Herdeiros da Guerra
13 Capítulo XII - Redenção Parte II
– Deixe-me ver se vocês realmente escovaram os dentes. – ordenou Kassyeh seriamente.
Saba e Karen abriram as bocas, mas não conseguiram conter as risadas enquanto eram examinadas atentamente por Kassyeh. Quando viu que elas realmente tinham escovado os dentes, ficou satisfeita e apontou para a cama.
– Cama, agora, as duas.
As meninas reclamaram, mas foram para a cama. Depois do jantar, elas tinham brincado com Tewdric até a exaustão e agora se preparavam para dormir. Saba iria ficar no quarto de Karen, apesar da afirmativa que a menina poderia ficar sozinha em um dos quartos de hóspedes. Mas a pequena orquisa preferia partilhar a companhia de Karen naqueles dias e agora se acomodava com a elfa na cama grande de dossel.
O quarto de Karen era parecido com o de Ash, com tons de lilás e diversas bonecas em aparadores pelas paredes. Anteriormente havia um berço no lugar da cama, mas logo que Karen estava grande o suficiente para não precisar mais dele, suas irmãs lhe deram uma cama bem grande, como ela pedira. E era nela onde agora as duas meninas se acomodavam, uma do lado da outra.
Saba vestia uma das camisolas de Karen, enquanto a pequena elfa preferira dormir usando uma camisa de Tewdric que praticamente arrastava no chão. Kassyeh fizera tranças nas meninas e agora as cobria com uma pesada manta.
– Querem que eu acenda a lareira? – perguntou depois de colocar mais uma manta sobre Saba.
– Não precisa,ta quentinho! – disse a pequena orquisa se aconchegando.
– Se ficar frio demais, eu te chamo! – garantiu Karen.
– Certo, chame mesmo. – e olhando as meninas deitadas, perguntou – Querem uma história antes de dormir?
Elas negaram com a cabeça.
– Música! – exclamaram em uníssono.
Kassyeh riu, sentou-se na beira da cama e cantou para elas. Não demorou muito e logo as meninas caíram num sono profundo, exaustas com as diversões daquele dia. Mesmo assim, Kassyeh cantou a música até o final, e depois depositou um beijo na testa de cada uma. Levantou-se, verificou se as janelas estavam bem fechadas, puxou as cortinas, apagou a luz as janelas e por fim, saiu do quarto.
De lá, foi o quarto de Ash, que também já estava deitada, mas ainda estava acordada.
– Pensei que já tinha dormido. – disse Kassyeh se aproximando da cama da irmã e sentando.
– Com aquelas duas gritando aí do lado não dava para dormir.
A maga riu.
– Elas se acalmaram agora, então você logo vai adormecer. – e passando a mão nos cabelos da irmã, perguntou – Quer que eu cante para você?
– Não sou mais criança, Kass. – reclamou Ash, mas sem muita convicção. Queria sim uma cantiga de ninar, mas não queria que a irmã pensasse que ela era uma criançona.
Percebendo a relutância da irmã em aceitar a canção, mesmo que quisesse, Kassyeh mudou de tática.
– Então, você deixa que eu cante para você? – pediu singelamente – Estou com vontade de ninar um pouco minhas irmãs...
– Claro! – respondeu Ash um pouco rápido demais.
Kassyeh não riu, apesar da vontade de soltar uma risada diante da reação da irmã. Apenas começou a cantar a mesma música que cantara para Karen e Saba. Ash deixou-se levar pela voz melodiosa da irmã e logo dormiu também. A maga então fez o mesmo procedimento de verificar as janelas e cobrir a irmã e lhe aplicar um beijo na testa. Depois, saiu do quarto.
No corredor, sozinha, Kassyeh se encostou à parede e levou a mão ao ventre. Será que já estaria grávida? Quando saberia? E se nunca pudesse ter filhos, sua sina seria apenas cuidar daqueles a quem não dera a luz? Bem, não era hora de pensar naquilo. Havia problemas a serem resolvidos e tinha que manter sua mente focada neles, em ajudar Luxuriah e não apenas em seus desejos pessoais.
Desceu então as escadas e foi para sala. Lá estavam Vivithi, Huaru e Tewdric, tomando o chá que ela deixara pronto antes de subir para colocar as crianças na cama. Huaru e Tewdric discutiam sobre a ida de Luxuriah à Torre Solfúria, enquanto Vivithi mantinha-se em silêncio, visivelmente em conflito consigo mesma.
– Entendo você. – disse o orc para a patrulheira – Ficar entre a lealdade a um amigo e a lealdade a uma causa.
– Não se culpe moça. – aconselhou o tauren – Lux com certeza entendeu seu lado.
– Eu realmente gostaria de esclarecer a vocês o que está acontecendo. – reclamava Vivithi – Acho que me arrependo de ser eu a lidar com isso.
– Discordo. – Kassyeh se dirigiu ao sofá, sentou-se ao lado de Tewdric e se serviu de chá – Se Lux fosse escolher alguém para guardar um segredo nosso, seria você.
Vivithi deu um pequeno sorriso.
– Espero que ela continue pensando assim quando voltar da conversa com meu tio. – e suspirando, se levantou – Tenho que ir, está ficando tarde.
– Por que não fica? – perguntou Kassyeh – Você pode ficar em um dos quartos de hóspedes.
– Gostaria muito, mas acredito que quando Luxuriah chegar vai querer privacidade. Obrigada pela janta Kass. – e olhando para os machos, disse – Até mais rapazes.
A maga acompanhou a amiga até a porta, onde trocaram mais algumaspalavras. Quando ela retornou, Tewdric se levantou e se espreguiçou.
– Acho que a Lulu vai demorar. – disse – É melhor a gente ir deitar Kass.
– Não sei se vou conseguir dormir. Estou angustiada.
– Fique tranquila. – falou Huaru sem se levantar – Eu espero o bebê voltar. E se ela não estiver bem, chamo vocês dois.
Kassyeh ainda hesitou um pouco, mas o olhar calmo e tranquilo de Huaru a fez assentir. E antes que ela percebesse o que estava acontecendo, Tewdric a levantou rapidamente e a pôs no ombro. Ela deu um gritinho de surpresa e depois caiu na risada, sendo acompanhada por Huaru. O orc deu uma tapinha no traseiro da sua elfa, e disse animadamente:
– Não se preocupe Kass, farei você não pensar em nada essa noite.
A maga enrubesceu e olhou para o chão atentamente. Huaru apenas ria e não fez nenhum comentário. Tewdric então subiu as escadas rapidamente, pulando dois degraus de uma vez e logo se ouviu uma porta sendo trancada e risadas abafadas escapando por entre as frestas.
Huaru se levantou e foi até uma grande janela que ficava ao lado da escada. Lá fora, um mundo bem diferente do dele, muito mais pomposo e suntuoso. Apesar da mansão e do amor ao povo, ele não achava que Luxuriah combinasse com aquilo tudo. Ela sem dúvida parecera bem mais feliz no meio da floresta. Talvez os elfos sangrentos, diferente dos elfos noturno, pudesse se sentir a vontade nos dois ambientes: nas florestas e em sua esplêndida cidade. Mas não negava que preferia vê-la entre as árvores de Mulgore que ali, entre os pilares de Luaprata.
Bem, o que ele pensava sobre isso não importava. Ele era um Andarilho do Sol, iria onde fosse necessário. E naquele momento, era ao lado de Luxuriah que era deveria ficar.
Voltou para o sofá e se serviu de um pouco mais de chá. Kassyeh havia providenciado uma xícara grande o suficiente para não parecer um brinquedo em suas mãos e era grato por isso. A maga tinha uma sensibilidade muito grande. Tomou um gole da bebida fumegante e pensou no dia em que vira Luxuriah pela primeira vez. Os olhos tristes que ela ostentava mexeram com sua alma de uma forma como nunca ocorrera antes. Sentiu uma necessidade tremenda de protegê-la, cuidá-la... O sentimento fora tão estranho e devastador que procurara seu mestre, Taruu, e falara sobre aquilo. A resposta que ouviu foi:
– Faça o que seu coração mandar.
E ele ouvira. E estava ali, do outro lado do mundo, no meio da capital sin’dorei, com uma xícara nas mãos, enquanto esperava a volta de seu bebê.
Sim, ela era dele. Como ele se sentia dela.
O tempo passou, o chá esfriou, mas Huaru continuou sentado à espera de Luxuriah. Já estava para ir em busca dela quando a porta da frente abriu-se repentinamente. Luxuriah entrou e Huaru rapidamente se levantou. Ao vê-lo ali parado à sua espera, a caçadora arregalou os olhos, surpresa, e se dirigiu até onde ele estava.
– Pensei que já estivesse dormindo. – disse com a voz rouca. – Não devia ter me esperado.
Huaru arqueou as sobrancelhas.
– O que aconteceu? – e vendo que ela estava sem capa e tremia, passou as mãos pelos braços dela – Onde está sua capa? Você está gelada!
– Acho que perdi no caminho. – ela não lembrava. Não lhe ocorreu nenhuma ideia que não fosse chegar em casa o mais rápido possível, e sequer havia notado o frio – Isso não é importante.
– Claro que é! – ele a abraçou, passando as mãos por suas costas, na tentativa de passar seu calor para ela. Deve ter funcionado, pois Luxuriah parou de tremer e se agarrou a ele.
– Onde está Kassyeh? – perguntou ainda abraçada ao jovem tauren.
– Dormindo. Ou não. Ela e Tewdric foram para o quarto há algum tempo.
Luxuriah se desvencilhou do abraço dele.
– Preciso falar com ela. – disse com tom de urgência e se dirigindo às escadas – Isso não pode esperar para amanhã.
– O que aconteceu bebê? – quis saber ele, preocupado, subindo logo atrás dela.
