Herdeiros de Cthulhu
1 Parte I
Enquanto a maioria ia à missa, Oswaldo tirava os domingos para folhear os jornais e cartas que recebia no cubículo que chamava de quarto. Sem janelas, contava com uma lamparina acesa, a chama enfraquecida que tremia enquanto o homem em seus quarenta e poucos anos apertava os olhos para enxergar melhor. Para alguns, aquilo era absurdo, mas ele sentia prazer em caçar cupons nos jornais. Quase todas suas compras vinham de descontos especiais que recortava das páginas amareladas. Além disso, ele encontrava histórias — histórias reais — que o levavam para um lugar além daquela velha pensão em que residia há tantos anos.
No entanto, naquela tarde especialmente quente, o homem congelou diante do que leu. Não era um jornal, mas uma carta endereçada a ele. O nome do remetente era peculiar: James Farrell Dee. Que esquisito, Oswaldo pensou, o que um gringo vai querer comigo? A carta estava perfeitamente selada e intocada. Fazendo um breve rasgo numa das pontas, Oswaldo abriu o envelope e começou a ler o conteúdo da carta.
Ao Sr. Oswaldo da Silva, residente da cidade de Caicó no estado do Rio Grande do Norte, Brasil.
Venho por esta carta comunicá-lo com tristeza o falecimento de seu pai, o grandioso Sr. Herald P. Black. Talvez você não o conheça, mas Herald foi um nome importante da área da arqueologia. Tendo viajado todo o mundo, ele deixou uma vasta prole.
Nos últimos anos de vida, o Sr. Herald lamentou profundamente o distanciamento em relação a seus filhos. Por isso, ele me incumbiu de procurá-los e, principalmente, dá-los o que lhes é de direito.
Peço que, assim que tenha lido estas palavras, me encontre no Hotel do Sol, próximo da Igreja de Sant’Ana, no centro da cidade.
Atenciosamente, James Farrell Dee.
Aquilo só podia ser um golpe. A mãe de Oswaldo morreu há anos e não deixara nada para o filho. Quando ele perguntava sobre o pai, ela dizia ter sido um malandro que simplesmente se divertiu e foi embora, nas palavras dela. Oswaldo até ensaiou rasgar a carta, mas algo o impediu de continuar. E se for verdade? E se tiver algo para mim? Os pensamentos voavam pela sua cabeça em alta velocidade. O que ele tinha a perder? Alguns minutos de andança? O hotel não ficava longe e, no pior dos casos, ele sempre podia correr e despistar qualquer golpista pela cidade. Não vão me atacar, ele refletiu, sou só um pobre lascado.
Oswaldo abotoou a camisa com pressa, calçou os sapatos e saiu da pensão quase correndo. Do lado de fora, o ar estava quente e seco, como era de costume na cidade. Entretanto, o coração do homem palpitava como se houvesse algo além, uma estranha força que prometia mudar sua vida para sempre. Nem mesmo ele entendia o que estava acontecendo. Uma parte de si gritava dizendo que aquilo era só uma brincadeira de mau gosto e que sua vida miserável seguiria inabalada. Um outro lado, no entanto, tinha a plena certeza de que as coisas nunca mais seriam as mesmas. Fé e descrença coexistindo no mesmo cérebro.
Não tardou para que chegasse no Hotel do Sol. O prédio de três andares não impressionava moradores da capital, mas era um dos edifícios mais importantes da cidade, chegando a receber até mesmo presidentes em outras oportunidades. Indo até a recepção, Oswaldo pigarreou antes de começar a falar.
— Com licença, meu amigo. Estou procurando um tal de… — fez uma pausa enquanto relia a carta — James Farrell Dee. Sabe me dizer se ele está aqui?
O atendente gesticulou, pedindo para ver a carta. Não havia entendido uma palavra sequer que saíra da boca de Oswaldo.
— Ah, sim — o recepcionista disse enquanto lia. — Qual o seu nome?
— Oswaldo.
O atendente interfonou e, após poucos minutos, um homem magricela e com aspecto esquisito para os padrões locais apareceu descendo as escadas. Com um par de óculos com armação dourada, ele cheirava a perfume francês e cigarro.
— O senhor deve ser Oswaldo da Silva, estou correto? — O sotaque entregava sua origem norte-americana. — Eu sou James Farrell Dee. Estava ansioso para conhecer um dos filhos de Herald, ainda mais nesta terra tão única. Como é viver aqui em Caicó?
Apesar do sotaque carregado, era notável o esforço que o gringo fazia para falar o português da forma mais correta possível. Oswaldo chegou até mesmo a se perguntar em quanto tempo ele teria aprendido a língua, ou se talvez ele seria um desses exemplares de poliglotas.
— Caicó é quente, sabe? — Oswaldo respondeu. — Mas eu me dou bem aqui. Nunca estive em nenhuma outra terra, afinal.
— É uma cidade pequena, sem dúvidas, mas de forma alguma provinciana. Na verdade, para qualquer lado que eu olhe, vejo movimento, inclusive de veículos automotores, algo que não vi nas outras cidadezinhas entre a capital e aqui. — Enquanto falava, James mexia em seus bolsos até segurar um pequeno pacote. Então, olhou para o sofá ao lado e gesticulou para que Oswaldo o acompanhasse. Após se sentarem, prosseguiu. — Sua mãe chegou a contar sobre seu pai?
