria conseguirem o tal artefato se eles não reunissem as tais figuras lendárias. É claro que eles sabiam que eram parte desse grupo, mas não faziam ideia de onde encontrar os outros. Então a bruxa acrescentou apenas mais uma coisa: “Procurem Minamino. Na sua outra vida, vocês perderam pela desunião, por isso vieram como irmãos para superar suas diferenças.” Muito prático! Eles encontraram o resto da Irmandade com uma visita! Bem, no fim, nada saiu como planejado.
— E então, o que vamos fazer agora?
— Voltar ao trabalho. — respondeu Jay, ligando o carro e dando a partida — Por hora, é só o que podemos fazer.
Quando o carro se afastou, Leo pensou ter visto uma sombra numa árvore. Mas foi rápido demais para ter certeza.
— Eu só espero que nossa visita não traga problemas a elas…
Depois que os irmãos Steiner saíram, Sofie recolheu a bandeja e a levou de volta a cozinha. Quando voltou, seu olhar parou numa das fotos que decoravam uma das paredes da sala. O retrato, meio desbotado, mostrava duas garotinhas pequenas. Sofie, com seus oito anos, posava séria para a câmera, enquanto Isis, ainda menor, erguia uma espada de madeira no ar, com um lençol amarrado no pescoço como uma capa de super herói. “Eu serei a maior guerreira do mundo”, era o que ela sempre dizia. Mesmo quando o treinamento imposto pelo pai delas parecia pesado ou duro demais, Isis nunca reclamara. Ela gostava daquilo.
Agora, sua irmã se recusava a assumir o papel que sempre desejara.
Aquilo não podia simplesmente ficar assim.
Ela subiu as escadas. Encontrou Isis sentada em frente ao computador, jogando um jogo de aventura. Sofie parou atrás dela, em silêncio, enquanto ela tentava passar de uma fase onde precisava acionar uma alavanca e correr até uma porta que se abria depois de uma sequência de armadilhas mortais. Isis falhou miseravelmente, deixando o personagem ser esmagado por uma parede de espinhos, o que causou uma série de palavrões e xingamentos.
— Será que podemos conversar um pouco, antes de você voltar ao seu joguinho?
Isis virou a cadeira em direção a ela:
— Okay. Sobre o que quer falar?
— Eu queria saber o porquê. Você era a pessoa mais treinada e preparada. Porque a recusa em ajudar?
— Eu não tenho motivo nenhum para me envolver…
— Como não? Sempre soubemos que um dia teríamos que assumir nossos papéis. Eu esperava isso da Nataly, mas de você…
A cara de Isis ao ouvir o nome da irmã mais nova foi de desprezo.
— Nataly não está aqui. Nunca se importou. Porque eu deveria?
— Porque você não é ela.
— Olha só, Sofie… — ela levantou da cadeira, ficando frente a frente com a irmã — Nosso pai foi o melhor que podia ser. Ajudou tanta gente, e nos treinou para ser ainda melhores do que ele. E de que adiantou? Quando realmente foi preciso, nada pode ser feito. Eu não pude fazer nada…
Sofie engoliu em seco. Um nó se formou em sua garganta, e ela abaixou o olhar:
— Ah, Isis… Não se culpe…
— Se o poder que nos foi dado não serviu para proteger quem era importante para nós, então não tem sentido algum. Eu não tenho razões para me envolver nessa guerra. Pra mim, tanto faz se o mundo acabar ou não…
Era mentira, Sofie sabia. Conhecia a irmã o suficiente para saber o que passava na cabeça dela. Ela apenas não suportaria perder mais ninguém… ela soltou um suspiro de resignação e disse:
— Eu não posso te forçar a nada, você tem o livre arbítrio de fazer o que bem entender. Mas, mesmo assim, eu preciso te mostrar uma coisa. Venha comigo.
Isis seguiu Sofie até uma porta no final do corredor.
— O escritório do papai? Eu não quero entrar ai… — resmungou Isis, enquanto Sofie destrancava a porta e a empurrava suavemente.
Um cheiro insuportável de mofo veio de dentro da sala, o que fez as duas automaticamente taparem os narizes. A mais de cinco anos, ninguém entrava ali. Quando as luzes se acenderam, revelaram uma sala comum, sem nada de interessante ou anormal. Havia algumas prateleiras com livros, uma escrivaninha, um baú velho e meio podre, um armário enorme e outro menor, tudo coberto por uma grossa camada de poeira. As paredes estavam manchadas e descascando, e por toda à parte pendiam teias de aranha.
Isis ficou parada, meio desolada ali no meio daquele lugar que ela preferia evitar a todo custo, enquanto Sofie ia até o enorme baú que estava em um canto. De dentro dele, tirou cuidadosamente um embrulho comprido, que depositou nas mãos da irmã, dizendo:
— Ele queria que ela ficasse para você.
Isis o desembrulhou, mas quando deparou-se com o que era, suas mãos tremeram e quase deixou cair. Era uma espada, a qual ela reconheceu imediatamente. O punho era cuidadosamente esculpido, e a lâmina parecia de prata pura, com ideogramas gravados em toda sua extensão. Porém, para ela, aquela era uma arma maldita. Ainda havia nela marcas de sangue seco, que estavam ali há muito tempo, e ela se lembrava muito bem do por que.
— A minha decisão continua a mesma. — Isis afirmou, com a voz fraca.
— É uma pena… Nosso pai ficaria orgulhoso…
Ao dizer isso, Sofie virou as costas e saiu andando. Podia sentir o ódio da irmã acordando uma vez mais. Se tivesse olhado para trás, com certeza a teria visto sentar no chão sujo e empoeirado, deixando a espada a sua frente e escondendo o rosto nas mãos. Mas ela não se virou. Sentiu-se mal por reabrir antigas feridas dessa forma, mas não tinha escolha.
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