– Descobriram a paternidade de meu pai Huaru. – revelou com a voz amarga.
– E?
Luxuriah parou no alto da escada e se virou para ele.
– Parece que meu pai pertencia à realeza que tanto desprezava. – e se virando, continuou o caminho até o quarto da irmã.
O paladino ficou sem entender, mas sabia que Luxuriah explicaria melhor quando trouxesse a irmã. Só não sabia se Tewdric ficaria feliz por isso.
A caçadora não perdeu tempo e foi logo girando a maçaneta daporta. Huaru ficou feliz pelo casal ter se trancado, pois assim não seriam surpreendidos em nenhum momento constrangedor. Luxuriah, todavia, pensava o contrário, pois ficou furiosa e socou com força a porta.
– Tewdric! Saia de cima da minha irmã, eu preciso falar com ela!
Houve um burburinho do outro lado e poucos instantes depois a porta foi entreaberta. Kassyeh vestia um robe de seda, visivelmente constrangida, com os cabelos bagunçados e o rosto muito vermelho.
– Lux! Que bom que você...
Mas a maga não terminou a frase, pois a irmã empurrou a porta e entrou como furacão no quarto. Huaru, confuso, a acompanhou. Tewdric, que estava completamente nu na cama, teve a decência de colocar um travesseiro sobre sua nudez, e pela primeira vez, estava constrangido. Com certeza isso se devia pela presença de outro macho no ambiente.
– Pô Lulu! – reclamou o orc – Estamos tentando fazer um bebê aqui!
Kassyeh colocou as mãos no rosto, tomada pela vergonha. Em outra ocasião a caçadora teria rido e soltado uma piada sobre a situação, mas não naquele momento. Tirou de dentro do colete o diário de Lady Luelly e a carta do rei Anasterian. Sem dizer uma palavra, passou os documentos para a irmã, que os observou, sem entender.
– Leia a carta real. – disse Luxuriah.
Foi o que Kassyeh fez. E ao ler, sentiu suas pernas fraquejarem e rapidamente procurou a cama, onde sentou pesadamente. Como Luxuriah fizera na sala de Lor’themar, leu várias vezes para ter certeza e depois encarou a irmã, perplexa.
– Papai era filho do rei Anasterian? – falou sem acreditar no que dizia.
– Pelo visto, era sim.
A maga continuava boquiaberta.
– Então... Isso faz de nós...
– Isso mesmo. Princesas. – respondeu friamente Luxuriah.
Huaru arregalou os olhos, tomado pelo espanto. Olhou para Tewdric e o orc ostentava a mesma expressão perplexa.
Princesas?
– Kass... – Tewdric engatinhou para onde estava a esposa, segurando o travesseiro entre as pernas – Como assim princesa? Tipo, princesa que vira rainha?
– Acredito que sim... – murmurou ela ainda segurando a carta – O lorde regente está certo disso Lux?
– Está. – a caçadora se pôs a andar de um lado para o outro – O diário da vovó comprova também. — e respirando fundo, parou e passou as mãos pelos cabelos, angustiada – Por isso Vivithi foi nos buscar! Por isso todo o carinho com Karen! Por isso os patrulheiros vigiando a casa!
– Como assim? – Kassyeh levantou-se rapidamente e foi até a janela. Olhou para baixo e depois puxou as cortinas – Tem patrulheiros nos vigiando?
Luxuriah fez que sim.
– Como eles descobriram isso? – Huaru não estava gostando do rumo da conversa. Não sabia como funcionava a forma de governo dos elfos sangrentos, mas se fosse parecida com a dos taurens, elas tinham o direito de governar Luaprata, logo, fazia sentido as ações de Lor’themar Theron – Você disse que nunca souberam quem foi seu avô e de repente isso surge...
– Um falcoztruz branco nasceu. – revelou finalmente.
Para o guerreiro orc e o paladino tauren, aquela informação parecia totalmente sem sentido. Uma montaria nasceu da cor branca. Que importância haveria o fato naquela conversa? Kassyeh, ao contrário, sabia exatamente o significado do acontecimento. Voltou para a cama, sentou-se novamente e fitou o chão. Parecia em choque.
– Pela Nascente do sol... – murmurou – Um falcoztruz branco... — seus pensamentos giraram e encontraram a única lógica plausível naquele momento — O lorde regente quer que sejamos princesas?
– Aparentemente, esse é o plano. – e fitando a irmã completou – Ele quer princesas... E talvez uma rainha.
As irmãs se encararam um tempo e Kassyeh compreendeu o motivo da falta de expressão no rosto de sua irmã.
– Ele quer que você seja rainha?! – indagou perplexa levantando-se e se dirigindo à irmã – Ele te pediu isso?
Luxuriah deu de ombros e cruzou os braços.
– Não diretamente, mas acredito que é essa a intenção. — falou com a voz gélida.
– Onde entra o falcoztruz branco nessa história afinal? – perguntou Tewdric exasperado.
Com paciência, Kassyeh se voltou para seu marido e explicou tanto a Tewdric quanto a Huaru sobre o nascimento daquela criatura. Falou resumidamente sobre a história do príncipe Kael’thas, que ambos já conheciam, mas que ajudou a ligar os pontos da história. Enquanto isso, Luxuriah apenas andava de um lado para o outro semfalar nada. A maga também resumiu a história de seu pai e de sua desconhecida paternidade. Conseguiu tirar um pouco das dúvidas dos machos, mas Tewdric continuava angustiado. Algo naquela história não o agradava. Mas foi Huaru quem colocou o desconforto em palavras.
– Então... Se vocês são princesas... E talvez virem rainhas... Vão ter que casar com elfos, certo?
Houve um momento de silêncio. Tewdric estava sentado, mas de repente o mundo pareceu ter fugido de seus pés. Sua Kass... Com outro? Ser princesa a obrigaria a casar com um elfo? Por um instante, imaginou-se sem sua pequena elfa e percebeu que simplesmente não poderia existir sem ela. Nuncativera família ou lar. Kassyeh era tudo que tinha naquele mundo de dor e ódio. A única coisa boa que acontecera em sua vida. Ela se tornara sua razão de viver e um motivo realmente justo pelo qual morrer. Pensar em ficar sem seu abraço, seus lábios vermelhos como sangue, seu cheiro adocicado e sua voz melodiosa doía mais que qualquer ferimento de batalha.
Não. Ninguém iria roubar seu mundo.
Com esse pensamento, Tewdric soltou um rugido e pulou da cama. Ele agarrou Kassyeh, que estava de costas para ele encarando a irmã,pela cintura de modo possessivo como se um dragão imenso tentasse tirá-la dele. O orc nem reparou que o travesseiro caiu e expos sua nudez para todos.
– Ninguém tira minha Kass de mim! – gritou enfurecido – Ninguém! Nem que eu tenha que matar o mundo todo, ninguém tira minha elfa de mim!
– Tewdric! Calma! – pediu Kassyeh e se virando para ele colocou as mãos em seu peito, procurando acalmá-lo – Eu nunca vou deixar você! Por nada nesse mundo! – e segurando rosto dele entre as mãos, sussurrou – Eu prometo... Princesa ou não, eu sou sua... Não fique assim, tá?
Tewdric relaxou com aquelas palavras e a abraçou. Colocou a cabeça no ombro dela e deixou que Kassyeh o acalmasse.
Huaru e Luxuriah se encararam diante da cena. O jovem paladino podia não ter gritado, mas sentia a mesma dor exposta por Tewdric. Podia estar ali ao lado dela há pouco tempo, mas já não conseguia se imaginar distante. Luxuriah lhe despertava um sentimento forte de ternura, carinho, paixão e desejo.Pensar em voltar para Mulgore com a perspectiva de não voltar a vê-la mais a possibilidade de ela casar-se com qualquer outro que não fosse ele, fazia seu coração doer tanto que pensou que ele se rasgaria. Talvez, já estivesse se dilacerando com a mera presença da dúvida.
Luxuriah percebeu a dor nos olhos deles, bem como a mesma dúvida que explodira em Tewdric. Ela não disse nada, apenas caminhou até onde ele estava e segurou suas mãos. Depois, depositou um beijo singelo em seus lábios e encarou os olhos escuros. Huaru não precisou de palavras. Sabia que Luxuriah, como Kassyeh, não tinha pretensões de deixar aquele pergaminho se interpor entre os seus sentimentos.
Depois disso, a caçadora se voltou para sua irmã e seu cunhado, que ainda estavam abraçados. Ainda havia algo a ser dito.
– Temos que tomar uma decisão Kass. – falou com a voz controlada.
Kassyeh soltou-se do marido e virou-se para a irmã.
– Que escolha temos Lux? Se somos herdeiras do rei Anasterian,o trono é nosso direito.
– Pode ser nosso direito, mas não deixarei que se torne nossa prisão. – falou incisiva – Não fomos criadas para isso. Não temos culpa do erro do rei, que não assumiu seu filho, nem do príncipe Kael’thas, que se corrompeu. Não deixarei que nos imponham algo sem nos ouvir antes!
A outra elfa não precisou responder. Concordava com o ouvira e seguiria qualquer determinação que Luxuriah tomasse.
– Eu acho que vocês só devem tomar qualquer decisão quando conversarem com Ash e Karen. – falou Huaru de repente – É o destino delas também. Precisam ser avisadas e ouvidas.
– Ele tem razão. – Tewdric falou já mais calmo – Vocês devem decidir o que fazer juntas. – e com a voz mais ameaçadora, continuou – E se a decisão for partir aquele elfo caolho no meio, podem deixar que eu faço!
As risadas que seguiram a fala de Tewdric espantaram a tensão.
– É, vocês tem razão. Não dá pra decidir nada sem as meninas. – e suspirando, massageou o pescoço – Mas não hoje. Quero me deitar, esquecer isso. E também não quero continuar olhando para o passarinho verde de Tewdric.