— O Herald? Ela só me disse que ele era… — as palavras malandro e safado passaram pela cabeça de Oswaldo, mas ele se conteve. — Quer dizer, ela me falou que ele era um homem atarefado e que precisou se ausentar. Naquele tempo, eu pensei que ele havia morrido.
— Ele definitivamente era um homem atarefado! Vivia aqui e ali ao redor de todo o globo com seu trabalho de pesquisa. Entretanto, ele não morreu cedo. — James fez uma pausa e entregou o pacote a Oswaldo. — Na verdade, apenas no mês passado ele veio a falecer. Teve uma vida rica e longeva e, por isso mesmo, quis garantir que seus filhos recebessem aquilo que mereciam.
Oswaldo olhou para o pacote: ele cabia em suas mãos sem grande esforço. O seu pai não parecia tão esforçado assim em garantir que seu filho abandonado desfrutasse de qualquer riqueza que fosse.
— O que você encontrará neste pacote é fruto do trabalho e esforço de Herald. Algo que poucos no mundo sequer chegaram a tocar, algo que alguns até diriam que veio de outro mundo. Mas, além disso, há também alguns títulos do Tesouro Nacional com um valor nominal altíssimo, algo que supera a casa de dezenas de milhares de dólares.
— Dólares?!
— Sim, Oswaldo — James falou o nome dele em um tom sério e até mesmo misericordioso. — Perdoe a minha intromissão, mas é evidente que você viveu uma vida sofrida. A partir de hoje, ela não será mais assim. O seu pai apenas desejava o seu melhor. Além dos papeis com ações, você também terá uma carta timbrada de um advogado de confiança de seu pai com as instruções detalhadas de como acessar esse dinheiro.
Oswaldo engoliu em seco enquanto segurava o pacote. Aquilo não parecia real. Fugia até mesmo das histórias absurdas que lia nos jornais ou nos livros. Como alguém como ele poderia ser filho de um verdadeiro magnata? Como que, na metade de sua vida, poderia ter acesso a tanta riqueza? Ele logo começou a desembrulhar o pacote.
— Espere — James foi veloz em dizer. — Guarde este momento para a privacidade do seu quarto. O que você verá aí está além do que os olhos mundanos podem compreender. Por favor, siga minhas instruções.
As palavras fugiram de Oswaldo, mas ele encarou James com os olhos cheios de lágrimas e nada mais precisou ser dito. Despediram-se e, antes que pudesse perceber a cidade ou o calor, Oswaldo se viu mais uma vez em seu quartinho de pensão.
O pacote parecia pulsar. Era feito de papel fosco e amarrado com um cordão de lã simples. Oswaldo rapidamente desamarrou e, ao abrir o pacote, viu algumas dezenas de papeis. Ali estaria a fonte de sua riqueza vindoura. Havia, entretanto, uma caixinha dentro do pacote. Ele não tardou a abri-la.
Imediatamente, um brilho esverdeado tomou conta de seus olhos, como se não existisse nada mais ali. Esse verde vinha em ondas, como que vivo e pulsante, desdobrando-se em vários sentidos e de maneira tridimensional, emanando uma luz que superava em muito sua materialidade física. Oswaldo não conseguia desviar o olhar e, no fim das contas, não adiantaria: havia luz para todos os lados. Ao mesmo tempo, o homem não queria fechar os olhos. Estava hipnotizado e sua própria vida parecia ter se convertido em luz.
Um estrondo agudo tirou o herdeiro do transe. Na cozinha da pensão, alguém derrubou uma série de panelas. Oswaldo olhou na direção da porta e, ao perceber que aquilo não lhe dizia respeito, voltou a encarar o objeto que o encantara instantes atrás. Não havia nada de extraordinário, afinal. Era só um anel.
Um anel de beleza única, tinha que admitir. O seu aro era de ouro e tinha cerca de 4 milímetros, contendo os seguintes dizeres inscritos: vita mors vita. Além disso, contava com uma estranha pedra verde incrustada. Ela não era polida, apresentando um formato fractal difícil de ser definido ou mesmo descrito. Aquela forma, na verdade, parecia ser hipnótica por si só, com curvas convexas que faziam com que a própria luz deixasse de obedecer às leis da física conhecidas pelo homem até então. Da mesma forma, o olhar de Oswaldo seguia aquele desenho em uma tentativa inútil de compreensão. Restou-lhe apenas a ideia de colocar o anel no dedo.
Sentiu um arrepio quando percebeu que o anel encaixou-se perfeitamente em seu dedo anelar. Nem apertado, nem folgado; do tamanho perfeito, como que confeccionado para ele. Então, começou a chorar. Era como se tivesse recebido um abraço, talvez de James Farrell Dee, talvez de seu próprio pai.
Em prantos, Oswaldo se deitou sobre a cama, sentindo que o anel o cobria de alguma forma estranha de amor. O dinheiro, os títulos do Tesouro e a nova vida podiam esperar. Por hoje, Oswaldo teria uma boa noite de sono. Ou ao menos era assim que ele pensava.
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