Foi quando o orc percebeu que estava completamente nu na frente de todos há algum tempo. Pegou rapidamente o travesseiro e pôs na frente do seu membro. Kassyeh corou de vergonha pelo marido.
– Vamos Huaru. – chamou Luxuriah – Deixe esses dois fazerem o bebê deles. – e soltando uma risada, acrescentou – Imagine só, um meio-orc príncipe ou princesa!
– Será a realeza mais linda que esse povo já viu! – disse Kassyeh convicta, cruzando os braços e piscando para a irmã. Luxuriah piscou de volta antes de sair e fechar a porta.
– Bem, onde estávamos? – perguntou Kassyeh tirando o robe e jogando no chão, fazendo Tewdric sorrir e esquecer completamente os acontecimentos dos últimos minutos.
Lá fora, Luxuriah e Huaru se dirigiram para o quarto dela. Assim que entraram, ela começou a tirar a roupa e jogar pelo chão. Huaru a observou, ainda preocupado.
– Bebê – começou – o que posso fazer por você?
Luxuriah o encarou longamente, usando apenas a roupa de baixo.
– Me mostre os conselhos que seu irmão lhe deu. – disse simplesmente.
Huaru a olhou, um pouco surpreso com o pedido. Achou que depois de todo aquele estresse ela iria querer simplesmente se deitar e dormir agarrada a ele. Mas ela não parecia interessada em dormir. Ainda havia adrenalina correndo em suas veias e tudo que a caçadora desejava naquele momento era descarrega-la no corpo de Huaru. Caminhou até ele, tirando o resto das roupas e o beijou longamente. Logo o tinha despedido e o puxado até a cama. Precisava dele. Precisava dele naquele momento ou afundaria em desespero.
Beijaram-se longamente enquanto as mãos dele percorriam o corpo nu da elfa. Luxuriah gostava do toque macio dele. Apesar das mãos grandes e fortes, capazes de erguer um pesado martelo e lutar com fúria, a forma como a tocava era carinhosa e tenra.
– Beije-me... – suplicou Luxuriah – Beije todo meu corpo...
Huaru atendeu ao pedido. Deslizou a boca para o pescoço, e passou os lábios da orelha até o colo, fazendo Luxuriah arrepiar-se e se agarrar mais ainda nele. Logo estava sugando avidamente os fartos seios enquanto apertava sua cintura. Ela gemeu alto e passou os dedos entre os cabelos dele. Entendendo aquilo como um sinal que estava fazendo tudo certo, continuou com os beijos pela barriga, lambendo seu umbigo até chegar entre suas pernas. Luxuriah já esperava ansiosamente para senti-lo bem ali e ficou surpresa quando ele repentinamente se ergueu e sentou na cama.
– Vire. – disse com a voz rouca.
Luxuriah sorriu maliciosamente, já prevendo o que viria a seguir. Virou-se languidamente e ergueu o quadril na direção de Huaru. Apesar de nervoso, ele sabia exatamente o que devia fazer. Pelo menos na teoria. Abaixou-se, afastou um pouco as pernas dela, e passou a língua em sua intimidade. O prazer preencheu completamente o corpo de Luxuriah como o sol preenchia o céu após a madrugada. Se agarrando firmemente nos travesseiros, ela mordeu os lábios e deixou-se levar por aquela sensação. Huaru estava fortemente agarrado em seus quadris enquanto explorava seu sexo com a língua. Mesmo que estivesse apenas proporcionando prazer a ela, o paladino sentiu-se preenchido por um êxtase que não imaginava que existia. Sentia-se realmente um macho pela primeira vez, e aquela sensação só se agravava a cada novo gemido de Luxuriah. Quando não aguentou mais o latejar entre suas pernas, parou de fazer aquilo, ajeitou-se e a penetrou.
A sensação de tê-lo dentro de si era ainda maior naquela posição. Luxuriah mordeu os travesseiros para não gritar todo seu prazer e acabar acordando a casa toda. Enquanto isso, Huaru se sentia mais pleno do que nunca estivera antes. Ele arremetia para dentro dela, sentindo-a se fechar ao redor de seu membro e se contorcer de prazer, enquanto ele apertava seu quadril possessivamente, deixando as marcas de seus dedos na pele macia e nua dela. E quando ele menos esperava, ela deu um grito abafado, e começou a tremer compulsivamente. Contudo, ele continuou segurando-a com força e seus movimentos se tornaram mais rápido e atingiu o clímax com um gemido rouco enquanto ela ainda se afogava no prazer.
Ficaram ainda alguns segundo naquela posição, e então, relutantemente, Huaru saiu de dentro dela, deitando-se pesadamente ao seu lado. Luxuriah rolou, o abraçou e aplicou o mais profundo beijo que jamais aplicara em alguém antes.
– Vou presentear Mhuu, com certeza. – murmurou com um sorriso nos lábios – Você foi incrível!
– Fui mesmo bebê? – perguntou ofegante, mas alegre.
– Como ninguém foi antes! – confessou.
Aquilo o deixou com um orgulho inflado, e logo estava ansioso por fazê-la esquecer de qualquer um que passara antes dele.
– Podemos ir de novo? – perguntou já sentindo outra ereção.
Luxuriah olhou para o desejo dele, surpresa, e depois riu. Huaru era jovem e era um tauren. Com certeza tinha energia para o resto da noite e até mesmo para uma parte da manhã. Estava ansiosa para ver o quanto conseguiria dele.
– Claro que podemos. – garantiu – Você tem muito o quê me mostrar e eu mais ainda para te ensinar. – e passou as pernas pelo corpo dele – Vamos, me beije.
****************
A luz da manhã entrou discretamente pelas cortinas do quarto de Ashrial, e tocaram no rosto da jovem elfa como um singelo beijo matinal. Ela remexeu-se um pouco na cama e entreabriu os olhos verdes. Por um momento ficou confusa e então lembrou que estava em casa. Uma onda de alívio e tranquilidade espalhou-se por seu corpo e ela sorriu.
Sentia-se anormalmente bem naquele dia.
Sentou na cama e espreguiçou-se. Esperava que Kassyeh fizesse panquecas no café da manhã. Adorava panquecas com mel silvestre e sempre tinha que disputar a última com Karen. Claro que no final das contas Luxuriah comia a panqueca, para ensinar as irmãs a não brigarem por comida, mas o mesmo ritual se passava no dia seguinte. Sentia falta das panquecas, pois quando não as tinha, significava que sua irmã estava longe.
Jogou as cobertas para longe, pôs as pernas para fora da cama e olhou longamente para o quadro de sua família que ficava na parede ao lado de sua cama. Quando seus pais morreram, Luxuriah não aguentava olhar a pintura que mostrava todos juntos, com Karen ainda bebê nos braços da mãe. Então, ela pedira que Aethas colocasse o quadro em seu quarto, para que, quando Luxuriah tivesse pronta, a pintura pudesse voltar para sala. Só que Luxuriah nunca pedira a pintura de volta e Ash ficava feliz com isso. Assim podia olhar para os pais todos os dias quando acordava.
Levantou-se, espreguiçou-se novamente e foi até o banheiro. Cuidou de sua higiene pessoal e depois voltou para o quarto. Sentou-se em frente à penteadeira, desfez a trança que prendia seus cabelos e pôs a escová-los sistematicamente. Era um hábito que a mãe incutira nas filhas e que Luxuriah não deixou cair no esquecimento. Samanthah costumava dizer que nenhuma elfa que se prezasse acordava sem cuidar dos cabelos. E apesar de achar que suas irmãs eram infinitamente mais belas que ela, amava seu cabelo. Era bem dourado e liso. Quando os escovava, eles caiam como uma cascata de luz sobre suas costas. Enquanto Kassyeh mantinha o cabelo curto e Luxuriah o deixava um pouco abaixo dos ombros, Ash preferia ver suas madeixas bem longas, quase chegando ao seu quadril. Quando precisava sair em missão, o prendia numa trança ou um rabo de cavalo. Mas ali, na segurança de sua casa, deixava-os soltos, ao sabor dos movimentos de seu corpo.
Quando terminou o ritual diário e viu o resultado satisfatório dele, levantou-se e foi até a janela. Abriu as cortinas e a porta de vidro da varanda, deixando o ar fresco da manhã invadir seu quarto. Como sua camisola branca era longa e possuía mangas que chegava aos pulsos, não se importou de alguns passos a frente e se debruçar na varanda. As ruas ainda estavam tranquilas e os poucos elfos que passavam não olhavam para cima. E mesmo que olhassem, dificilmente poderiam vê-la por entre os galhos das roseiras de Kassyeh que se espalhavam por todo o jardim. Ao contrário de quem se encontrava na rua, Ash podia ver claramente quem passava. E foi com surpresa que viu um falcoztruz parar bem em frente de sua casa e uma figura imensa descer e se dirigir para a porta. Curiosa com a estranha visita debruçou-se na varanda e conseguiu ter uma visão perfeita do visitante.
Seu coração disparou com tanta força que Ash achou que ele fosse saltar de seu peito.
Era o elfo de seus sonhos.
Ainda estaria dormindo?
O elfo segurou a argola daporta e bateu com força. Aquilo soou como um despertador na cabeça de Ash. Ela saiu da varanda, cruzou seu quarto como uma flecha e se atirou porta afora. Enquanto percorria o corredor, com sua camisola de seda esvoaçando ao seu redor, se perguntou o que estava acontecendo com ela. Sonhara com aquele elfo durante a maior parte de sua vida. Foram tantas as vezes que ele apareceu em seu sono que já o tinha por uma ilusão. Uma miragem. Como então ele poderia estar batendo a porta de sua casa naquela manhã? Havia três explicações: poderia estar sonhando. Poderia ser real. Ou ela estava ficando louca.
Em sua corrida desenfreada escada abaixo, seu pé bateu dolorosamente num pilar ao final do corrimão e um vaso foi ao chão. A dor deixou claro que não era um sonho. Restavam duas opções.
Suas mãos alcançaram a maçaneta no momento em que um novo som de batida foi ouvido. Ash sequer conseguia respirar. Abriu a porta e esperou para ver qual de suas opções estava correta.
O elfo era exatamente igual a sua visão. Os cabelos prateados presos no alto da cabeça, um rosto forte e decidido, um tapa-olho no lado esquerdo do rosto. Era o mesmo que a tirara do sótão quase uma década atrás. O que a confortara no pior momento de sua vida. Sim, definitivamente era ele.
Ou seria uma ilusão?
– Bom dia. – a voz dele era forte, mas macia, e preencheu todo o silêncio da casa – Eu gostaria de falar com Lady Luxuriah. – e diante do silêncio inicial dela, perguntou – Você é uma serva da casa?
A respiração de Ash estava acelerada e seu coração parecia que ia parar de bater a qualquer instante. As palavras dele foram claras, mas ela não conseguiu extrair nenhuma informação delas, ouvindo apenas o tom forte e harmônico que chegava aos seus ouvidos. Precisava saber. Precisava ter certeza. Mas como?
Ergueu a mão em direção ao rosto dele. Seus dedos tremiam. Parou o movimento bem perto do rosto dele, que a olhava visivelmente confuso. Depois desse instante de hesitação, seus dedos tocaram a pele do rosto dele. Foi como se um raio a atingisse. O calor que sentiu nas pontas de seus dedos não poderia pertencer a uma ilusão. Deixou que toda sua mão tocasse aquele rosto tão conhecido, mas tão estranho ao mesmo tempo e sentiu que o elfo estremeceu ao seu toque. Estaria reconhecendo-a também?
– Você é real... – murmurou com os olhos brilhando de lágrimas de alegria.
E antes que pudesse receber uma resposta, suas pernas perderam a força e o mundo se apagou.
Lor’themar havia se dirigido à casa das princesas tão logo achou que era conveniente. Não sossegaria até obter alguma resposta das irmãs. Decidiu que conversar com Luxuriah em sua própria casa era a melhor forma de abordá-la. Aproveitaria e conheceria o orc e o tauren.
A casa estava exatamente da mesma forma que quando era habitada por Lady Luelly e o filho. A única diferença era a quantidade de flores no jardim da frente, bem superior ao que havia antes. Como havia ido sozinho, desceu damontaria e a amarrou em um dos pilares da casa, da mesma forma que fizera tantas vezes ao visitar o amigo. Encaminhou-se para a porta, bateu e esperou.
Esperava por muita coisa quando a porta se abriu, mas nunca o que realmente aconteceu. Estava diante da criatura mais linda que jamais vira. Ela tinha os cabelos dourados, como os raios de sol, que caiam lisos por seus ombros. Os olhos eram verdes, como o de todos de sua raça, mas Lor’themar podia jurar que vira um brilho azulado no fundo deles. Os traços do rosto eram delicados, mais até que o comum para as elfas, a boca pequena e o nariz afilado. A elfa com certeza era muito jovem, mas o lembrava alguém. Só que ele não conseguia se lembrar de nunca ter estado diante de uma criatura tão adorável.
No momento em que ela o tocou, estremeceu. Não sabia se por causa da surpresa do gesto, ou se foi a delicadeza dos dedos que percorreram seu rosto. O certo é que ficara totalmente paralisado diante daquela sensação. Só voltou a si quando ela balbuciou palavras que soaram totalmente sem sentido para ele e depois desmaiou. Seus reflexos de patrulheiro fez com que segurasse a moça antes que ela despencasse no chão. Ignorou o que sentiu ao segurar aquele corpo maravilhoso contra o seu, e ergueu a jovem nos braços. Procurou algum lugar onde pudesse coloca-la e viu um luxuoso sofá na sala. Dirigiu-se para lá e a deitou.
– Jovem? – chamou ele segurando em seu queixo – Pode me ouvir?
Ela murmurou algo incompreensível, mas não acordou. Lor’themar olhou para os lados, em busca de ajuda, mas não havia ninguém a vista.
– Pequena, acorde. – chamou sacudindo-a um pouco.
O movimento aparentemente surtiu efeito, pois ela começou a voltar a si. Piscou um pouco os olhos, para que a vista entrasse em foco e então o olhou. O rosto dela corou absurdamente e ela sorriu.
Era o sorriso mais bonito que já vira.
Eles se olharam durante alguns instantes e quando ele abriu a boca para perguntar quem ela era, uma voz irritada invadiu a sala.
– O que você pensa que está fazendo?!
Luxuriah descia as escadas com pisadas fortes, como se quisesse destruir o caminho embaixo de seus pés. Ela ouvira as batidas na porta, o vaso quebrando e o silêncio que se seguiu. A elfa usava um robe por cima da camisola e apesar de ainda não ter dormido estava relaxada e feliz. Isso até descer as escadas e encontrar Lor’themar Theron em sua sala, debruçado sobre Ash, que ainda estava de camisola.
– Luxuriah. – disse ele ficando em pé – Eu vim...
Ele não terminou a frase. O soco de Luxuriah atingiu seu queixo com tanta força que ele deu dois passos para trás e sua vista escureceu com a dor.
– Não!
A criatura adorável se levantou de um pulo, como se o mundo finalmente estivesse claro para ela e segurou a caçadora pelo braço.
– Lux, não! – gritou desesperada.
– O que você estava fazendo com minha irmã?! – Luxuriah estava com os olhos ardendo de fúria.
Irmã? Lor’themar a olhou atentamente. Aquela era Ashrial? Só podia ser. Tinha visto Karensky no dia anterior e lembrava que Kassyeh era morena, como Luxuriah. Então, aquela era a outra princesa, mais jovem que Kassyeh e mais velha que Karensky. Naquele momento lembrou-se do dia da morte de Dhomm e Samanthah, quando resgatara uma menina chorosa e triste do sótão. Só podia ser ela. Todavia, não havia em Ashrial nenhum resquício daquela criança assustada. A pequena elfa havia crescido... E se tornado bela.
Bela e estonteante, como Lady Luelly fora no passado.
Ash estava agora desperta e nervosa. Sim, ele era real. Mas deixaria de ser no momento em que Luxuriah colocasse as mãos nele. A caçadora mais velha com certeza não tivera uma boa impressão da cena que se desenrolara ali.
– Eu abri a porta! – Ash começou a explicar-se desesperadamente – E acho que desmaiei... Ele... – ela o olhou e prendeu a respiração. Como o elfo era lindo! – Ele me amparou e me trouxe até o sofá...
A explicação surtiu efeito, pois Luxuriah parou de avançar sobre o lorde regente. Endireitou-se e o encarou como se esperasse mais.
– Foi exatamente o que aconteceu. – falou ele tranquilamente, como se não tivesse acabado de levar um forte soco no rosto bonito – Acredito que a jovem possa estar se sentindo mal...
– Eu estou ótima! – apressou-se em dizer – Deve ter sido apenas uma tontura...
Luxuriah olhou para Ash e depois para Lor’themar. Parecia estar procurando alguma mentira, mas como não achou nenhuma, relaxou.
– Então, lorde regente, — começou a falar -o que veio fazer na minha casa a essa hora da manhã, além de salvar minha irmã de se estatelar no chão?
Lorde regente?! Ash o encarou com os olhos arregalados. Aquele era Lor’themar Theron? O elfo que povoara seus sonhos desde a infância era ninguém menos que o regente dos sin’dorei?
– Eu gostaria de conversar... Sobre ontem. – e acrescentou, para acalmá-la – Se for de sua vontade, obviamente.
– Claro que é! – Ash respondeu rapidamente, para a surpresa de Luxuriah – Ela vai falar com voc... Com o lorde. – e fez uma reverência – Gostaria de tomar café da manhã conosco?
A simpatia extrema da irmã fez Luxuriah levantar as sobrancelhas, espantada. Ash não era dada a tanta hospitalidade, principalmente com pessoas que não eram íntimas.
– Será um prazer aceitar o convite. – respondeu o patrulheiro fazendo uma reverência às irmãs.
Apesar de não ter gostado nenhum pouco da atitude deAsh, Luxuriah acho que no final ascontas aquilo seria bom. Lor’themar estaria sozinho, no meio delas. Tewdric e Huaru estavam ali. Poderia resolver tudo naquela manhã.
– Fique a vontade lorde regente. – disse Luxuriah com uma pontada de ironia e sem se curvar – Acredito que Kassyeh descerá em seguida para preparar a refeição.
– Posso fazer sala para o lorde. – ofereceu-se Ash, sentindo o rosto corar quando ele a encarou.
– De camisola? – perguntou Luxuriah – Acredito que não é apropriado.
Foi quando a jovem percebeu os trajes que usava. Corou absurdamente, murmurou um pedido de desculpas e subiu as escadas correndo tão rápido que chegou a tropeçar duas vezes. Quando a irmã saiu de vista, Luxuriah encarou Lor’themar.
– Vamos deixar uma coisa clara, Lor’themar. Não seremos obrigadas a nada.
– Jamais pensaria em fazer tal coisa. – respondeu serenamente – Dhomm e Samanthah jamais se curvaram a nada que não fosse de sua vontade. Por que suas filhas o fariam?
Luxuriah apertou os olhos, mas não retrucou, apenas disse:
– Fique a vontade, vou me trocar. — e saiu da sala.
Lá em cima, Ash entrou como um furacão no quarto. A única coisa que pensava era que ele era real, muito real. O elfo que povoara seus sonhos sempre existira! Se o tivesse visto antes, teria o reconhecido, mas ela jamais fora chamada em sua sala ou precisou ir lá. Mas agora, ele estava ali, bem perto dela, e seu coração batia descompassadamente. Sequer parou para pensar o que ele estaria fazendo ali.
– Ash!
Luxuriah entrou no quarto sem bater, como era seu costume.
– Por que você fez aquilo? – perguntou a mais velha.
Os olhos de Luxuriah eram inquisidores. Só o fato de ela ter entrado ali e perguntado pelo que fizera e não se estava bem depois do desmaio, só deixava claro que ela estava muito incomodada com a presença de Lor’themar Theron na casa.
Ash sentiu os pensamentos trabalhando rapidamente para dar uma resposta satisfatória a irmã, sem revelar sobre seus sonhos.
– É o lorde regente Lux! – disse tentando conter a animação – Ele tem algo para falar conosco não é? Melhor que seja aqui em casa. E além do mais, ele tem foi educado com Karen ontem, devemos ser educadas também.
Calou-se então e esperou uma resposta.
– Certo, vou aceitar esse seu argumento. – disse Luxuriah – Vista-se e desça. Vou acordar Kassyeh e as meninas.
Feliz por ter conseguido convencer Luxuriah, ainda que parcialmente, percebeu que precisava se vestir rápido, mas achou que deveria tomar um banho antes. Prendeu o cabelo cuidadosamente e se banhou. Depois, começou a procurar avidamente uma roupa. Não podia caprichar demais no visual, ou isso atrairia novamente os questionamentos de sua irmã mais velha, mas também não podia se apresentar com suas roupas diárias na presença do lorde regente. Corou ao lembrar que ele a vira de camisola, mas rapidamente mudou sua atenção de volta as roupas. Achou um vestido lilás simples, mas muito bonito, com o qual costumava passear e optou por usá-lo. Por baixo, colocou uma calça de linho branca, já que detestava a sensação de estar só de calcinha embaixo do vestido. Calçou sapatilhas vermelhas, deu uma última escovada no cabelo e desceu.
Quando chegou à escada e olhou para baixo, viu que ele estava lá, sentado no sofá, de braços cruzados olhando para o vazio. Permitiu-se olhar um pouco a beleza austera do elfo, antes de respirar fundo e começar a descer as escadas. Começou a pensar que tipo de assunto poderia conversar com ele enquanto esperava as irmãs, mas sua mente só conseguia pensar no quanto ele mexia com sua cabeça.
Ash estava nos últimos degraus quando ele a olhou. Ela parou um pouco de andar e conseguiu esboçar um sorriso. Lor’themar sorriu de volta. Encararam-se brevemente até que um barulho ensurdecedor de gritos se precipitou sobre a escada, e dois vultos se chocaram violentamente com Ash, fazendo-a se desiquilibrar e cair de cara no chão da sala.
– Karen! – o nome da irmã caçula foi o grito de dor de Ash.
Karen e Saba já estavam acordadas há algum tempo e já estavam prontas para o café da manhã. Porém, antes de sair do quarto, as meninas apostaram quem chegaria primeiro a cozinha e uma corrida desenfreada foi iniciada. Como estavam entretidas demais empurrando uma a outra, não viram Ash e esbarraram na elfa, lançando-a ao chão. Agora, Karen sabia que estava em apuros.
– Ash! Desculpa! – disse a menina com a voz pesarosa.
O som de passos se aproximou de Ash, que ainda estava estendida no chão.
– Quando eu por as mãos em você... – sibilou a jovem levantando a cabeça.
Esperava encontrar a irmã em sua frente, mas quem estava lá era Lor’themar. Ele se abaixou e estendeu a mão.
– Deixe-me ajuda-la. – pediu educadamente.
Ash nunca amou tanto Karen quanto naquela hora. Mesmo envergonhada, estendeu a mão e aceitou a ajuda do lorde regente. Quando suas mãos se tocaram, aquela descarga elétrica já sentida mais cedo se manifestou novamente. Ash estremeceu e viu que ele também. Ficou triste quando Lor’themar soltou rapidamente sua mão, assim que a pôs em pé.
– Você está bem? – quis saber analisando-a à procura de algum ferimento.
– Estou. – e querendo quebrar um pouco aquela tensão que surgira entre os dois depois do toque, brincou – Acho que hoje não é meu dia...
Deu certo, pois ele sorriu.
– Não diga isso, o dia mal começou.
– Olha Saba é o Lolô!
Demorou alguns instantes para que eles percebessem que a menina se referia a Lor’themar.
– Karen! Não ponha apelidos no lorde regente! – reclamou Ash.
– Mas Lor’themar é tão comprido... – reclamou a menina.
– Chame-o de lorde regente então!
– É mais comprido ainda! – exasperou-se Karen.
Ela e Saba se olharam e balançaram negativamente a cabeça, como se Ash fosse a criança incompreensível e não Karen. A jovem caçadora teve vontade de pegar a irmã e lhe dar boas palmadas. Mas o motivo da discussão não parecia irritado com o apelido, pois ria com os argumentos da menina.
– Seu pai também gostava de diminuir os nomes de todos. – disse o lorde regente carinhosamente – Mas não me chamava de Lolô, preferia me chamar por Temma.
– Posso te chamar de Temma então? – perguntou Karen com os olhos brilhando de expectativa.
– Claro.
Karen deu um sorriso triunfante para Ash, que voltou a odiar a irmãzinha espevitada. Se não fosse a presença de Lor’themar, já teria dado uns bons beliscões em Karen e também em Saba, que acompanhava a amiga nas risadinhas.
Um barulho na escada fez todos olharem para cima. Kassyeh vinha descendo na companhia de Tewdric, tendo suas mascotes correndo à sua frente. Ash estranhou que o orc viesse com o machado nas costas; ele não costumava andar armado dentro de casa. Mas bastou ver que Tewdric encarava Lor’themar para entender o motivo da arma. Começou a se preocupar então. Tinha que se lembrar de que o lorde regente fora até lá resolver algum problema, e pelo olhar assassino de Tewdric, Kassyeh estava bem envolvida.
– Bom dia lorde regente. – Kassyeh cumprimentou-o e fez uma reverência assim que desceu as escadas – É um prazer vê-lo.
– Igualmente, Lady Kassyeh. – e retribuiu a reverência.
Era tão difícil alguém usar os títulos que as irmãs tinham que todos, com a exceção de Lor’themar, franziram a testa.
– Soube que vai tomar café conosco. – continuou a maga, com sua simpatia costumeira – Vou para a cozinha e não demorarei a servi-lo.
– Não há pressa milady. – garantiu despreocupadamente.
– Fique a vontade. – e fazendo outra breve reverência, se retirou para a cozinha.
Ash convidou Lor’themar a se sentar com um gesto e todos se acomodaram na sala, inclusive Tewdric, que ao sentar-se, colocou o machado ao lado e não desgrudou a vista do elfo. Hotch e Littleflame pularam no colo de Karen e Saba, que passaram a acariciar os bichinhos animadamente.
– Então Temma vai comer com a gente? – perguntou Karen muito animada – Que legal!
– Ele pode contar histórias como ontem! – vibrou Saba.
– Será um prazer se me for permitido. – garantiu o elfo.
– Que tipo de histórias? – perguntou Ash.
Ela corou quando a atenção de Lor’themar se voltou para ela.
– Sobre seus pais. – respondeu singelamente – Conheço muitas histórias envolvendo Dhomm e Samanthah.
– Você vai ficar de bico calado elfo! – falou Tewdric rudemente – Lulu não gosta que toquem nesse assunto!
– Tewdric! — exclamou Ash em represália.
Mas Lor’themar continuava com o semblante calmo.
– O orc tem razão. – concordou para a surpresa de todos – Luxuriah não gosta que toquem nesse assunto. Mas quando quiserem conversar sobre seus pais, basta me procurarem. – e sorrindo acrescentou – Espero que possamos nos ver com mais frequência agora.
Era tudo que Ash mais queria.
Tewdric continuava olhando para o lorde regente como se analisasse em qual parte do corpo dele seu machado entraria com mais facilidade.
– Só não esqueça elfo, que essas meninas são minha família e qualquer coisa feita contra eles eu vingarei, de preferencia com meu machado. — passou a mão no cabo da arma.
Assustada, Ash se questionava o que exatamente estava acontecendo. Conhecia aquela postura de Tewdric e ela não era um bom indício.
– O que está acontecendo? – perguntou por fim.
Não era nenhuma surpresa para Lor’themar descobrir que as irmãs mais jovens ainda não haviam sido informadas da descoberta. Tewdric, no entanto, parecia estar bem ciente e preocupado. Sim, Lor’themar sabia que a agressividade contra a sua pessoa não era nada mais que a proteção exagerada que os orcs reservavam às suas fêmeas. Enquanto Kassyeh e Luxuriah escondiam sua preocupação sob uma fachada de tranquilidade, Tewdric não conseguiria fazer o mesmo. Bem, aquilo no final das contas era bom. Ter alguém tão disposto a defender as herdeiras de Luaprata era excelente.
– Não se preocupe Lady Ashrial. – tranquilizou-a Lor’themar – Logo você será informada.
– Pode me chamar de Ash... – pediu ela sorrindo encabulada e colocando o cabelo atrás da orelha.
– Como preferir, Ash. – respondeu.
Karen, que estava ficando de fora da conversa, tratou logo de se inteirar. Caminhou até Tewdric e sentou em um de seus joelhos. Saba a imitou e sentou no outro e as mascotes de Kassyeh também pularam em cima do orc.
– Ted, você tem raiva do Temma? – perguntou preocupada.
A expressão do orc mudou totalmente. De raivoso, ele se desmanchou em um sorriso bobo quando olhou para a menina. Lor’themar podia jurar que vira os olhos dele brilhando. E com um tigrinho e um cãozinho lambendo o rosto dele, a cena ficava ainda mais branda.
– Claro que não Karenzinha! – disse com a voz mais carinhosa que já se ouvira de um orc – Só protejo vocês de qualquer um!
– Mas Temma é legal! – garantiu a menina – Queria que vocês fossem amigos...
Depois dessa fala, Ash voltou a amar a irmã com força total.
– Karen tem razão Tewdric. – disse ela para reforçar a ideia – O lorde regente foi amigo de nosso pai, não acredito que nos faça mal...
– Não fazer mal não significa fazer bem. – disse Luxuriah em alto e bom tom da escada.
Finalmente a irmã mais velha aparecera já vestida com suas roupas tradicionais de couro e acompanhada de Huaru. Lor’themar se surpreendeu ao ver que o tauren, novo amante de Luxuriah, era um paladino.
Grey não ia gostar nem um pouco daquilo e essa ideia o fez sorrir.
– Vejo que está bem acomodado, lorde regente. – comentou Luxuriah num tom casual – E bem acompanhado também. – acrescentou olhando Tewdric e seu machado.
– Há tempos não desfrutava de companhias tão agradáveis. – respondeu no mesmo tom.
Lor’themar podia ser muitas coisas, mas burro com certeza ele não era. Luxuriah sabia que ele faria de tudo para cair nas graças das irmãs, e como estava em desvantagem ali na casa delas, aceitaria de bom grado qualquer coisa dita. A caçadora teve a impressão que se pedisse para ele imitar uma galinha, ele o faria.
Contudo, Luxuriah não teve oportunidade de provar se sua teoria era verdadeira, pois Kassyeh chegou naquele momento e sorriu para todos.
– O café está na mesa. – anunciou. E voltando-se para o lorde regente, convidou – Por favor, me acompanhe.
Em pouco tempo todos estavam acomodados na mesa da sala de jantar. Normalmente comiam na cozinha mesmo, pois Luxuriah se sentia incomodada com a imensa mesa e suas muitas cadeiras. Mas Kassyeh aprontou o lugar com tanto esmero que ela achou melhor não dizer nada. A maga também havia caprichado na comida. Havia pães, panquecas, bolos e três chaleiras fumegantes com chás diversos. Também havia suco, queijo, mel, manteiga e frutas. Luxuriah sempre se perguntava como a irmã podia preparar tanta coisa em tão pouco tempo.
Luxuriah sentou-se à cabeceira da mesa, com Huaru do seu lado direito. Kassyeh fez um gesto para Lor’themar sentar do lado esquerdo. Depois, a maga acomodou-se ao lado do lorde regente tendo Tewdric à sua frente. Ash preferiu sentar ao lado do orc e Saba e Karen sentaram lado a lado, com as cadeiras bem próximas, como se dividissem o mesmo espaço. As mascotes de Kassyeh ganiram pedindo comida também, no que foram atendidas pela maga.
– Oba, panquecas! – comemorou Karen olhando para as diversas tigelas com panquecas de vários formatos – Tem mel com favo?
– Claro que tem. – disse carinhosamente Kassyeh – Aqui. – e passou o mel que continha ainda os favos inteiros para a menina, que adorava mastiga-los.
Todos começaram a se servir, e Luxuriah percebeu que Lor’themar parecia um pouco surpreso com o fato de elas mesmas colocarem a comida em seus pratos e nos dos convidados.
– Não temos servos desde o flagelo. – esclareceu Luxuriah para ele – Papai optou por não tê-los mais e eu também.
– Tínhamos servos antes? – perguntou Karen colocando mel com bastantes favos por cima das panquecas.
– Sim. – respondeu Kassyeh saudosa – Três. Eu os adorava. Eram pessoas maravilhosas.
– O Flagelo levou muito do nosso povo. Não apenas pessoas, mas também a esperança da muitos. – disse Lor’themar seriamente.
Houve um momento de silêncio.
– Não vamos falar sobre isso. – Kassyeh pegou um bule e encheu a xícara de Lor’themar – Prove desse chá, lorde regente. São ervas de Mulgore.
No início, apenas comeram. Ash tentava manter-se concentrada apenas na comida, mas era difícil. Lor’themar estava sentado tão próximo dela que suas mãos tremiam um pouco ao pegar nos talheres. E mesmo que mais cedo estivesse faminta e loucapor panquecas, agora sua boca estava seca e não sentia fome nenhuma.
– Ash, o mel sem favos está aqui. – Kassyeh passou o recipiente de cristal repleto de mel puro de uma bela cor âmbar para a irmã – Por que não está comendo?
– Eu to sem fome. – balbuciou sem levantar a cabeça.
– Com fome ou sem fome, coma. – mandou Luxuriah – Para não estar desmaiando por aí.
– Ash desmaiou? – perguntou Huaru preocupado.
– Não foi nada. – ela odiava quando todas as atenções estavam voltadas para ela, como naquele momento – Apenas uma tontura.
– Não é aquilo de novo não né? – Karen parara de comer e olhou assustada para Ash – Você não vai ficar doente daquele jeito de novo não né?
– Não Karen, não vou. Foi só uma tontura.
– Lady Ashrial esteve doente? – perguntou Lor’themar e Ash ficou muito feliz ao perceber uma ponta de preocupação na voz dele.
– Ela tava com magia ruim dentro dela. – revelou Karen para o desespero da irmã – Foi muito feio.
– Karen! – ralhou Ash, sentindo o rosto ficar rubro e lágrimas começarem a encher seus olhos. A última coisa que queria era que Lor’themar soubesse de sua fraqueza.
– Certo, vamos deixar esse tipo de assunto de fora de nossas conversas! – Kassyeh reparou no desconforto da irmã e saiu em seu auxílio – Vamos falar de coisas amenas.
– Luxuriah vai me treinar hoje? – perguntou Saba com a certeza que aquilo era um assunto ameno.
– Com certeza Saba. – garantiu a caçadora – Vou lhe mostrar porque os elfos são os melhores arqueiros do mundo. – e piscou o olho para a menina, que riu.
– E eu vou treinar com o Huhu! – disse Karen aparentemente já recuperada do susto – Ele disse que preciso começar logo a treinar se quero ser uma paladina logo.
Lor’themar, que estava cortando uma panqueca com bastante mel, parou e olhou para a irmã mais jovem, com uma leve surpresa.
– Vai ser paladina Karen? – perguntou com uma simpatia que surpreendeu Luxuriah. E o que era mais surpreendente era o fato que aquela simpatia era totalmente sincera. Lor’themar realmente gostava de Karen.
Bem, era um ponto a favor dele.
– Sim, sim! O Huhu vai me treinar! Já tenho armadura e tudo! Serei uma Andarilha do Sol.
O lorde regente riu.
– Lady Liadrin vai ficar muito desapontada em perder uma aprendiz tão disposta. – comentou voltando a atenção para as panquecas.
– Lady Liadrin é a que gosta de namorar elfos novinhos? – perguntou Saba em voz alta.
Kassyeh e Ash abaixaram a cabeça, envergonhadas, desejando de todo coração enfiar a cara embaixo da mesa e sumir. Luxuriah,Huaru e Lor’themar, no entanto, caíram na risada, sendo seguidos por Karen e Saba.
– Bem, acredito que todo servo da Luz deva ter direito a suas preferências não é mesmo? – perguntou olhando diretamente para Huaru.
Luxuriah teve vontade de enfiar o garfo que segurava no olho bom do elfo, e só não o fez porque Huaru não se mostrou nenhum pouco ofendido, muito pelo contrário. Ele abriu um sorriso para Lor’themar e falou com sua voz tranquila:
– Nós, servos da Luz, preferimos sempre aquilo que nosso coração escolhe. – e olhando para Luxuriah, acrescentou – O meu a escolheu, poderia eu lutar contra isso?
Aquelas palavras foram ditas de forma tão inocente e tão sincera, que qualquer sentimento negativo que poderia existir em Luxuriah naquele momento, evaporou-se. Retribuiu o olhar carinho de Huaru e colocou a mão sobre a dele, sorrindo. Lor’themar mal podia acreditar no que via. Havia amor ali. Simples, puro e sincero amor. A Nascente do Sol pelo visto realizara um milagre através do Andarilho do Sol: permitiu que este alcançasse o coração daquela sofrida menina. O elfo então sorriu satisfeito. Se alguém merecia aquela felicidade, esse alguém era Luxuriah.
Rommath não ficaria feliz com aquilo. Nem Grey.
– Fico muito feliz que você tenha encontrado alguém com tão fortes sentimentos por você, Luxuriah. – falou com sinceridade – Que ele possa curar os males que o mundo lhe fez.
– Farei isso com certeza. – garantiu Huaru.
Tewdric estava calado desde que chegaram à mesa. Comia, ouvia a conversa, mas não tirava os olhos do elfo. O medo que a notícia da origem de sua elfa lhe incutiu ainda estava lá, latejando como uma ferida inflamada. Kassyeh dissera que não o deixaria, e ele acreditava. Mas a simples possibilidade de alguém ao menos cogitar separá-los era o suficiente epara deixa-lo naquele estado de espírito.
A postura e o olhar do orc não passaram despercebidos para Lor’themar. Ele, contudo, ignorava a ameaça lançada como se nada estivesse acontecendo. Queria aproveitar aquele momento para estabelecer laços. Karen já gostava dele. Luxuriah o respeitava, apesar da postura defensiva. Kassyeh era uma diplomata, faria o que quer que fosse melhor para todas. Mas Ash... Lor’themar a olhou. Ela estava de cabeça baixa, com os olhos fixos no prato. Parecia incomodada com algo. Não conseguia saber exatamente o que esperar dela. O que vira até aquele momento o deixou confuso. Ora Ash era sensível; ora havia fúria em seus olhos. Perguntou-se se ela lembrava-se do dia em que a resgatara do sótão. Era provável que não.
Sentindo-se observada, Ash levantou a cabeça. Seus olhos caíram sobre Lor’themar e se encararam mais uma vez. Aquele sentimento se instalou novamente em seu peito e por um momento temeu que todos pudessem ouvir seu coração.
– Deveria comer milady. – falou em um tom brando e suave – O café da manhã é a refeição mais importante para nosso povo, e sua irmã fez uma comida simplesmente excepcional.
– Obrigada lorde regente. – agradeceu Kassyeh.
– Eu só estou meio sem fome. – se justificou a jovem com o rosto em brasa – Só isso... Ninguém precisa se preocupar.
– Isso é preocupante sim. – falou Karen seriamente – Normalmente ela briga comigo pelas panquecas e hoje nem tentou roubar nenhuma do meu prato!
– Karen me disse que elas até trocam beliscões! – emendou Saba.
– Uma vez ela me deu um chute e saiu correndo com a panqueca! –Karen com certeza estava exagerando, mas arrancou risos da mesa.
Sério, um dia Ash iria fincar uma flecha no olho de sua irmã caçula, com certeza!
– Deve ser minha presença. – brincou Lor’themar piscando para Karen, que riu – Talvez Lady Ashrial não esteja satisfeita comigo aqui.
– Não, de jeito nenhum! – o tom de Ash foi tão desesperado que Luxuriah arqueou as sobrancelhas, curiosa – Não é sua presença lorde regente, não mesmo! Por favor, não pense mal de mim!
– Calma milady. – o lorde regente achou que fora longe demais – Peço desculpas se fui inconveniente com minha brincadeira.
– Sua presença aqui é inconveniente! – rugiu Tewdric de repente – Por que não fala logo o que quer elfo?!
– Tewdric! – exclamou Kassyeh.
Lor’themar não se abalou com a explosão do guerreiro.
– Espere milady. – o patrulheiro estava tranquilo – Deixe que seu companheiro se expresse.
Com a mão fechada, Tewdric bateu em cima da mesa. O barulho assustou Hotch e Littleflame, que aparentemente estiveram comendo embaixo da mesa o que era jogado por Karen e Saba no chão. Várias xícaras viraram inclusive a de Lor’themar. Um silêncio pesado se seguiu e Ash temeu o que viria a seguir.
– Eu sei o que você quer elfo! – Tewdric praticamente cuspiu as palavras – Quer trazer mais problemas pra vida das minhas meninas! Mas eu não vou deixar! – e se levantando, apontou o dedo para Lor’themar – Princesas ou não, elas não vão serobrigadas a nada!
– Princesas? – perguntaram Ash, Karen e Saba ao mesmo tempo.
As meninas se entreolharam confusas e depois se fixaram em Luxuriah e Kassyeh, aguardando uma resposta. A primogênita suspirou. Não queria começar aquela conversa daquela forma, mas Tewdric estava nervoso demais para se conter. Achava uma evolução ele não ter tentado partir Lor’themar em dois desde o começo, mas não podia esperar muita paciência de um orc. Por isso, ela afastou a cadeira, levantou, foi até Tewdric, pôs a mão no ombro dele e falou calmamente:
– Tewdric, sente-se. Você estáassustando as meninas.
A tática surtiu efeito, pois ele olhou para os rostos atônitos das meninas e pareceu desconfortável. Murmurou algo incompreensível, e sentou-se, sem desviar a vista de Lor’themar. Luxuriah voltou para seu lugar à cabeceira da mesa, mas não sentou. Respirou fundo e começou as explicações.
Enquanto ela falava de tudo que estava acontecendo, o queixo de Karen e Ash caia cada vez mais. A história parecia tão absurda, que a caçadora mais jovem tinha certeza que só podia ser uma piada.O pai delas era filho do rei? Elas eram princesas? Mas bastou um olhar para Lor’themar e ver a seriedade no rosto dele para entender que era verdade.
Por isso ele estava ali?
– O lorde regente me entregou documentos que provam que o que eu disse é verdade. – concluiu Luxuriah sentando-se – E é isso.
Ninguém falou nadapor um momento, até que Karen questionou:
– O rei era nosso avô então?
– Sim. – respondeu Luxuriah.
– Mas ele morreu né? O papai morreu também. Então o que isso tem haver com a gente?
– O trono de Luaprata é hereditário. – quem falou foi Kassyeh – A Linhagem Andassol estava extinta, por isso o lorde regente passou a nos governar. Mas com essa descoberta muda tudo Karen. – e olhando para a irmã, acrescentou – Uma de nós tem o direito de ser rainha, se assim quiser.
– Ser rainha é tipo um Chefe Guerreiro dos elfos né? – perguntou Saba com os olhos brilhando em expectativa.
– Sim. – respondeu Lor’themar.
– Puxa que legal! – a pequena orquisa estava radiante – Imagina só Karen! Uma de suas irmãs vai mandar em tudo!
– Não é tão simples Saba. – Luxuriah retrucou carinhosamente e depois olhou para Lor’themar – Tenho objeções com relação a isso.
– Sou todo ouvidos, milady. – falou o patrulheiro com suavidade.
Ash estava surpresa com o sangue frio e a calma dele. Se fosse ela, só com a explosão de Tewdric já teria caído no choro e saído correndo. Ele, ao contrário, parecia tão sereno quanto antes.
Luxuriah se levantou novamente. Virou-se e caminhou até a janela. Lá fora, Luaprata se erguia monumental. Parecia calma e tranquila. Será que continuaria assim se soubesse o que acontecia naquela sala?
– Não vamos pagar pelos pecados dos Andassol. – disse finalmente se voltando para a mesa –Eu não quero essa responsabilidade Lor’themar.
Ele já esperava por aquela resposta e tinha um contra-argumento preparado.
– Se me permite, eu gostaria de expor os motivos pelo qual vocês deveria aceitar a incumbência.
– Fale. – quem permitiu foi Kassyeh.
– Como eu disse anteriormente, nosso povo ficou praticamente sem esperanças após o Flagelo. – começou – Fomos traídos por nosso príncipe e ficamos sem aliados.Eu tenho governado desde então e tomei a decisão de nos aliar à Horda. E se não fosse por ela – aqui ele encarou Tewdric e Huaru antes de fazer uma mensura com a cabeça – não existiríamos mais. Todavia, esse cargo não é meu por direito. A Nascente do Sol sabe disso. Se não, o nascimento do falcoztruz branco não teria acontecido.
– Um falcoztruz branco nasceu?! – perguntou Ash perplexa.
– Sim, milady.
– Uau que legal! – exclamou Karen. Depois, olhou para Saba e explicou – É uma ave grande que nem a Lola e o Debonzi só que toda branca! Só a realeza pode montar! – e olhando para Lor’themar pediu – Eu posso vê-lo?
– Eu também quero! – exclamou Saba – É tipo um Lo’gosh só que uma ave né? – e ao ver que Karen não havia entendido, explicou — Também existe uma lenda de um bicho branco para os orcs, mas é um lobo. Lo’gosh, o lobo fantasma!
– Uau que legal!
As meninas pareciam imunes ao clima de seriedade da história. Ash, contudo, estava angustiada. Queria falar algo, mas não conseguia. O que podia falar? Aquilo era tão novo, tão improvável, que parecia uma história contada por um bardo bêbado.
– Eu sei que é algo novo e assustador para vocês. – continuou ele encarando Luxuriah, depois Kassyeh, Karen e, por último Ash. E foi sobre ela que deteve seu olhar por mais tempo – Mas gostaria que vocês considerassem essas coisas como um sinal. Nosso mundo quase foi destruído recentemente. Enfrentamos ameaças, não somente da Aliança. Nosso povo anda aflito, e muitos ainda me olham com desconfiança. – ele gesticulou com as mãos como se quisesse reunir todas elas entre seus braços – Vocês podem mudar isso. Ter alguém com o sangue real traria nova fé ao nosso povo. Não seríamos mais desgarrados. Seríamos uma nação sob o comando dos Andassol novamente.
As irmãs se entreolharam, mas nada disseram. A resposta à fala do lorde regente veio de outra pessoa.
– Então, você ta querendo abandonar o barco, elfo, e quer jogar a responsabilidade em cima das meninas? –rugiu Tewdric ameaçadoramente.
O lorde franziu as sobrancelhas.
– Jamais fugi às minhas responsabilidades orc. – a voz de Lor’themar agora adquiriu um tom gélido e os olhos dele faiscaram na direção de Tewdric – Tenho exercido o poder a uma década e tenho feito de tudo pelo meu povo. Mas o poder não me cegou ao ponto de eu ignorar a verdade. Eu não tenho direito a esse cargo. O rei reconheceu Dhomm Fendessol como seu filho. Delegou legitimidade a ele e suas filhas. O trono é por direito delas
– Certo, acalmem-se. – pediu Huaru conciliador – O lorde regente expôs a opinião dele. Agora, acho que devemos ouvir o que as meninas têm a dizer sobre isso.
O orc cuspiu no chão, mas não falou mais nada.
As atenções se voltaram imediatamente para Luxuriah. Afinal, ela era a mais velha e se alguém fosse subir ao trono, seria ela. Sentando-se novamente, ela encarou cada um dos presentes. Tinha que admitir que o que Lor’themar falara tinha fundamento. Como sin’dorei, ela amava seu povo e estava disposta a tudo para protegê-los. Porém, sabia que se fosse rainha, estaria condenando seu povo mais que o ajudando.
– Eu sinto muito Lor’themar, mas eu não posso ser rainha. – falou finalmente. Antes que ele retrucasse, ela levantou o dedo, pedindo para continuar – Não é por não amar nosso povo, mas justamente por amá-lo demais. – e diante de todos, admitiu – Sou uma pessoa beligerante. Tenho um ódio mortal pela Aliança, principalmente pelos humanos. É uma carga muito negativa para uma rainha. Se eu tivesse seu poder — ela olhou diretamente para o elfo – Eu já teria nos levado à extinção há muito tempo, pois eu não permitia que nenhum humano vivesse enquanto eu estivesse com a coroa sobre minha cabeça. – e suspirando, encostou-se à cadeira – Nesse sentido, me identifico com Grito Infernal. Acho aquele orc uma péssima escolha para a Horda, mas entendo o ódio dele aos nossos inimigos. Por isso, não posso ser rainha. – concluiu.
Apesar de decepcionado, Lor’themar sabia que ela tinha razão. Luxuriah fora honesta e sincera ao recusar o trono. Seu olhar se voltou para Kassyeh.
– Eu também não quero ser rainha. – disse sem rodeios – Mas meus motivos são mais egoístas que os da minha irmã. Eu quero cuidar da minha família e me dedicar a ela. Ser rainha não me permitiria isso. Então não, não quero a coroa para mim. Quero continuar cuidando de minhas irmãs e... – ela enrubesceu e encarou Tewdric – Ter meus filhos. Quero liberdade para continuar fazendo isso. Desculpe-me lorde regente.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!O coração de Ash acelerou. Era isso? O trono ficaria para ela? Quando Lor’themar a olhou, soube que não teria coragem de dizer não para ele. Mas o motivo estava ligado aos sentimentos que surgiram em seu coração no momento em que o vira novamente e percebera que ele não era apenas um sonho seu e não pelo fato de querer governar seu povo. Ash sabia que disso não era capaz. Não conseguia falar em público. Detestava ser o centro das atenções. Seu estômago revirou só de se imaginar com a coroa e o cetro em frente a toda população de Quel’thalas. Não! Não queria! Mas com Lor’themar com aquele olhar esperançoso em sua direção, poderia dizer não? Suas mãos começaram a tremer e ela fazia esforço para dizer algo.
– Eu quero ser a rainha.
A frase não saiu da boca de Ash, mas de Karen. Todos olharam a menina, espantados, principalmente pela voz dela ter saído segura e séria e não brincalhona.
– Com todo respeito Karen – começou o lorde regente carinhosamente – Acho que devemos esperar a resposta de sua irmã.
– Ela não quer. – disse Karen convicta – Eu conheço a Ash. Ela ta morrendo de medo de ser rainha, porque não gosta de chamar a atenção. Só que ela não tem coragem de dizer não. – e sorrindo carinhosamente para a irmã, acrescentou – A Ash é boazinha, ela não sabe dizer não para ninguém.
As lágrimas começaram a rolar do rosto de Ash, que o cobriu com as mãos. Apesar de todas as traquinagens, amava a irmã incondicionalmente. Afinal, fora com ela que passara a maior parte de sua vida, enquanto Luxuriah e Kassyeh seguiam seus caminhos. Todavia, jamais imaginava que Karen a conhecesse tão bem, a ponto de interpretar até mesmo o seu silêncio.
– V-vocên-não deve fazer isso por m-mim... – gaguejou em meio ao choro.
– Não é só por você. – disse Karen – É pela Lux, pela Kass, pelo Temma e por todo mundo. Se nosso povo precisa de uma rainha, eu posso ser né? – e dando de ombros, continuou — Eu sou criança, posso aprender a ser uma boa rainha. Não tenho a raiva da Lux, nem o cuidado da Kass, nem a timidez da Ash. Acho que daria certo.
Todos estavam espantados com a fala da garota, e Lor’themar mais ainda. Quando conhecera Karen no dia anterior sabia que estava lidando com alguém muito especial, mas aquilo superava todas suas expectativas. Ela se oferecera, sem medo, pensando não somente nas irmãs e no povo, mas nele também.
Contudo, Luxuriah não estava gostando nada daquilo.
– Karensky... – a voz da primogênita estava trêmula – Você não faz ideia da responsabilidade que é um reinado...
– Não sei mesmo. – confessou – Mas posso aprender.
– Uau! Você vai ser a chefe guerreira dos elfos!!! – exclamou Saba – Que legal!!
Luxuriah não podia acredita no que estava acontecendo. Seu bebê queria o trono?!
– Acho uma ideia brilhante. – falou Kassyeh animada.
A caçadora mais velha a encarou com fúria.
– O quê? – exclamou.
– Karen será uma boa governante. – continuou a maga ignorando o olhar zangado de Luxuriah –Ela é inteligente, carismática e passa confiança. Claro que ela teria que aprender muito, e não poderia governar sozinha.
– Vocês poderiam formar um conselho. – Lor’themar não podia perder a oportunidade que Kassyeh lhe oferecia –Vocês seriam princesas-conselheiras e ajudariam Karen. Assim, nenhuma ficaria com toda responsabilidade, nem deixariam sua irmã sozinha com o fardo.
Ash respirou fundo, mais controlada, e decidiu opinar também.
– O lorde regente também teria que ser do conselho. – disse sem o encarar – Afinal, governa há algum tempo e Karen precisaria de uma pessoa com experiência.
– E o treinamento de paladina? – perguntou Huaru.
– Ela pode continuar treinando sem problemas. – esclareceu Lor’themar – E isso seria muito bom, nosso povo nunca teve um regente paladino.
– Esperem! – gritou Luxuriah atraindo as atenções – Não falem como se isso tivesse decidido!
– Mas está. – Saba quem falou – A Karen já disse que quer!
– E ela tem apoio. – completou Lor’themar.
Luxuriah olhou para Kassyeh e Ashrial como se elas fossem suas inimigas. E talvez naquele momento realmente fosse.
– Huaru? – perguntou ela olhando para seu companheiro.
Apesar de querer ajudar a sua elfa, Huaru era um paladino, e precisava ser sensato.
– Bebê, a decisão é dela. – disse simplesmente, como se pedisse desculpa.
Luxuriah respirou fundo.
– Tewdric? – chamou.
Depois da última explosão, o orc estava quieto. Luxuriah sabia que se o orc discordasse, faria de tudo para demover Karen da decisão.
– Me diga uma coisa elfo – começou o orc – Se Karenzinha for rainha e as meninas princesas, elas vão ser obrigadas a casar com elfos?
Então aquele era o medo do orc afinal, pensou o lorde regente mais aliviado. Aquilo era muito fácil de resolver.
– Claro que não. Elas teriam a liberdade de escolha. Não queremos que o erro do rei Anasterian se repita. Então, não precisa se preocupar.
Diante daquilo, Luxuriah sabia que tinha perdido seu aliado.
– O que Karenzinha decidir, pra mim tá bom. – disse o orc seriamente.
Enquanto pensava no que dizer para demover a irmã daquela decisão, Luxuriah viu Karen se levantando e caminhando até ela. A menina parou em frente à irmã e segurou suas mãos com delicadeza.
– Lux, não se preocupe. Com vocês perto de mim não haverá problema. – e sorrindo, acrescentou – E quando eu for paladina, poderei jogar o escudo em quem quiser me fazer mal!
O coração da elfa se encheu de alegria e tristeza. Alegria por ver que Karen estava fazendo exatamente a mesma coisa que os pais fariam naquela situação. Dhomm, apesar de tudo, não fugiria à responsabilidade. E Samanthah encararia tudo com a tranquilidade que a menina demostrava naquele momento.
Sim, Karensky Fendessol seria uma excelente rainha.
– Se você quer, se você realmente quer... – falou com a voz embargada – Eu não me oporei.
Karen deu um imenso sorriso e abraçou a irmã. Todos estavam comovidos com a cena. Quando o abraço findou, a menina respirou fundo, olhou para Saba e gritou:
– Vou ser rainha Saba! Uhullll!!!
A outra se levantou da cadeira e correu até ela.
– Chefa Guerreira dos elfos!! – gritou também.
E começaram a correr ao redor da mesa, sendo acompanhadas pelas mascotes de Kassyeh. Luxuriah olhou para Lor’themar, triunfante, e murmurou:
– Boa sorte na educação da rainha, lorde regente.
O elfo, contudo, sorriu.
– E boa sorte com Huaru, Luxuriah. – murmurou de volta – Uma escolha bem mais acertada que Grey.
Luxuriah piscou surpresa com a referência ao ex-amante. E enquanto Karen corria, gritava e começava a puxar as irmãs, Tewdric e Huaru para uma dança desajeitada de comemoração, ela perguntou:
– O que quer dizer com isso?
– Ele me procurou dias atrás, me ameaçando por permitir... Bem, permitir que você se livrasse do seu problema. – ele colocou a xícara, que ainda estava tombada, em pé e colocou mais chá – Tive que retirá-lo da minha sala a pontapés. Não gostei da arrogância dele. – e dando um sorriso imenso, completou — Devo confessar que estou ansioso para ver a cara dele quando vir toda a paixão que você tem pelo tauren. Um sentimento que ele nunca foi capaz de despertar.
Antes que pudesse dizer algo, Luxuriah foi puxada para a dança por Karen. E enquanto era obrigada a dançar com a irmã caçula, pensou no que Lor’themar dissera. Grey fora até lá tirar satisfações. Isso significava que ele poderia voltar atrás dela? Estranhamente não sentiu nada diante da possibilidade. Olhou para Huaru, que dançava com Saba e soube que o que sentira por Grey jamais fora amor. Amor era o que sentia por Huaru. Então, decidiu deixar o elfo paladino para lá. Havia agora uma rainha e duas princesas para preparar.
Sim, porque da parte dela, sabia o que a aguardava e mais ainda o que aguardava o povo de Luaprata.
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